19/10/2017

Artigo: “Frugalidade, uma opção anticapitalista”

Por: Maria Bitarello

 

Por quase 3 anos, morei em casal em uma quitinete de 24m2, no último andar de um predinho em Paris. Um cômodo, uma cozinha separada por uma parede, um banheiro. Na cozinha, uma placa elétrica de duas bocas, um pequeno forno também elétrico, um mini-frigobar, pia simples, pouco espaço pra utensílios e também pra comida. As compras eram feitas gradualmente e repostas à medida que eram comidas; não dava pra estocar nada. Pra cozinhar, era preciso ir lavando, secando e liberando a única superfície sobre a pia que servia tanto pro escorredor quanto pra tábua. O quarto era simbolicamente dividido por uma estante; de um lado a cama, do outro a mesa de trabalho, tipo escritório. Havia uma poltrona, uma luminária, um violão, livros, um espelho, uma cortina separando a cozinha. O guarda-roupa embutido tinha três portas baixas; uma delas pra mim. E só. Todas as minhas roupas estavam no espaço de arara que me cabia ali naquela porta, algumas dobradas embaixo, um único par de botas pra todas as ocasiões. No térreo, uma bicicleta. O aluguel era barato, o bairro delicioso, a vida descomplicada.

Desde que cheguei a São Paulo, há mais  de 5 anos, consegui manter um lifestyle parecido. Nunca tive contrato com imobiliária; sempre subloco apartamentos já mobiliados ou semi-mobiliados onde pouca coisa é minha. Os talheres não são meus, nem a máquina de lavar roupa, a geladeira, a cama, a mesa, as cadeiras, nada. Só ventilador, abajur, computador, rede, chaleira elétrica e objetos pessoais, que estão distribuídos em uma arara, três gavetas, uma mesa e estante. Duas taças de vinho, duas tulipas de chope, quatro pratos rasos, três fundos, uma cafeteira. Essas coisas. A coisa mais difícil de transportar é minha árvore pau-brasil, que já está mais alta que eu. Fora ela, se precisar me mudar, saio com tudo numa tarde, em uma leva. E a sensação de leveza é bem maravilhosa. Continuo morando em quitinete e constato que não preciso de mais que isso. Lá fora, há toda uma cidade. Todo um mundo, de coisas e pessoas.

A verdade é que quanto menos coisas você tem, mais fácil fica se desfazer delas. Até porque vai ficando claro que as coisas vêm, as coisas vão, não em vão. Você dá um casaco seu, alguém te dá uma mochila. Roubam sua bicicleta, você acha uma poltrona na rua. E segundo as leis elementares da física, se um objeto novo entra na vida de um residente de quitinete, algo obrigatoriamente vai ter que sair. Então você acaba ficando só com aquilo de que realmente gosta e/ou precisa. O período na França foi um aprendizado muito valioso pra minha vida. Depois de tantas mudanças num espaço não muito longo de tempo – entre cidades, entre países, entre vidas –, foi importante aprender a largar um tanto de coisa pra trás. Cadernos e livros, móveis e quadros, roupas e cobertores. E a cada vez ficava mais fácil. Difícil mesmo é se separar das pessoas.

Agora, antes de prosseguir com essa minha linha de raciocínio que vinha se encaixando tão bem, uma observação. Como moradora do Bixiga, venho testemunhando as ogrices da prefeitura de São Paulo e suas políticas higienistas movidas pela especulação imobiliária e gentrificação do bairro. Não sei dizer números, mas no olhômetro é incontestável que a população de moradores de rua na cidade vem crescendo exponencialmente e se espalhando, o que é muito grave. Nos baixios do Minhocão, malocas são erguidas e transformadas em lares onde residem crianças, velhos, mulheres, cachorros, homens de todas as idades. Tudo o que chega às mãos dessa população pode ser incorporado na formação desse lar, e é tudo o que eles “possuem” na vida. E, no entanto, a polícia e a Guarda Civil Metropolitana chegam solando a porta, colocando tudo no chão, levando esses fragmentos de outras vidas, abandonadas ou jogadas fora, que foram se transformando em paredes de um barraco onde moram três crianças e sua mãe. E daí, nesse caso, nada disso do que estou falando se aplica.

Porque o minimalismo tal como eu estou aqui apresentando é um luxo de quem pode optar por isso como estilo de vida. Um que eu acho muito mais saudável. Mas é importante não perder de vista que estamos falando de um privilégio que pode ser exercido por aqueles que têm escolhas. E também para que no processo não nos esqueçamos da alma e dos traços de vida que existem em certos objetos. Fotos, vasos de plantas, amuletos, qualquer coisa que pra você seja sagrada. Não é pra transformar sua casa numa sala de espera de dentista. Minha ode em forma de crônica não é contra uma casa aconchegante; é contra o consumismo.

Existe uma máxima da vida real que vai na contramão do que o capitalismo quer que você acredite. “Menos é mais”. O que o capitalismo quer é te vender produtos e soluções pra problemas que ele próprio criou. Engordou? Vá pra academia (pagar), coma produtos light (comprar), faça uma lipo (pagar), arrume roupas novas que não deixem transparecer seu ganho de peso (comprar). O capitalismo jamais te dirá pra comer menos, fazer compras na feira, ir andando pro trabalho, limpar sua própria casa. Não, não. Contrate um personal trainer, faça a plástica, compre aqueles potões horrendos de proteína, matricule-se na academia e compre um carro, pra poder se deslocar entre todas essas tarefas. E, de preferência, não dependa de ninguém em nenhuma instância.

Não sei qual a origem histórica dessa ideia da autossuficiência que vem embutida no capitalismo – provavelmente é pra vender mais unidades de seus produtos –, mas ela me parece ser mais uma dessas americanices bestas que o Brasil comprou. Se você não tiver tudo de que precisa, recorrerá aos amigos, aos vizinhos, à família. Vai haver mais diálogo, mais troca, a interdependência na teoria e na prática, juntas. Afinal, você não precisa ter tudo só pra você. Por que num prédio cheio de apartamentos cada um tem um plano de internet separado? Já pensou nisso? Não faz o menor sentido. Mas o capitalismo manda e desmanda: nos convenceu de que não depender de ninguém é que é bom; de que carro é sinônimo de liberdade. Aí tem conta de tudo separadinho, cada carro na sua vaga de garagem e casas entulhadas de coisas compradas novas, ano após ano, e depois jogadas fora. Uma doença.

A mais valiosa “coisa” dessa nossa vidinha finita é tempo. Essa é a grande moeda de valor na vida. Valor sem custo. E as coisas tomam muito do nosso tempo. Muita energia. Energia que é muito melhor empregada em pessoas, em afetos, em vida. Livrar-se das coisas e dos entulhos, portanto, é abrir uma janela por onde a vida respira. Mas o capitalismo nunca vai te empurrar nessa direção. A não ser que você seja morador de rua, e um trator leve todos os seus pertences embora de uma só vez. E, no fundo, quem passa por isso já sabe que as coisas vêm, as coisas vão, tantas vezes com brutalidade. Sabem que ninguém sobrevive sozinho, que é tudo troca. Quem ainda não sabe são os “donos”. Da bola, das terras, do poder. E a ignorância deles é uma chaga pra todos nós.

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