28/04/2017

Artigo: “Articulação ensina poder da mobilização”

Por: Leonardo Sakamoto

 

Ouvi uma mulher reclamando, tempos atrás, com uma amiga de uma greve dos professores em São Paulo. “Vagabundo que faz greve deveria ser demitido”, dizia ela.

Pois bem, milhares desses ”vagabundos” da rede particular de ensino planejam participar da greve geral contra a Reforma da Previdência a Reforma Trabalhista e a nova lei sobre a terceirização. Mas também contra a Reforma do Ensino Médio, os baixos salários, o assédio moral. Ao que tudo indica, pode ser a maior paralisação das escolas privadas na história da cidade.

Como relata matéria da revista Nova Escola, esse movimentos começou em conversas nas salas dos professores e foi crescendo através de grupos de WhatsApp. Partiu de escolas mais conhecidas e foi se desdobrando a outras. Listas que circulam na rede já apontam mais de 100. Ou seja, foram os próprios professores os responsáveis por isso, preocupados com seu futuro e o da educação.

(Há quem reclame, dizendo que mobilização de forma anônima através de uma rede social fechada é para quem quer se esconder. Mas, até onde sabemos, essa rede foi largamente utilizada para pressionar pelo impeachment e ninguém reclamou. E, além do mais, professores temem serem demitidos por exercerem seu direito constitucional a cruzar os braços.)

É fascinante ver as críticas à mobilização dos professores da rede particular. Muitos que fazem isso levaram para as ruas cartazes de “Mais Educação” que, agora, percebe-se, foi um ato vazio. Pois quando se deparam com demandas reais dessa categoria essencial, que significam também a melhoria da educação como um todo, rangem os dentes, torcem o nariz e os insultam. Alguns gritam ”vagabundos”. Outros pensam a mesma coisa em silêncio.

Graças à organização e pressão dos trabalhadores, importantes conquistas foram obtidas para civilizar minimamente as regras do jogo – não trabalhar até a exaustão, descansar de forma remunerada, ter salários (menos in)justos, obter uma aposentadoria que garanta dignidade quando corpo e mente estiverem cansados de lutar.

Direitos estes que, mesmo incompletos, são chamados por alguns empregadores de “gargalos do crescimento”. É o que se ouviu, na noite desta quara (26), à exaustão durante a votação da Reforma Trabalhista na Câmara dos Deputados.

É bizarro reclamar que não há no Brasil quantidade suficiente de força de trabalho devidamente qualificada para fazer frente às necessidades de inovação e produtividade e, ao mesmo tempo, chutar feito caixa de giz vazia as reivindicações de um futuro melhor daqueles profissionais responsáveis por garantir o futuro de nossos filhos.

Como vocês acham que o processo de formação ocorre? Por convencimento através de vídeos violentos ou comentários vazios que circulam através de redes sociais?

Há quem afirme que esta greve é ”política”, portanto inaceitável. Se fosse por salários, não haveria problema.

No dia 27 de março de 2015, 60 mil professores do ensino público estadual paulista se reuniram em uma manifestação no Centro de São Paulo. Reivindicavam um aumento de 75,33% – para equiparar à média salarial de outras categorias de funcionários públicos com ensino superior e redução de jornada, o que está previsto no Plano Nacional de Educação. Além de melhoria nas condições das escolas – faltava até papel higiênico nos banheiros. Foram chamados de ”vagabundos”.

No mês seguinte, o governador do Paraná Beto Richa colocou em votação um ”pacotão de austeridade” para alterar direitos trabalhistas e previdenciários – laboratório do que estamos vivendo hoje em nível federal. Profissionais de educação tentaram entrar na Assembleia Legislativa para acompanhar e protestar e foram duramente reprimidos pela polícia com balas de borracha e gás lacrimogênio. As dezenas que sangraram e os outros tantos que desmaiaram no asfalto foram chamados de ”vagabundos”.

A verdade é que toda reivindicação, por salários, por condições de trabalho, por emprego, por aposentadoria são políticas. Todas disputam a narrativa da prioridade pública na execução dos deveres do Estado e na origem dos recursos para que isso aconteça.

Apoio os professores. Apoio os metalúrgicos de fábricas de automóveis. Apoio os controladores de voo. Apoio os motoristas de ônibus. Apoio os bancários. Apoio os garis. Apoio os residentes médicos. Apoio o santo direito de se conscientizarem, reconhecerem-se nos problemas, dizer não e entrar em greve até que seus patrões ou o Estado escutem.

Nesta greve em especial, a luta deles também é a da maioria da população brasileira. O Brasil precisa de reformas, claro. Mas não aprovadas de forma autoritária, passando por cima de tudo e de todos, sem um profundo debate público.

Pois, dessa forma, o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal apenas provam como está disfuncional nossa democracia. O povo não se vê representado nas pessoas que elegeu – que cismam em dizer que fazem isso em nome e pelo bem do mesmo povo. Quando, na verdade, o fazem pelo bem de si mesmos ou daqueles que financiaram suas campanhas.

Tanto que, hoje, a discussão é reestruturar o país cortando apenas dos que têm menos, sem discutir a taxação de dividendos de empresas ou um imposto de renda que abocanhe mais dos mais ricos, por exemplo.

O Brasil está conseguindo universalizar o seu ensino fundamental, mas isso não veio acompanhado de um aumento significativo na qualidade da educação. Grande parte dos jovens de escolas públicas têm entrado no ensino médio sabendo apenas ordenar e reconhecer letras, mas não redigir e interpretar textos.

Enquanto isso, o magistério no Brasil continua sendo tratado como profissão de segunda categoria. Grande parte dos professores de escolas particulares ou públicas estão nos seus limites, trabalhando muito, ganhando pouco, sob pressão e, não raro, debaixo de vigilância.

Uma educação de baixa qualidade, insuficiente às características de cada lugar com professores mal tratados pode mudar a vida de um povo?

Por fim, acho cansativo aquele papinho cansativo de ”self-made man/woman” de que todas as pessoas podem vencer na vida apenas com seu esforço individual e apesar de toda a adversidade, tirando a responsabilidade do poder público e ignorando a situação da sociedade à sua volta.

Aí surgem as histórias do Joãozinho, que comia biscoitos de esterco com insetos e vendia ossos de zebu para sobreviver. Mas não ficou esperando o Estado, nem seus professores lhe ajudarem e, por conta, própria, lutou, lutou, lutou (às vezes, contando com a ajuda de um mecenas da iniciativa privada), andando 73,5 quilômetros todos os dias para pegar o ônibus da escola e usando folhas de bananeira como caderno. Hoje é presidente de uma multinacional.

Passando uma mensagem “se não consegue ser como Joãozinho e vencer por conta própria sem depender de uma escola de qualidade e de um bom professor, você é um verme nojento que merece nosso desprezo”. Daí para tornar as instituições de ensino e a figura do próprio professor cada vez mais acessórias é um passo.

Educação é a saída, mas qual educação? Aquela defendida pelo pessoal do “Amigos do Joãozinho”? Educar por educar e passar dados e técnicas, sem conscientizar o futuro trabalhador e cidadão do papel que ele pode vir a desempenhar na sociedade, é o mesmo que mostrar a um tijolo seu lugar no muro e ponto final.

Você quer que seu filho e sua filha sejam apenas mais um tijolo no muro?

Uma das principais funções da escola deveria ser produzir pessoas pensantes e contestadoras que podem colocar em risco a própria estrutura política e econômica montada para que tudo funcione do jeito em que está. Em algumas sociedades, pessoas assim, que protestam, discutem, debatem, discordam, mudam são as mais úteis.

Porque essas pessoas são fundamentais para encontrar nova saídas e transformar o país para melhor.

Sejam elas de esquerda, de direita, de centro.

Por aqui, são vistas com desconfiança e chamadas de mal-educadas e ”vagabundas”.

Educar pode significar libertar ou enquadrar. Que tipo de educação estamos oferecendo? Que tipo de educação precisamos ter? Para essa tarefa, professores bem formados e remunerados, com qualidade de vida, são fundamentais.

Um bom exercício seria tentar entender que as greves gerais, da mesma forma que protestos a favor da saída de políticos, mostram que uma república ainda está viva e respira. São um indicador de saúde da democracia, algo que deveria fazer parte das necessárias disputas sociais e econômicas e não tema para página policial. Pois é o povo cruzando os braços devido a uma política com a qual não concordam que pode lhes roubar o fruto de seu trabalho.

O Congresso Nacional, ao aprovar a toque de caixa reformas que vão alterar profundamente a vida dos brasileiros sem o devido diálogo com a população, mostra que é incapaz de entender o que ele mesmo representa como a principal arena do debate público nacional. Com esse comportamento autoritário, renova duas velhas lições: ”manda quem pode, obedece quem tem juízo” e ”o crime compensa”. Ao mesmo tempo, de forma silenciosa, a mobilização de professores de dezenas de escolas particulares e públicas de São Paulo a favor da greve geral e por um futuro melhor, traz uma das mais importantes lições aos mais jovens:

Nem tudo o que se ensina está em sala de aula.

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