02/12/2017

Artigo: “Economia: Quem fica com a conta”

Por: Bernardo Kucinski

 

A frase acima é de Muhammad Yunus, Nobel da Paz em 2006 pela criação do Grameen Bank, o “banco para os pobres” de Bangladesh, e pelo seu papel na democratização do crédito no combate à pobreza. Yunus refere-se aos efeitos de uma recessão em países em que há muita gente no limite da sobrevivência. O Brasil é um deles. Na África, Ásia e países andinos a situação é pior. Ainda não se sabe se haverá recessão profunda em escala mundial. Ela já começou em duas grandes economias, França e Grã-Bretanha, e ameaça Alemanha, Espanha e a maior de todas, a americana. Se chegar lá, será inevitável a desaceleração econômica em outros países, inclusive Brasil e até China, que despacha a maior parte de suas exportações para os Estados Unidos.

A recessão é definida a partir da queda do produto, o PIB, em dois trimestres consecutivos. É a resposta do sistema a suas crises, um ajuste “doloroso, mas necessário”, dizem os banqueiros. Doloroso para os trabalhadores, pela redução no emprego e na renda, e para a classe média que será espremida. No Brasil, as previsões de crescimento já foram reduzidas. A projeção para 2009, de 2 milhões de novos empregos, caiu para 1,5 a 1,7 milhão, menos que o necessário para impedir o aumento do desemprego. São previsões pessimistas e em parte prematuras, mas que por si só reforçam a tendência à desaceleração econômica.

Antes mesmo de uma recessão, trabalhadores e classe média já estão pagando a conta. O prejuízo mais evidente, embora de menor peso no Brasil, é o dos que aplicaram suas economias em ações, ou usando seu FGTS, ou por meio dos fundos de multimercado, que os bancos vinham empurrando a clientes nos últimos dois anos. Um dia o valor da maioria das ações vai se recuperar, mas os que venderam no pânico das últimas semanas – abaixo do preço que compraram – já estão no prejuízo. Quem planejava vender em breve para dar entrada num apartamento ou carro, pode esquecer.

Já os abonados aproveitam a queda das cotações para aumentar suas carteiras de ações a preço de pechincha. São eles que estão comprando as ações que trabalhadores e remediados estão vendendo. Ricos ganham na ida e na volta. Ficou barato comprar. De janeiro até o “crash” de outubro, chegou a R$ 1 trilhão a perda de valor das ações na Bovespa.

Na construção civil, algumas empresas terão dificuldades em dar garantias para os financiamentos necessários ao término de suas obras, mas o prejuízo direto não é da empresa que abriu seu capital vendendo ações ao público e sim de quem comprou. Muitas delas estão recomprando as mesmas ações por um décimo do preço que venderam. Ficam com o capital e com as ações.

Outra fatura da crise está sendo cobrada dos que colocaram economias em fundos de investimento em geral. Aqui só não sofreram prejuízos maiores fundos conservadores, que aplicam a maior parte dos recursos em papéis do Tesouro Nacional, com baixo risco. Mas no resto do mundo o prejuízo é grande. Com o “crash” da primeira semana de outubro, chegou a 28% a perda média no valor das cotas dos fundos geridos pelos cinco maiores administradores dos EUA. Alguns já se auto-extinguiram, entre eles dois dos mais importantes: o Osprail, com patrimônio de US$ 28 bilhões, e o Putnam, com patrimônio, de US$ 12 bilhões. Outros devem fechar, porque mais e mais pessoas estão sacando. Os saques somaram US$ 72 bilhões.

Fundos de investimento de vários países, inclusive de pensão, compraram US$ 110 bilhões em “senior bonds” do Lehman, títulos que não tinham nenhuma garantia e hoje valem a metade. Em Hong Kong o desespero espalhou-se entre 40 mil pequenos comerciantes e trabalhadores autônomos que haviam sido persuadidos por uma rede local de 20 bancos a aplicar suas sofridas economias num outro título do Lehman, o “minibonds”, apresentado como aplicação segura e adequada a pequenos investidores. A perda pode chegar a US$ 2 bilhões. Eclodiu uma revolta tão forte que o banco central de Hong Kong poderá obrigar os bancos a recomprar os bônus pelo valor que venderam, diz a edição asiática do Wall Street Journal. Por enquanto, o desespero é dos pequenos poupadores.

Fundos de pensão

A mais dramática perda dos trabalhadores em escala global, parte dela recuperável apenas a longo prazo, é a dos fundos de previdência complementar, obrigatórios em muitos países. Mais afetados são os contribuintes em planos em que o valor do benefício não é pré-definido e que estão prestes a se aposentar. Ou adiam a aposentadoria, até o valor das ações se recuperar, ou se contentam com renda complementar menor. Nos planos de valor definido, o benefício é mantido, mas as empresas terão que tapar o buraco, obviamente aumentando preços de produtos e serviços ou reduzindo salários futuros.

No Brasil, 36% do patrimônio de R$ 460 bilhões dos fundos de pensão estão aplicados em Bolsa. Há ainda os fundos de geração de benefícios livres, os VGBL, geridos pelos bancos com incentivo fiscal, alguns dos quais aplicam parte de seus recursos em ações. “Só um milagre permitiria aos fundos de pensão cumprir suas metas atuariais este ano”, avalia o diretor de investimentos da Previ, Fábio Mozar. As perdas dos 350 fundos de pensão complementar superaram até outubro R$ 40 bilhões, segundo a Secretaria de Previdência Complementar do Ministério da Previdência. Salvou-nos de um desastre maior a demora do governo em autorizar os fundos a aplicar no exterior. Entre as mais afetadas está a Previ, que aplicou 65% do seu patrimônio em renda variável. Seu valor encolheu de R$ 140 bilhões em maio para R$ 125 bilhões em setembro.

Nos EUA, a perda é astronômica: US$ 2 trilhões, cerca de 20% do valor patrimonial. Na Coréia do Sul, o Fundo Nacional de Aposentadoria, quinto maior do mundo, tinha US$ 105 milhões aplicados em bancos americanos, dos quais US$ 60 milhões em ações e títulos do Lehman Brothers e do Merril Lynch e mais US$ 39 milhões em hipotecas da Fannie Mae e Freddie Mac.

Nem os mais precavidos escaparam. Não há maior sintoma de uma mente precavida do que o sujeito comprar uma apólice de seguro de vida. Só que a quebra da maior seguradora do mundo, a AIG, levou à suspensão dos pagamentos de seguros em Portugal, onde a AIG operava, e à falência de uma gigante japonesa, a Yamamoto, com mais de um século de existência, 177 mil clientes e US$ 2,7 bilhões de compromissos.

Na Grã-Bretanha, descobriu-se que mais de 11 bilhões de libras esterlinas de investidores em títulos supostamente com garantia (chamados Guaranteed Investment Bods, GIBs) estavam aplicadas via entidades financeiras americanas que quebraram. Mais de 10,5 bilhões de libras eram garantidos pela AIG, e meio bilhão pelo Lehman. Pedidos de resgate foram barrados por 90 dias. E os bancos não sabem responder se esses investimentos têm de fato garantia de alguma autoridade monetária superior caso o banco garantidor quebre, ou se era tudo papo furado.

Quem tem dinheiro aproveitou a liquidação

 

Os ricos aproveitam a queda das ações para aumentar suas carteiras por pechinchas, comprando ações de trabalhadores e remediados. O bilionário americano Warren Buffett, retratado pela mídia como herói, devorou uma fatia do Goldman Sachs por US$ 10 bilhões. Mais perto de nós, Armínio Fraga, do Fundo Gávea, abocanhou empresas e participações. Quatro grandes exportadoras já revelaram prejuízos grandes com a especulação: Votorantim, R$ 2,2 bi; Aracruz, R$ 1,85 bi; Sadia, R$ 760 milhões, e Petrobras, R$ 51 milhões. Estima-se que 200 empresas anunciem prejuízos no curto prazo. O da Sadia vai se refletir em cinco fundos de pensão com participação na empresa – Petros, Valia, Sistel, Real Grandeza e principalmente Previ.

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