11/09/2016

Automutilação, o ‘doping’ dos atletas paraolímpicos

 

Estrangular os testículos, colocar alfinetes neles, fraturar o dedão do pé, aplicar choques elétricos nas extremidades ou obstruir o cateter para levar a bexiga ao seu limite viraram alternativas ao doping para alguns atletas paralímpicos. Os brutais atalhos, batizados de boosting (da palavra impulsionar, em inglês), aumentam artificialmente o rendimento de atletas com lesões na medula espinal e paralisia e insensibilidade nos membros inferiores. Seus corpos, apesar do esforço durante uma competição, não costumam reagir igual aos de outros esportistas com outras deficiencias físicas e sofrem de hipotensão, o coração não acompanha a intensidade do exercício e sua capacidade física fica diminuída. Ao se lesionarem ou forçarem sua bexiga, eles não sentem a dor ou o desconforto, mas seu corpo sim reage ao estímulo aumentando a pressão arterial, levando mais oxigênio aos músculos e incrementando a resistência o que, na prática, pode aumentar cerca 10% o rendimento do atleta, especialmente em corridas de larga distância sobre cadeira de rodas, afirmam estudos.

A prática, descoberta nos anos 90 e proibida pelo Comitê Paralímpico Internacional (CPI) desde 1994, está sendo mais perseguida do que nunca nos Jogos Paralímpicos do Rio, após a instituição endurecer os parâmetros para detectá-la. Até abril eram considerados suspeitos e proibidos de competir os atletas que após a medição da sua pressão sanguínea mostravam níveis acima dos 180 mmHg (pressão arterial sistólica), mas hoje, após a análise em profundidade de dados de 160 atletas durante vários anos, serão investigados os resultados acima de 160 mmHG. Em termos gerais, considera-se que uma pessoa sofre de hipertensão a partir dos 140 mmHG.

A falta de conhecimento e dados sobre o boosting deu margem para os atletas esquivarem durante anos as restrições das autoridades. Em Pequim 2008 foram realizados 37 testes e em Londres 2012 outros 41, mas não foram registrados casos positivos, embora isso não signifique que não houvesse. “Se um atleta sabe que tomando 10 copos de água vai dar positivo, ele vai beber 9,9. Por isso era importante reduzir a margem. Nos mundiais já percebemos que havia atletas que superavam os 160 mmHG, que é um nível incomum, e não necessariamente aportavam uma explicação razoável”, explica um dos médicos do Comitê Paralímpico Internacional, o belga Peter Van de Vliet. “Além das provas médicas, estaremos atentos diante de atletas que mostrarem excessiva sudoração, estejam com atitude suspeita ou se mostrem alterados”, complementa Van de Vliet.

O boosting, que provoca um estado chamado entre os médicos de hiperreflexia autônoma, pode ter consequências gravíssimas para o atleta provocando acidentes cerebrovasculares e inclusive a morte. Apesar dos riscos, uma investigação feita em parceria com a Agência Mundial Antidoping (AMA) e o Comitê Paralímpico com datos de 2007 e 2009 confirmou que cerca do 17% dos 99 atletas participantes do estudo tinham recorrido à prática para melhorar o rendimento durante os treinos ou as competições.

As auto-lesões podem ter ainda mais adeptos e envolver até 30% dos atletas, disse à BBC durante os Jogos de Londres em 2012 o médico Andrei Krassioukov, o principal estudioso da materia. "Há uma desvantagem entre paralímpicos que têm pressão arterial normal e aqueles que não, e isso coloca um número significativo de atletas em desvantagem. Como médico entendo totalmente por que esses atletas estão fazendo isso, mas como cientista estou horrorizado”, explicou na época.

Os principais esportes onde busca-se um aumento artificial da pressão arterial são o atletismo, o ciclismo em bicicletas impulsionadas pelas mãos ou rugby em cadeira de rodas. O próprio rugby ilustra a complexidade de detectar e punir o boosting, pois a pressão das sujeições dos atletas às cadeiras de rodas pode, involuntariamente, provocar os mesmo efeitos que as lesões auto infligidas. Outras atividades mais comuns como a prática de sexo e queimaduras solares podem também provocar um estado mais leve de hiperreflexia autônoma. “A prática só é punida se for intencional”, esclarece o doutor do CPI, que já foi treinador de rugby para atletas paralímpicos. O médico não revela quantos testes serão realizados no Rio, mas adverte que a organização, e ele, já estão de olho.

Como competem guias e deficientes visuais nos diferentes esportes paraolímpicos

Durante os Jogos Paralímpicos do Rio – realizados de 7 a 18 de setembro – muitos atletas não estarão sozinhos durante as provas. Com eles estão os guias: atletas e técnicos que os acompanham em determinados momentos da competição.

É uma figura comum no esporte adaptado que agora também estará no pódio. As Paralimpíadas de Londres 2012 foram as primeiras nas quais os guias de atletas cegos foram premiados com medalhas, algo que já havia ocorrido um ano antes nos Mundiais de Atletismo. Além deles também são premiados, por exemplo, os pilotos da modalidade tandem do ciclismo, os guias de bocha e os goleiros de futebol (que não são cegos).

Abaixo, um resumo das técnicas utilizadas para ajudar os atletas com deficiências visuais.

Natação

No caso da natação, os atletas com problemas de visão competem com o auxílio do tapper na beira na piscina, a pessoa que os avisa quando estão prestes a chegar ao final, para que girem e finalizem a prova.

De acordo com a explicação da Federação Espanhola de Esportes para Cegos à Verne, esse papel costuma ser exercido pelos técnicos e treinadores de cada atleta, que com uma ferramenta personalizada dão leves toques na cabeça dos nadadores. Existem diversos dispositivos para o tapping. O mais comum é o bastão com espuma sintética em um dos lados. Para aperfeiçoar a técnica, o norte-americano Tharon Drake disse, por exemplo, que testou até mesmo uma vara de pescar com isca artificial.

Dentro da piscina, para não sair de suas raias, os nadadores com deficiência visual encostam nas cordas que separam as balizas. Além disso, o regulamento obriga todos os nadadores que competem na categoria S11 a levar óculos escuros. Dessa forma, os que têm certo grau de percepção competem nas mesmas condições dos que perderam completamente a visão.

Ciclismo

Os atletas com deficiência visual competem na modalidade tandem com um guia com visão na categoria B dos Jogos Paralímpicos. O piloto com visão fica na parte da frente e como copiloto, na parte de trás da bicicleta, fica a pessoa com deficiência visual.

No site Alto Rendimento, Pedro García – preparador físico e competidor no tandem com Fernando Pérez Hornero – explica que nessa modalidade é fundamental trabalhar durante os treinamentos com a coordenação e a confiança entre os dois corredores. Os dois ciclistas não só devem pedalar na mesma sintonia, como também devem sair da bicicleta, virar e manter o equilíbrio ao mesmo tempo em situações complicadas.

Os representantes espanhóis Joan Font e Ignacio Ávila, que competirão no tandem no Rio, costumam contar em suas respectivas contas do Instagram como realizam os treinamentos e as provas que disputam juntos.

Atletismo

De acordo com a Federação, só existem três provas que os atletas com deficiência visual não podem competir: as de obstáculos, as corridas com barreiras e o salto em altura. Podem competir nas outras provas de atletismo adaptando-se às modificações previstas no regulamento.

Nessa categoria existem dois tipos de acompanhantes: os guias atletas, que entram na pista durante as corridas, e os guias indicadores, que orientam os atletas nas provas de salto e nos lançamentos de disco e pelo.

Pedro Maroto, técnico responsável pelo atletismo paralímpico, conta ao EL PAÍS por e-mail do Rio de Janeiro que os guias hoje em dia são “quase profissionais. Precisam ter uma marca melhor que o atleta e se o atletismo sobe o nível, os guias também precisam fazê-lo”. Os treinamentos, diz Maroto, são realizados de forma conjunta e “a coordenação entre ambos é essencial, sendo até mesmo interessante que tenham as mesmas medidas antropométricas”.

Os guias atletas utilizam uma corda para competir unidos pela mão. Segundo Maroto as cordas devem respeitar duas regras: “Não serem elásticas e não medirem mais de um metro”. Além disso, guia e atleta “devem sempre correr juntos e os guias não podem impulsionar e empurrar seu atleta”. Nesse vídeo é possível acompanhar a ação do jovem velocista Gerard Descarrega e seu acompanhante Marcos Blanquiño.

Na prova de Maratona a regulamentação do Comitê Paralímpico Internacional permite que cada deficiente visual leve dois guias, que podem revezar nas quilometragens 10, 20 e 30.

Os guias indicadores, por sua vez, avisam o momento exato em que o atleta deve realizar um salto ou lançamento para orientá-lo na zona regulamentar e evitar que pise, por exemplo, nas linhas de penalização. Maroto explica que isso é feito “com palmas, vozes ou outra orientação acústica”. Nas provas de salto em distância, a tábua de impulsão é substituída por uma marca de cal que permite medir o salto do ponto exato em que se produz a última pegada.

O arremessador de disco e peso David Casinos, tetracampeão nos Jogos Paralímpicos, tem um canal do YouTube em que explica as normas seguidas por ele e sua treinadora. No seu caso, conta ele, além das indicações do guia, é fundamental a orientação da cabeça e o trabalho de pernas para arremessar o objeto na direção desejada.

Triatlo (Categoria: PT5)

Diferentemente de outras corridas de fundo como a maratona, onde os paralímpicos cegos contam com dois guias – que se revezam na metade da prova –, na categoria PT5 de triatlo os competidores levam um único guia para as três modalidades, como explica o regulamento da Federação Internacional de Triatlo. Guia e competidor devem ser do mesmo sexo e nacionalidade.

Héctor Catalá, campeão da Espanha e da Europa de triatlo PT5, explica em seu blog como trabalha com seu guia durante a corrida: “Na natação vamos unidos pela cintura ou perna, e é o guia que nos dirige para as boias”, conta. “No ciclismo é onde mais nos diferenciamos, já que usamos uma bicicleta de dois lugares. Por sermos duas pessoas fazendo força sobre a mesma transmissão, em circuitos planos, voamos. Na subida, a vantagem já não é tão evidente”. Depois, na corrida, “há duas opções, amarrados pelo cinto portadorsal ou com uma corda, segurando uma ponta cada um”.

Os Jogos Paralímpicos do Rio serão os primeiros da história em que haverá competição de triatlo.

Golbol

O golbol é um esporte criado especificamente para esportistas com deficiência visual e, portanto, não é necessário utilizar guias externos. Nessa modalidade “participam duas equipes de três jogadores cada uma”, explica a Federação Espanhola de Esportes para Cegos em seu site. “Vale-se principalmente da audição para detectar a trajetória da bola em jogo (que tem guizos em seu interior) e requer, além disso, uma grande capacidade espacial para saber se posicionar, a cada momento, no local mais apropriado, com o objetivo de interceptar ou lançar a bola”.

Todas as linhas do campo, um retângulo de 18 metros de comprimento por 9 de largura, são marcadas em relevo para que sejam reconhecíveis ao tato.

Futebol

Nos jogos do Rio existem duas modalidades de futebol: o futebol de 7, para diferentes graus de deficiência, e o futebol de 5, exclusivo para deficientes visuais. Esta modalidade, conforme explica o regulamento da Federação Internacional de Esportes para Cegos, é jogada em terreno descoberto para permitir uma acústica ideal. Os três terços do campo são demarcados e, atrás dos gols, encontra-se a área de guias.

As funções do guia, conforme explica o pesguisador Guido Gastón Suárez em seu artigo Importância do papel de guia no futebol para deficientes visuais, são: orientar aos jogadores no terço ofensivo do campo, indicar a distância de um jogador até o gol, informar do número de defensores que um jogador tem entre o gol adversário e ele mesmo, ajudar a saber o ângulo do gol, indicar a posição dos companheiros e orientar os jogadores quando devem ir para a defesa.

Assim como no golbol, a bola é equipada com guizos para que os jogadores saibam sua posição e trajetória.

Judô

O judô é, conforme explica o site da Federação Espanhola de Esportes para Cegos, uma das modalidades com menos modificações em relação à olímpica. “Existe somente uma modificação do regulamento, que determina que as provas devem começar com os dois esportistas agarrados”, descreve. “Se os judocas se soltarem em algum momento, o árbitro interromperá a prova para que voltem a se agarrar”.

Além dos gestos convencionais com que os juízes se comunicam, o judô para deficientes visuais inclui novos sinais auditivos e táteis para transmitir as decisões aos esportistas. Por exemplo, o regulamento de judô da Federação Internacional de Esportistas Cegos determina que “cada vez que o árbitro anunciar um ponto ou penalidade, além de utilizar o termo e o gesto convencionais, deverá anunciar ao (azul) ou shiro (branco), em função do atleta em questão”.

No judô paralímpico competem somente atletas com deficiência visual. Não há categorização e os competidores são divididos por peso, da mesma maneira que os atletas não deficientes.

Remo

No remo olímpico não existe, por enquanto, uma categoria só para pessoas cegas, mas na modalidade LTA4+, de embarcações de quatro atletas, podem participar até dois atletas com deficiência visual. O regulamento de remo paralímpico detalha que, devido à inclusão dos para-atletas, “o juiz de saída dará às tripulações uma indicação verbal adicional” além da bandeira ou do sinal luminoso.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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