10/01/2018

Artigo: “A burocratização do trabalho docente”

Por: Jean Paulo Pereira de Menezes

 

 A formação humana é um processo social. Educação não é mercadoria.

Duas afirmações clássicas, nos lábios e na pena daqueles que resistem diante da lógica da fábrica que não opera no mesmo sentido.

Na sociedade capitalista há uma forte preocupação com a informação, e, a educação é tratada como mercadoria, e mais, pode-se escolher o modelo que desejar, pois se vende de tudo um pouco.

Encontramos escolas, universidades de todas as cores, projetos de todos os tipos, professores e plataformas eletrônicas para as interações sociais mais sofisticadas! Nem precisa sair de casa, pois “temos” delivery. Nosso leitor poderia indagar: “mas assim mesmo não são relações sociais?”

É verdade que isso tudo representam relações sociais, mas trata-se de relações coisificadas, fetichizadas e estranhas.

A burocratização do trabalho docente atinge patamares estratosféricos. Cada vez mais o professor deixa de lado a sua função educativa para realizar os afazeres burocráticos. Não queremos dizer com isso que os registros, dos mais diversos, tipos não são importantes no trabalho docente, mas a centralidade burocrática secundariza aquilo que deveria ser o central: a formação humana.

A chamada reestruturação produtiva não se limitou às fábricas, o trabalho predominantemente intelectual também está sujeito a esta reestruturação da produção e no caso das ciências humanas chega atingir o ridículo.

Em todas as grandes áreas do conhecimento de acordo com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) o trabalho intelectual deve apresentar uma produção em tempo determinado e procurar ultrapassar, se possível (bater as metas), a quantidade planejada. Quanto mais se produzir, maior será a qualificação, por exemplo, de um programa junto a CAPES.

É verdade que uma atividade deve ser planejada, ter seu cronograma, e procurar estabelecer o tempo para o seu desenvolvimento. Todavia, esta deveria ser uma prerrogativa daqueles que pesquisa, do pesquisador, do intelectual. Entretanto, não é assim que funciona.

A lógica de produção do conhecimento segue a mesma da indústria metalúrgica no que tange ao reprodutivismo. Os operários, neste caso o docente, deve produzir de acordo com as metas impostas por terceiros a todo vapor. Outra questão central, aqui, é quem determina o tempo de produção para o trabalhador intelectual.

O tempo da produção do conhecimento e da formação humana não é o mesmo tempo mecânico do relógio. A dimensão temporal é outra diante da produção do conhecimento.

Se considerarmos que a produção do conhecimento é uma relação social complexa, temos a inviabilidade de afirmarmos: “você tem um semestre para apresentar um artigo científico!”

Por quê?

Porque uma relação social exige interlocuções, apreciações, leituras em larga escala, verificações de hipóteses, reformulações, negações, reconsiderações, traduções, problematizações.

Mas como resolver nos marcos da atualidade que vivemos esta equação? Não há resolução eficaz, ao menos estruturalmente, de imediato. Então o que fazemos?

Para “solucionar” o problema basta negarmos a premissa apresentada aqui: a produção do conhecimento é uma relação social.

Observem que ao negar a premissa pode-se dar uma forma artificial de resolução da equação, pois a produção do conhecimento seria uma produção e reprodução mecânica, assim como aquela da fábrica.

Nesta lógica de raciocínio equaciona-se a produção do conhecimento às necessidades da agência de fomento e os seus interesses mais imediatos. Qual o problema de tudo isso? A problemática central é: onde se localiza o pesquisador, o aluno?

Parece-nos sustentável afirmar que a localização do intelectual (docente ou aluno) é radicalmente semelhante a do operário da metalurgia: cumpridor de tarefas, com criatividade brutalmente reduzida e cada vez mais limitadas pelos prazos. Seguindo a negativa da premissa, esse trabalhador predominantemente intelectual deve executar com maestria as tarefas dadas com alto padrão de qualidade e em tempo eficaz de acordo com as exigências do mercado. Os desdobramentos negativos nesta perspectiva são muitos, como por exemplo: a cafetinagem acadêmica.

Deveria ser evidente que a produção do conhecimento é uma relação social e negar isso colabora para estranharmos cada vez mais a produção do conhecimento. Produzir uma investigação sobre a História da África, ou mesmo da América Latina exige tempo e deslocamentos, bagagem cultural (isso para qualquer área do conhecimento), um tempo singular para interpretação dos dados, etc. É importante lembrar que os clássicos do pensamento não produziram suas contribuições em um programa de graduação ou pós-graduação. Lembraria apenas alguns nomes: Demócrito, Tales, Sócrates, Platão, Aristóteles, Diógenes, Rousseau, Morgan, Marx, Darwin, etc.

Os desdobramentos das imposições para a produção do conhecimento de nosso tempo presente são absolutamente castradores, pois limitam a produção do conhecimento, reduzindo as possibilidades da criação e aperfeiçoamento já que a centralidade — a regência- não pertence ao pesquisador, mas ao financiador da produção. Este fato cria determinações até mesmo daquilo que será ou não pesquisado. Mas voltemos ao desdobramento até agora apenas citado: a cafetinagem.

Trata-se de um aspecto do problema e que representa um boa síntese de toda nossa argumentação, pois identificamos a existência deste comportamento na academia. É verdade que existem muitos intelectuais produzindo a duras penas o conhecimento nas universidades e devem ser tratados com o maior respeito diante das suas contribuições, mas nenhuma condescendência com os cafetões acadêmicos!

Este quadro que apresentamos aos nossos leitores possibilita a existência do burocrata-mor. Trata-se daquele intelectual que se preocupará, servilmente, em cumprir, sem questionar, os protocolos dos patrocinadores (parceiros) e que servirá os interesses mesmo que estes sejam antagônicos aos seus. Produzirá a todo vapor, por exemplo, dando vida a quatro (ou mais) artigos por ano; encaminhará em alguns semestres iniciações científicas e monográficas de conclusão de graduação; apresentará no prazo de dois anos (ou menos) dissertações de mestrado; em quatro anos (ou menos) apresentará pesquisas de doutoramento; participará de congressos, fará traduções, pesquisa de campo, aprenderá idiomas, publicará internacionalmente; desenvolverá cursos na estação espacial e desenvolverá coletas de materiais em solo lunar (…); tudo no prazo pré-estabelecido e com os relatórios e formulários impecáveis!

Diante destas imposições, para que o burocrata se sinta (em sua mais completa vaidade mesquinha) ao menos um “semi-deus”, colocará em ação os seus seguidores, auxiliares, orientandos e ovelhas em geral. Todos devem servir o rei-sol, caso desejem brilhar um dia. Não são poucos os explorados, oprimidos, assediados e violentados. Isso tudo me faz lembrar um faraó e seus escravos e também um monarca francês.

Usa-se este conjunto de agregados para atingir as metas, para ranquearem na mais elevada posição, quantificam a produção, coisificam e estranham as relações sociais da produção do conhecimento. Estes devem idolatrar o chefe (orientador ou correlato), devem pensar como ele, deve servir a ele… escrever artigos e colocar o seu nome, fazer pesquisa e dar-lhe os créditos, citá-lo incansavelmente e traduzir seus textos (na verdade escrito pelos alunos) e publicar em seu nome. Deve também comprar as suas brigas no departamento e idolatrar as agências de fomento. Tudo em nome da fábrica de reprodução do conhecimento!

É claro que cafetinagem acadêmica não é uma categoria elegante para falar desta situação, mas é a mais exata para expressar o que vivenciamos diante da burocratização do trabalho docente!

Preferimos nos colocar ao lado daqueles que resistem a tudo isso e lutam pela universidade pública, de qualidade, laica e socialmente referendada.

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