08/02/2017

Diferente dos EUA, o Canadá se firma como o paraíso dos imigrantes

 

Vanig Garabedian, médico sírio de 48 anos, se tornou uma celebridade no Canadá. Ao aterrissar em Toronto em dezembro de 2015, Justin Trudeau o recebeu no aeroporto. Há poucas semanas, fez o primeiro-ministro chorar em um ato em que contou sobre seu primeiro ano no país. “Sinto-me realmente em casa, agindo como um canadense. E minhas filhas também”, disse. No Centro Comunitário Armênio, nos arredores de Toronto, as pessoas o cumprimentam. Na cafeteria, cerca de dez homens mais velhos batem um papo divertido. No vestíbulo, as crianças correm para suas salas de aula. E no piso superior realiza-se uma aula de informática para refugiados sírios. As cenas e a história de Garabedian alimentam a imagem do Canadá como terra de acolhimento ao estrangeiro.

O médico frequenta, junto com outros refugiados, a igreja ortodoxa do centro todo domingo. Reclama que quase não há espaço para todos. “Estes sírios acabam de chegar e querem que tudo seja maior”, responde, rindo, Apkar Mirakian, libanês de 76 anos, 50 deles em Toronto. Sem sua ajuda, teria sido muito mais difícil deixar para trás, com sua esposa e três filhas, o inferno de Alepo. Mirakian é, com um amigo, o copatrocinador de Garabedian. É uma situação única do Canadá, que permite que cidadãos e entidades financiem a chegada de um refugiado depois de sua aprovação pelo Governo.

Entre dezembro de 2015 e março de 2016, o imigrante libanês organizou o desembarque no Canadá de mais de 1.900 sírios de origem armênia, um número inédito para sua organização. Outros continuam chegando. “O patrocínio privado é mais pessoal. O recém-chegado tem um amigo quando desce do avião, que o levará para uma casa, para fazer compras”, explica. O patrocinador se compromete a dar a mesma ajuda que o Governo ao resto dos refugiados: durante no máximo um ano lhe concede um subsídio, paga a casa e o ajuda na busca de trabalho e escola. Se depois desse período o imigrante não for autossuficiente, pode optar por subsídios públicos.

O Canadá, com 35 milhões de habitantes (20,7% são imigrantes, a maioria asiáticos) e um generoso sistema de auxílio, se consolida como referência na acolhida de estrangeiros, uma política que recebeu forte impulso com a chegada ao poder do progressista Trudeau. Seu plano de acolhida em massa se traduziu na chegada do médico Garabedian e de outros 39.670 refugiados sírios nos últimos 15 meses. O reforço de Trudeau, no cargo desde novembro de 2015, à política de portas abertas iniciada em 1960 chega em um momento em que os Estados Unidos de Donald Trump e a Europa, lotada e temerosa diante da onda de refugiados do Oriente Médio, dão passos na direção contrária. E quando no Canadá, assim como em outros países ocidentais, cresce a islamofobia. O exemplo mais grave, ocorreu em 29 de janeiro, quando um jovem branco matou com seis tiros seis imigrantes muçulmanos em um atentado terrorista em uma mesquita do Quebec.

Depois do veto de Trump a visitantes de sete países de maioria muçulmana, Trudeau, que tem ministros de fé islâmica e siques, ofereceu o Canadá como alternativa e insistiu no mantra de que a multiculturalidade é uma riqueza. O primeiro-ministro enfrenta queixas de cidadãos que pedem que os refugiados cheguem mais rápido. Contrasta com EUA e Europa, onde avançam as vozes que temem uma avalanche de estrangeiros e se pede restrições nas fronteiras. Mas o Canadá goza de uma particularidade geográfica: o único vizinho é os EUA, o que lhe permite ser muito seletivo quanto a quem pode entrar no país.

Décima economia mundial, o Canadá prevê aceitar este ano 25.000 refugiados de qualquer nacionalidade como parte dos 300.000 estrangeiros a quem planeja conceder residência permanente, o que permite ter acesso à saúde pública. É um número um pouco acima dos anos anteriores. A maioria são imigrantes selecionados por motivos econômicos mediante um sistema de pontuação. Segundo a OCDE, os imigrantes representam, desde 2000, 31% do aumento de trabalhadores altamente qualificados no Canadá, acima de 21% dos EUA e 14% da Europa. Em Toronto, uma das cidades mais multiculturais do mundo, a metade da população nasceu no exterior e são falados cerca de 140 idiomas ou dialetos.

Andrew Griffith, que foi diretor geral de Multiculturalidade do Governo entre 2007 e 2011, atribui a abertura canadense ao fato de ser um país construído por imigrantes. Os EUA também são, mas destaca uma diferença: o Canadá não tem uma “identidade unificada” devido à confluência das culturas anglo-saxã e francófona, o que o obrigou a buscar uma forma de acomodação. “Os canadenses têm uma grande confiança na imigração e menos medo”, diz Griffith. E destaca como os indicadores de participação eleitoral e educativa tendem a coincidir entre nativos e imigrantes. As pesquisas mostram uma alta aprovação da chegada de estrangeiros e estes declaram em sua maioria sentir-se canadenses.

Sombras no modelo

Mas também há fissuras nesse país que pode parecer um paraíso para emigrar. Crescem nas pesquisas os que pedem que o imigrante se assimile. Os crimes motivados por preconceito religioso contra muçulmanos duplicaram entre 2012 e 2014. Apesar de a porcentagem ter diminuído, 65% dos refugiados continuam recebendo auxílio público depois de um ano de sua chegada. E o número de imigrantes que solicita cidadania caiu à metade (56.000) entre 2015 e 2016 devido, segundo os especialistas, a um aumento dos índices. “A principal dificuldade é o idioma”, diz Mirakian, o responsável pelo centro armênio, que conhece pessoas que não se adaptaram, sobretudo mais velhos. Mas garante que, em geral, a maioria consegue um emprego em um ou dois meses. O refugiado Garabedian admite dificuldades devido às diferenças culturais, alimentares e de transporte. Mas poucas. Quase tudo nele é otimismo. Afirma que a gratidão dos canadenses o ajudou a integrar-se. E também o aprendizado da guerra síria: presenciou mortes demais e acostumou-se a usar a geladeira como armário em função de meses sem luz, além da falta de água e calefação.

A história de Garabedian foge do estereótipo que se pode ter do refugiado que chega a outro país depois de um êxodo dramático. Em Aleppo, conta, ele e sua esposa ganhavam muito bem a vida como médicos. Iam para a Europa de férias. No início de 2015, mudaram-se para Beirute depois de serem ameaçados de morte por grupos jihadistas. Ali, alugaram um apartamento. E em Toronto arcaram com as despesas de seu primeiro ano com suas economias, renunciando ao auxílio privado que lhes correspondia. Ele acaba de encontrar um emprego em uma seguradora. “Vim para ficar”, declara.

Diminuição do papel dos EUA no mundo é 'inevitável', diz ex-conselheiro da Casa Branca

A busca por uma política externa voltada mais para interesses nacionais primários e diretos e menos para manter a posição de "hegemonia" econômica e ideológica mundial "pode sinalizar o começo do período de realinhamento global de maior alcance em mais de um século", afirma um ex-conselheiro diplomático da Casa Branca. Para William McIlhenny, ex-diretor para América do Norte no Conselho Nacional de Segurança dos EUA durante o primeiro mandato de George W. Bush e atualmente analista sênior do centro de reflexão The German Marshall Fund of the US, essa mudança de foco "é inevitável". "Nos últimos 70 anos, os EUA deixaram recair sobre si muito do custo e da responsabilidade pelos resultados políticos e de segurança em outros países. Com 4% da população mundial e 16% da economia, não podemos manter isso sem sacrificar nossa própria economia", afirma.

Ao assumir a Presidência, Donald Trump confirmou sua plataforma de campanha e deixou claro que daria prioridade a interesses imediatos dos EUA em detrimento de acordos multilaterais econômicos e militares. Como presidente desde 20 de janeiro, ele retirou oficialmente o país do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP) e anunciou planos para renegociar o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta, na sigla em inglês), assinado em 1992 com México e Canadá, argumentando que ambos prejudicam as empresas americanas. A Casa Branca, segundo ele, passará a dar prioridade a acordos bilaterais, que deverão responder mais adequadamente às expectativas dos EUA. Trump também causou reações adversas na comunidade internacional ao autorizar a construção de um muro na fronteira com o México, elogiar a decisão do Reino Unido de abandonar a União Europeia e qualificar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de obsoleta, gerando dúvida sobre a permanência dos EUA na aliança militar ocidental.

Hegemonia mundial

McIlhenny reconhece que o papel de "hegemonia mundial" era "indiscutivelmente um interesse primário, até existencial", dos EUA depois da Segunda Guerra Mundial e durante a Guerra Fria. "Mas as realidades de hoje são diferentes. O mundo já é multipolar, econômica e politicamente, ainda que os EUA tenham uma força geopolítica inigualável. Não queremos, e realmente não podemos nos permitir, pagar o alto preço político e econômico de continuar como hegemonia mundial", argumenta. A intervenção norte-americana no Iraque é uma amostra do "difícil e extremamente elevado custo de tentar afetar resultados políticos e de segurança distantes" no mundo de hoje, afirma o ex-conselheiro. "A guerra no Iraque se tornou uma poderosa demonstração de um mundo que já está mudando, no qual os EUA foram incapazes de alcançar o resultado que buscavam a um preço aceitável, apesar de sua potência geoestratégica incomparável." O conflito "dramatizou as limitações até mesmo de uma potência forte e tecnologicamente sofisticada", como os EUA, observa.

Presença seletiva

Para o analista, sob Trump, a defesa da democracia ou dos direitos humanos no palco internacional fica em segundo plano. Em seu lugar, a política externa passará a ser orientada pela defesa de interesses nacionais "primários" e diretos, que envolvem geralmente o comércio. Ele ressalta que não se trata de uma "retirada" ou de um "declínio" do império americano. "O resultado inevitável dessa definição mais estreita de interesses primários seria uma mudança no papel dos EUA em um mundo no qual (o país) segue sendo um ator forte, provavelmente o mais forte, e influente. Mas é muito mais seletivo na forma como usa esse poder", acredita.

A força desse poder no cenário internacional dependerá principalmente do resultado que as políticas de Trump terão sobre a economia nacional, afirma McIlhenny. A influência do país também será afetada por "percepções e sentimentos". "Desse modo, políticas implementadas desastrosamente, que ofendem sensibilidades internacionais, como o recente decreto antiimigração, ainda poderiam reduzir influência a curto prazo, e os EUA devem prestar atenção a isso", adverte. Ele se refere ao decreto que suspende por tempo indeterminado o programa de recepção de refugiados sírios e proíbe a entrada nos EUA de cidadãos de sete países de maioria muçulmana. A medida foi suspensa por uma ordem judicial na sexta-feira.

"Se, como alguns temem, a administração Trump se deixar ser corretamente caracterizada como étnico-nacionalista, isso obviamente afetaria de uma maneira importante as percepções externas e internas."

Realinhamento global

Nessa mudança de rumo na política externa, a grande questão para Trump é "como os EUA poderão se livrar do peso" da responsabilidade internacional "sem criar um vácuo que cause desestabilização generalizada, e ainda manter uma força adequada para proteger seus interesses em um cenário internacional mais competitivo", coloca McIlhenny. "Nesse ambiente, obviamente, outros se sentirão mais livres para competir por interesse e influência. Este é um dilema que qualquer futura administração americana teria que enfrentar", assegura o ex-conselheiro. McIlhenny diz que "é mais difícil que nunca" prever o resultado do realinhamento global, mas acredita que nenhum país assumirá sozinho a posição de potência mundial. "De um ponto de vista prático, não acho que a China possa assumir o papel (de líder de uma ordem internacional liberal), ou que o mundo aceitaria isso."

Ele não descarta uma aproximação entre EUA e Rússia, mas observa que, para isso, Moscou "também teria que interpretar seus interesses de maneira mais criativa, menos ultratradicional do que o governo parece ser capaz de fazer no momento". A mudança na ordem mundial "não significa necessariamente a morte das alianças tradicionais, porque muitas delas tendem a ser sustentados por interesses coesivos", matiza McIlhenny. "Mas todas (as alianças) estarão abertas a revisão e talvez até a uma reconfiguração baseada em novos cálculos de interesses."

Dilema

McIlhenny afirma que a redução na intervenção externa dos EUA já vinha sendo discutida pelas altas esferas do governo americano há pelo menos uma década, desde quando ele fazia parte da equipe. Se não foi feito antes é, em parte, devido aos "grandes interesses econômicos e de outro tipo investidos no 'status quo'". "Isso faz com que, para qualquer presidente fruto do 'establishment', seja difícil resistir. Trump chegou ao poder opondo-se a esse 'establishment'. Ele ainda tem que governar, mas está menos preso a isso que qualquer outro presidente na história moderna", observa.

O analista acredita que a mudança na administração norte-americana "pode sinalizar o começo do período de realinhamento global de maior alcance em mais de um século". Ele destaca que os efeitos do governo Trump se combinarão com outras "mudanças profundas" que estão ocorrendo em questões fundamentais.

Cita como exemplo a evolução tecnológica, que "está liderando uma completa redefinição da natureza do emprego", e o "desafio" imposto pelo envelhecimento da população. "Para mim, este é realmente um desses raros momentos definidores da história, quando giramos para uma nova era. Quando se pensa na administração Trump, é importante vê-la como um primeiro passo. Difícil de dizer se para o lado, para frente ou para trás. Mas é, certamente, o impulso em um processo de mudança global mais amplo", afirma McIlhenny.

EUA reorientam centro antiterrorista para guerra midiática contra a Rússia

Enquanto o presidente Trump está apelando à cooperação com a Rússia, os políticos norte-americanos querem evitar “a intervenção russa no processo democrático dos EUA” - e estão canalizando dezenas de milhões de dólares para uma iniciativa de contrapropaganda.

Os EUA estão estabelecendo um novo centro para a guerra midiática contra a Rússia. O centro funcionará no “escritório interinstitucional pouco conhecido alojado no Departamento de Estado, chamado Centro de Engajamento Global (GEC)”, informa o portal The Daily Beast.

A iniciativa está sendo posta em prática por dois senadores: o republicano Rob Portman e o democrata Chris Murphy. Segundo a edição, o centro iniciará os trabalhos "ainda este ano", tendo já sido canalizados 160 milhões de dólares para financiar o projeto por dois anos.

O Centro "vai monitorar campanhas de propaganda estrangeiras, analisar a sua tática e opor-lhes resistência através de subsídios a jornalistas estrangeiros, organizações públicas e empresas privadas". Entre eles estão a BellingCat e a StopFake.org.

O Centro foi planejado ainda durante o mandato do ex-presidente norte-americano Barack Obama para contrariar a propaganda do grupo terrorista Daesh (Estado Islâmico, proibido em muitos países, incluindo na Rússia).

"A medida de Portman-Murphy expandiu o alcance do centro, de maneira a direcionar a sua ação contra a propaganda de atores estatais, incluindo a Rússia como principal antagonista", escreve o The Daily Beast.

Entretanto, a eleição de Donald Trump provocou incertezas quanto a estes planos:

"A grande incerteza da nova iniciativa de contrapropaganda reside na forma como ela irá se concretizar sob a administração Trump e se a administração usará as ferramentas de propaganda com sensatez e para os fins previstos na lei", assinala a edição.

 

Fonte: El País/BBC Brasil/Sputinik News/Municipios Baianos

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