25/02/2017

Euclides: Omissão e passividade agrava crise na economia

 

É cada vez pior a situação econômica do Município de Euclides da Cunha, que sofre intensamente com o prolongamento de uma das maiores secas, desde a década de 1980, quando mais de 8 mil cabeças de gado foram dizimadas e o rebanho reduzido a pouco mais de duas mil cabeças de bovinos. Passado este período turbulento de falta de pastagem e água para os animais, o município voltou a registrar anos muito bons de chuvas regulares: a pastagem se recuperou, aguadas e açudes recuperaram a sua capacidade de armazenamento, muitos criadores investiram em suas propriedades, dando-lhes melhor estrutura visando dias melhores e menos sofrimento futuramente. As ações coletivas do governo do estado e Governo Federal, da época, respectivamente com apoio técnico e obras de infraestrutura, doação às prefeituras de tratores de esteira de grande porte e capacidade para a construção de barragens e aguadas nos municípios da Região do Semiárido II; perfuração de poços artesianos e tubulares, assistência técnica, entre tantas providências e ações preventivas de combate à seca; renegociação de dívidas e novos financiamentos com os agentes financeiros (Banco do Brasil, Baneb - atual Bradesco), Banco do Nordeste;   distribuição de sementes selecionadas de milho e feijão, além de venda e leilão de matrizes por preços acessíveis e/ou pagamento com devolução de animais gerados dessas matrizes, principalmente caprinos e ovinos, negócios feitos nas diversas feiras realizadas nas principais cidades do nordeste baiano. Foram providências que trouxeram muitos benefícios para os produtores rurais e criadores, fundamentais para a recuperação da produção básica do município, com bons reflexos na economia municipal: crescimento do comércio, geração de emprego e renda, renovação do rebanho, diversidade na produção de feijão, exportação de animais para outros centros, inclusive para fora do estado, (caprinos e ovinos), introdução de novas culturas, etc.

Atualmente, o que se vê em Euclides da Cunha, é o completo abandono de fontes de abastecimento importantes, que poderiam ser usadas como reserva para suprir necessidades em situações de calamidade ou emergencial, igual a que os produtores rurais estão passando agora. Como exemplo deste descaso das autoridades, cito o histórico e secular açude Tanque da Nação, além de os açudes da Lagoa do Barro (Coentros), Pinhões, Melancia, Pedregulho, este, juntamente com o Tanque da Nação chegaram a Pedregulho, mesmo precariamente, ainda serve aos criadores da circunvizinhança, mas é muito triste e deplorável o estado de abandono em que se encontra pois, assim como os demais, é prejudicado pela invasão de plantadores de hortaliças e o uso indiscriminado e sem controle de agrotóxicos usados como defensivos agrícolas no combate às pragas. Pedregulho já não está mais servindo como fonte de abastecimento de água potável, nem para os animais. Mais triste ainda, é o açude Tanque da Nação que, há mais de uma década, teve a sua principal vertente interrompida por um fazendeiro próximo, sem que houvesse uma atitude forte em defesa deste bem público, “patrimônio cultural e material do Município”, já que fora construído por ordem do Imperador Pedro II, para ajudar a combater a seca que assolava toda região Nordeste do Brasil. Tanque da Nação, Pedregulho, Lagoa do Barro e Pinhões foram responsáveis, em alguns períodos de longa estiagem, pelo abastecimento de água de vários municípios circunvizinhos, além de Euclides da Cunha.

No momento atual, como todo movimento cíclico, bastante conhecido das autoridades governamentais, o período de longa estiagem voltou com muita força. Em Euclides da Cunha, depois de bons períodos de chuvas regulares (inverno e trovoada), safras recordes de feijão e boa produção de milho, este, por tradição, plantado em menor escala, que servia basicamente para o consumo animal, pois o uso doméstico deste importante cereal era e ainda o é relativamente pequeno, haja vista que o consumo como ração humana é preferencialmente pelo produto industrializado em formato de farinha, fubá, farelo, iguarias, etc., e, no campo, usado como complemento alimentar, principalmente para caprinos e ovinos, aves e suínos.  ser grandes criadouros de peixes (pescado, traíra, carpa, entre outras espécies). No período de chuvas regulares e grandes safras, há pouco mais de dez anos, quando o índice pluviométrico do ano de 2010 chegou à casa dos 1.457mm, Euclides da Cunha chegou a ostentar o título de maior produtor de feijão de sequeiro (safra de inverno) do Brasil. Daqui, saíram milhares de toneladas de feijão carioquinha, jalo, branco, roxinho (rosinha), para quase todo o Nordeste e, até, para estados da região amazônica, grandes consumidores de feijão jalo, além de Ceará, Pernambuco, Alagoas, Piauí, São Paulo e Paraná, que preferem o feijão do tipo carioquinha. Foram anos de muita fartura, bons negócios, agropecuária em franco crescimento, renovação de rebanho, evolução genética dos animais, melhora acentuada na qualidade da carne e do leite, exportação de bovinos, caprinos e ovinos, crescimento de estabelecimentos comerciais nos mais diversos ramos e atividade, entre outros. Passado este período de fartura e bons negócios interrompidos pela mais profunda crise financeira, política e mau ‘caratismo’ dos nossos governantes que levaram o País ao fundo de um poço que parece não ter fim, e, a areia movediça na qual foram atirados, - descobertos e pegos em falcatruas e crimes de lesa-pátria pela Operação Lava Jato, a quase totalidade dos nossos governantes, políticos, altas autoridades, inclusive do Judiciário, que deveria servir de exemplo para toda a sociedade -, a crise tornou-se mais forte e contundente nas regiões assoladas pela longa estiagem e completamente desassistida pelas autoridades governamentais, que preferem gastar milhões de reais com propagandas cinematográficas que até parece estar o povo vivendo em países altamente civilizados, distribuir pequenas cisternas fabricadas com material plástico, que somente vão acumular água nos dias de chuva e que somente dá para atender necessidades domésticas. Na propaganda oficial, procura-se, induzir aos incautos a impressão de que a seca está sendo combatida com sucesso, que não será mais problema para aquelas famílias contempladas com essas cisterninhas, muitas das vezes, por indicação de políticos ligados ao partido do Governo e não como um bem ou de ação coletiva. Mas, para os animais, será que tem água suficiente para matar a sede? Ou o dono tem que comprar água em carro-pipa para atender as necessidades dos bichos?...

Há quem condene os governos do período militar, mas, nesses governos, para quem não os conheceram, Euclides da Cunha e todos os municípios afetados pela estiagem foram beneficiados com ações coletivas importantes que geraram emprego e renda para as famílias, mesmo que temporário. Além de contribuir para manter as pessoas no meio rural e evitar o êxodo em massa para as cidades grandes e, assim, evitar o inchaço populacional que já se desenhava. Além de o suporte da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) e do DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra Seca), que por meio do Projeto Sertanejo, centenas de pessoas tiveram a mão de obra aproveitada na construção e/ou limpeza de reservatórios de água, incentivo ao plantio de palma, algaroba, de espécies diferentes, formação de pastagem, introdução de culturas mais resistentes à seca, até doação de cestas básicas de alimentos para famílias cadastradas nas frentes de serviço. Sem assistência técnica ou providências capazes de solucionar, por meio de decisões e ações governamentais, o grave problema da seca, pelo menos amenizar um pouco mais, os efeitos causados pelo fenômeno da estiagem, produtores rurais, criadores, grandes e pequenos, estes, as maiores vítimas, vivem momento desesperador ao ver os animais berrando de sede, sem pastagem para se alimentar. Muitos já estão deitados ou caídos - como costuma dizer os criadores, quando faz referência aos animais extremamente debilitados, sem forças para se levantar-, definham e morrem levando com ele a esperança de dias melhores e causando grande prejuízo para o dono.

Alguns produtores e criadores, vários deles até com formação escolar de nível médio e superior (técnico agrícola, agrônomo, veterinário, engenheiro, médico, empresário, etc.), mais organizados e bem situados financeiramente, com facilidades em levantar recursos junto às instituições financeiras, ainda estão mantendo seus rebanhos, graças ao plantio de palma reservado em suas propriedades, aliado ao reforço de ração de milho, palha de milho com melaço de cana, farelo de soja, de trigo, para manter o rebanho de pé, produtos semi ou totalmente industrializados e importados de outros estados e de municípios grandes produtores das regiões oeste e leste, de Salvador (moinhos de trigo), que custam, em média, R$ 53,00/saca, além de boas aguadas em suas propriedades. Estes, ainda estão conseguindo, mesmo com um custo bastante elevado, manter de pé os seus animais. Ao contrário dos médios e grandes criadores, os pequenos vivem momento de angústia e desespero, ao olhar para a sua pequena propriedade, outrora repleta de massa verde, comida e água satisfatoriamente, e enxergar algo parecido com um campo de futebol de terra batida. É doloroso ver o gado berrando por comida e bebida, perdendo peso muito rapidamente; - não poderia ser diferente -, e mesmo pensando em vender algumas cabeças para garantir a compra de ração para manter o resto do rebanho, não encontra facilmente um comprador e, quando isso acontece, não recebe pelo animal o valor que pensava obter e “cai” nas mãos dos mais abastados. Afinal, precisa do dinheiro para tentar manter o pequeno criatório, a si mesmo, à família, na esperança que Deus vai mandar chuva e as coisas vão melhorar; pois se depender dos governantes, providências jamais chegarão, e, quando acontece de chegar, é insatisfatório e fora de contexto. Ainda mais agora, quando alegam não dispor de recursos, que o país e o estado se encontram em situação muito difícil, falimentar, não tem dotação orçamentária disponibilizada..., etc. Sem investimento de qualquer natureza e um programa definido de desenvolvimento, optam pela propaganda bonita, feita com atores bem remunerados e filmagem produzidas com equipamentos de última geração, que dão qualidade de cinema às imagens exibidas exaustivamente nos canais de TV, rádio, jornal, site outdoor, em substituição às ações que, na prática, deveriam ser empregadas. Infelizmente, esses sofredores se comportam como resignados e não se manifestam publicamente, nem mobilizam entidades representativas no sentido de pressionar políticos e governantes para que adotem medidas cabíveis, pelo menos, aliviar um pouco o sofrimento.Parece que os exemplos dados pelos produtores e criadores das regiões Sudeste e Sul, não lhes servem como referência. Recentemente, bastaram-se dois meses sem chover, para que a grande imprensa sulista exibisse em seus telejornais o lamento de produtores, para que os governos federal e estadual abrissem seus cofres para financiamentos, escalonamento de dívida e novos empréstimos a longo prazo e juro baixíssimos. Será que o povo sertanejo não é merecedor de uma melhor atenção dos governantes? Ou serve, apenas, para elegê-los?

Em Euclides da Cunha, principal cidade polo -não oficial- do nordeste da Bahia, situada no Semiárido II de Canudos, maior e melhor entreposto comercial da região, os comércios que mais se destacam em vendas, atualmente, são aqueles que comercializam ração para gado, caprinos e ovinos. Os produtos são importados de outros estados e municípios, principalmente, Goiás, Minas Gerais e regiões oeste e leste da Bahia. Nas ruas da cidade, é comum ver caminhões, carretas, caminhonetes, tratores, moto-carrocinha, todos transportando produtos de ração animal.   Também, não é difícil registrar o transporte de palma em pequenos reboques puxados por automóvel, trator, etc. Nem as aves estão mais resistindo em permanecer na mata e estão migrando para a cidade, onde têm encontrado comida com facilidade: restos de alimentos de cereais facilmente encontrados nos setores cerealistas, como mostra a imagem de um casal de anu-preto, que do alto da copa de uma árvore, aguarda o momento de ir para o chão para se alimentar de migalhas de cereais diversos. Na ausência quase que total de massa verde nas propriedades rurais, aos sábados, na Central de Abastecimento, várias pessoas buscam palha de bananeira, talos de cacho de banana descartados por vendedores de frutas. Galhos e folhas de pés de fícus que ornamentam a cidade, também estão sendo aproveitados por criadores que acompanham a equipe de jardinagem da prefeitura e atuam no trabalho de poda dessas árvores.  É quando ovinos, que têm o paladar menos exigente que caprinos, comem bastante as folhas verdes de gosto um tanto amargo. Triturada junto com os galhos, as folhas de fícus também são usadas para alimentar o gado. Em vários lugares do sertão, nem mesmo o mandacaru, planta cactácea de porte arbóreo altamente resistente, está sendo encontrado com facilidade, pois centenas de pés dessa planta ícone da região, estão sendo aproveitados na produção de ração e tornam-se cada vez mais escassos. Cheio de espinhos, o criador remove-os, corta os galhos em pequenos pedaços ou passa na máquina trituradora para facilitar a refeição dos bichos.  Bodes e ovelhas estão sendo soltos na caatinga e, onde não encontram mais folhas verdes e moles, se alimentam roendo a casca de arbustos, segundo informou um morador e criador sertanejo que comercializa queijo produzido artesanalmente com leite de cabra, mas que suspendeu as vendas, por falta da principal matéria prima do produto. Resignados, esses produtores e criadores que sofrem juntamente com seus animais, ficam a esperar que São Pedro mande chuva à vontade, talvez, não na mesma proporção da Súplica Cearense, (música composta pelo baiano Gordurinha), que relata o sofrimento e desespero de um sertanejo cansado de tanto sofrimento causado pela seca, e pede ao Senhor, em súplica, para que o sol, inclemente, se arretirasse, para que chovesse sem parar. Mas depois, quando já não aguantava mais com tanta chuva, com os olhos cheios de água, pediu perdão a Deus e que parasse com a chuva. Não será preciso pedir tanto, apenas, o necessário para trazer de volta as plantas, as ramagens, pastagens, as aguadas e açudes voltem a ter um bom volume de água. Mas isso fica por conta da mãe Natureza e, pelo que se observa, não está disposta a atender urgentemente aos milhares de pedidos para a chuva cair. As nuvens até ficam carregadas, porém, mudam de lugar e como num passe de mágica desparecem e o céu volta a ter nuvens brancas que não são características de nuvens de chuva. Sem pastagem na propriedade para alimentar os animais, muitos criadores preferem correr o risco de até perdê-los por atropelamento nas estradas e rodovias que cortam o território do semiárido, ao soltá-los às margens dessas vias de grande movimentação de veículos leves e pesados. Esses animais saem a procura daquele tipo de pastagem natural que cresce à margem da rodovia e se mantém verde.  Soltos, mudam constantemente de lugar, atravessam a pista e colocam em risco a integridade física de quem trafega pelo local, provocando atropelamento, capotamento, com danos matérias consideráveis para o fazendeiro e o proprietário do veículo que, por acaso, venha a se envolver no acidente.

Sertanejos mexam-se, cobrem firmemente dos governantes, dos políticos eleitos com o seu voto, ou não, providências urgentes, urgentíssimas de combate à seca, enquanto há tempo. Já passou da hora de sindicatos, associações comunitárias rurais e urbanas, entidades representativas, poderes públicos, todos juntos, numa grande manifestação de cobrança de providências das autoridades governamentais superiores, contra a longa estiagem que está provocando grandes estragos ao patrimônio privado e à economia do Município: falência de empresa, demissão e fechamento de postos de trabalho, serviços, etc., gerando desemprego e desconforto social. Incomodado com essa situação que se apresenta ao longo dos últimos oito anos, sem que houvesse tomada de medida eficaz para, ao menos, amenizar uma situação que, na ausência de providências pode chegar ao estado de calamidade pública, principalmente no meio rural, que mais sofre e arrasta este estado de aflição para a urbe, com a desaceleração das vendas no comércio e suas consequências sociais desagradáveis, o Poder Executivo Municipal tornou público nesta terça-feira (23), um decreto com data de 20 de janeiro de 2017, período em que foram levantadas as informações nas áreas do município contidas no FIDE (Formulário de Informações do Desastre) e demais documentos exigidos para a elaboração do decreto que declara ‘situação de emergência’, autoriza e mobiliza todos os órgãos do município sob a Coordenadoria de Defesa Civil, nas ações de resposta ao desastre e reabilitação do cenário e reconstrução. Agora, é aguardar que o prefeito Luciano Pinheiro coloque em prática a execução deste decreto, que certamente vai ajudar bastante nas ações de combate à seca, que há mais de quatro anos deu sinais de que seria prolongada; sem que houvesse providências concretas por parte das autoridades governamentais do município e, o estado de emergência só se agravou.

 

 

Fonte: Por José Dilson Pinheiro, em euclidesdacunha.com/Municipios Baianos

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