31/10/2017

Artigo: “O combate contra o inimigo oculto”

Por: Gabriela Cunha Ferraz

 

Vivemos um período de combate. Isso é evidente.

Combatemos aquilo que é diferente, desrespeitamos aqueles que pensam diferente e aquilo que, simplesmente, nos parece diferente. Estamos nos armando com infundados estereótipos, pré conceitos direcionados para atacar e um ódio que, muitos, não sabem de onde surgiu.

Vejo muitos colegas se indagando sobre o que pode ter acontecido no nosso passado recente para entender como conseguimos chegar a este nível de intolerância e, porque não dizer, de ignorância. E, para mim meus amigos, o que aconteceu foi a velha e famosa impunidade.

Nos recentes tristes anos 60, a elite brasileira – apoiada por parte do capital externo, deu um golpe de Estado. Este golpe foi feito através dos militares que, desde então, foram instrumentalizados e serviram de marionete nas mãos daqueles que detinham (e detém) o poder de controlar o Estado.

Os militares foram manipulados pelo ego que, aliás, é um excelente instrumento de poder quando bem administrado. Quem estava nos bastidores, seguiu escondido sem precisar manchar sua mão de sangue ou se ocupar do trabalho sujo.

Estes usurpadores da democracia em nome da moral e dos bons costumes conseguiram o que queriam: Desestabilizaram o país, interromperam de forma brusca as políticas sociais que estavam sendo idealizadas e se mantiveram no poder.

Os militares, por sua vez, acreditavam que estavam na frente desse processo e se inflaram, enquanto a campanha populista cegava uma parte do povo e o país era vendido aos empresários e ao capital externo interessado em provocar a nossa “imbecilização”.

Sendo assim, os militares precisaram buscar um inimigo comum para combater. Neste momento, decidiram perseguir o “subversivo”. Mas, alguém já parou para pensar sobre o que é o tal subversivo?

Decidir combater o subversivo é o mesmo que entregar uma carta branca para que o braço armado do golpe pudesse perseguir toda e qualquer pessoa que fosse potencialmente contra a concentração de poder e o direcionamento econômico que se queria implantar.

Desta forma, o subversivo passou a ser a música, o teatro, as ações culturais que motivavam a reflexão (ou não), os estudantes, os biquínis, os jornais, o direito de opinião, a livre manifestação, os direitos sexuais e reprodutivos, a liberdade sexual, o corpo da mulher, a reforma agrária, as ideologias de esquerda, o amor…. Sim, nada mais subversivo do que o amor, meus caros.

A prova disso é que, até os dias de hoje, ninguém – nem mesmos os militares, nunca conseguiram articular uma resposta com fundamentos objetivos sobre o que é ser subversivo. Ninguém nunca soube o que isso significa e, exatamente por isso, essa estratégia deve ser considerada como sendo uma jogada extremamente inteligente dentro do plano de poder que se estava perseguindo.

Ao não definir o inimigo, fazemos com que qualquer pessoa se torne um inimigo do Estado em potencial. A partir da repetição massiva de uma ideia vazia, criamos um Estado sem regras e com uma reinante insegurança jurídica.

Para completar esta receita, esvaziamos o Congresso, eliminamos aqueles que pensam de forma diferente e torturamos opositores publicamente para disseminar o medo. Misturando todos esses ingredientes, desviamos a atenção das massas e conseguimos implantar aquilo que uma minoria poderosa entende se ideal para a sociedade (um pouco à la Handmaide’s Tale).

Considerando que já vivemos essa história, poderíamos afirmar que essa fórmula já é nossa velha conhecida. A pergunta que resta é: Se já conhecemos o script, por que caímos sempre na mesma armadilha?

O que estamos vivendo, hoje, no Brasil, não é muito diferente do que aconteceu em décadas passadas. Começamos criando um inimigo etéreo comum. O subversivo da década de 60 se atualizou, mudou de roupa e se tornou a atual ideologia de gênero.

É bom que fique claro que ideologia de gênero é uma coisa que não existe e não é possível encontrar qualquer referência acadêmica que defina este termo. Trata-se, mais uma vez, de uma expressão inventada e repetida incontáveis vezes para mascarar aquilo que está por trás.

E o que está por trás, como sempre, é a disputa de poder.

O combate a tal ideologia de gênero ganha seguidores que começam a enxergar inimigos dentro nas escolas (sempre as escolas), na arte, na música, nas opiniões políticas, na liberdade de pensamento e até nos produtos de beleza. Mas, quando conversamos com alguns raivosos defensores do conservadorismo cristão, não conseguimos encontrar fundamento lógico ou razão acadêmica para além de argumentos baseados em valores morais e opiniões particulares.

Mais uma vez, estamos diante de um plano que provocou um golpe de Estado, desacreditou o Congresso, combateu as liberdades já adquiridas, rotulou aqueles que pensam diferente, limitou os direitos, doutrinou as crianças e demonizou a arte e a expressão dos corpos.

Porém, aqui, existe uma clara diferença que, no meu ponto de vista, está diretamente ligada a um verdadeiro estudo prévio de mercado.

Desta vez, ao invés de usarmos a mão sangrenta dos militares embebidos pelo reflexo da sua própria imagem, estamos manipulando os religiosos e a juventude do país.

O mercado está aberto para este tipo de intervenção, já que nos últimos anos estamos testemunhando a crescente e sólida aliança entre política e religião. Ao legitimarmos o poder da igreja através dos mecanismos democráticos provocamos uma onda conservadora com consequências ainda não avaliadas.

Importante perceber, neste sentido, que essa união não é espontânea e faz parte de uma estratégia muito bem pensada pela minoria afortunada que não consegue retomar seu saudoso poder de outra forma.

Obviamente que os planos de poder são desenhados com muita parcimônia e precisam de anos para ser implementados e sair vitoriosos. Ou seja, o que estamos vivendo é apenas o clímax de um plano que começou a ser construído desde antes da redemocratização do Brasil e pelos mesmos poderosos que saíram ilesos da ditadura militar.

Estamos travando uma luta cega contra a tal ideologia de gênero (ou o que quer que isso signifique) e manipulando “pessoas de bem” para que articulem suas opiniões na defesa de um suposto projeto político que vai muito além do que imaginam.

O cenário é exatamente o mesmo: uma sociedade em crise, pessoas perdidas e desamparadas, o medo do desconhecido, o monstro da crise econômica, o crescimento não questionado da taxa de criminalidade, a repulsa pelo coletivo e a individualização dos projetos de vida.

O que muda neste cenário é apenas o instrumento que está sendo usado pela mesma corja de canalhas que ainda quer, a qualquer custo, manter o controle do país em suas mãos. Dito isto, a última pergunta que fica é: aprendemos algo com as lições do passado ou vamos permitir que a história se repita diante dos nossos olhos?

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