07/04/2017

Caso Mayer é fichinha, para quem aplaude Bolsonaro

 

Se não for o fim da linha, é um golpe e tanto para a carreira de José Mayer, ator da TV Globo acusado de assédio por uma figurinista nos bastidores da novela “A Lei do Amor”. Após atribuir os crimes ao seu personagem machão na novela, o galã de 67 anos precisou pedir desculpas pela “brincadeira” ao ver dezenas de colegas chegarem para trabalhar com uma camiseta com as inscrições: “Mexeu com uma, mexeu com todas”. Foi Letícia Sabatella a primeira delas a se posicionar nas redes: “José Mayer não se emenda”. Em entrevista ao site Glamurama, ela fez o melhor resumo da questão: “Tudo isso faz parte da cultura do machismo. Pessoas que são bons pais, bons maridos e eventualmente bons colegas podem cair nessa esparrela”. A reação ao episódio parece dar razão ao ator em ao menos um ponto de seu pedido de desculpas: “o mundo mudou”. Mas basta analisar com cuidado o noticiário do mesmo dia para perceber o caminho que ainda falta percorrer.

No mesmo dia, a Polícia Civil de Minas Gerais indiciou o cantor Victor Chaves da dupla Victor e Léo, por suspeita de agredir a mulher, que está grávida. Contra ele pesaram as imagens do circuito interno do prédio onde mora. Não fossem as imagens, a vítima estaria até agora tentando justificar as dúvidas levantadas desde o início do episódio sobre sua sanidade – como se uma acusação desse calibre trouxesse a ela algum benefício.

São casos e casos, mas nem Zé Mayer nem Victor Chaves estão sozinhos. Como lembra Sabatella, eles são parte de uma cultura – uma cultura na qual o machão da novela tem status de galã e protagonista e “Bruto, Rústico e Sistemático” é não só nome de música como sucesso na rádio. Este caldo permite a um presidente, ex-vice decorativo, elogiar a perspicácia da mulher na hora de fazer compra no supermercado em um dia de luta, o Dia da Mulher. Basta observar a montagem de seu gabinete para perceber o moral que as “representantes do mundo feminino” – grifo dele – têm em seu governo. Justo ele, que chegou ali pelos votos dados a uma mulher, que no tempo em que ocupou a Presidência não teve mais erros (e foram muitos) na condução da política e da economia que valeram tanto desconforto, com direito a encômios impronunciáveis, quanto o fato de ser mulher. Isso diz muito, ou deveria dizer, sobre o país onde um ator global se sentiu à vontade para chamar uma figurinista de vaca e colocar a mão entre suas pernas.

Uma espiadela nos postos de comando, onde as hierarquias são referendadas, ajuda a expandir a questão. Tempos atrás, uma estudante registrou um boletim de ocorrência após ser espancada com socos e chutes e desmaiar. As agressões foram confirmadas por exame de corpo de delito, que apontou lesões na cabeça, boca, orelha esquerda, região dorsal, braço direito e joelho esquerdo”. O acusado era o senador Telmário Mota. Outro senador, Lasier Martins (PSD-RS), que ganhou projeção como repórter e comentarista de TV, precisou usar a tribuna, dias atrás, para se defender da acusação de agredir a companheira. Ela prestou queixa na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher, em Brasília, onde afirmou ter sido agredida durante uma discussão. Também realizou exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML) e disse a uma rádio que sua filha, de 10 anos, presenciou as cenas de agressão. “Ele me humilhava na frente da minha filha. Dizia que eu não era mulher para estar em Brasília”, afirmou.

Em 2016, Marco Feliciano, deputado símbolo da bancada religiosa, foi acusado de assédio por uma jovem – que passou a ser investigada por tentativa de extorsão. Já em 2017, uma vereadora de São Paulo foi xingada pelo colega Camilo Cristófaro de “vagabunda”. Segundo ele, não seria surpresa se ela tomasse uns tapas na rua.

Entre os possíveis presidenciáveis de 2018, se houver eleição ou país até lá, dificilmente haverá alguém que não respondeu a ao menos uma polêmica ou acusação relacionada à questão de gênero, para não falar da sexualidade. É o que une esquerda e direita num país de assimetrias tão escancaradas e tão pouco faladas. Um deles já atribuiu à companheira o papel unicamente de dormir com ele na campanha. Outro, conhecido pelos gracejos com repórteres mais jovens, precisou se refrescar com uma taça de vinho arremessada por uma senadora ofendida com a sua abordagem em uma festa. Outro já foi acusado de agredir a namorada em hotel de luxo – história até hoje mal explicada.

Entre todos eles, nenhum caso é tão simbólico quanto o do deputado Jair Bolsonaro, que cresce como alternativa contra tudo isso que está aí à medida que os chamados grupos tradicionais entram em colapso em razão da crise econômica e da Lava Jato. Para Bolsonaro e companhia, crime não é só brincadeira: é merecimento calculado por atributo estético. Num país onde crime é citado como brincadeira, Bolsonaro tem arregimentado apoio, sobretudo nas redes sociais, de quem confunde covardia com coragem de dizer verdades e luta de minorias com “ditadura do politicamente correto”. É a fórmula perfeita para a invenção de um “mito” salvador da pátria.

Entre as “verdades” do possível presidenciável estão não apenas platitudes sobre economia e sociedade, mas incitação ao ódio contra os grupos já historicamente violentados do país. Em uma inacreditável entrevista concedida ao Estadão, ele prometeu, entre outras coisas, “explodir” o politicamente correto no Brasil. Para quem promete atirar na testa de militantes sem-terra, mas não faz um reparo aos gigantes responsáveis por corromper fiscais e vender carne podre no mercado, não estranha a nomeação, por parte do deputado, dos grandes males do país: “Acabaram com nossa alegria de viver, não pode fazer uma brincadeira, uma piada, tudo não pode, é preconceito. Tá aí as feministas, tá aí o LGBT, as minorias. Uma desgraça no Brasil”. Bolsonaro, vale lembrar, se tornou réu, em março deste ano, por dizer em 2014 à deputada Maria do Rosário (PT-RS) que ela não merecia ser estuprada apenas porque era “muito feia” – segundo o Ipea, mais de um quarto da população brasileira concorda que mulheres que usam roupas reveladoras merecem ser estupradas. Para Bolsonaro e companhia, crime não é só brincadeira: é merecimento calculado por atributo estético.

O discurso não impediu Bolsonaro de ser recebido com euforia e aplausos por um auditório lotado no clube Hebraica, no Rio de Janeiro, onde prometeu acabar com as reservas indígenas, com as comunidades quilombolas (“não servem nem para se reproduzir”) e restringir a entrada de refugiados no país. Ao mesmo público, disse que “fraquejou” ao ter uma filha mulher. Para o deputado, é coisa de idiota querer debater “misoginia, homofobia, racismo, baitolismo”. Justo ele, acusado de xingar o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) de “queima-rosca” e “veadinho” durante uma sessão na Câmara. O machão da novela jamais se restringiu ao núcleo da ficção. Faz estragos na vida real e sonha ser presidente. Os aplausos recebidos na Hebraica são mais do que um alerta. São sintomas de um país que transforma covardia e incitação do ódio em virtudes sob o selo de uma suposta virilidade. Alguém mais precisa se emendar?

'José Mayer não errou. Ele cometeu um crime', diz Marcha das Mulheres

A Marcha Mundial das Mulheres reforçou que o caso de assédio sexual praticado pelo ator global José Mayer contra a figurinista Susllem Tonani não é um “erro”, como definiu o artista em carta encaminhada à imprensa. “O que ele cometeu foi um crime. Ele tocou a vagina dela sem consentimento. Isso é estupro”, disse uma das integrantes do movimento, Carla Vitória. Ela defendeu que o caso retrata claramente relações de poder. “São coisas que acontecem cotidianamente com as mulheres e ficam embaixo do pano, principalmente nos meios artísticos. Ele utilizou do poder que tinha, de ser um ator famoso, com muitos anos de carreira, sobre uma figurinista que não era uma funcionária fixa da emissora. É uma posição de poder”, disse. Carla defendeu que o caso ganhou tanta repercussão por se tratar de uma pessoa famosa e lembrou que o “patriarcado está em todo lugar”.

Na última sexta-feira (31), Susllem Tonani, de 28 anos, publicou relato no blog #Agoraéquesãoelas, do jornal Folha de S. Paulo, acusando José Mayer de assédio sexual. Ela narrou diversos episódios de assédio praticados pelo ator. Em um deles, em fevereiro, “dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim, ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo”, relatou. O texto teve grande repercussão e acabou sendo tirado do ar pelo jornal. Usuárias das redes sociais continuaram compartilhando o relato até que a Folha trouxesse o texto novamente ao ar. Em um primeiro momento, José Mayer negou as acusações e afirmou que estavam misturando "ficção com realidade", devido ao comportamento machista de seu personagem na recém-encerrada novela das 21h, A Lei do Amor, chamado Tião Bezerra. No domingo (9) circulou a notícia de que a Globo afastaria o ator da novela "O sétimo guardião", de Aguinaldo Silva, para a qual estava escalado em 2018. Na ocasião, o autor afirmou que até "até segunda ordem" manteria Mayer no elenco.

Na manhã de terça (4), figurinistas, diretoras, atrizes e funcionárias da TV Globo realizaram um ato de apoio à figurinista nos estúdios da emissora, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro. Várias atrizes, como Sophie Charlotte, Drica Moraes e Tainá Müller, postaram fotos nas redes sociais vestindo camisetas com a frase "mexeu com uma, mexeu com todas". Gloria Pires, Grazi Massafera, Bruna Marquezine, Camila Pitanga e Taís Araujo compartilharam a frase em seus perfis em redes sociais. Logo após o ato a direção da emissora confirmou que José Mayer estava não só afastado da próxima novela, como suspenso por tempo indeterminado. “O papel da empresa seria demitir o agressor. Ele foi suspenso, mas vindo da Globo, que tem uma linha editorial que chega a incentivar a violência contra a mulher e que constrói a ideia de que mulheres provocam a violência, pode ter sido mais para abafar o caso. Houve uma mobilização grande nas redes. Isso mostra que quando as mulheres se unem, elas conseguem por fim à violência”, afirmou Carla, que garantiu que continuará acompanhando o caso para confirmar se a emissora manterá o ator afastado. No início da tarde, o ator enviou à imprensa uma carta "aos meus colegas e a todos, mas principalmente aos que agem e pensam como eu agi e pensava". Mayer diz que errou e pede desculpas. "Mesmo não tendo tido a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar, admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito com que devo tratar minhas colegas. Sou responsável pelo que faço", disse.

“José Mayer assumiu porque estava muito queimado na imprensa. Houve um grande movimento de mulheres que já foram colegas de trabalho dele. O jeito que ele assumiu não passou de uma jogada de marketing. Ele não assume que foi machista, diz que foi apenas um erro. Ele tem toda a assessoria de imprensa da Globo para tentar minimizar o caso”, avalia Carla, da Marcha das Mulheres. “Não podemos acreditar nas desculpas. A violência não tem desculpa e a culpa nunca é culpa das mulheres.” Em nota, a emissora afirmou que “lamenta que Susllem Tonani tenha vivido essa situação inaceitável num ambiente que a emissora se esforça cotidianamente para que seja de absoluto respeito e profissionalismo. E, por essa razão, pede a ela sinceras desculpas". A figurinista não se manifestou.

Machismo na Globo: José Mayer perdeu

Foi o assunto de ontem nas redes sociais. Parece que o “machismo invisível” começa a sair das “quatro paredes” e tornar-se público. Ganhamos visibilidade. É o que mostra a denúncia feita pela corajosa figurinista Susllem Meneguzzi Tonani contra José Mayer. Ele, ator famoso, rico, branco, o típico garanhão da principal emissora de TV do país. Ela uma mulher jovem, figurinista, pessoa dos bastidores, como tantas vezes as mulheres são na própria vida. Este caso mostra que alguma coisa mudou. A denúncia veio à tona e venceu a versão da vítima. O ator José Mayer assumiu que a acusação de ter assediado sexualmente uma funcionária da Rede Globo é verdadeira. Em uma carta, ele pediu desculpas e disse que é de uma geração que aprendeu a ser machista. O assunto é banal? Se trata apenas de fofoca de celebridade? Com certeza não. E é necessário responder as desculpas que o ator global deu. Dizer que é de uma geração que aprendeu a ser machista é uma justificativa tosca. Agredir mulheres é e sempre foi errado. Para saber disso, basta ter empatia por outro ser humano. Isso ele deveria ter aprendido independente da geração a que pertence.

Um caso desses, que envolve uma celebridade, encoraja mais mulheres a denunciar abusos. Por isso é importante dar apoio e ajudar a expor alguém como José Mayer. Se trata de uma questão política sim. O assunto é grave. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, 52% das mulheres já sofreram algum tipo de assédio sexual no ambiente de trabalho. A solidariedade de atrizes famosas e a visibilidade dada pelo Blog da Folha “Agora é que são elas” foi importante. Mas não explica o ocorrido. É impossível entender este episódio fora do contexto da luta de milhares de mulheres, do surgimento de um movimento internacional expressivo, da grande adesão ao 8 de março de 2017. Tudo isso criou uma reação progressiva que ganhou milhares de pessoas para a ideia de que não se pode tolerar o machismo.

Estamos longe de dizer: “viramos o jogo”. Com a flexibilização dos direitos trabalhistas proposta pelo governo Temer, o poder de chantagem dos patrões aumenta e a situação tende a piorar. Com a lei de terceirização ilimitada sancionada recentemente pelo presidente, a punição dos assediadores vai ficar mais difícil. Uma ação trabalhista de um trabalhador terceirizado pode durar até quatro anos a mais e tem menos chance de vitória. O pacote de maldades do governo contra os trabalhadores é especialmente machista. São as mulheres que ganham os piores salários, estão nos postos mais precários e correm o maior risco de demissão. Serão elas as primeiras a sofrer. E o assédio sexual no trabalho é uma face dessa brutalidade.

Neste caso, será preciso acompanhar qual será a postura da Globo com a figurinista Susllem Meneguzzi Tonani, ela deveria ter no mínimo estabilidade no emprego. Esta seria uma medida mínima, de segurança econômica, para que depois do escândalo a mulher não se torne vítima pela segunda vez. Esta história deve servir para que centenas de outras mulheres assediadas no seu local de trabalho sintam-se mais fortes. É tempo de romper o silêncio.

 

Fonte: Por Matheus Pichonelli, no The Intercept/RBA/Esquerda Online/Municipios Baianos

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