02/04/2017

Manobra da CBF é golpe das federações contra os clubes

 

A manobra da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) que alterou seu estatuto para dar maior peso às federações estaduais, em detrimento dos clubes, nas futuras eleições da entidade é classificada como "golpe" e "atitude rasteira" por especialistas esportivos ouvidos pela RBA.

Na última quinta-feira (27), no mesmo dia que a Seleção Brasileira enfrentava o Uruguai pelas Eliminatórias da Copa do Mundo da Rússia, a CBF aprovou seu novo estatuto, em assembleia que não contou com a participação dos clubes. A entidade tomou a iniciativa para se adequar à Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE), promulgada em agosto de 2015, que determinou a inclusão dos 20 clubes da Série B do Campeonato Brasileiro no colégio eleitoral da Confederação.

Até então, os clubes da Série A e federações tinham o mesmo poder de voto. Com a inclusão dos times da Série B, os clubes somados teriam prevalência numérica no colegiado, com 40 votos, contra 27 das federações. A CBF, então, atribuiu pesos diferentes aos seus integrantes, ficando as federações com peso 3, os times da Série A com peso 2, e os da Série B com peso 1, perdendo assim a possibilidade de influir de maneira decisiva nos rumos da entidade.

"Esse golpe da CBF é um despudor, comparável ao golpe dado na presidenta Dilma Rousseff", avalia o jornalista esportivo Juca Kfouri. "É rigorosamente um absurdo o que a CBF fez para se adaptar à nova legislação esportiva. Na medida em que a nova lei obriga que os clubes da primeira e segunda divisão estejam entre os eleitores, eles aumentaram o peso das federações para manter a maioria dos votos. É um golpe rasteiro, absolutamente pensado para dar no dia do jogo do Brasil e ninguém perceber, ou se dar conta do tamanho da falta de pudor dessa gente."

Já o especialista em gestão e marketing esportivo Amir Somoggi lembra que a CBF e as federações estaduais, somados, movimentam menos de 15% das rendas do futebol nacional. Mesmo com importância econômica reduzida, conservam o poder decisório. "Sem avisar os clubes, sem comunicar, simplesmente foram lá e fizeram. Como se vivêssemos numa ditadura, como se os clubes não fossem importantes. Foi, na verdade, uma atitude rasteira que mostra como é sombrio o ambiente que permeia tudo ligado ao futebol brasileiro", ressalta.

Outra medida também criticada é a manutenção da cláusula de barreira para candidatos a presidente da CBF. Segundo o regimento, o candidato terá de ter o apoio de oito federações e cinco clubes. Pelo fato de as federações seguirem as ordens da entidade presidida por Marco Polo Del Nero, as condições são consideradas anti-democráticas. "Tudo que eles fazem é não serem democráticos. A cláusula de barreira, em si, já é um absurdo e reforça-la é ainda pior. É a demonstração de que acham que são eles os donos do futebol brasileiro, e não o torcedor", diz Kfouri.

Com a mudança do estatuto, o mandato da presidência da CBF será de quatro anos, com direito a uma reeleição. Entretanto, as regras só valem a partir da próxima eleição, em 2019. Portanto, Del Nero poderá ficar no cargo até 2027.

Caso o atual presidente permaneça no cargo da entidade nos próximos dez anos, o Brasil não terá a presença do mandatário em três edições de Copa do Mundo (2018, 2022 e 2026), já que ele não pode sair do território brasileiro, pois é acusado de corrupção e conspiração e poderia ser detido pelo FBI.

"O mesmo golpe também deixa Carlos Arthur Nuzman no Comitê Olímpico Brasileiro. É um absurdo e todo mundo fica calado, não se faz nada para que haja uma busca na Justiça para impedir esse golpe", critica Juca Kfouri.

Clubes 'acovardados'

As reações do clubes, por ora, têm sido tímidas. Ao jornal esportivo Lance!, alguns dirigentes demonstraram contrariedade com a manobra da CBF. "Não gostei. Acho que os clubes foram traídos. Eu, como clube, me senti assim. Tínhamos 40 votos e as federações, 27. Em um passe de mágica passaram a ter 81 a 60. Eu não gosto de mandracaria", afirma o presidente do Santos, Modesto Roma Júnior. Já o presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, diz ser a favor de "pesos iguais para todo mundo".

Os clubes têm grande parcela de culpa nas ações da Confederação, apontam os especialistas. Para Somoggi, a desunião dos times fortalece a entidade. "Os clubes estão desunidos, enquanto a CBF e as federações estão muito unidas. Aí fica fácil lutar. Quando se tem uma desunião desse tamanho, dessas proporções, clubes que se odeiam, é ótimo para as federações e a CBF, que veem o enfraquecimento desses adversários."

Kfouri diz que os times são "covardes" para barrar os desmandos da entidade. "Infelizmente, eles são farinhas do mesmo saco, são cúmplices da situação. Até porque as suas eleições internas, com raras exceções, não são democráticas", critica. "A qualificação de um dirigente médio brasileiro é baixíssima. A cada três anos, muda, e vem um pior que o anterior", acrescenta Somoggi.

O jornalista afirma que esse modelo apoiado nas federações só existe no Brasil, e serve para a CBF manter o controle sobre os clubes. "As federações do Amapá, de Roraima, do Acre, que não têm nenhuma representatividade em termos nacionais no futebol, valem mais que o Flamengo, que o Corinthians e qualquer clube popular. Isso dá a medida de como, estruturalmente, é preciso haver uma mudança", analisa.

Como alternativa, Somoggi prega a constituição, pelos times, de uma liga para administrar o Campeonato Brasileiro, rompendo a dependência com a CBF, mas diz que os clubes, desorganizados financeiramente, se tornam presas fáceis para os cartolas da Confederação.

"Gastam uma fortuna, não têm estrutura gerencial. Como os clubes são muito ruins, do ponto de vista de administração e gestão, estão sempre desesperados. Quem está desesperado, não tem condição de negociar. Aceita qualquer coisa. Na prática, a CBF agradece que os clubes sejam mal geridos e desunidos."

 

Fonte: RBA/Municipios Baianos

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