15/02/2017

Artigo: “Futuro do PT: transição e concertação”

Por: Tarso Genro

 

Com objetivo de escrever um artigo para colaborar no debate sobre o Congresso do PT, busquei materiais de minha autoria, já publicados em outros tempos, para tentar formular um juízo atualizado sobre os nossos problemas. Deparei-me, nesta pesquisa, com um texto publicado há doze anos, na Revista “Teoria e Debate”, da Fundação Perseu Abramo, número 64, pg. 9, que contém duas categorias políticas com as quais lido há muitos anos e me são muito caras: “concertação” e “transição”.

Ambos os termos tem uma enorme universalidade, pois não bloqueiam métodos de análise de diferentes escolas filosóficas e estimulam reflexões que partam de situações concretas. Assim, falar em “concertação” permite propor a identificação de sujeitos em torno de acordos programáticas, que, dependendo do objeto do “concerto”, ao mesmo tempo incluem pessoas e grupos e também os excluem, iluminando o campo de alianças táticas e estratégicas. Quando se fala em “transição”, somos obrigados a constatar com realismo onde estamos e para onde nos dirigimos, tanto na política como na economia.

Examinando aquele texto resolvi publicá-lo na integra. Ele mantém uma atualidade alarmante, na minha opinião, a respeito das tarefas que temos que enfrentar neste Congresso. O sétimo e o nono parágrafo podem ajudar no debate em andamento, que não deve ser apenas o reflexo degradado da vontade legítima de ser maioria, dos diversos grupos partidários, dentre os quais eu me incluo. Aí vai:

Debate O Futuro do PT: uma transição concertada

No exato momento em que fui eleito para dirigir o PT, após a crise que levou à renúncia do presidente José Genoino, agudizou-se a disputa política para a direção do partido no Processo de Eleições Diretas.

Como presidente e suposto candidato sofri duas pressões – de resto legítimas e previsíveis – de dois polos políticos. O confronto entre eles recentemente se tornara mais forte, com a revelação das ações paralelas na área financeira do PT, que seguramente também sustentavam uma deformação no exercício do poder político, no interior da organização partidária.

De um lado, parte significativa do grupo dirigente anterior esperava que eu me comprometesse com suas posições sobre a crise e a gerisse de acordo com sua visão. De outro lado, a chamada “esquerda” do PT, buscando o poder no curso da crise, apontava-me como “continuidade” ou uma “nova face” do grupo dirigente anterior.

O argumento era obviamente falso, mas tão compreensível como o da outra posição. São os termos em que se dão as disputas dentro do PT nos últimos anos: a acusação substituindo o argumento e o chavão substituindo a fundamentação. Talvez esses procedimentos ainda não sejam “regra” na vida partidária, mas pode-se dizer que já eram muito comuns e se intensificaram com a crise.

Tendo em vista essa situação, entendi que uma eventual candidatura minha, embora com razoáveis condições de vitória, poderia, ao invés de reduzir as tensões e unificar o PT – cindido entre sua “esquerda” e seu setor “moderado” –, aumentar a temperatura das disputas internas. Isso fragmentaria ainda mais a já frágil unidade partidária e contribuiria para aprofundar a crise, abrindo espaços ainda maiores para o ataque de nossos adversários.

Essa frágil unidade tinha e tem como causas divergências reais: o exercício de um poder majoritário puramente numérico, desempenhado muitas vezes sem fundamentação teórica e política suficiente; as diferenças internas sobre a política monetária e econômica do nosso governo; o juízo sobre os fundamentos da nossa “crise ética”; e também uma falta de unidade programática e política da própria “esquerda” partidária, o que não lhe permitia – na minha opinião – propor uma direção representativa e estável na composição isolada de uma nova maioria.

Ambas as posições – permanecer ou não permanecer na disputa – eram seguramente “arriscadas.” Escolhi aquela que me parecia de menor risco para o partido: tentar coordenar uma transição na qual os dois pólos pudessem se sentir minimamente seguros.

O objetivo seria fazer do processo de eleições também o encaminhamento de uma nova linha política: a) alterando nossa posição defensiva em relação à crise; b) reorganizando nossas relações com os partidos de esquerda e com nossa própria bancada; c) autonomizando a voz do PT em relação ao governo (obviamente sem deixar de apoiá-lo); d) criando um ambiente interno de responsabilização política sem prejulgamentos; e) retomando, de maneira aberta, o debate sobre política de alianças e política econômica; f) tomando as medidas urgentes e emergenciais para reduzir os custos da vida partidária e renegociar dívidas.

Creio que esses movimentos foram feitos com razoável grau de consensualidade, permitindo ao partido “respirar” dentro da crise e assentar as bases mínimas para seu soerguimento. Se não atingimos a situação “ideal”, é certo que reavivamos a possibilidade de reconstrução do PT, como sujeito da revolução democrática no país.

A construção de um novo núcleo dirigente, apoiado num programa mínimo de refundação-reconstrução partidária, deve ser o objetivo central da direção eleita.

Não pautar as relações internas nem pela arrogância nem pelo autoritarismo é atitude essencial para começarmos uma vida interna de mais qualidade, de respeito recíproco, e uma relação com a sociedade que refaça nossa autoridade política, inclusive perante a base social que nos deu origem.

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