17/04/2018

Artigo: “Brasil pós-golpe: um show de psicopatia”

Por: João Vitor Cardoso

 

Como observou Suely Rolnik, o script dos novos golpes de Estado “é um verdadeiro show de psicopatia”. A imagem de Carmem Lúcia sob o letreiro iluminado do Bahamas, enquanto Oscar Maroni simula assassinar uma mulher seminua, para alguns, celebra a vitória da moralidade pública contra a corrupção. A cena do corpo feminino extirpado, forçado ao ato de exposição sexual, abaixo do quadro de Carmem Lúcia, é não só metafórica, mas também paradoxal: um gran finale para o seriado pós-verídico que coroa o golpe de 2016.

“É sexy gritar contra o Lula”, disse a coordenadora do Vem pra Rua. Por sua vez, a subcelebridade Sabrina Boing Boing postou uma foto sensual para comemorar a ordem de prisão. Nessa senda, uma série de iniciativas e movimentos que não se dizem políticos, nem tem qualquer relação com a política representativa, não só cafetões moralistas, mas também elitistas, escravocratas, racistas, machos valentões, enfim, uniram Carmem Lúcia a Oscar Maroni. Esses novos personagens de poder, que apalpam e depauperam, que nos atravessam e nos torpedeiam, entorpecem, abaixo da linha da consciência, para não dizer, abaixo da linha da cintura. A pergunta que responderemos a seguir é: seria a constatação de algum tipo de regime “narcoticosexual”, como diria Paul B. Preciado, vigente no Brasil?

Vale lembrar, a Presidente da Suprema Corte (nota gramático-política: Carmem recusou o uso do termo Presidenta), que não se confunde com a Musa da Lava Jato, desde o início adotou uma postura masculina: renunciou ao “fazer-se mulher” como categoria ético-política para engajar-se na vida pública, filiando-se a uma corrente ideológica segregada e dominada por homens embolorados.

Em Mil Platôs, Deleuze & Guattari (2008, 70) apontam que “todos os devires começam e passam pelo devir-mulher”. Os autores argumentam que a noção de “ser humano homem macho heterossexual branco adulto” é o ponto focal que estrutura o pensamento ocidental, que é excludente e repressivo em vários níveis. Em suma, dizem: “o padrão majoritário é vazio. O homem macho, adulto, não tem devir. Pode devir-mulher e virar minoria”. Ou seja, o homem não entra em devir porque, para a forma homem, que dizima modos de vida minoritários, frágeis, hesitantes, ora ainda nascentes, tudo está em segundo plano, tudo veio depois dele; ao passo que o devir-mulher, devir-revolucionário, causa a transformação daquilo que somos, questionando as instituições e acontecimentos que reproduzem as estruturas de dominação.

Com inspiração nestes conceitos, o pensador Paul B. Preciado identifica na atualidade um regime farmacopornográfico, que se daria pela aparição de um regime pósindustrial, global e midiático que toma como referência, por um lado, os processos biomoleculares (fármaco), e, por outro, o semiótico-técnico (pornográfico); polos que operam mais em convergência do que em oposição na constituição de uma nova subjetividade sexual. Destarte, o autor cruza a análise performativa de Judith Butler com a arqueologia crítica dos dispositivos disciplinares de Foucault, levando-os para o território do corpo, e das tecnologias bioquímicas e pornográficas. Aqui, entramos na questão do farmacopoder. Nele, a gestão dos corpos se leva a cabo através de novas dinâmicas do tecnocapitalismo avançado, que se materializa por meio do estabelecimento da autoridade de substâncias químicas, moléculas comercializáveis, biótipos humanos, artefatos elevados à categoria de bens de consumo, geridos por multinacionais farmacêuticas.

Nesse sentido, como dispositivo virtual (audiovisual, masturbatório, cibernético), a Lava Jato, que já havia sido alçada à qualidade de espetáculo, transformou-se em Operação Leva-Jato ao ser absorvida pela indústria pornográfica. A imagem que une Oscar Maroni, uma mulher seminua tomada à força, Sergio Moro e Carmem Lúcia, que rapidamente viralizou nas redes, revela de forma singular a pragmática do capitalismo narcotisexual institucionalizado. Difícil ser mais explícito.

Sobre a presunção de inocência, mesmo com Lula preso, outros condenados em 2ª instancia seguirão soltos. A proteção de direitos fundamentais, a supremacia da Constituição, o império da lei, tudo isso cedeu ao triunfo da colonização do poder judiciário pela grande imprensa, consubstanciando o modus operandi do novo regime colonial-capitalístico. Em suma, o julgamento de quarta-feira foi um atentado ao pudor, ou, como disse Lenio Streck, “um tsunami jurídico”. Nessa jusante, “é preciso distinguir redemoinho de pororoca, quais direções são constituintes, quais apenas repisam o instituído e quais comportam risco de retrocesso institucional”, lembrando do alerta de Peter Pál Pelbart, ao comentar as jornadas de julho de 2013. É tempo de reativar a micropolítica tropical, nossa capacidade coletiva de descolonização do inconsciente e de resistir cotidianamente aos agenciamentos capitalísticos e neocoloniais que grassam por toda parte, não só para mudar a sociedade, senão à vida mesma. Nesse cenário de crise constitucional, a restauração da legitimidade de nossas lutas constituintes passa por devir-mulher, por devir-negro, por devir-animal, devires que estão na linha de frente da resistência à barbárie neoliberal.

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