18/09/2016

Oceanos estão enfrentando uma extinção em massa

 

“Agora mesmo estamos decidindo, quase sem querer, quais caminhos evolutivos permanecerão abertos e quais serão fechados para sempre. Nenhuma outra criatura jamais havia feito isso, e será, infelizmente, nosso legado mais duradouro”. Elizabeth Kolbert definiu assim o papel que estão desempenhando os seres humanos em A Sexta Extinção, o livro que ganhou o Prêmio Pulitzer no ano passado. O título é bastante expressivo: nos quase 4 bilhões de anos de história da vida na Terra, ocorreram cinco megaextinções, momentos em que muitos dos seres vivos foram arrastados de repente para a desaparição por vários cataclismos. E agora, segundo todos os dados recolhidos pela ciência, a civilização humana está causando uma nova extinção em massa: somos como o meteorito que dizimou os dinossauros do planeta.

E as criaturas dos oceanos não vão conseguir se livrar. Estamos provocando a agonia de numerosas espécies marinhas e, como dizia Kolbert, escolhendo os seres aquáticos que ao desaparecerem deixarão de evoluir no futuro. A este ritmo, os grandes animais que vão povoar os mares dentro de milhões de anos não serão descendentes de nossas baleias, tubarões e atuns porque estamos matando todos eles para sempre. E do mesmo modo que o desaparecimento dos dinossauros deixou um vazio que demorou eras para ser preenchida pelos mamíferos, não sabemos o que vai ser da vida nos oceanos depois de serem arrasados.

“A eliminação seletiva dos maiores animais nos oceanos modernos, algo sem precedentes na história da vida animal, pode alterar os ecossistemas durante milhões de anos”, conclui um estudo apresentado nesta semana pela revista Science. Liderado por pesquisadores de Stanford, o trabalho mostra como esta sexta extinção está acontecendo com os seres aquáticos de maior tamanho. Um padrão “sem precedentes” no registro das grandes extinções e que com muita segurança acontece por causa da pesca: hoje em dia, quanto maior o animal marinho, maior a probabilidade de se tornar extinto.

Como explicou para Materia o principal autor do estudo, Jonathan Payne, o nível de perturbação ecológica causada por uma grande extinção depende da percentagem de espécies extintas e da seleção de grupos de espécies que são eliminados. “No caso dos oceanos modernos, a ameaça preferente pelos de maior tamanho poderia resultar em um evento de extinção com um grande impacto ecológico porque os grandes animais tendem a desempenhar um papel importante no ciclo de nutrientes e nas interações da rede alimentar”, disse Payne, referindo-se a que os danos afetariam em cascata todos os ecossistemas marinhos.

Os cenários pessimistas preveem a extinção de 24% a 40% dos gêneros de vertebrados e moluscos marinhos; o cálculo mais trágico é comparável à extinção em massa do fim do Cretáceo, quando os dinossauros desapareceram, como explicado na revista Science.

O trabalho deste investigador da Universidade de Stanford e seu grupo foi analisar o padrão de desaparecimento de 2.500 espécies nos últimos milhões de anos. Até agora, o tamanho dos animais marinhos não tinha sido um fator determinante nos cataclismos anteriores, mas nos nossos dias existe uma notável correlação. Para os pesquisadores, é evidente que isso acontece por causa da forma de consumir ecossistemas própria dos seres humanos. Foi o que aconteceu com a extinção dos mamutes e agora acontece com a pesca: cada vez que entramos em um ecossistema primeiro acabamos com os pedaços maiores e à medida que os recursos ficam mais escassos vamos esgotando o resto dos recursos menores.

Os pesquisadores alertam que a eliminação desses animais no topo da cadeia alimentar poderia perturbar o resto da ecologia dos oceanos de forma significativa por, potencialmente, os próximos milhões de anos. “Sem uma mudança dramática na direção atual da gestão dos mares, nossa análise sugere que os oceanos vão sofrer uma extinção em massa de intensidade suficiente e seletividade ecológica para ser incluída entre as grandes extinções”, diz o estudo.

Este paleobiólogo defende que a visão positiva de sua descoberta é que as espécies ameaçadas ainda podem ser salvas da extinção com políticas de gestão eficientes e, a longo prazo, abordando os impactos do aquecimento global e da acidificação dos oceanos. “Podemos evitar esse caminho; com uma gestão adequada, seria possível salvar muitas dessas espécies da extinção”, afirma Payne.

Formação de lagos azuis na Antártida preocupa cientistas

A sulista Antártida tem sido há vários anos o refúgio daqueles que negam a existência da mudança climática. A quantidade de gelo que cerca o continente aumenta, ao contrário do nortista Ártico, no outro polo, que se derrete. Há mais gelo do que nunca cercando a Antártida, costumam repetir os negacionistas. Isso, porém, é uma meia-verdade. No seu conjunto, a Antártida está perdendo gelo. E se o gelo marinho que a cerca cresce, é por causa da topografia do continente e da forma do fundo do mar, fatores que influenciam nos ventos e nas correntes, alimentando um microcosmos particular, segundo a NASA, no contexto de um indiscutível aquecimento global. O ano de 2015 foi o mais quente desde que os registros começaram a ser feitos, em 1880.

Um novo estudo na geleira Langhovde, na Antártida Oriental, fornece mais munição contra os negacionistas. Uma equipe capitaneada pelo glaciologista Stewart Jamieson observou ali a formação de quase 8.000 lagos a partir de gelo derretido durante os verões do período 2000-2013. As imagens de satélite mostram essa parcela do continente marcada por enormes manchas azuis. “Sabe-se que os lagos supraglaciais influenciam no derretimento da camada de gelo da Groenlândia e, potencialmente, causam a desintegração da plataforma de gelo da península Antártica [na Antártida Ocidental]”, informam os autores em seu estudo, publicado na revista especializada Geophysical Research Letters.

Jamieson, da Universidade de Durham (Reino Unido), e seus colegas assinalam que, aparentemente, a água dos novos lagos se infiltra no interior da geleira, fragilizando-a e facilitando a sua ruptura. Em 2002, o fenômeno semelhante a esse provocou o descolamento de um bloco gigantesco de gelo de 3.250 quilômetros quadrados, a chamada plataforma Larsen B, na península Antártica (um país como Luxemburgo, por exemplo, tem uma área de 2.500 quilômetros quadrados). Essa faixa de terra, que aponta para a América do Sul, registrou historicamente, e à margem do restante da Antártida, alguns dos maiores aumentos de temperatura registrados no hemisfério sul.

É a primeira vez que esse fenômeno dos lagos azuis é detectado na Antártida Oriental, a maior massa de gelo do planeta. “Durante muito tempo, as pessoas acreditavam que essa parte do continente era relativamente estável, que não havia muitas mudanças, que ela é fria demais. Só muito recentemente é que foram identificados os primeiros lagos supraglaciais na região”, explicou Jamieson ao The Washington Post.

O jornal norte-americano detalha o motivo da preocupação. Em 2012, a NASA anunciou a ocorrência de um degelo da superfície da Groenlândia sem precedentes nos últimos 150 anos. E os indícios sugerem que esse derretimento tem sido provocado pela formação de lagos supraglaciais. Essas massas de água, formadas no verão pelas temperaturas elevadas, podem se infiltrar e formar rios sob o gelo, facilitando o degelo. Além disso, ao chegar ao mar a água doce pode gerar na água salgada redemoinhos que facilitam a erosão na parte frontal das geleiras.

“O tamanho desses lagos [na Antártida Oriental] ainda não é grande o bastante, mas, se o aquecimento global continuar, só podemos esperar, no futuro, que o tamanho e a quantidade de lagos aumentem”, adverte Jamieson. Em 2007, os cientistas da ONU lançaram um alerta segundo o qual bastaria um degelo parcial da superfície da Groenlândia e do Antártico ocidental para provocar, em alguns séculos, um aumento de quatro a seis metros do nível do mar, inundando inúmeras cidades litorâneas. E a Antártida Oriental é a maior massa de gelo do planeta.

China e EUA aproveitam G20 para ratificar acordo contra mudança climática

A China e os Estados Unidos, os dois maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta, ratificaram no sábado o acordo contra a mudança climática elaborado em Paris no final de 2015. A aprovação do documento por parte de ambas as potências, imprescindível para que o pacto entre em vigor, foi concretizada na véspera do início da cúpula de líderes do G20, e durante uma reunião bilateral entre o presidente norte-americano, Barack Obama, e o chinês, Xi Jinping.

O acordo foi "revisado e ratificado" pela Assembleia Nacional Popular (ANP), o órgão legislativo mais importante do gigante asiático, cuja reunião bimensal foi concluída no sábado, segundo a agência de notícias estatal Xinhua. "A ratificação do tratado corresponde aos interesses da China, e ajudará o país a desempenhar um papel mais importante na governança climática global", publicou a agência oficial.

Horas depois, Obama e Xi entregaram ao secretário-geral das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, os documentos que certificam a adesão formal de seus países ao tratado. Ban se mostrou otimista em relação à possibilidade de que, depois da ação conjunta, o acordo possa entrar em vigor até o fim deste ano.

"Algum dia veremos esse como o momento em que, finalmente, decidimos salvar o nosso planeta", garantiu Obama durante uma cerimônia celebrada no idílio lago do oeste, em Hangzhou. O presidente dos Estados Unidos elogiou os esforços realizados pelo seu país, em pareceria com a China, na luta contra a mudança climática, apesar de suas diferenças em outros âmbitos: "estamos dando o exemplo. Como as duas maiores economias e os dois maiores emissores do planeta, nossa participação nesse acordo dá continuidade ao impulso dado em Paris, e deve inspirar a confiança do resto do mundo para que possamos avançar em direção a um futuro com baixos níveis (de emissão) de carbono".

A luta contra a mudança climática é um dos âmbitos em que ambas as potências parecem falar quase o mesmo idioma. Xi e Obama estabeleceram um marco no final de 2014 ao determinar metas de redução de emissões de dióxido de carbono, e sua decisão foi vital para que os 180 países chegassem a um acordo na cúpula de Paris. A poucas horas de que comece o G20, na cidade chinesa de Hangzhou, ambos os mandatários voltaram a dar um golpe de impacto que pressiona, assim, outras nações a seguirem seus passos.

O acordo de Paris só pode entrar em vigor 30 dias depois de ser ratificado por, no mínimo, 55 países que representem 55% das emissões mundiais de gases de efeito estufa. Até o momento, 24 nações tinham assinado o tratado (em sua maioria países e ilhas do Pacífico e do Caribe), mas suas emissões chegavam a pouco mais de 1% do total.

A decisão de Estados Unidos e China de se unirem a esse grupo é um avanço decisivo, já que ambos são responsáveis por, aproximadamente, 40% das emissões mundiais. "O anúncio conjunto envia um forte sinal ao mundo de que o acordo de Paris deixou de ser apenas um consenso para se tornar uma ação. O compromisso adquirido hoje aumenta as possibilidades de que o pacto possa entrar em vigor muito antes (do que se esperava). Mas ele deve ser visto apenas como um ponto de partida, e não o final, de uma ação global contra a mudança climática", afirmou em um comunicado o responsável pela Política Climática e Energética do Greenpeace no leste da Ásia, Li Shuo.

Segundo o acordo elaborado em Paris, a China se compromete a alcançar seu pico de emissões no ano de 2030 - Pequim garante que chegará a esta meta inclusive antes - e a aumentar, em 20%, a proporção de fontes não poluentes em seu consumo total de energia. Os Estados Unidos, por sua vez, deverão reduzir suas emissões em 28% até 2025.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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