19/06/2013

Levante Varonil

Por: Helder Caldeira

 

A fervura das ruas nos últimos dias é objeto de especial inquietação em dois acomodados nichos da sociedade brasileira: os políticos e os intelectuais, ambos supostos, prepostos e/ou autoproclamados. Confortavelmente instalados em seus ambientes (dis)funcionais, investiram pesado na consolidação de uma espécie tergiverso-tropicalista de democracia, capaz de legitimar e lhes garantir impunidade e o status quo; demarcar um Estado tetado e fracionar o tesouro lactescente apenas entre panelinhas; e, por fim, disfarçar a desgraça sob o manto de benesses sociais viciantes e aniquiladoras da força motriz do país. Para o caldo da História, ilustraram suas biografias wikipedianas com emocionado relato de peleja que, meio século depois, ainda carece de fontes fidedignas.

O Brasil varonil — país do futuro no pretérito imperfeito do subjuntivo das propagandas oficiais — revelou-se embebedado por essa fluoxetina de colarinho branco e adormeceu em berço esplêndido. Absolutamente impunes, os Três Poderes chafurdaram o nariz no lamaçal enquanto uma intelectualidade anacrônica — e não menos viciada no subsídio estatal — foi alçada aos píncaros da glória panis et circenses. Engana-se quem credita o pão e o circo apenas à politicagem nacional. Por tétrico que possa parecer, a manutenção generalizada da ignorância favoreceu celebrities da música, da academia, das religiões, da literatura, da televisão, do cinema, dos jornais, das revistas e afins.

Começou a ficar fácil demais definir o Brasil, gleba sul-americana do futebol e do carnaval: um passivíssimo mercadão coronelista de misérias e mazelas de toda ordem, salpicado de bossa nova por todos os lados. Solo fértil e distante léguas da civilização contemporânea, o país candidamente permitiu a instalação e manutenção de uma néscia quadrilha vermelha planaltina na ogiva do poder. Alianças compradas — via caixa um, caixa dois, caixa três... noves fora, roubo e corrupção — no atacado e no varejo em nome de uma “causa” e algum milhar de cédulas malocado nos fundilhos passaram a constar dos eventos banais, quase culturais. Bolsa Família e seus congêneres assistencialistas passaram a ser o Prozac viabilizador da troca de mãos que seguram o cabresto.

Ainda que tenha exigido altas doses de photoshop marqueteiro, a foto oficial ficou linda! Em tempos de bombástica crise econômica internacional, o mundo comprou a imagem da janela verde-e-amarela de oportunidades, gerida por um barbudão carismático doutor honoris causa multiplex tão popular que é capaz de apontar o dedo e eleger um poste. “Ele é o cara”, amimou Barack Obama durante um encontro de líderes do G20. Na esteira, o Brasil assumiu compromissos de grande monta: fingir a inexistência de demandas urgentes e severas em saúde, educação, segurança, infraestrutura e blá-blá-blá e aportar bilhões em superfaturados dois torneios internacionais de futebol e a primeira edição dos Jogos Olímpicos na América do Sul, além de uma jornada papal no meio do caminho.

Quando os discípulos da quadrilha esperavam ouvir, em prece, “bendita seja a ‘presidenta’ que nos uniu no amor à pátria” e aplausos aquiescentes, veio o embaraço: a arquibancada colorida negou Dilma três vezes! Vaias sonoras ecoaram no estádio e o golaço do Neymar foi ofuscado nas manchetes pelas duras manifestações nos quatro cantos do país — e que já ganharam apoiadores no exterior — em resposta à incapacidade do Estado brasileiro de transformar uma das maiores cargas tributárias do planeta em serviços públicos com mínima qualidade. Alguém afeito às teorias conspiratórias pode conjecturar: “Será que algum sabotador, disfarçado de ‘Velho do Restelo’, misturou farinha à fluoxetina do povo?”

Por obsolescência, um parlamentar dilmista tuitou: “Vaia de playboy não vale!” Tarde demais. Tendo como estopim o aumento das tarifas de transporte público nas capitais, as ruas estão sendo dominadas por protestos ferozes contra o modelo político vigente e a corrupção endêmica. Pelo mesmo caminho seguem tribos indígenas exigindo mais demarcações de terra; agricultores e pecuaristas defendendo o direito à propriedade; sem-teto cobrando promessas de campanha não cumpridas; professores pleiteando dignidade e respeito; produção, indústria e comércio desesperados com os prejuízos causados pela nulidade de infraestrutura; gays em busca do justo reconhecimento de direitos civis; evangélicos pretendendo implantar um visual preto-e-branco de fé e família; e gente gritando, ora pela imediata prisão, ora pela absolvição dos mensaleiros condenados. Até os corruptos estão protestando por mais espaço no loteamento institucional e por uma divisão, digamos, mais equânime da roubalheira.

Ao que tudo indica, o Brasil acordou de um sono hibernal. Uns pacificamente, outros aos sopapos. Alguns levantam cartazes e bradam palavras de ordem, outros levantam pedras e agem com vandalismo. Nas vultosas e sucessivas manifestações, há uma maioria desejando incendiar velhas práticas e consagrar o primeiro grande momento da democracia contemporânea brasileira, enquanto uma minoria, descontrolada e nutrida por ideologias nanicas, arremessa coquetéis molotov. Na defensiva, o Estado coloca nas ruas o que tem de pior: sua força policial, física e psicologicamente despreparada, apesar de munida com armas não letais, bombas de efeito moral e alucinógeno corporativismo. O resultado, via de regra, é o confronto.

Servindo-se do oportunismo que lhe é peculiar, o patrulhamento ideológico tentou colar a pecha da culpa pela truculência e desordenamento da PM paulista no governador oposicionista Geraldo Alckmin, do PSDB. Funcionou por menos de 24 horas. Mas, no dia seguinte, a polícia distrital — governada pelo PT — chegou a atropelar manifestantes. No Rio de Janeiro — estado e capital administrados pelo PMDB aliado — a polícia de Sérgio Cabral desceu a ripa em quem ousou fazer protestos às margens do Maracanã em sua estreia na Copa das Confederações. Contou até com aditivos da Força Nacional de Segurança, que responde diretamente ao ministro petista da Justiça e à comandante-em-chefe Dilma Rousseff. E agora: será que o lulodilmismo vai tentar encontrar uma brecha pra culpar o Fernando Henrique Cardoso, aquele moço que foi presidente do Brasil no século passado e que deixou uma suposta “herança maldita” ainda vigente?

Nas cercanias palacianas, os sintomas de tensão e desespero já são visíveis. A intelectualidade mamífera, por sua vez, prefere fingir um ceticismo exoplanetário. De “turba violenta” a “fogo de palha”, pipocam definições. Há quem admita o levante varonil. A maioria ainda está relendo Freud e Bauman, tentando justificar os movimentos de massa num país corrupto através da libido exacerbada dos trópicos, ou a efemeridade líquida do potencial humano na busca por outro modelo (im)possível de mundo.

Entretanto, ao que tudo indica, o assustador silêncio protagonizado nas últimas duas décadas pelos cidadãos brasileiros foi apenas o respiro profundo que antecede o mergulho. O Brasil acordou!

 

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