08/09/2016

Atletas paralímpicos querem mostrar mais que superação

 

"Vou chorar muito nessa Paralimpíada! O que esses atletas fazem é uma grande lição de vida para todos nós", diz um dos muitos tuítes brasileiros sobre os Jogos Paralímpicos do Rio 2016, na medida em que se aproxima a cerimônia de abertura, nesta quarta-feira.

A trajetória de como pessoas superaram deficiências que vão de cegueira até paralisia cerebral para se tornarem atletas é uma das principais razões citadas pelos espectadores - que já compraram 1,5 milhão dos 2,5 milhões de ingressos disponíveis.

Os atletas, no entanto, aguardam ansiosos a oportunidade de mostrar que já deixaram a superação para trás.

"Queremos que as pessoas parem um pouco de ver que aquela pessoa não tem um braço ou não tem uma perna, que elas parem de ver a nossa deficiência e comecem a ver a eficiência", disse à BBC Brasil a nadadora Susana Ribeiro, de 48 anos.

"Acho que os brasileiros ainda tem a impressão de que somos 'coitadinhos'. E essa vai ser a melhor parte da Paralimpíada no Brasil: mostrar que somos atletas e que estão buscando objetivos."

Para o jogador de vôlei sentado Daniel Jorge Silva, de 35 anos, a notícia de que a venda de ingressos explodiu nas últimas semanas não foi surpreendente, mas deu alívio. Sua modalidade é uma das mais procuradas pelos torcedores.

"Eu não me preocupava pois eu sei que o brasileiro deixa as coisas para em cima da hora. Teremos casa cheia também porque a mídia começou a divulgar um pouco mais. Precisamos desse apoio e dessa divulgação", diz.

Segundo eles, muitos brasileiros ainda não sabem que o país é uma das potências do esporte paralímpico - e que estará competindo em casa.

Na Olimpíada do Rio, o Brasil conquistou o 13º lugar, sua melhor colocação na história dos Jogos. Mas em Londres 2012, o time paralímpico já havia levado o país à 7ª posição, à frente da Alemanha e imediatamente atrás dos Estados Unidos.

Muitos espectadores podem estar sendo introduzidos a um universo esportivo novo e diferente, mas Daniel Silva ressalta que se trata da continuidade do espírito da competição Olímpica de agosto.

"Quero que as pessoas saibam que acordamos cedo, treinamos tanto quanto os atletas olímpicos, às vezes mais, e somos pessoas normais. Temos apenas uma limitação, a deficiência. Por isso, precisamos de adaptações nas nossas modalidades. De resto, é igual."

Recorde de vendas

Na reta final da Olimpíada - que recebeu críticas pelo alto número de cadeiras vazias nos estádios - a notícia de que apenas 12% dos ingressos para os Jogos Paralímpicos estavam vendidos gerou previsões de evento esvaziado.

A baixa arrecadação levou a cortes na estrutura da Paralimpíada - que ainda precisou de uma injeção de R$ 100 milhões do governo federal e R$ 150 milhões da prefeitura do Rio.

Mas o cenário mudou quando, dias depois da cerimônia de encerramento da Olimpíada, o comitê Rio 2016 registrou um recorde de 145 mil ingressos vendidos em 24 horas, a primeira vez na história dos Jogos Paralímpicos.

Agora, já são 1,5 milhão de ingressos vendidos da meta de 2 milhões. Em eventos como a Virada Paralímpica, no último fim de semana, algumas entradas também foram distribuídas. Em previsão otimista, comitê diz acreditar que, no ritmo atual das vendas, é possível que os ingressos esgotem.

"Primeiro vimos uma energia muito grande vinda dos Jogos Olímpicos e pessoas que simplesmente queriam estar no Parque Olímpico da Barra. Agora, vemos torcedores que estão buscando por atletas e partidas específicos", disse o diretor executivo do Comitê Rio 2016, Mario Andrada.

Iniciativas como a do intérprete carioca Richard Laver, de 39 anos, ajudaram a dar impulso à explosão das vendas nos últimos dias.

"Eu comprei muitos ingressos para a Olimpíada com antecedência e sabia que seria maravilhoso. Mas quando vi o baixo nível de adesão à Paralimpíada, aquilo me deixou triste", disse à BBC Brasil.

Laver decidiu pedir que seus amigos no Facebook fizessem contribuições para a compra de ingressos para crianças carentes - e que doassem seu tempo como voluntários para levá-las. Queria que elas tivessem a mesma experiência que ele teve aos 18 anos, quando assistiu pela primeira vez a um jogo de futebol de 5, levado por um professor.

"Foi algo marcante ver aquelas pessoas cegas, de quem eu tinha pena, jogando. Aquilo me fez ver pessoas com deficiência de forma completamente diferente."

Os planos de arrecadação, no entanto, mudaram. "A coisa tomou uma proporção tão grande que tive que mudar os planos. Achei que seria só um grupo pequeno de amigos contribuindo, como volta e meia fazemos, mas muita gente que eu não conhecia veio falar comigo querendo participar."

Após conversas com duas escolas municipais do Rio, ele conseguirá levar 450 crianças do ensino fundamental e 50 professores para jogos de goalball, voleibol sentado e basquete de cadeira de rodas - esportes com os quais eles estão mais familiarizados.

"Eles estão superfelizes e empolgados. E eu vou tentar ir todos os dias com eles. Quero que elas crianças percebam que é possível vencer obstáculos na vida", afirma.

Futuro do esporte

Para o tetracampeão mundial de canoagem paralímpica Fernando Fernandes, de 35 anos, o obstáculo a vencer agora é justamente o pouco conhecimento sobre o universo paralímpico no país.

"Precisamos sair das histórias pessoais dos atletas e começar a explicar para as pessoas como o esporte funciona. Não é que falte reconhecimento para os atletas no Brasil. É que os brasileiros nem conhecem os esportes", disse à BBC Brasil.

Fernandes - que já era famoso como participante do reality show Big Brother Brasil e tornou-se campeão de paracanoagem após um acidente de trânsito - ficou de fora da Paralimpíada do Rio após não conseguir se classificar.

"Precisamos aproveitar esse momento e decidir para onde o esporte paralímpico vai. Precisa ser mais organizado, mais profissional", reclama.

Mesmo fora da competição, ele diz que fará sua parte para educar os espectadores como comentarista de TV.

"Isso aqui não é inclusão de pessoas com deficiência. Nós somos os melhores, a elite do esporte. As pessoas tem que assistir porque é sensacional, não por causa de superação. Nem os atletas aguentam mais isso."

Abertura paralímpica quer estimular outros sentidos e aproximá-la de realidade de atletas

A cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos, marcada para as 18h15 desta quarta-feira no Maracanã, no Rio de Janeiro, promete "cegar" temporariamente a plateia no estádio para estimular outros sentidos, sobretudo a audição. A intenção é transformar o evento numa experiência multisensorial e aproximar o público da realidade dos atletas paralímpicos.

Num dado momento, refletores emitirão um forte flash de luz, e em outro segmento todas as luzes do estádio serão apagadas por alguns minutos, deixando o Maracanã completamente às escuras. Além disso, um serviço de audiodescrição estará disponível para que tanto atletas quanto espectadores cegos e surdos possam acompanhar a festa.

Para os organizadores, a intenção é "romper com a ditadura da visão", levando a plateia a experimentar as atrações por meio de outros sentidos, como audição e tato.

Fred Gelli, um dos diretores criativos da cerimônia, diz que o "universo paralímpico é multisensorial por natureza", já que muitos dos atletas desenvolvem habilidades em função das deficiências.

"Este é um ponto central da cerimônia desde o início do processo criativo. Queremos derrubar essa coisa da necessidade da visão, do 'ver para crer'. O público vai ser instigado a usar todos os sentidos", diz.

O designer, que criou a logomarca multisensorial dos Jogos, diz que desligar todas as luzes do estádio causou estranheza às equipes de transmissão das imagens para as emissoras de TV ao redor do mundo, mas a ideia foi mantida.

"A necessidade de usar outros sentidos é a sensação cotidiana do atleta paralímpico. Para eles é emocionante ver isso contemplado para todos", explica Gelli, acrescentando que outros recursos, como as projeções já usadas na abertura olímpica, devem ser usados para ampliar essa experiência.

Universalidade e convivência em vez de superação e inclusão

Para Leo Caetano, diretor de cerimônias do Comitê Rio 2016, a intenção da abertura é que o público tenha contato com "coisas incríveis" que devem "desmontar o preconceito".

"Vamos ter um casal de bailarinos e o espectador só se dará conta de que são cegos no final. Num dado momento haverá o salto de uma megarrampa, e será feito por um cadeirante. O objetivo é que o público veja que se tratam de coisas espetaculares, mas não porque são feitas por pessoas com deficiências. São coisas incríveis porque são coisas incríveis, ponto", diz.

A americana Amy Purdy, atleta paralímpica do snowboard e bailarina, que teve as duas pernas amputadas, deve ser a "Gisele Bündchen da abertura dos Jogos Paralímpicos", segundo os organizadores.

Caetano diz que os diretores criativos sempre pautaram o trabalho com essa perspectiva de surpreender os espectadores sem focar nas deficiências. "A festa transcende esse discurso, essa narrativa de superação. Não se fala disso em momento algum. Fala-se em adaptação e universalidade, o mesmo acesso, o mesmo projeto, a mesma entrada em que todos possam conviver, em que todos possam passar, todos tenham direito à mesma experiência", explica.

Fred Gelli relembra que os conceitos de inclusão e superação não foram trabalhados.

"Quando você pensa esse universo, não faz sentido destacar a pessoa com uma deficiência com a necessidade de uma solução só para ela. É mais lógico imaginar soluções em que ela conviva com todos os outros, soluções universais. Falar em inclusão remete à ideia de alguém excluído que precisa ser absorvido. Não é isso, todos querem conviver", explica.

A frase "Everybody has a heart" ("Todo mundo tem um coração") também norteou o trabalho da equipe criativa com o lema de que apesar das diferenças, todos têm algo em comum.

"É com essa base que falamos da diversidade e da diferença. Não só as pessoas com deficiência, mas todos somos diferentes. Todos nós somos imperfeitos e deficientes em um certo grau. E podemos desenvolver grandes eficiências e alta performance assim como esses atletas", explica Flavio Machado, produtor-executivo da cerimônia de abertura e vice-presidente da Cerimônias Cariocas, uma união entre a agência brasileira SRCOM e a italiana Filmmaster Group, responsáveis pelas cerimônias olímpica e paralímpica.

Seu Jorge, Maria Rita, João Carlos Martins e Vik Muniz

Além do conceito de universalidade e do estímulo à multisensorialidade, a cerimônia de abertura deve contar com artistas como Seu Jorge e Maria Rita, além de sambistas como Diogo Nogueira e Pretinho da Serrinha (que se apresentará junto com o filho de nove anos).

"Seu Jorge deve levantar o estádio no final da festa, convidando todos a participarem. Também teremos um momento da roda de samba, uma homenagem à ideia da roda, simbolizada desta forma", diz Fred Gelli.

Mais de 4,5 mil pessoas estão envolvidas no espetáculo, que deve durar pouco mais de três horas e contará com 11 segmentos e um elenco de 25 artistas. Já o hino nacional ficará a cargo do pianista e maestro João Carlos Martins, tido como um dos maiores pianistas do mundo e que passou por diversas cirurgias após ter uma das mãos paralisadas.

"Quanto à parte técnica, é muito semelhante à abertura da Olimpíada. Fogos, sistemas de luz, som, projeções, isso tudo é muito parecido. O palco vai mudar, no entanto, e os atletas entram logo no começo, para poderem acompanhar toda a festa", explica Leo Caetano.

Cada atleta que entra no estádio recebe uma peça que aos poucos vai formando uma obra idealizada pelo artista Vik Muniz, um dos diretores criativos da cerimônia.

Ao final da entrada, uma grande obra será visível no gramado do Maracanã, composta pelos rostos de todos os 4.022 atletas paralímpicos de 161 países.

Atleta prepara eutanásia para depois dos Jogos Paralímpicos

A belga Marieke Vervoort, de 37 anos, estará na pista de atletismo dos Jogos Paralímpicos Rio 2016 em busca de mais uma medalha de ouro. Mas, após o fim da competição, a atleta entrará com o pedido de eutanásia. As informações são do site Unilad.

Marieke sofre de uma doença degenerativa na coluna vertebral, que a deixou em uma cadeira de rodas quando tinha 14 anos. Mesmo assim, ela se tornou uma das maiores atletas paraolímpicas do mundo, conquistando a medalha de ouro na corrida de 100m e prata nos 200m, na classe T52, nos Jogos Paralímpicos Londres 2012.

Porém, a belga já decidiu que está será sua última participação nos Jogos. Em entrevista a um jornal francês, ela explicou sua condição. “Todo mundo me vê sorrindo com minha medalha de ouro, mas ninguém vê o lado escuro. Sofro muito e, às vezes, durmo apenas 10 minutos por noite. O Rio é o meu último desejo”.

A corredora explicou que, ao voltar para a Bélgica, vai analisar todas suas opções e decidir o que é melhor. “Depois do Rio, vou parar minha carreira desportiva. Quero ver o que a vida me traz e vou aproveitar os melhores momentos. Tenho uma lista do que quero fazer, como acrobacias no ar”.

“Mas já comecei a me preparar para a eutanásia. Apesar da minha condição, tenho sido capaz de experimentar coisas que os outros podem apenas sonhar”, concluiu. A eutanásia se tornou legal na Bélgica em 2002 e requer o consentimento por escrito de três médicos.

 

 

Fonte: BBC Brasil/Terra/Municipios Baianoss

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