19/03/2017

A tribo onde ninguém morre de infarto

 

Os índios tsimanes têm a melhor saúde vascular dos povos estudados até agora. As artérias de um ancião de 80 anos desse povo indígena da Amazônia boliviana estão em igual ou melhor estado que as de um norte-americano de meia idade. Segundo o estudo, isso faz com que raramente tenham doenças cardiovasculares. Na última década, somente um tsimane teria morrido de infarto, e já em uma idade muito avançada. Os autores da pesquisa relacionam essa saúde de ferro com o estilo de vida dos tsimanes, ainda baseado na coleta, na caça e na pesca de subsistência.

Embora tenham estado em contato com os missionários jesuítas no século XVII, os tsimanes (também conhecidos como tsimane' ou chimane) abandonaram seus assentamentos tradicionais para adentrar a selva, fugindo do homem branco. São cerca de 16.000 distribuídos em quase uma centena de aldeias ao longo das bacias do Maniqui e do Quiquibey, afluentes do Amazonas. Vestem roupas e usam ferramentas ocidentais, mais ainda mantêm seu estilo de vida seminômade, com uma economia comunitária de subsistência, vivendo do que caçam, pescam e coletam em pequenos terrenos junto ao povoado.

Em um estudo antropológico de amplo alcance iniciado no começo deste século, um grupo de pesquisadores norte-americanos teve a ocasião de estudar o estado de saúde vascular dos tsimanes. As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo. De acordo com a OMS, morrem por ano cerca de 18 milhões de pessoas por este motivo. Os autores do estudo se concentraram na mais comum das enfermidades arteriais, a aterosclerose coronária, um endurecimento progressivo das artérias por causa da acumulação de gordura e tecido conjuntivo que acabam calcificando o interior dos condutos. A maioria dos infartos cardíacos e dos derrames cerebrais é precedida dessa calcificação arterial.

O estudo, publicado na revista The Lancet, comprovou que a quantidade de cálcio acumulada nas artérias principais dos tsimanes com mais de 40 anos é até cinco vezes menor que a calcificação detectada em pessoas ocidentais da mesma idade. Mais especificamente, dos 705 adultos examinados, 85% não tinham rastro de calcificação arterial. Outros 13% tinham baixas concentrações de cálcio e em apenas 3% dos estudados se constatou um risco de leve a moderado de terem problemas coronários no futuro.

"Nosso estudo mostra que os tsimanes da América do Sul apresentam a menor prevalência de aterosclerose dentre todas as populações que foram estudadas”, diz o codiretor do projeto Antropologia e Saúde dos Tsimanes, e professor da Universidade do Novo México (EUA), Hillard Kaplan.

Além disso, a boa saúde se mantém à medida que envelhecem. Um total de 65% de anciãos tsimanes que chegaram aos 75 anos ainda tinha um índice de calcificação zero. Os pesquisadores compararam seus resultados com os de outras populações, como a de uma ampla amostra dos EUA, outra de europeus e mais uma dezena de estudos sobre a incidência de aterosclerose em diferentes sociedades. O estado das artérias dos velhos tsimanes é similar ao que podem ter ocidentais com 28 anos menos e ainda melhor que o das mulheres adultas japonesas, as que até agora tinham melhor saúde arterial.

Embora o estudo não estabeleça uma relação causal, para seus autores tudo indica que o estilo de vida dos tsimanes explicaria esses dados e outros que também comprovaram em suas revisões médicas, como os baixos níveis que mostraram no ritmo cardíaco, pressão sanguínea, colesterol e glicose no sangue. Todos esses indicadores estão direta ou indiretamente relacionados com a aterosclerose.

Os tsimanes podem ficar oito horas na caça de algo para comer. Os pesquisadores estimam que dedicam um mínimo de sete horas a atividades que requerem esforço físico e que em apenas 10% do tempo que passam despertos não fazem nada. Quanto à sua dieta, em sua maioria se trata de carboidratos (72%) não processados, ricos em fibra, como arroz, mandioca, milho e frutas. As proteínas são obtidas da caça e da pesca, e somente consomem cerca de 38 gramas de gordura por dia. Embora alguns tenham declarado que fumam, um maço de cigarros lhes poderia durar um ano.

"Se não há tabaco, não há colesterol nem diabetes, e têm uma dieta equilibrada e fazem exercícios físicos, não há aterosclerose”, comenta o pesquisador do Centro Nacional de Pesquisas Cardiovasculares Carlos III (CNIC), Antonio Fernández Ortiz. O também chefe de Cardiologia Intervencionista no Hospital Clínico San Carlos acrescenta: “Esta pesquisa ajuda a demonstrar de forma definitiva que os fatores de risco cardiovasculares são a causa da doença aterosclerótica. Nessa população sem aterosclerose o único fator de risco que eles têm é a idade. O pouco cálcio que acumulam é porque vão envelhecendo.”

Existe a possibilidade de que os tsimanes tenham alguma variante genética que os protegeria das doenças cardiovasculares, além do seu estilo de vida. No entanto, os pesquisadores comprovaram que nos últimos anos os níveis de colesterol estão subindo, com uma concentração de colesterol LDL que passou de 1,84 milimol por litro na primeira década do século para 2,35 mmol/L em 2015. Isso descartaria a possibilidade de origem genética.

O aumento do colesterol coincidiu com uma intensificação da aculturação desse povo. Cada vez se veem mais as canoas com motor e a indústria madeireira abriu novos caminhos na selva. Isto permitiu aos tsimanes um maior acesso aos produtos ricos em açúcares e gorduras que podem ser encontrados em San Borja, o mais próximo povoado com mercado. Ainda é cedo para detectar se as mudanças na dieta provocarão um aumento da calcificação arterial, mas os autores do estudo acreditam que poderia estar em curso uma revolução nutricional que acabará com a boa saúde cardiovascular dos tsimanes.

Ibuprofeno aumenta em 31% o risco de parada cardíaca

Em muitos países é possível comprar remédios como o ibuprofeno sem receita. As pessoas tomam esses medicamentos para todo tipo de dores sem maiores restrições. No entanto, as autoridades médicas e de saúde há tempo advertem que não são inócuos. Um estudo publicado esta semana na revista European Heart Journal concluiu que o ibuprofeno aumenta em 31% o risco de parada cardíaca. A mesma pesquisa indicou que outros fármacos do mesmo tipo, anti-inflamatórios não esteroidais (AINE) apresentam um risco ainda maior.

Segundo os autores do trabalho, encabeçado pelo Hospital Universitário Gentofte, de Copenhague, o naproxeno é o AINE mais seguro, e seria possível tomar até 500 miligramas por dia. O diclofenaco é o mais perigoso e, dizem os pesquisadores, seu consumo deveria ser evitado, já que há outros fármacos com efeitos similares mais seguros.

“Permitir que esses remédios sejam comprados sem receita e sem nenhum conselho ou restrição envia uma mensagem ao público de que não há dúvidas quanto a sua segurança”, afirma Gunnar Gislason, coautor do estudo, em uma nota da Sociedade Europeia de Cardiologia. “Pesquisas anteriores mostraram que os AINE estão relacionados a um maior risco cardiovascular, algo que preocupa porque seu uso está muito disseminado”, acrescenta.

Para realizar este trabalho, os cientistas avaliaram todas as paradas cardíacas registradas na Dinamarca entre 2001 e 2010. Além disso, coletaram toda informação sobre prescrições desses medicamentos desde 1995. No tempo estudado, 28.947 tiveram parada cardíaca fora do hospital no país. Deles, 3.376 tinham tomado AINEs 30 dias antes de dar entrada. O ibuprofeno e o diclofenaco foram os dois medicamentos mais utilizados, cobrindo respectivamente 51% e 22% do uso total. Em relação ao incremento do risco de parada cardíaca, o ibuprofeno foi responsável por 31% e o diclofenaco, 50%.

Entre as explicações possíveis, os autores afirmam que os efeitos podem se dever à agregação de plaquetas que provoca coágulos, faz com que as artérias se estreitem, aumenta a retenção de líquidos e aumenta a pressão sanguínea. “Não acredito que esses remédios devam ser vendidos em supermercados ou postos de gasolina, onde não há orientação profissional sobre como usá-los. Os AINE só deveriam estar disponíveis em farmácias, em quantidades limitadas e doses baixas”, propõe Gislason.

Na Espanha, a Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos de Saúde (AEMPS) emitiu uma recomendação para limitar o consumo de ibuprofeno. Não se recomenda ingerir mais de 2.400 miligramas ao dia para pacientes com doença cardiovascular grave: insuficiência cardíaca, cardiopatia isquêmica, doença arterial periférica ou cerebrovascular. A recomendação chegou depois da revisão europeia (do Comitê para Avaliação de Riscos de Farmacovigilância) elaborada em relação ao risco cardiovascular deste medicamento assim como do dexibuprofeno, sobre o qual também se devem tomar precauções.

Remédios biológicos são tão bons quanto os seus ‘genéricos’

A guerra dos genéricos ocorrida no final de século passado será vista como uma brincadeira de crianças perto daquela que se prepara com os medicamentos de última geração, os chamados remédios biológicos. Muito mais complexos, difíceis de fabricar e caros, os medicamentos biológicos também possuem os seus genéricos, conhecidos como biossimilares. Agora, uma análise feita a partir de vinte estudos mostra que os originais são tão bons quanto as suas cópias.

Para entender aquilo que se aproxima, é preciso olhar um pouco para o passado. A primeira coisa é diferenciar os remédios tradicionais dos biológicos. Os primeiros possuem uma base química, razão pela qual, utilizando o mesmo princípio ativo, a mesma fórmula e os mesmos meios de fabricação, um medicamento genérico pode ser tão eficaz (terapêutico), seguro (efeitos colaterais) e ter a mesma ação (farmacocinética) que o original. No caso dos biológicos, a coisa se complica. Como as vacinas ou a insulina, eles se baseiam em um ser vivo, seja uma bactéria, um fungo ou alguma célula modificada por meio da biotecnologia. Isso faz com que uma cópia perfeita seja impossível de se produzir. Por isso, os genéricos dos remédios biológicos são chamados de biossimilares e não bioidênticos.

O outro item a ser considerado é o preço. Os custos de desenvolvimento de um remédio biológico são muito elevados e não diminuem proporcionalmente quando, uma vez obtida a sua fórmula mágica, se passa a produzi-los em massa. Isso faz com que esses medicamentos sejam muito caros. Eles tornaram possível uma revolução no tratamento do câncer, da artrite ou de doenças inflamatórias do intestino, mas provocaram uma grande elevação nos custos do sistema de saúde.

Para os fabricantes, foi um grande negócio. Em comparação com os milhares de remédios químicos, os biológicos são apenas algumas dezenas, mas, em 2017, deverão representar 20% do 1,04 bilhão de euros (cerca de 4 bilhões de reais) utilizados no consumo de remédios no mundo, segundo um relatório do IMS Health.

“Há muita coisa em jogo”, afirma Caleb Alexander, professor da Escola Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins (EUA), em conversa por e-mail. É enorme o fluxo de dinheiro que se dirige para as contas dos laboratórios farmacêuticos que desenvolveram os primeiros biológicos.

A quebra da patente de muitos deles, porém, já está estimulando a produção de biossimilares, que aliviariam relativamente os custos para a saúde pública. Nos EUA, já foram aprovados dois biossimilares. Na Europa, que nesse caso está bem à frente, a Agência Europeia de Medicamentos já liberou 21 biossimilares.

Com um grupo de colegas, Alexander fez uma compilação de todos os estudos comparativos entre remédios biossimilares e os originais usados no tratamento de artrite reumatoide, psoríase e doenças inflamatórias intestinais como a doença de Crohn ou a colite ulcerosa. Trata-se de medicamentos baseados em inibidores de uma proteína decisiva para o sistema imunológico conhecida como fator de necrose tumoral. Entre esses trabalhos, há ensaios clínicos em fase I (para determinar sua segurança) e em fase III, prévios à sua comercialização. Há também estudos que fazem um acompanhamento dos medicamentos aplicados a pacientes tratados inicialmente com originais e depois com biossimilares.

Em texto publicado nos Annals of Internal Medicine, o grupo afirma que, em todos os ensaios clínicos analisados, tanto da fase I quanto da fase III, os biossimilares registraram uma margem de equivalência entre 80% e 125% em relação aos medicamentos originais de referência. Embora não se possa inferir diretamente desses percentuais que em alguns casos o biossimilar até mesmo supera o original, “essa margem de equivalência se refere ao mínimo que um produto rende em relação ao qual ele é comparado”, lembra Alexander.

“O mesmo debate que aconteceu por ocasião da chegada dos genéricos, bem menos complicados, se repete novamente, agora com muito mais em jogo, com maiores possibilidades de erros, mas com um potencial também maior de redução de custos para o sistema de saúde”, comenta Alexander, que também integra a diretoria do Centro Johns Hopkins para a Segurança e Eficácia de Medicamentos. “Com base nas provas disponíveis, podemos concluir que os produtos estudados são comparáveis e, com toda segurança, serão mais baratos”, acrescenta.

Embora a análise feita tenha focado apenas um tipo de remédio biossimilar, deixando de fora outros já existentes, como os que se baseiam em anticorpos monoclonais para a psoríase e vários tipos de câncer, os pesquisadores acreditam que seus resultados devem diminuir a exigências estabelecidas para que os biossimilares possam competir com seus originais à medida que as patentes se expirem.

“A verdadeira guerra se dará no mercado dos biossimilares”, comenta Miguel del Fresno, professor da UNED que pesquisa há muitos anos as estratégias adotadas para conter a chegada dos genéricos e, agora, a dos biossimilares. E, nessa guerra, ele vê a existência de várias frentes de batalha, desde a definição clara do que é um biossimilar até a definição de quem pode receita-lo, passando pela escolha a partir da marca ou do princípio ativo, como ocorre no caso dos genéricos.

Para Del Fresno, “a chave estará em que os responsáveis políticos pelo sistema de saúde saibam distinguir o bem público do bem privado”, e acrescenta: “as patentes preservam o bem privado, enquanto o acesso aos medicamentos a um custo razoável preserva o bem público”.

 

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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