18/09/2016

Paralímpicos rejeitam rótulo de super-homens

 

Desde o início da Paralimpíada, dezenas de recordes foram quebrados e o público pôde ver performances incríveis em quadras, pistas e piscinas. Ainda na cerimônia de abertura dos Jogos, no dia 7, o presidente do Comitê Rio 2016, Carlos Arthur Nuzman, fez um empolgado discurso em exaltação aos atletas, em que utilizou os adjetivos "super-humanos" e "heróis" referindo-se àqueles que competiriam a partir do dia seguinte. Ainda que bem intencionado, o elogio de Nuzman não encontra respaldo nos próprios atletas, que rejeitam rótulos e querem ser vistos como esportistas de alto rendimento.

Os atletas do paradesporto têm uma rotina puxada, com horas diárias de treinos, musculação e fisioterapia, e buscam sempre o limite da sua performance. Essa performance foi vista no Rio nas últimas semanas, com várias quebras de recordes mundiais e paralímpicos na natação e no atletismo, por exemplo. Durante toda a Paralimpíada, que está na reta final, esse desempenho foi traduzido por parte da mídia e da sociedade como um exemplo de superação de pessoas que vencem diariamente os obstáculos da deficiência física ou mental.

"Nossas dificuldades a gente já superou no passado. Hoje estamos acostumados com a nossa lesão, adaptados. Nós somos atletas de alto rendimento", diz Guilherme Camargo, atleta da seleção brasileira de rugby em cadeira de rodas.

Guilherme sofreu um acidente de carro em 2007 e ficou paraplégico, obstáculo já superado. Seu desafio agora é vencer as grandes seleções do mundo na modalidade, como da Austrália, Canadá e Estados Unidos. "A gente quer que o esporte paralímpico seja visto como esporte de alto rendimento, é o que a gente mais deseja. A gente trabalha para isso, treina tanto quanto os atletas olímpicos", diz.

André Brasil, um dos grandes nomes da natação brasileira, acredita que a realização dos Jogos Paralímpicos no Brasil seja um momento de oportunidade para mostrar que os competidores de paralimpíadas e olimpíadas são atletas e querem ser vistos como tal. "Muitas vezes a gente costuma dizer que somos atletas, que nossa vida não é diferente da vida de nenhum outro atleta, seja ele de qualquer modalidade esportiva", destaca o nadador.

"Qual é a diferença que as pessoas colocam e o medo de se falar sobre a pessoa com deficiência ou o deficiente? É um momento especial que a gente vive no nosso país, de transformação cultural, um momento no qual as pessoas querem entender mais sobre qualquer modalidade adaptada. É a hora que a gente tem para quebrar um pouco disso", completa André. Na opinião dele, é o momento de mudar a forma como as pessoas encaram as pessoas com deficiência.

"O esporte é saúde, mas o quão bacana seria promover saúde e educação para uma criança, seja ela com ou sem deficiência, e gerar oportunidade? Vamos fugir um pouco dessas terminologias do politicamente correto, do que é certo, do que é errado. Vamos realmente acreditar no que pode ser feito. A gente tem um país grandioso, temos muita coisa a ser feita. Precisamos fazê-las, mais nada", afirma o nadador.

"Todos super"

Rodrigo Massarutt se tornou um atleta paralímpico de esgrima após sofrer um acidente de trânsito que o deixou paraplégico em 2005. Mas a lesão, na opinião dele, não o torna mais especial ou um exemplo diante das outras pessoas. "Eu nem sei como lidar com isso. Eu nunca esperei ser chamado de super-humano. A gente se considera igual a todo mundo. Só que temos a nossa limitação. O meu acidente foi de moto, fui parar numa cadeira de rodas. No começo eu achava que não tinha sentido a minha vida. Mas você vai vendo que o ser humano é adaptável a tudo", conta Rodrigo.

Para o esgrimista, o problema dele não é mais grave do que os de outras pessoas. Ele se vê como uma pessoa como qualquer outra, com obstáculos a superar. "Só que vivo em cima de uma cadeira de rodas. Eu sou igual a todo mundo. Acho que todas as pessoas são super-humanas. Não considero que só eu seja. Acho que todo mundo tem dificuldade, acho que todos são super-humanos."

Cansado de 'brigar por esporte', atleta paralímpico faz campanha na internet para custear treinos

O baiano Renê Pereira, de 36 anos, descreve diversas vezes a sua trajetória meteórica no remo paralímpico como "comprar uma briga". Do amadorismo até uma final na Rio 2016 - em que foi o único latino-americano entre os melhores do mundo em sua categoria - foram apenas dois anos.

Mas, com o fim dos Jogos do Rio, sua possibilidade de disputar medalhas em Tóquio 2020 ainda é incerta, assim como a de outros atletas, que reclamam de falta de investimento.

"Estar no Rio era algo que eu queria fazer, com ou sem apoio. Gastei cerca de R$ 50 mil no processo. Tive alguns incentivos, mas ainda não tenho nem local adequado de treino", disse à BBC Brasil.

"Acho que representei bem o país, e o carinho das pessoas me deu a sensação de dever cumprido. Mas, sem apoio, acho que não consigo ir a Tóquio. Não quero mais brigar como eu briguei."

O investimento no esporte paralímpico aumentou consideravelmente nos últimos anos - para os Jogos do Rio, por exemplo, beirou os R$ 400 milhões. Não coincidentemente, o país tornou-se uma das potências mundiais do esporte, e os atletas fazem, em casa, sua melhor campanha em Paralimpíadas.

Mas Renê precisou lançar uma campanha de patrocínio coletivo na internet, pensando em sua permanência no esporte após os Jogos. A três dias do fim do prazo para as contribuições, ainda não tem o total de recursos necessários para, de acordo com seus cálculos, garantir "a qualidade mínima de treino".

Treinando num clube sem histórico no esporte, em Salvador, e arcando com a maior parte dos custos de se tornar um atleta de alto rendimento, ele se esforça para acreditar que o sexto lugar na Paralimpíada foi uma vitória.

"Meu sonho de estar na Paralimpíada eu já consegui realizar. Mas sou competitivo, não gosto de perder. Queria estar ali brigando realmente pelas medalhas", disse à BBC Brasil.

Na pele do paciente

Em 2006, Renê fazia residência médica em ortopedia quando, de repente, começou a sentir fortes dores na região da coluna.

"Em uma das minhas entradas no hospital, levantei da maca para ir ao banheiro e percebi que estava sem o movimento da perna esquerda", relembra.

O diagnóstico de abscesso na medula só veio horas depois, quando as duas pernas já estavam comprometidas. Após uma cirurgia, ele descobriu que o dano era permanente.

"Percebi que tinha seis anos dentro de uma faculdade de Medicina e não tinha noção de o que era estar na pele de um paciente. Foi difícil não ter as respostas de que eu precisava."

Renê começou a praticar natação como fisioterapia, mas diz que "o espírito competitivo aflorou" e o levou a competições.

Em 2012, quando conheceu o remo, faltavam apenas quatro anos - menos do que é considerado necessário para formar um atleta de alto rendimento com chances de medalha - para os Jogos do Rio. Mas ele decidiu que iria participar.

"Precisei de uma programação mental do que fazer para chegar lá. O primeiro passo foi uma pós-graduação em Medicina do Esporte para aprender sobre condicionamento físico e treinamento esportivo", conta.

Dois anos e uma troca de clube depois, comprou um simulador de remo para treinar também em casa.

"Por conta de brigas políticas do meu primeiro clube com a CBR (Confederação Brasileira de Remo), saí de lá e tive que recomeçar do zero. Muitas vezes não conseguia ir para um local de treino. Treinei mais no simulador do que na água."

Geladeira e colchão

Na água, na praia da Ribeira, em Salvador, as condições de treino não eram muito melhores. "Como a gente rema de costas, não vê e pode bater em lixo, em barcos. Já me deparei com cama, colchão, geladeira, guarda-roupa, resto de embarcação", diz.

"Quando brincavam comigo dizendo que no Rio eu remaria na sujeira (das águas cariocas), eu respondia que nesse aspecto eu estava bem condicionado."

Em 2015, depois de conseguir os melhores tempos do Brasil na categoria e 20 dias antes de seu segundo campeonato internacional, um acidente quase o impediu de participar.

"Por causa da marola criada por uma lancha, meu barco virou e eu fiquei mergulhado de cabeça para baixo, tendo que desatar três faixas que me amarravam. Fraturei uma costela."

Ainda em recuperação, ele participou da competição e garantiu, com o 7º lugar, a vaga brasileira na Paralimpíada um ano antes dos Jogos, algo inédito na sua categoria.

"É um momento que fica na memória. Tive a sensação de que meus sonhos eram possíveis".

Em seguida, Renê foi campeão brasileiro. Tudo isso, afirma, sem usar o barco oficial, que só chegou cerca de dois meses antes dos Jogos.

'Apelação'

Depois de conhecer o circuito internacional de sua modalidade e o preparo dos atletas estrangeiros, Renê diz ter se sentido "um pouco injustiçado".

"Dentro do que eu tinha de armas, lutei da melhor forma possível. Mas sei que tenho potencial para conseguir mais."

A promessa do governo estadual de conseguir um contêiner, um píer e uma lancha pequenos para poder guardar seu barco e treinar na Lagoa de Pituaçu, em Salvador, ainda antes da Paralimpíada, ficou em suspenso por questões burocráticas.

Pensando no futuro, Renê lançou uma campanha de financiamento coletivo na internet - opção já usada por outros atletas paralímpicos e olímpicos para conseguir viver do esporte.

"Eu hesitei em lançar a campanha, me dava uma sensação de estar apelando ou mendigando", admite. "Mas era para eu ter feito isso há muito mais tempo. Por um lado, foi bom, porque quando alguém ajudava, eu tinha também o estímulo de saber que aquela pessoa acreditava em mim."

Em cerca de dois meses, no entanto, a campanha arrecadou apenas R$ 13 mil da meta de R$ 40 mil.

Lição

Enquanto não define se continuará no esporte paralímpico em 2017, o atleta se prepara para concluir outra especialização médica e para o nascimento da segunda filha.

Já seu filho mais velho, Artur, de sete anos, ainda se acostuma com o sucesso. "No início da Paralimpíada ele tinha ciúmes das crianças que queriam tirar foto comigo. Sentava no meu colo e não queria sair. Agora, sinto que está superorgulhoso", diz Renê.

Talvez à semelhança do pai, Artur também é competitivo e teve dificuldade em entender por que ele era ovacionado mesmo sem ter conquistado a medalha.

É uma lição, diz Renê, que os dois estão aprendendo juntos.

"Ele me perguntou: 'Pai, você não chegou em primeiro. Por que o pessoal está feliz e gritando seu nome?' Eu respondi: 'Isso é o maior evento do mundo, filho. Só estão os melhores aqui'."

 

Fonte: El País/BBC Brasil/Municipios Baianos

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