02/11/2017

Artigo: “Eleições 2018: Estar preparados é tudo”

Por: Mino Carta

 

Permito-me convocar leitoras/res, que sei dotados de neurônios em plena atividade, ao contrário da maioria de patrícias/os, para a Operação Misericórdia pelo Brasil.

Trata-se de esclarecer, além de mulheres ou maridos, filhos, pais, eventuais funcionários da casa, namoradas/namorados, parentes próximos e distantes, amigas/os, conhecidas/os, e quantos mais forem alcançáveis, a respeito do calamitoso futuro à espreita em meio à calamidade que a maioria dos brasileiros parece não perceber, a despeito de sua condição de vítima.

Uma porção conspícua do povo, desde os mais pobres até os remediados, vive como se a monstruosa crise política, econômica, social e cultural em que fomos mergulhados depois do golpe de 2016 fosse a própria imagem da normalidade.

Cuida-se de tocar a vida como se nada tivesse acontecido. A resignação prova a “cordialidade” de que falava Sérgio Buarque de Holanda, mas neste exato instante tanta inércia diante da catástrofe espanta, enquanto os ricos se regozijam.

Na quarta 25, Michel Temer foi confirmado na Presidência ilegítima, salvo surpresas inimagináveis, até 31 de dezembro de 2018, depois da eleição do seu sucessor, em outubro do ano próximo. Podemos confiar neste calendário eleitoral? Em primeiro lugar, condenado Lula sem provas em segunda instância e, portanto, alijado do pleito o favorito da maioria, seria legítima a eleição?

Creio que os botões de qualquer cidadão consciente pronunciariam um sonoro não, igual aos meus, indignados. O golpe do impeachment de Dilma Rousseff engatou no comboio de exceções, cujo objetivo final foi e é afastar Lula por meio das “convicções” do Santo Ofício de Curitiba.

Basta tornar Lula inelegível? Eis a questão. A realidade, pouco mais de um ano após a derrubada de Dilma, ou seja, da primeira exceção, é diferente daquela esperada pelos golpistas. O PT foi severamente atingido pela campanha anticorrupção movida pelos mais corruptos, mas Lula continua a ser o preferido do povo.

Mesmo fora do embate, ele assume automaticamente as funções de poderoso cabo eleitoral, aquele que sabe mobilizar as massas. Nas circunstâncias, lá vem a pergunta-chave: se o escolhido do ex-presidente liderar as pesquisas, que farão os senhores da casa-grande e a National Security Agency? São eles que, em perfeita sintonia, colocaram Temer no poder com a certeza do dever cumprido.

No dia seguinte ao impeachment, o Financial Times informava impávido: o novo presidente garante a estabilidade do Brasil. Deveria dizer, isto sim: garante apenas e tão somente a aplicação de políticas neoliberais, a entrega do País ao capital estrangeiro, a perene felicidade de ricos e super-ricos. Ou, por outra, ao cabo do dilúvio, que sobre apenas a nossa arca. Como haverão de reagir aqueles que colocaram um notório corrupto no poder se o projeto que levaram adiante, de exceção em exceção, estiver seriamente ameaçado?

O perigo tanto seria representado pelo candidato de Lula quanto por outro capaz de tomar rumos muito diferentes daqueles desejados pela casa-grande. Faço questão de não me referir ao fascismo de Bolsonaro. Quando à testa da Marcha sobre Roma, Mussolini entrou na capital, de cartola, polainas e as meias furadas, como escreveu o poeta Trilussa em romanesco, a Itália acabava de sair de uma guerra na qual perdera 600 mil soldados.

Os recalques da pequena-burguesia foram o suporte principal de um movimento destinado a gerar a ditadura totalitária em um país finalmente unificado pelo conflito mundial e ainda distante da contemporaneidade europeia.

Aquela pequena-burguesia tinha algum estudo e razoável cultura e sentia-se desprezada pelas “plutocracias” ocidentais. Almejava uma forte afirmação, e Mussolini soube atendê-la com seu nacionalismo, mais eventos bombásticos, encenações circenses, gestos de pretensa grandeza.

Naqueles tempos, que no espaço de duas décadas precipitariam a Segunda Guerra Mundial, nasceu o Partido Comunista Italiano, o mais importante do Ocidente, pela cisão dentro do Partido Socialista, de notável tradição. Com o conflito global, a Península viveu a sua verdadeira e tardia revolução, a guerra civil, e muito sangue correu pelas calçadas. Não há semelhança alguma com o Brasil atual.

A minoria que raciocina tropeça na grande incógnita: que acontecerá quando a casa-grande e a National Security Agency perceberem que seu candidato ideal não vai emplacar? Haverá uma exceção conclusiva, o golpe dentro do golpe, o AI-5 dos quadrilheiros? Ou quem até agora fez o que bem entendeu subitamente se disporá a entregar os pontos?

A hipótese parlamentarista, reminiscência passadista que o povo repudiou mais de 50 anos atrás para devolver por inteiro a Jango Goulart o poder que lhe cabia, esgota a chance de vingar no fim deste outubro e, tudo indica, é letra morta.

Há quem confie no respeito do resultado eleitoral, seja qual for, e imagine Michel Temer preso ao entregar o mandato. Não seria a licença poética de um sonhador? Se o golpe contou com a aliança dos próprios poderes da República, por que o conluio fatal seria desfeito como se os golpistas de repente fossem tomados por um irresistível impulso democrático?

A Operação Misericórdia pelo Brasil inspira-se muito mais, infinitamente mais, no ceticismo na inteligência do que no otimismo na ação. Mesmo assim, o apelo está feito: é bom encarar os fatos na tentativa de tirar conclusões, mesmo que assustadoras. “Há uma providência especial até na queda de um passarinho – dizia Shakespeare –, estar preparado é tudo.”

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