16/08/2016

Entrevista com a escritora Amara Moira

 

Doutoranda em crítica literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a escritora Amara Moira, 31, tem muita história para contar. A principal delas acaba de dar origem ao livro “E Se Eu Fosse Puta”, um relato autobiográfico que narra a transição da escritora, que assumiu-se travesti bissexual há pouco mais de dois anos.

Ligada ao mundo dos livros desde bem jovem, Amara prepara sua tese sobre “Ulysses”, do irlandês James Joyce, com previsão de defesa para o próximo mês de fevereiro. Durante o processo de pesquisa, teve que lidar com o início de sua construção como mulher, quando também decidiu dedicar-se à prostituição. A vivência, ressalta Amara, tornou-se fonte de inspiração.

Os últimos anos de trabalho nas ruas resultaram em experiências e descobertas reunidas primeiro em um blog, e agora no livro de estreia, que traz as angústias e as surpresas de Amara. “Não conseguia voltar da rua e não externar aquilo de alguma forma.”

Na escrita, também conseguiu refletir sobre sua militância no movimento LGBT. Abaixo, a doutoranda fala sobre a formação de sua identidade feminina, a trajetória na vida acadêmica e sobre a prostituição.

Veja a entrevista:

Quando você resolveu escrever sobre suas experiências?

Eu comecei com uma página no Facebook, mas a rede social não lida muito bem com linguagens fora dos padrões da família tradicional brasileira (risos), então a página foi atacada e tirada do ar. Perdi cinco ou seis meses de publicações e recomecei do zero no final de 2014.

A literatura sempre foi algo muito presente na minha vida. Quando entrei na graduação, achei que ia virar escritora, mas fiquei anos sem conseguir escrever nada. Me comparava a outros escritores e me achava ruim. Dois anos atrás, passei pela transformação social de construir minha identidade feminina. Quando veio esse processo, senti necessidade de escrever. A prostituição veio como um segundo passo. Não conseguia estar na rua e não colocar as coisas no papel. Enlouqueceria se não escrevesse. Era a forma que eu tinha para lidar com a experiência e compartilhar com outras pessoas.

Sua identidade feminina foi formada de maneira tardia, algo pouco comum, acho. Por quê?

Me perguntam mesmo por que transicionei tão tarde. Eu tinha um medo grande e brutal de perder a vida que eu estava construindo. Medo do estigma, de perder a possibilidade de continuar estudando, de perder um emprego formal. As portas se fecham na cara quando se é uma travesti. E a prostituição não é para ganhar R$ 300 por hora, bem longe disso. Se fosse, ainda haveria a chance de comprar cidadania, porque com dinheiro compramos cidadania. Quando comecei a transição e não tive que ir pra prostituição obrigatoriamente, me senti mais leve. Ir para a prostituição sem ser obrigada fez com que eu lidasse com meus fantasmas, meus medos. Quando relato o que vivi e o que vivo, quero que as pessoas possam se imaginar no meu lugar. Quero humanizar a travesti e também a prostituta.

E até os 29, quando se assumiu travesti, como lidou com a própria sexualidade?

Há casos e casos. Eu gosto de usar a história da (cartunista) Laerte. Em 2004, ela criou o personagem Hugo e ele gostava de se travestir para fugir da massa, por motivos estapafúrdios. No meio desse jogo, Hugo acaba descobrindo que ser travesti era um prazer, e passa a ser fiel a um desejo transgênero que existia dentro de si e que ele não tinha consciência. Continuar como Hugo não fazia sentido e aí surge a Muriel. Gosto disso pois precisamos de uma brecha para viver a experiência. Era como se eu tivesse sempre a consciência de que viver como homem era um papel que eu cumpria para não ser violentada. Pensava que se eu não fosse homem do jeito que queriam, a violência viria pesada para cima de mim. Tanto que na infância e na adolescência, eu me preocupava muito que as pessoas me lessem como homem.

Aos 25, 26 comecei a entender a minha vontade de forma mais consciente. Já tinha namorado uma transexual, já tinha provado roupas dela, mas era muito sofrido poder viver tão pouquinho aquilo. Comecei a pesquisar lista de hormônios na internet, comprei sem saber o que ia acontecer e em duas semanas usando, quase enlouqueci. Estava no mestrado. Não consegui lidar com aquilo, joguei fora, fui numa psicóloga e ela quis entender de onde veio essa pulsão. Conheci algumas transexuais da Unicamp, comecei a participar dos coletivos LGBT… Nessa idade ainda tinha aparência masculina, tinha barba. Por mais que eu fosse bi, todos me entendiam como um homem hetero, pois nada na minha aparência levantava essa suspeita. Todas as minhas relações assumidas haviam sido com mulheres e com travestis. Hoje moro junto com uma mulher bissexual.

E quando resolveu trilhar a vida acadêmica?

Sempre gostei muito de estudar. Aprendia as coisas de forma rápida, sofria bullying porque me chamavam de nerd, isso me trouxe problemas. Mas depois vi que ser inteligente era algo bom. Comecei a gostar de estudar, lia muitos livros, tomei gosto por isso. Me formei em Letras, fiz mestrado em Teoria Literária. E quando comecei minha transição, senti a necessidade de fazer coisas que dialogassem com o mundo, que pulassem os muros da universidade. A literatura é um terreno de eruditos e especialistas, mas deveria ser algo a que todos possam ter acesso. Se eu fosse uma travesti estudiosa de literatura, não conseguiria mudar nada no mundo de uma travesti. Aí entrei em choque com meu projeto de doutorado (sobre Ulysses, de James Joyce) e quis fazer algo mais impactante, como o livro. A academia não consegue se abrir para o que estou fazendo. Quero mudar o mundo, não posso esperar 100 anos. O livro e minha militância foram um escape.

De onde veio a ideia de estudar James Joyce?

Até o final da graduação eu estudava poesia erótica e, em especial, as cantigas de escárnio e maldizer medievais. Sabia muito sobre as cantigas. Em 2010, um professor deu uma disciplina só sobre Ulysses, que é uma obra que não dá para ler sozinha, você precisa de ajuda. Resolvi fazer como ouvinte. Quatro aulas depois, estava tomada pelo livro e resolvi fazer um projeto de mestrado. Gosto muito de Joyce porque ele brincou com tudo. Estudar esse livro é como estudar toda a humanidade. Toda ideia embrionária que eu tinha, passava a achar ruim porque minha referência era James Joyce.

Com o tema da representação tão em alta, as trans estão mobilizadas para eleger quem defenda suas pautas?

A população trans em geral é pequena. Grande parte foi submetida a processos desumanizadores, como a própria exclusão social. Então não é difícil ver essas pessoas assumindo posições conservadoras em termos de política. Algumas se destacam no meio da multidão, ganham notoriedade aos trancos e barrancos. E muitos estão lutando para disputar a opinião pública, para mostrar que nossas pautas não são frescura, não são brincadeiras. A violência que sofremos é palpável e concreta. Isso faz com que muita gente que nem é LGBT comece a ver um significado grande na possibilidade de estarmos à frente das discussões políticas. É sintomático: estamos disputando lugares na sociedade, nos fazendo ouvir e conseguindo nos organizar coletivamente, de uma forma ou de outra.

O que foi mais difícil nesse tempo de prostituição?

Pensar que você está lá e, num dia pode estar fazendo mais dinheiro, mas no outro pode estar fazendo dinheiro nenhum. Quando estamos ganhando pouco, começamos a nos medir. E aí pensamos que temos que melhorar: “será que é a maquiagem?”, “tenho que botar silicone?”... Nossa auto-estima vai no chão. A rua faz uma competição, coloca uma contra a outra. Tem que ter a cabeça no lugar para não entrar em briga com amiga, porque o ambiente já é hostil por si só. Saber que nossa vida vale pouco também é muito difícil. Tem cliente que oferece R$ 10 a mais para transar sem camisinha. E você tem que saber que ele vai tentar te forçar a isso. Demanda sangue frio, para medir forças e não precisar chamar a polícia, pois no fim sempre sobra para a prostituta, ainda mais se for travesti. A oferta dos R$ 10 a mais diz muito sobre o quanto o cliente acha que nossa vida vale. E essa é a mesma visão da sociedade: a de que valemos pouco.

E qual foi a maior descoberta, a maior surpresa?

Acho que é até um spoiler do capítulo final do livro, o meu favorito. A maior surpresa é que nós vemos os homens de uma forma que a sociedade não consegue ver. Ali, tiramos todas as máscaras que o machismo colocou nos homens. No quarto, eles falam o que querem, contam as fantasias de passividade, de submissão. Poder olhar os homens de pertinho é incrível. Se a sociedade quiser saber quem são os homens que ela criou, deve perguntar às prostitutas.

Algumas pessoas fazem críticas a você, como se você não tivesse uma vivência real da prostituição, porque não entrou por necessidade...

Eu acho que uma resposta para isso é pensarmos que a mulher que exerce sua sexualidade é sempre considerada menor. O sexo é algo muito central na nossa cultura, mas é algo que não pode ser profissionalizado, segundo a sociedade. Você não pode querer trabalhar com isso. Eu hoje vivo da minha bolsa de doutorado, que é de R$ 2 mil, mas não descarto voltar para a rua. No livro, eu narro o que eu vivi e gosto de pensar que estou abrindo portas. A sociedade até agora não quis ouvir as prostitutas, mas nós temos muitas histórias para contar. É fácil querer ouvir a travesti branca que estuda. Mas se tem que começar comigo, quero trazer outros relatos. Quero usar esse privilégio para dar voz, para falar sobre o que é prostituir-se, o que é ser travesti. Nos últimos 30 anos, as prostitutas conseguiram mudanças para quem trabalha nas ruas. Hoje, quero que as pessoas se imaginem no nosso lugar, para que nos tratem de forma mais humana.

O Projeto de Lei que regulamenta a atividade dos profissionais do sexo está parado, mas levanta bastante polêmica. Qual a sua opinião?

Do jeito que anda o nosso Congresso, (regulamentar) é algo impensável. Mas temos que forçar a sociedade a pensar e a discutir sobre a prostituição. Isso já é um mérito conquistado. Aprovado ou não, o Projeto de Lei forçou os movimentos sociais a se posicionarem e se informarem sobre isso. Ganhou a atenção dos jornais, da mídia, do movimento estudantil, do movimento feminista. Outro ponto importante do PL é algo que quem trabalhou na rua sabe bem: trabalhar em casas pode ser muito mais seguro. Na rua tem chuva, tem frio, tem bicho, tem calor, tem exposição, violência e polícia. Na casa, quando o cliente tem que sair do carro e negociar, já facilita a vida da prostituta. Pensamos em garantir a segurança, sobretudo. Dar melhores condições de trabalho. Mas também não queremos relações abusivas com os donos das casas. É uma questão delicada, mas é necessário que possamos escolher entre ir para a rua ou ir trabalhar numa casa – ambas as possibilidades de maneira legal.

E como você vê a resistência da sociedade e do poder público em relação a algo tão simples quanto o uso do nome social?

Mesmo quando retificamos documentos, temos problemas. Tenho amigas que foram parar na delegacia e o próprio delegado as acusava de falsidade ideológica. No banco, um funcionário pega seu documento e diz que não é seu. No médico, gritam o nome masculino e a trans não levanta. Eu levanto, grito meu nome e depois vou na ouvidoria do hospital reclamar. Para você ver como a política do nome social não é suficiente, já fui chamada pelo nome masculino no ambulatório de atendimento a trans e travestis em São Paulo. Isso acontece pois nos veem como fraudes, como se quiséssemos nos passar pelo que não são. A sociedade precisa desmascarar a travesti, tem que humilhar, escarnecer. Porque somos vistas como o limite, não podemos estar fora da caixinha.

 

 

Entrevista publicada originalmente em Gazetaonline

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