21/03/2018

Artigo: “Ainda não estamos derrotados!”

Por: Antonio Martins

 

Mais uma vez, o cenário mudou. A emoção gerada pelo assassinato brutal de Marielle Franco e Anderson Gomes mobilizou centenas de milhares de pessoas, em todo o país. As ruas voltaram a se encher de uma multidão aguerrida, insistente, multicor, que há muito não por convocação partidária, mas por convicção de que ou agimos já, ou o país se tornará insuportável. E como as multidões foram inumeráveis, os hipócritas tiveram de ceder. Todo o noticiário dos jornais e das TVs, que há alguns dias enxergava a intervenção no Rio como caminho para o resgate do Rio, abriu espaço a uma mulher negra que denunciou desde o início a militarização das favelas. As tímidas ações de fachada, adotadas pelo ministro Raul Jungmann e pela procuradora geral Raquel Dodge tiveram repercussão pífia.

As ruas coalhadas de gente frearão a grande maré de retrocessos? Há quem aposte, desde já, que sim. O jornalista Fernando Rodrigues, editor do Poder360º e insuspeito de defender o poder popular, enxerga hoje uma “disrupção”, capaz de “mudar o cenário eleitoral de 2018”, aplicar um “duro golpe” na intervenção sobre o Rio e favorecer o naufrágio da estratégia do Palácio do Planalto. Também vê o possível início de uma onda de mobilizações semelhante à de 2013.

Provavelmente, é otimismo demais. A intervenção não é apenas um plano de Temer para manter alguma relevância, tumultuar o ambiente político e evitar a prisão após o final do mandato. Ela socorreu os três grupos essenciais que se uniram em torno do golpe de 2016 – grande poder econômico, mídia e máfias parlamentares –, ao converter a segurança pública no grande tema nacional e evitar que crescesse uma forte corrente em favor da revogação da agenda de retrocessos. Por isso, a tendência natural é que, passadas a emoção de uns e a hipocrisia de outros, Marielle seja sepultada também pela avalanche de sensacionalismo e irrelevâncias com a qual os jornais e TVs usualmente escondem os fatos importantes.

Este choque – por um lado, multidões ansiosas por agir; por outro, a pressão do quotidiano, tendente a anular qualquer chance de ação transformadora – indica a necessidade de mais formulação política. Se, como tudo indica, a presença nas ruas é o único fator capaz de interromper a espiral rumo ao abismo, é preciso garantir que ela se sustente. Significa definir agendas que sejam capazes de convocar e, tanto quanto possível, unitárias.

O fim da intervenção é um primeiro passo óbvio. A presença dos militares no Rio, maciçamente respaldada pela mídia, teve de início apoio popular. Mas pode desgastar-se rapidamente, atingida por sua própria ineficácia – e o repúdio ao assassinato de Marielle pode ser um desencadeador. Ele deveria, por exemplo, convidar os partidos e movimentos presentes ontem nas ruas a manter o ímpeto. A denunciar movimentos como o do 41º Batalhão da Polícia Militar do Rio, que instaurou o terror na comunidade de Acari, numa sucessão de mortes e ameaças. Esta denúncia, que Marielle fez quase solitariamente, poderia desdobrar-se em uma sucessão de fatos políticos. O deslocamento sustentado de parlamentares,e de referências dos movimentos sociais, para as favelas onde a brutalidade é aguda. O convite aos correspondentes imprensa estrangeiros – muito menos alinhados com a agenda conservadora – para que acompanhem as visitas. A convocação de observadores internacionais, aproveitando a capacidade de apelo da sociedade civil brasileira.

A agenda de horrores não se manifesta apenas na intervenção. No Congresso Nacional tramitam propostas de gravidade extrema, sem que os parlamentares e seus partidos – mesmo os de esquerda – façam todos os esforços necessários para alertar sobre os riscos implicados. Em breve, as manifestações políticas podem tornar-se alvo da Lei Antiterror. As ocupações do MST e MTST estão ameaçadas de criminalização. A necessidade de licenciamento ambiental das grandes obras está em questão. As bancadas ruralistas tramam retirar da própria Anvisa o direito de vetar a venda de agrotóxicos cancerigenos. Etc etc etc.

Extremamente impopular, o Congresso que ameaça impor estas medidas não está sendo suficientemente deslegitimado. Muito se falou, desde as primeiras manifestações contra o golpe, em 2015, sobre a formação de Comitês Populares em defesa dos direitos e da democracia. A difusão sistemática de informações sobre a agenda de retrocessos ofereceria um poderoso combustível para tais comitês. Eles seriam, além disso, um primeiro passo para retomar o trabalho de base, um objetivo muitas vezes proposto (às vezes de forma mística) e tantas outras adiado.

E há, também, a agenda da contraofensiva. Até o final do ano passado, a proposta de questionar, por meio de Referendos Revogatórios, os retrocessos já consumados, avançava e espraiava-se. Fazia parte do discurso dos candidatos de esquerda. Começava a despertar polêmicas na mídia. Foi afastada, momentaneamente, por dois fatos. Primeiro, a antecipação do julgamento de Lula pelo TRF4 – polarizou as atenções do chamado “campo progressista”. Depois, a intervenção no Rio impôs uma volta a mais no torniquete do golpe e pareceu tornar a resistência inútil.

As mobilizações gigantescas de ontem expõem, mais uma vez, uma realidade contraditória. Não estamos diante de um jogo liquidado. O golpe e sua agenda são fortes pelo controle que exercem sobre o instituído; mas são vulneráveis pela incapacidade de criar consensos, de agir por outro caminho além da truculência. Há espaço para uma dissidência crescente. Mas ela não está dada, nem surgirá automaticamente

Construí-la com generosidade – evitando, em especial, que a disputa eleitoral torne-se um fator de desagregação das multidões que voltaram às ruas – é a maior homenagem que se pode prestar a Marielle Franco e Anderson Gomes.

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