23/03/2017

À margem de um milagre do São Francisco

 

Idealizada há um século, transposição enfim é inaugurada, ao custo de R$ 9 bilhões. Mas, por enquanto, muitas comunidades do semiárido do Nordeste só veem a água passar, enquanto outras ainda esperam que ela chegue. A menos de um quilômetro do canal que traz as águas do rio São Francisco para a Paraíba, muitas torneiras estão secas. No bairro onde Gabriel mora, na cidade de Monteiro, por onde a obra da transposição entra no estado, a vizinhança paga a conta enviada pela companhia de saneamento, mas água só tem quem contrata o caminhão-pipa.

Monteiro ganhou os holofotes quando recebeu autoridades para inaugurar a "chegada das águas do Velho Chico nas torneiras paraibanas", como dizia o slogan. Mas a prefeita Anna Lorena ainda não vê motivo para festa. "Não é justo assistirmos à passagem das águas e os moradores não receberem esse benefício em suas casas", diz. Na zona rural de Monteiro a situação é de calamidade. Moradores de mais de 100 comunidades dependem de caminhões-pipa para sobreviver. Até os assentados na Vila Produtiva Rural, construída pelo Ministério de Integração para abrigar famílias que moravam na zona da obra, reclamam. A fonte da cidade é o reservatório de Poções, que passou a receber água do São Francisco há mais de uma semana. "Se já temos água no açude Poções, não justifica mais a falta dela nas torneiras", reclama a prefeita. Questionado pela DW Brasil, Helder Barbalho, ministro de Integração, informou que a responsabilidade do abastecimento domiciliar é do estado. A Cagepa, Companhia de Água e Esgoto da Paraíba, afirmou que Monteiro e outras 11 cidades da região devem sair do racionamento em abril, quando a instalação de um sistema de captação específico for concluída.

Meia dádiva

O caminho artificial para desviar parte do volume do rio São Francisco foi proposto pela primeira vez há mais 100 anos. O formato atual, chamado de Projeto de Integração do Rio São Francisco com as Bacias do Nordeste Setentrional (Pisf), foi apresentado em 2004 e começou a ser executado há dez anos pelo Exército. A obra, no total orçada em 9,6 bilhões de reais, prevê o transporte da água por dois eixos principais, sob a justificativa de garantir segurança hídrica às populações mais pobres do semiárido do Nordeste. O Eixo Leste, o primeiro a ficar pronto, tem 220 km de extensão. Ele começa em Floresta, Pernambuco, segue até Monteiro para, então, ser interligado à calha do rio Paraíba. De lá, as águas seguem o leito natural do rio até o reservatório de Epitácio Pessoa, que abastece Campina Grande.

O Eixo Norte, com 402 km de canais, passa por Pernambuco, Ceará, Paraíba até chegar em Rio Grande do Norte. Problemas com construtoras atrasaram sua conclusão, que agora está prevista para o final de 2017, segundo o ministro Helder Barbalho. Desde as discussões iniciais, o projeto causou polêmica e dividiu até a Igreja Católica - enquanto um bispo na Bahia fez greve de fome contra a transposição, o arcebispo da Paraíba divulgava manifesto a favor. "A parte política dominou o debate, já a técnica sempre esteve em segundo plano. Mas agora não pode mais continuar assim, senão a obra vai virar um elefante branco", alerta Janiro Rego, professor da Universidade Federal de Campina Grande, que acompanha o processo.

Vendo a água passar

Enquanto cidades no entorno do Eixo Leste reclamam de apenas ver a água passar, os operadores do reservatório de Epitácio Pessoa, o Boqueirão, contam as horas para vê-la chegar. As águas do São Francisco correm para socorrer Campina Grande, maior cidade do interior paraibano e polo industrial com mais de 1300 empresas. Cravada na região onde menos chove no país, o centro depende exclusivamente de Boqueirão. Com 3% de sua capacidade, o nível da água no reservatório baixa 2 centímetros a cada dia, e a bomba emergencial instalada trabalha 24 horas por dia. "O manancial é abastecido pela chuva, e vivemos mais de cinco anos de seca. Boqueirão foi perdendo capacidade até chegar neste nível", justifica Hélio Cunha Lima, presidente da Companhia de Água e Esgoto da Paraíba.

No entorno do reservatório, moradores de 19 cidades sofrem um racionamento severo para receber a água escassa, com alto teor de sal. "A gente não consegue beber", conta João, taxista de Campina Grande. "Comprei duas caixas d´água extras por causa do racionamento. Os vizinhos batem lá em casa e pedem água, a gente dá, mas não deixa ninguém abusar", diz, sobre a rotina de receber água apenas três dias na semana. Em Boqueirão, o alívio deve ser comemorado em meados de abril, quando as águas do São Francisco chegarem ao reservatório. "Depois disso, serão mais uns 30 dias para normalizar o abastecimento na região", afirma Lima. Sem o reforço do São Francisco, uma medida drástica seria a única alternativa. "Teríamos que evacuar toda a região", admite.

"O que vai ser da gente sem água?"

Quem vai comandar toda a operação, como o controle do volume de água que corre para os estados, é a estatal Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba). O serviço, no entanto, poderá ser privatizado, como destaca Helder Barbalho. "Nós demandamos ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento) que faça estudos sobre a possibilidade de haver uma transferência para uma gestão privada no futuro", diz o ministro da Integração. Ainda não se sabe quanto cada um dos quatro estados beneficiários pagará à Codevasf para receber água pelos eixo Leste e Norte. O custo será elevado, prevê Janiro Rego, pesquisador da UFCG. Para ele, problemas antigos na gestão de recursos hídricos deveriam ter sido resolvidos antes de a transposição chegar. "O Plano Estadual de Recursos Hídricos da Paraíba mostra que temos reservas suficientes para abastecer o estado. Mas agora estamos vivendo uma seca severa. E depois que essa seca passar e que Boqueirão sair do sufoco, o que vão fazer com as estruturas da transposição?", questiona. Para Inácio, trabalhador rural aposentado, a chegada da água, não importa se do céu ou pelos canais da transposição, é o mais urgente. "A gente reza pra chuva cair, mas ela não vem há seis anos. O que vai ser da gente sem água?", pergunta olhando para o alto, e poucos quilômetros de onde passa o Eixo Leste.

Mar avança sobre Rio São Francisco e afeta população ribeirinha em Alagoas

A estiagem prolongada tem feito o Rio São Francisco perder força na divisa de Alagoas e Sergipe, permitindo que o mar avance sobre a água doce. O fenômeno é conhecido como salinização e, segundo pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), está transformando o ecossistema da região e prejudicando a população ribeirinha. Sem chuvas e com menos água no leito, o rio acaba sendo empurrado pela maré nos pontos onde encontra o mar. É no trecho da Área de Preservação Ambiental (APA) da Foz do São Francisco, entre os municípios de Piaçabuçu (AL) e Brejo Grande (SE), que o fenômeno pode ser percebido com mais intensidade pelos quase 25 mil habitantes da região. "A gente pescava surubim, piau, dourado e todas as espécies de água doce. Era tanto peixe na rede que a gente não podia nem carregar. Nessa época, a gente também plantava arroz, que dava era muito. Hoje a coisa tá diferente, a água está tão salgada que arde até os olhos", relata o pescador alagoano José Anjo.

O que o pescador percebe no dia a dia também foi apontado pelo oceanógrafo Paulo Peter, pesquisador da Ufal que analisa os impactos ambientais e sociais da salinização do Rio São Francisco. "É possível notar no estuário a morte da vegetação típica de água doce, substituição dos peixes de água doce pelos de água salgada e inviabilização da água para o consumo humano". Para o pesquisador, a redução da vazão das águas do Rio São Francisco pela hidrelétrica de Sobradinho, na Bahia, agrava o problema. O volume de água liberado pela usina já superou 2.900 m³/s, mas nos últimos anos vem sendo reduzido gradativamente para prolongar a vida útil dos reservatórios. Em janeiro, a pedido da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) e autorizado pela Agência Nacional de Águas (ANA), a vazão passou para 700 m³/s, a menor da história, segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHRS). "Se a vazão do São Francisco permanecer como está, a situação será cada vez pior, tanto do ponto vista humano quanto ambiental", avalia Peter. O CBHRS diz estar em alerta, porque novos estudos avaliam reduzir ainda mais o volume da água do rio para uma vazão que pode chegar a 600m³/s. Contudo, ainda não há nenhuma definição neste sentido.

Saúde

O problema da salinização também se reflete na saúde dos ribeirinhos, como afirma a agente de saúde Suely Santos, que trabalha há 17 anos em Piaçabuçu. "A água do Rio São Francisco é para muitos moradores da região o único recurso hídrico que se tem para cozinhar e beber. Por conta da salinização, a água está provocando doenças. Nos últimos meses, aumentou bastante os casos de hipertensão entre os moradores, inclusive jovens". O povoado Potengy é o que mais sofre, porque fica bem próximo da foz e a captação da água distribuída para população ocorre no trecho onde há um maior efeito da água salgada do mar sobre a água doce. Para piorar o problema, esgoto é lançado sem tratamento no leito do rio. "A ação de saúde que hoje é feita com os moradores da região é de conscientização, para que eles evitem tomar a água do rio no período que a maré está mais cheia. Além disso, orientamos para que as pessoas tratem a água antes de consumir com hipoclorito ou fervura, para evitar a proliferação de doenças", afirma Suely.

Viagem em busca da água doce

Encontrar famílias inteiras dentro de barcos, dividindo espaço com garrafas e baldes, é comum na região. Elas precisam atravessar o rio para buscar água doce em pontos mais distantes da foz, uma viagem que pode durar até três horas. "Sem dinheiro para comprar água, temos mesmo é que viajar de barco para buscar. Do contrário, é tomar água ruim, que faz a gente adoecer. Minha esposa está com hipertensão, e minha filha já teve disenteria por tomar água daqui", afirma o pescador Jorge de Souza Santos, que faz esse trajeto a cada dois dias. A dona de casa Maria Eunice chega ao porto de Potengy carregada com bacias de roupas e baldes de água. Com a maré alta, ela foi até o outro lado do rio lavar roupas e buscar água para beber. "A caixa de água de casa está cheia, mas está tão salgada que não serve para nada. Essa água só vai melhorar quando a maré baixar. Não é que ela vai ficar doce, vai ficar salobra, e servir ao menos para um banho e para um lavado de roupa", afirma a dona de casa.

O pesquisador Paulo Peter, da Ufal, avalia que a estratégia de captar água para consumo na maré baixa não é adequada. "Constatamos que, mesmo na maré baixa, o sal permanece na água do rio, não desce para o mar como esperado. Com isso, na maré alta seguinte, esse sal que havia permanecido acaba sendo empurrado para trechos mais altos do rio". "Para os padrões técnicos, a água doce pode ter até 1/2 grama de sal por litro. Nas coletas que fizemos próximo ao povoado Potengy, encontramos variações de 6 a 7 gramas de sal por litro. Salinidade que deixa o líquido impróprio para o consumo humano", alerta Peter.

Solução e políticas públicas

Peter afirma que as pesquisas realizadas pela Ufal estão à disposição dos gestores públicos para traçar ações e políticas públicas que permitam a utilização mais adequada das águas do São Francisco. O secretário de Meio Ambiente de Piaçabuçu, Otávio Augusto, afirma que o município vem buscando parcerias para minimizar o problema. "Estamos com o governo do Estado e a Casal [Compahia de Saneamento de Alagoas] buscando estratégias para mudar o ponto de captação de água no município para um ponto onde não há o efeito da salinização. No entanto, os prejuízos já são enormes, porque a pesca na região diminuiu e lavouras tiveram que ser abandonadas por conta do sal", diz o secretário.

Já a Casal diz que a água captada e distribuída em Piaçabuçu é tratada e analisada antes de seguir para o consumidor com os padrões exigidos pelo Ministério da Saúde. Para isso, técnicos seguem estratégias para captar água apenas na maré baixa e em determinados horários onde a concentração de sal é menor. Sobre a redução da vazão na hidrelétrica de Sobradinho, o superintendente adjunto de Regulação da ANA, Patrick Thomas, diz que a Agência autorizou a Chesf, subsidiária da Eletrobras, a operar em 700 m³/s. “Essa redução foi necessária para fazer com que o reservatório não esvaziasse. Se isso acontecesse, poderia prejudicar totalmente o abastecimento não só em Piaçabuçu, mas em todas as cidades que dependem do reservatório de Sobradinho”, afirma. Ele reconhece que municípios que ficam na região da bacia do São Francisco estão enfrentando uma das piores secas dos últimos anos e que isso tem deixado baixa a fluência do rio, mas ressalta que, desde 2013, órgãos gestores se reúnem para discutir ações para prolongar a vida dos reservatórios. “A vazão nos reservatórios vem sendo reduzida porque a quantidade de água que entra é pelas chuvas e, como não chove muito, é preciso armazenar a água controlando a saída”, diz. Ainda segundo a ANA, até que haja chuvas com mais intensidade e por um longo período na região dos reservatórios, a situação deve permanecer como está. “A tendência é que seja mantida essa vazão nos próximos meses”, avalia Thomas.

Águas da transposição e de açudes são coletadas para análise na Paraíba

Algumas amostras da água que está chegando à cidade de Monteiro, no Cariri paraibano, através da transposição do Rio São Francisco, da água do Rio Paraíba e do açude de Poções, também em Monteiro, foram coletadas pela Companhia de Águas e Esgotos do Estado da Paraíba (Cagepa). O órgão quer fazer análises da potabilidade da água nestes locais para saber o qual tipo tratamento vai ser utilizado para o abastecimento da população. As coletas foram feitas na semana passada, na quinta-feira (16) e na sexta-feira (17). Na segunda-feira (20) a Cagepa confirmou que as amostras foram encaminhadas para laboratórios. Ainda não há uma previsão de quando todos os resultados serão divulgados. O gerente regional da Cagepa, Ronaldo Menezes, destaca que existe uma preocupação do que pode acontecer com as águas provavelmente deve ser necessário um tratamento específico. “A água que chega em Monteiro, vinda do São Francisco, não é a mesma que vai chegar ao açude de Poções, ao açude de Camalaú, nem ao açude de Boqueirão, pois as águas vão se misturando. Entre Monteiro e Boqueirão são 150 km de rio”, disse ele. No açude Epitácio Pessoa, conhecido como açude de Boqueirão, no Cariri paraibano, por exemplo, devido ao baixo volume do reservatório, a Cagepa tem utilizado um tratamento à base de peróxido de hidrogênio para combater cianobactérias e cianotoxinas.

Só 2,5% dos rios da Mata Atlântica tem água de qualidade, diz ONG

O relatório elaborado pela Fundação SOS Mata Atlântica divulgado nesta quarta-feira (22) mostra que a qualidade da água é considerada boa em apenas seis (2,5%) de 240 pontos analisados nas bacias brasileiras situadas nesse bioma. A Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o 22 de março como o Dia Mundial da Água. O documento traz o resultado de 1.607 análises da qualidade da água. São 73 municípios de 11 estados: Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo, além do Distrito Federal. Nenhum ponto monitorado apresentou a água com parâmetros necessários para ser considerada ótima. Em 168 deles, 70% das regiões analisadas, a qualidade é regular. Em 63, ou 26,3%, é ruim. Três pontos - 1,2% - têm o índice classificado como péssimo.

Critérios

As coletas foram feitas mensalmente no período de março de 2016 até fevereiro deste ano. São 16 critérios levados em consideração: temperatura da água, temperatura do ambiente, turbidez, espumas, lixo flutuante, odor, material sedimentável, peixes, larvas e vermes vermelhos, larvas e vermes brancos, coliformes totais, oxigênio dissolvido (OD), demanda bioquímica de oxigênio (DBO), potencial hidrogeniônico (pH), fosfato (PO4) e nitrato (NO3). Após a análise das amostras mensais em cada um dos pontos, foi feita a média dos resultados para estabelecer o índice de qualidade. “A principal causa da poluição dos rios monitorados é o despejo de esgoto doméstico junto a outras fontes difusas de contaminação, que incluem a gestão inadequada dos resíduos sólidos, o uso de defensivos e insumos agrícolas, o desmatamento e o uso desordenado do solo”, disse Malu Ribeiro, coordenadora de Recursos Hídricos da Fundação SOS Mata Atlântica.

De acordo com a fundação, em comparação com o ano anterior, 15 pontos apresentaram perda de qualidade da água. Treze deles estão localizados em capitais e em bacias urbanas. Desses, oito estão em São Paulo, na bacia hidrográfica do Rio Tietê; um na cidade do Rio de Janeiro, no Rio Pavuna; três no Recife, no Rio Capibaribe; e três em João Pessoa, nos Rios Jaguaribe e Tambiá. Outros 18 trechos analisados apresentaram melhoria em relação ao ano passado - todos estão localizados em regiões que contam com mata nativa e áreas protegidas, e também contam com ações de saneamento básico. Desses locais com melhorias, 15 estão na bacia hidrográfica do Rio Tietê, sendo sete deles localizados em São Paulo; um na cidade do Rio de Janeiro, junto ao sistema de pré-tratamento no Rio Carioca; um em Olinda, no Rio Beberibe; e um em Maceió, no Riacho Doce. Em 134 pontos analisados não houve alteração significativa da qualidade da água em comparação com o ano passado. Trinta e quatro deles, no entanto, mantiveram os índices de qualidade como ruim ou péssimo.

 

Fonte: Deutsche Welle/G1/Municipios Baianos

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