12/11/2017

Entrevista o sindicalista Juan Carlos Schmid

 

Juan Carlos Schmid (Rosário, 1951) tem todos os traços, inclusive os físicos, do mito do sindicalismo argentino. Com a pele marcada por milhares de batalhas nos portos onde começou como aprendiz e acabou como líder do sindicato de Dragagem e Balizamento, onde conseguiu salários para seus afiliados invejados por todos, homem de Hugo Moyano, o histórico líder do Sindicato dos Caminhoneiros, agora faz parte do triunvirato que comanda a CGT, a grande referência sindical argentina. Schmid se prepara para uma difícil negociação com o presidente argentino Mauricio Macri, que quer fazer uma grande reforma trabalhista e outra previdenciária. Da sede histórica da CGT, que conserva intacta a sala onde Perón e Evita discursavam, e com seus elevadores com pesadas portas de ferro dos anos quarenta, Schmid fala sobre pactos, mas alerta Macri para não acreditar que a vitória eleitoral lhe permitirá destruir a resistência peronista.

·         Leia a entrevista:

Macri ganhou as eleições e quer fazer uma reforma trabalhista importante e outra previdenciária. Como os sindicatos peronistas responderão?

Antes das eleições, conversamos sobre chegar a acordos; havia uma agenda de reformas. O Ministro do Trabalho esteve aqui na sede da CGT e nos disse para não olharmos o espelho do Brasil. Mas, agora, o que foi anunciado após as eleições da reforma trabalhista é novo. O que havíamos conversado não tinha essa profundidade. Em alguns aspectos, lembra a reforma brasileira.

Os sindicatos brasileiros não conseguiram impedir a reforma. Por que os argentinos conseguiriam?

Existe uma diferença importante: Macri não tem maioria parlamentar. Um conflito social teria um forte impacto no Congresso. Aqui não vai acontecer como no Brasil, porque os sindicatos resistirão. Aqui isso não acontece sem conflito, como aconteceu no Brasil.

Os sindicatos estão divididos, é uma vantagem para o Governo?

O sindicalismo argentino tem uma capacidade importante de resposta. É verdade que hoje está atravessado pela [eleição] interna do peronismo, e isso também conta. Mas não é igual à divisão dos anos noventa. O Governo acredita que o processo eleitoral lhe deu aceitação para avançar em todas as áreas. E nisso está errado. Existe uma forte rejeição ao que partiu [o kirchnerismo], mas também existe uma forte percepção de que o Governo não conseguiu nenhum êxito econômico ou social. Como dizia o general Perón, o bolso é o órgão mais sensível do corpo. Macri precisaria, como os romanos, de alguém para bater nele com um ramo de oliveira e lhe dizer: ‘Não se esqueça de que você é mortal’.

Quão prejudiciais são para o sindicalismo imagens como as de Pata Medina ou Caballo Suárez, na prisão por corrupção, que se defenderam com armas, que têm aviões, empresas, casas e carros de luxo?

É uma vergonha, mas sempre repito uma frase de Gandhi: ‘Se algumas gotas do oceano estão sujas, o oceano não se torna sujo’.

Quantas são as gotas sujas? Quanta corrupção existe no sindicalismo?

É um dado menor, muito menor. Existem milhares de secretários-gerais, milhares de comissões internas, de delegados. O exemplo de quatro ou cinco não é todo o universo sindical.

Mas é real, existem sindicalistas milionários.

Não estou dizendo que não há. Mas existem milhares de sindicatos.

Hugo Moyano, com quem você tem muito contato, é milionário?

É um homem que, desde que o conheço, mora em Barracas [bairro humilde], não em Puerto Madero ou Barrio Norte. Vandor, Rucci, também eram chamados de milionários e morreram pobres. Em relação a Moyano, acho que há muita fantasia, mito. Houve uma acusação de que tinha contas na Suíça, mas de lá responderam que isso não havia ocorrido.

Seu filho, Pablo Moyano, herdou o Sindicato dos Caminhoneiros.

Esse sim, pode ser um dado talvez discutível, polêmico.

Pablo se reuniu com o filho de Jimmy Hoffa. Eles próprios contribuem para o mito, não?

O filho de Jimmy Hoffa está à frente de um sindicato [Caminhoneiros] e não foi condenado. O pai, bom. São imagens.

Macri será aquele que desarmará definitivamente o peronismo?

Não acredito. O peronismo passou por tempos muito mais difíceis. É verdade que em outro contexto, o da Guerra Fria, mas Perón tinha 18 anos de exílio; o único que se aproxima é Khomeini. E, no entanto, voltou. É uma questão muito profunda e cultural na Argentina. Isso não significa que não devemos fazer nossa lição de casa para voltar a seduzir o eleitorado, especialmente os jovens.

Por que os sindicatos argentinos são tão fortes?

Poderia dizer que é por causa do peronismo, mas não é só isso. Na Argentina, há um tema muito forte, que são as obras sociais. Isso não acontece em outros lugares. Você entra no sindicato e não tem a defesa apenas de seu salário e de seu contrato coletivo. Além disso, você se qualifica, tem sua saúde, mesmo as despesas de enterro são cobertas pelo sindicato.

Macri não vai interferir nisso?

Isso seria uma guerra sem quartel.

Cristina Fernández de Kirchner morreu politicamente?

Ela criou um partido novo. Eu sou peronista; para mim ela está fora do peronismo.

Macri será o primeiro não peronista a terminar o mandato desde 1928?

Eu quero que termine o mandato. É preciso resolver as coisas dentro do sistema democrático.

É possível reformar a Argentina?

Pode ser feito. Os da minha geração, que têm 60 anos, vivemos em outro país. Eu, nos anos setenta, fazia o trajeto Rosário-Buenos Aires em quatro horas. Com duas paradas. Ninguém me contou. Quarenta anos depois, você não pode entrar no trem porque chega amanhã, com acidentes permanentes na rota.

Muitos dizem que os trens não se desenvolveram porque Moyano impediu para privilegiar os caminhoneiros.

É um mito. A ferrovia foi privatizada muito antes de Moyano possuir esse poder. É um exagero dizer que os sindicatos são a pedra angular do atraso na Argentina. Os sindicatos são a pedra angular para que não façam aqui barbaridades com o povo. O empresariado argentino é parasitário, com poucas exceções. Nunca nos recuperamos completamente do que aconteceu na ditadura de 1976.

Alguma autocrítica sobre a responsabilidade dos sindicatos?

É verdade que não soubemos alertar a tempo que deveríamos ter uma estratégia para os movimentos sociais. Agora estamos fazendo isso. Os que estão fora dos acordos são tão trabalhadores quanto nós. Não queremos ficar com a elite dos trabalhadores.

Os sindicatos são ricos para os trabalhadores de elite?

Estou orgulhoso de que os sindicatos tenham dinheiro, porque é assim que somos respeitados. Temos que ter os instrumentos que nos permitam enfrentar o poder econômico; é bom que tenhamos dinheiro.

 

Entrevista publicada originalmente no El País

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