08/07/2018

Artigo: Coxinhas, o que nos espera é a mexicanização

Por: Mauro Santayanna

 

Se tivesse tempo, um artigo cada vez mais escasso no meu caso, gostaria de escrever um livro que poderia se chamar “garrafas ao mar” ou “notas ao pé da história” na esperança de que essas linhas fossem lidas por alguém daqui a algumas décadas. Dele constaria um extenso capítulo chamado “diários” ou “protocolos” da capitulação, para descrever – com nomes, datas e fatos – os tempos vergonhosos que estamos vivendo. Tempos irresponsáveis e temerários com relação ao que estamos fazendo com o nosso futuro como nação.

Só a janela aberta, por meio de um impeachment espúrio, para a repentina ascensão de um governo ilegítimo e antinacional ao poder, consegue explicar a ofegante sofreguidão com que o Brasil tem sido entregue a seus concorrentes e a eventuais controladores externos, nestes anos de sabotagem da democracia que podem levar o país ao fascismo, a partir do próximo ano.

De um país que saiu da 14ª economia do mundo em 2002 para sexta em 2011, que lançou o Brics, quintuplicou o PIB, pagou a dívida com o FMI, que estava construindo tanques, submarinos – incluído um de propulsão atômica –, aceleradores de partículas, caças supersônicos, aviões de transporte militar, radares, fuzis de assalto, mísseis de saturação e até mesmo de cruzeiro, nos transformamos em uma republiqueta de bananas, quase da noite para o dia.

A cargo de uma administração que, embora não consiga assegurar a chegada de combustíveis aos postos de gasolina, assinou documentos garantindo a entrega de centenas de milhões de barris das reservas de petróleo do pré-sal para empresas estrangeiras, algumas delas estatais, ou sob controle de governos de outros países.

Que negocia a entrega da Embraer para a Boeing, com o estabelecimento de uma parceria que lembra aquela que o porco firmou com a galinha para vender ovos com bacon.

Que, em um momento em que os Estado Unidos repassam seu programa espacial para a iniciativa privada – vide a Space-X, de Elon Musk –, pretende entregar o controle da Base Espacial de Alcântara para os norte-americanos sem ao menos pensar em equilibrar essa doação com a negociação da construção de outras bases espaciais em nossa linha do Equador em aliança com outras nações, muito mais propensas a nos transferir tecnologia, como a Rússia, a Índia e a China.

Que pretende também entregar os nossos céus, agora, sem restrições, com a cumplicidade do Congresso, a companhias aéreas estrangeiras.

Em um país que desfila – em discutíveis marchas em que todos os fascistas comparecem, menos Jesus, porque esse nunca foi fascista – defendendo a transferência da embaixada brasileira para Jerusalém, com bandeiras de Israel, saudando a direita sionista.

Um governo que abandona a doutrina de não interferência em assuntos internos de outras nações, para comandar na Organização dos Estados Americanos, lado a lado com os EUA, ao contrário do que fizemos com Cuba, em 1962, quando nos abstivemos, o indecente processo de cerco contra a Venezuela. 

Enquanto isso, as verdadeiras intenções do “ocidente” com relação ao Brasil, ficam cada vez mais claras, com o processo de “ucranização” da Colômbia e sua entrada na Otan e também na OCDE, aqui celebrado por vira-latas inquietos como um sinal do sucesso daquele país e do “atraso” brasileiro nas relações internacionais.

Não se entende que da mesma forma que o avanço do processo de entrada de Kiev na Otan – no dia 10 de março de 2018 essa organização reconheceu o status da Ucrânia como “país candidato” – está voltado para completar o cerco do “ocidente”, por meio de países satélites, contra a Rússia; a entrada da Colômbia na organização, longe de estar sendo feita contra a Venezuela, dá início a cerco semelhante do Brasil por nações sob o mando militar da Europa e dos Estados Unidos, com a possível instalação, no futuro, de mísseis do outro lado das nossas fronteiras – como ocorreu com a recente colocação de foguetes Patriot na Lituânia dirigidos contra a Rússia – que estarão voltados não para Caracas, mas para as principais cidades e alvos militares brasileiros.

A estratégia geopolítica “ocidental” é clara. Sabotar e cooptar o Brasil ou nos cercar militarmente, espalhando bases em países que estiverem em nossas fronteiras.

Assegurar a eleição de governos fantoches de direita – no caso da Ucrânia foram governos de inspiração neonazista –, assim como estão tentando fazer em volta da Rússia de Putin e, em menor escala, com a China, que está fortalecendo sua presença na Ásia e no Pacífico e não lhes permite essa ousadia.

Para inviabilizar, com isso, a continuidade do Brics, a única alternativa multilateralista capaz de desafiar a hegemonia anglo-saxã no mundo e a principal razão de ordem externa por trás dos golpes sofridos pelo PT, nos últimos anos, e de Lula estar sendo mantido na cadeia, afastado das eleições presidenciais.

Uma missão cumprida por uma justiça dócil, ou, no mínimo simpática aos interesses norte-americanos e “ocidentais”, treinada, manipulada e corrompida, pelos gringos, com cursos de “liderança”, seminários de “cooperação”, espelhinhos e miçangas, como vemos com os regabofes para Moro promovidos pelos Estados Unidos e países satélites, em terras estrangeiras.

O objetivo é controlar o Brasil tirando-nos todos os instrumentos – como os bancos públicos, a Embraer, a Base Espacial de Alcântara, a Petrobras e o pré-sal – que possam possibilitar o nosso desenvolvimento autônomo, consolidando, a partir disso, do fim da Unasul e do Conselho de Segurança da América do Sul, o domínio do nosso subcontinente, já que, como disse Richard Nixon, certa vez, “para onde for o Brasil, também irá a América Latina”.

Quanto à OCDE, aqui celebrada pela coxinhice ignorante e viralatista como um clube de países desenvolvidos, é mais uma organização factoide, criada para enfraquecer a cooperação sul-sul, sem nenhuma importância geopolítica concreta, a não ser a de ajudar a manter sob controle os países menores que se candidatam a entrar nela.

Se fosse um clube de ricos, a OCDE não contaria com o México – a não ser como mordomo. Um país que, apesar de ser membro dessa organização e do Nafta há muito tempo, tem hoje mais pobres do que tinha há 20 anos, como afirma, apoiado pelas estatísticas de praxe, o candidato às eleições presidenciais de julho naquele país, Ricardo Anaya.

Iludem-se aqueles que acreditam que, entregando de mão beijada o Brasil ou entrando como “sócio global”, e nos alinhando geopoliticamente aos Estados Unidos e à Europa, abandonando qualquer veleidade de desenvolvimento autônomo, iremos nos transformar, daqui a uns 50 anos, em uma espécie de Austrália.

Acorda, Muttley! Não se iludam, coxinhas!

Por aqui não temos cangurus, nem somos todos branquinhos, de olhos verdes e azuis, não merecemos ser súditos da Rainha, não temos entrada franca nos EUA, nem pertencemos à Commonwealth – somos devolvidos dos aeroportos europeus, aos magotes, mesmo quando estamos indo a turismo, gastar dinheiro.

Independência, altivez, soberania?

“Never more”, diria o corvo de Edgar Allan Poe.

Neste caminho, o que nos espera é o glorioso destino mexicano – tão longe de Deus e tão perto dos EUA, segundo Porfírio Diaz, coitados. Um “sócio” ocidental em vias de ser aprisionado por um muro em que poderia ser perfeitamente afixado, do lado norte-americano, um cartaz com um “mantenha do outro lado os animais” escrito, e que por mais que exporte maquilas não consegue ter os superávits brasileiros, no qual o salário mínimo em janeiro de 2018 foi de US$ 4,6 dólares por dia, excluídos finais de semana.

Não há nada mais indecoroso do que entregar um país depois de exterminar seus sonhos, com um banho altamente tóxico de mentiras e hipocrisia.

Ao fazer o que está fazendo – o que inclui a provável desnacionalização da Eletrobras, uma das maiores distribuidoras de energia elétrica do mundo, também a preço de banana –, apesar de ter arrecadado em impostos cerca de R$ 1 trilhão no primeiro semestre e de estar sentado sobre US$ 380 bilhões em reservas internacionais herdadas, em mais 95%, dos governos Lula e Dilma, o atual governo assina, sob o olhar implacável da História, os protocolos da capitulação de uma nação que há alguns anos pretendia ser grande, independente e forte, e que, devido ao avanço da subserviência e de um movimento de extrema-direita abjeto, derivado das costelas do lawfare, do golpismo e do entreguismo apátrida, tão em voga na internet nos dias de hoje, está cada vez menor, tanto no contexto moral quanto no geopolítico.

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