10/05/2018

Artigo: “Na Bíblia, Sabedoria é Teologia Política”

Por: Frei Gilvander Moreira

 

Em 2018, todas as pessoas e comunidades cristãs são convidadas a refletir e inspirar a caminhada, especialmente no mês de setembro – mês da Bíblia -, sobre o livro da Sabedoria. O Livro da Sabedoria é uma espécie de Chave de Ouro, que encerra a 1ª Aliança e nos convida para abraçarmos a novidade da 2ª Aliança. O livro da Sabedoria nos mostra que governo sábio e justo é o que promove o bem comum (Sabedoria 1,1-7.14).

Na Bíblia, entre o livro de Cântico dos Cânticos e Eclesiástico estão os 19 capítulos do Livro da Sabedoria. Escrito originalmente em grego, o Livro da Sabedoria é um dos livros deuterocanônicos, o último do Primeiro Testamento a ser escrito, por volta do ano 40 antes da Era Comum (A. C.). O Livro da Sabedoria poderia ser chamado Livro da Justiça.

O autor escreve o termo Sabedoria, mas está pensando no termo Justiça. Atento à ênfase que se dá à sabedoria enquanto prática da justiça, como bem comum para todos, sem discriminar ninguém, o biblista Ivo Storniolo coloca como subtítulo do livro Como ler o Livro da Sabedoria, o seguinte: A Sabedoria de Israel é o Senso da Justiça.

Nos cinco primeiros capítulos, o Livro da Sabedoria tece comparação entre a vida das pessoas justas e das injustas durante a vida terrena e após a morte. No Livro da Sabedoria, nos capítulos 6 a 9, há reflexão sobre a origem e a natureza da sabedoria e o caminho para adquiri-la. A autoria atribuída a Salomão (Cf. Sabedoria 9,7-8.12) é um artifício literário que busca dar credibilidade ao livro. Na verdade, o/a autor/a deve ter sido uma pessoa judaica com fé no “Deus dos Pais” (Cf. Sabedoria 9,1), que, com consciência histórica libertadora, enfatizava a beleza de se cultivar a memória da libertação do Egito, das garras do imperialismo dos faraós, mas profundamente influenciado pela cultura helenista. Sem ser filósofo ou teólogo, mas sábio/a, é possível que o/a autor/a tenha vivido na grande cidade de Alexandria, no Egito. Essa cidade se tornou “capital do helenismo” sob o governo dos Ptolomeus, mas, com cerca de 200 mil judeus, a cidade acolheu milhares de pessoas judaicas em diáspora forçada.

Em Sabedoria 1,1-15, primeira perícope de abertura do Livro da Sabedoria, são tecidas reflexões no sentido de demonstrar que o cume da sabedoria é a vivência e prática da justiça; não é apenas fazer solidariedade ou demonstrar amor ingênuo ao próximo. Afirma também que só pode ser sabedoria uma justiça que gera bem comum para todos. Segundo o biblista Luis Afonso Schokel, o livro da Sabedoria é um tratado de teologia política. Tal conclusão deriva, entre vários motivos, do fato de iniciar-se o livro com uma exortação a quem tem a missão de governar, diríamos hoje, os chefes do Estado – poderes Judiciário, Executivo e Legislativo: “Amem a justiça, vocês que governam a terra…” (Sabedoria 1,1a). De saída, critica os legalistas e os que friamente e farisaicamente aplicam as leis como se pudessem ser neutros. “Se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor”, profetiza o bispo Desmond Tutu. Sem amor aos injustiçados e oprimidos e sem compromisso com a luta pelos seus direitos, o exercício do poder de julgar se torna fonte de opressão e de exploração.

“O espírito santo, que educa, foge da fraude, afasta-se dos pensamentos insensatos, e é expulso quando sobrevém a injustiça” (Sabedoria 1,5). Onde acontece fraude – opressão e corrupção -, portanto, afugenta-se um espírito vivificador, pois um espírito diabólico, que desune e cria intriga, se instaura. Onde domina a injustiça, um espírito destrutivo domina e escorraça um espírito construtivo.

“Haverá investigação sobre os projetos do injusto, e o rumor das palavras dele chegará até o Senhor, e seus crimes ficarão comprovados” (Sabedoria 1,9). O/a sábio/a, autor/a do Livro da Sabedoria anima a esperança do povo injustiçado ao afirmar que os injustos não ficarão impunes; os crimes dos injustos serão investigados e comprovados. Nenhuma luta por justiça é em vão. Essa esperança se constrói na luta comunitária, ao tornar presentes as lutas libertárias do passado, cultivando a fé e os feitos “dos nossos pais” (Sabedoria 9,1).

“Deus não fez a morte, nem se alegra com a perdição dos seres vivos. Ele criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo são sadias” (Sabedoria 1,13-14a). O/a sábio/a autor/a não apenas alimenta a fé em Deus, como se houvesse um Deus abstrato, mas anima a fé em um Deus que quer “vida em abundância” (João 10,10), não apenas para os seres humanos, mas para todos os seres vivos. Esse Deus pula de alegria com a vida de todos os seres vivos, não quer a morte de nenhum deles. “As criaturas do mundo são sadias” – diz o/a autor/a (Sabedoria 1,14a). Ou ainda: “Deus criou o ser humano para ser incorruptível e o fez à imagem da sua própria natureza” (Sabedoria 1,23). Eis os sinais de que Sabedoria faz reminiscência – e reafirma – o que está em Gênesis 1: a constatação, em forma poética, de um refrão seis vezes repetido: que todas as criaturas são boas, lindas, uma beleza! “E Deus viu que era bom.” (Gênesis 1,4. 10.18.21.25) No final, ao concluir a obra, nas ondas da evolução: “Deus viu tudo (…) e tudo era muito bom!” (Gênesis 1,31). Todos os seres vivos são puros, são sagrados. Essa mística criacional, o Livro da Sabedoria acolhe do Gênesis, reafirma e dissemina. O mesmo é reafirmado na linguagem do livro de Atos dos Apóstolos; podemos dizer: não há nada impuro no que Deus criou. (Cf. Atos dos Apóstolos 10,15).

A maior sabedoria é praticar a justiça que só pode ser justiça verdadeira, se gerar bem comum para todos. Todo saber que maquina e engendra exploração do outro não é sabedoria, é injustiça. O livro da Sabedoria é um libelo contra os injustos e exploradores que vivem no luxo, com vida cômoda, esnobando riqueza e privilégios e, na prática, cuspindo no rosto dos empobrecidos.

Enfim, o Livro da Sabedoria é uma espécie de teologia política, que aponta para a prática da justiça como a chave da sabedoria, de forma que todas/os as/os filhas e filhos de Deus e da mãe terra sejam respeitados/as em sua dignidade e em seus direitos, e tenham vida em abundância. Só pode ser sabedoria uma justiça que gera bem comum para todos os seres vivos. Justiça de fariseu ou de doutor da lei, ou justiça tardia não é justiça.

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