03/09/2017

Artigo: “Consciente, desinformado ou folgado?”

Por: Miriam Sanger

 

O noticiário sobre a situação do planeta anda dramático. O clima vai esquentar, a água acabará, os mares vão subir, a atmosfera ficará cinza, rios secarão, mais gente terá fome. As projeções para um futuro não muito distante – talvez daqui um século, quem sabe 50 anos ou menos – são sombrias. Estudos alertam quanto ao que empresas e governos precisam fazer para retardar ao máximo esse processo de deterioração da vida e a questão ambiental nunca esteve tão presente no noticiário e de forma tão preocupante.

Mas, enquanto se buscam novas estratégias de conduta para evitar a catástrofe futura, o ser humano bem que podia se tocar de que a vidinha que segue ao seu redor também faz parte desse tal de meio ambiente. Embora a consciência socioambiental esteja em alta, ainda existe muita gente de índole poluída que podia tornar o mundo muito melhor – hoje – com pouco esforço.

Por exemplo, ao verificar se o móvel que está comprando é de madeira certificada, você ajuda a combater o desmatamento. Ao diminuir o consumo de carne vermelha, colabora com a preservação do “pulmão” do planeta – segundo o Banco Mundial, a pecuária foi a maior responsável pelo desmatamento da região amazônica. Ao deixar o carro na garagem um dia por semana, ajuda a diminuir a emissão de gases poluentes e o efeito estufa. Se não joga no ralo o óleo com que fritou o bolinho, deixa de poluir lençóis freáticos e áreas de manancial. Se escova os dentes com a torneira fechada, consome menos de meio litro de água, em vez de 13 litros. O Brasil, aliás, é um dos campeões mundiais no desperdício de água. A Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que 120 litros de água são suficientes para o consumo diário de uma pessoa – no Brasil, a média é de 200.

Segundo pesquisa realizada pelo Vox Populi em março, os brasileiros até estão preocupados com o meio ambiente, mas ainda relacionam o assunto a temas grandiosos como o aquecimento global e o derretimento das geleiras, e não necessariamente a pequenas coisas do dia-a-dia. Como deixar a TV ligada à toa, comprar e preparar alimentos em excesso e depois jogar fora, lavar calçada com mangueira, jogar bituca de cigarro, pacote de salgadinho e latinha de bebida pela janela do carro, botar no lixo comum a latinha de molho de tomate ou o pacote de macarrão, que podem ser reciclados.

A pesquisa revelou que, embora os entrevistados indiquem entre os “principais problemas de seu bairro” falta de rede de esgoto e saneamento básico, de coleta de lixo, de água e de tratamento – tudo ligado a questões ambientais –, apenas 14% dos brasileiros acreditam que exista problema ambiental no Brasil. Um caso grave de desinformação? Ou de semancol? Sim, governos precisam tomar atitudes, empresas também. “Mas devemos ser os primeiros, e não os últimos, a mudar nossos hábitos”, alerta Aron Belinky, gerente de Pesquisas e Métricas do Instituto Akatu, organização sem fins lucrativos voltada à educação para o consumo consciente.

Quando o assunto é reciclagem, por exemplo, um em cada três brasileiros está atento. É um número considerável e que tende a crescer, pois o país tem uma característica peculiar: a atividade entrou na cadeia produtiva da economia nacional. A reciclagem também marca presença nas duas pontas do processo de consumo: evita a demanda de novos recursos naturais e o descarte de material no meio ambiente.

No Brasil, por suas dimensões continentais, o assunto lixo é igualmente grandioso. Existem 8 mil locais onde o lixo é depositado de forma inadequada, contaminando solo e lençóis freáticos. Pesquisa realizada no fim de 2004 mostrou que, dos 53 milhões de toneladas de resíduos industriais gerados no Brasil, apenas 3 milhões foram tratados e quase 100% dos aterros sanitários estão no final de sua vida útil. Os dados são do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, elaborado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

Das 5.560 cidades brasileiras, cerca de 240 fazem a coleta seletiva. Cada brasileiro gera por dia, em média, 750 gramas de lixo. Só a cidade de São Paulo soma mais de 12 mil toneladas diárias. Cerca de um terço de todo o lixo produzido no país tem origem doméstica. Ou seja, está em casa boa parte da redução dos resíduos que empesteiam o ambiente.

Simplicidade ignorada

O Instituto Akatu elaborou o conceito dos “quatro Rs” para minimização de resíduos. Repensar os atos de consumo; Reduzir: consumir apenas o necessário e evitar a geração de lixo; Reutilizar: aumentar a vida útil dos produtos e materiais; e Reciclar: separar tudo o que pode ser reaproveitado. São coisas simples, mas ainda tem gente que não as pratica.

Pesquisas realizadas a partir de testes aplicados pelo instituto indicaram que 8% das pessoas avaliadas estão muito pouco atentas às questões como consumo consciente, enquanto 59% adotam algumas posturas corretas apenas em função de economia doméstica, sem levar em conta o impacto ambiental. Outros 28% são engajados – pensam em economia, exigem notas fiscais, lêem rótulos dos produtos a serem adquiridos, checam o perfil dos fabricantes, entre outros aspectos. E apenas 5% formam o grupo dos “conscientes”, aqueles que têm total conhecimento do impacto de seu consumo e de suas atitudes sobre o meio ambiente, a economia e a sociedade.

Uma característica do grupo dos conscientes é a atitude do “reforço positivo”: ajudar a disseminar informações. Por exemplo, só compram produtos de empresas socialmente responsáveis, falam bem das que estão atentas ao assunto e alertam outras pessoas sobre as que não estão. Vários estudos realizados pelo Akatu levam a uma conclusão de que o brasileiro tem consciência ambiental, mas sofre de uma preguiça “macunaímica” de se mexer. “Falta envolvimento. Acredito que isso tenha relação direta com a descrença quanto à nossa capacidade de provocar mudanças. Mas sabemos que é o cidadão quem poderá resolver o nó da responsabilidade social em todos os sentidos”, diz Belinky.

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