25/06/2013

Protestos na Bahia, traz de volta a repressão da ditadura militar.

Por: Francklin Roozewelt de Sá

 

Ao assistir nesses dias a forma truculenta e autoritária da PM da Bahia, contra os manifestantes que de forma pacífica saiam às ruas para protestar contra os desmandos administrativos praticados pelos governantes e pelos políticos com gastança desnecessária em supérfluo, enquanto sempre faltam recursos para educação, saúde, segurança, infraestrutura entre outras necessidades básicas da população, passou pela minha mente o velho filme ocorrido em 64, quando as elites junto com as igrejas insuflaram as massas, com a mentira de que o presidente da época desejava implantar o comunismo no País.

Veio aos meus olhos, aquele 64 que dentro de ônibus quando nos dirigíamos pata o colégio, tivemos nossa trajetória interrompida e com mais meia dúzia de estudantes de outros colégios, fomos levados ao quartel do 18 do Forte, em Aracaju, para sofrer todo tipo de ameaças e torturas psicológicas, com apenas 12 anos, pelo simples fato de querer estudar. Depois de uma tarde de opressão tivemos nossos livros confiscados, pois segundo afirmavam, eram de conteúdo comunistas. Lembro-me ainda do livro de história geral de Vitor Mussumeci, que por ter um capítulo que abordava sobre o marxismo, recebeu o carimbo de comunista. E ainda, quando no dia seguinte, fomos retirados da sala de aula de aula, sob a escolta de 12 militares, para ser obrigado a ir a exposição do material confiscado. Nada vi de perigoso, até os armamentos a arma mais perigosa exposta era uma espingarda de socar e um facão de cortar cana. Hoje lembrando, me dá vontade de rir.

Lembrei-me de quantas vezes ouvimos nas igrejas, sacerdotes e pastores em suas pregações chegarem ao extremo de afirmar que comunistas comiam crianças, quando na verdade eram eles que às escondidas ficavam praticando atos libidinosos, usando de suas lideranças para praticarem descaradamente a pedofilia.

E de tanto pregarem a maldição ao comunismo do falecido (ou assassinado) João Goulart, que apenas desejava fazer as transformações de base que hoje a população sai às ruas clamando para que aconteça, se tivesse ocorrido àquela época hoje o nosso País estaria saindo às ruas com outras pautas de reivindicações., que conseguiram tirá-lo do Poder.

Lembrei-me quando cheguei a Feira de Santana e das dezenas de humilhações que éramos obrigados a suportar, por atos humilhantes praticados pelo capelão do exercito, que chegava ao extremo de colocar um limão em nossas calças e se ele não saísse pela perna, com um canivete cortava a calça. Lembro-me de muitos colegas que não comungavam com esta situação vexatória, mas tinham que engoli-las, pois sabíamos que ao nosso lado éramos obrigados a conviver com aqueles que serviam de dedos duros dos militares, que não vale a pena citar. Veio-me a lembrança de professores como Estrela (já falecido), que não deixava que nos abatêssemos e sempre tinha uma palavra de encorajamento, mesmo tendo sido preso diversas vezes.

Voltou o filme das centenas de vezes que tivemos o colégio estadual invadido por militares a busca dos ‘comunistas’, cujos atos que praticávamos era a reivindicar a volta da normalidade democrática. Quantas vezes fomos alertados pela direção do colégio para sairmos correndo, pois os ‘homens’ estavam chegando. Aí me lembrei de Jaime Cunha, velho amigo e camarada, do assassinado Santa Bárbara, com sua oratória, de Adroaldo e alguns outros, que o nome saiu da memória, pela distância do tempo

Lembrei-me d meu tempo de UFBA, em Salvador, das nossas reuniões em locais que acredito nem os ratos se reuniriam, para discutirmos ações e traçarmos rotas de lutas. Lembrei-me da luta para se conseguir reabrir o DCE, cuja sede ficava próxima à praça Castro Alves e de quantas vezes tivemos que dormir por lá, porque o prédio estava cercado por militares e se descesse seríamos presos.

Tudo isto ocorreu ao ver as cenas praticadas nos últimos dias pela polícia militar comandada pelo PT. Primeiro contra os alunos da FTC, que apesar de pagarem uma das mensalidades mais caras, porém, em razão de desmandos administrativos, estavam na rua exigindo seu direito, o de estudar. Aí vem a PM de Wagner e baixa o cacetete.

Agora foi os manifestantes, que em protestos pelos desmandos, obras faraônicas para unicamente servir a FIFA e o rio de dinheiro desperdiçado e ou desviado, como tem ocorrido em todo o Brasil. Mais uma vez aparece a PM de Wagner e do PT e tome cacetete. Interessante ao se notar a mesma prática dos militares da ditadura. Bateram apenas naqueles que estavam sem esconder o rosto e nos jornalistas. Mas nos colegas infiltrados mascarados para descaracterizar o movimento, nestes nem encostavam. Muito estranho, não? E esta é uma prática já velha e conhecida, como o foi a montagem do diálogo quando da greve dos policiais. Estes mesmos policias que quando paralisaram contaram com total apoio da sociedade baiana, agora atendendo ordem do seu comandante chefe(Jaques Wagner), reprime de forma violenta, aqueles que os abraçaram.

Porém, como já dizia um antigo governante baiano, ‘pense em um absurdo, na Bahia acontece’, e a cada dia que se passa isso se comprova. Hoje a Bahia é governada pelo PT, sendo o seu líder maior no Estado um canastrão, bom de gogó e ruim de cumprir o que promete, o que fala e o que assina.

Quando era oposição ao também famigerado carlismo que dominou a Bahia sob a mão de ferro, criticava todas as ações praticadas pelos governantes tachando-os de ditadores e outras adjetivos. Tudo bem pois realmente era verdade.

Depois de lutas e muitas lutas que tivemos que enfrentar conseguimos às duras penas à democracia, que ainda está engatinhando. Muitos dos que lutaram para alcançar a democracia e que foram presos e torturados estão aí, inclusive alguns até fazem parte do atual governo. E deles, até o momento não ouvimos qualquer comentário criticando as arbitrariedades praticadas pelo Sr. Jaques Wagner, que através de sua PM reprimiu de forma violenta e covarde os manifestantes.

Fico me perguntando onde estará Gabrielli, Petintinga, Leonelli, Emiliano José, Nilton Vasconcelos, Waldir Pires e tantos outros que sofreram no período da ditadura e debaixo do sapato do carlismo que nada falam do autoritarismo praticado na Bahia? Será que o acesso ao Poder os transformaram ao ponto de apoiar e achar normal aqueles atos praticados? Será este um governo que pode criticar o carlismo, utilizando das mesmas práticas?

Será que é este o PT sonhado por aqueles que na década de 80 saiam às ruas para conseguir as assinaturas para que pudessem regularizar o partido junto ao TSE? Será que era esta a forma de governar que sonhava o finado Beto Folha, Jaime Cunha, Almir Queiróz, Prof. Marialvo, Gerinaldo, Antonio Ozetti, Padre Albertino e tantos outros sonhadores?

Quero acreditar que não, porque eu que lutei, que sofri e penei para  saborear a democracia, não me sinto bem ao ver tamanha maldade praticada contra quem apenas querem sonhar por um Brasil e uma Bahia melhor.

E ao assistir ao método utilizado pela PM da Bahia contra os manifestantes, veio além da revolta, a vergonha e o sentimento de culpa, por saber que eu também tenho minha parcela de responsabilidade, pois um dia cheguei a dá um voto a este ser abjeto chamado Jaques Wagner, e aproveito o momento para me dirigir a todos que sentiram na pele a violência da PM do PT, que foram as mesmas que passei durante a ditadura militar, e pedir desculpas pelo erro que cometi, ao contribuir para que este senhor assumisse o governo da Bahia, e aqui de publico, afirmo, que a partir desta data jamais será permitido ser publicado no Portal Municípios Baianos, qualquer nota de elogio ou de referencia elogiosa ao ditador Jaques Wagner.

 

Comentários:

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Andréia Araújo em 26/06/2013
Mensagem: Belo e lúcido depoimento de quem vivenciou seu tempo e permanece de olhos abertos para os jogos de poder.