08/04/2017

Sociedade Israelita da BA critica Hebraica por palestra de Bolsonaro

 

A Diretoria da Sociedade Israelita da Bahia repudiou a decisão da Hebraica do Rio de Janeiro de convidar o Deputado Jair Bolsonaro (PSC) para uma palestra. O evento aconteceu na última segunda-feira (3), quando o parlamentar afirmou, dentre várias declarações polêmicas, que, caso seja eleito presidente da República, não haverá “um centímetro demarcado para reservas indígenas ou quilombolas”. O deputado também criticou refugiados dizendo que não se pode “abrir portas para todo mundo”.

Para o presidente da Sociedade Israelita da Bahia, Miguel Kertzman, as ideias do deputado são baseadas no velho ideário da ideologia fascista. “Nacionalismo xenófobo, governo totalitário, submissão de minorias étnicas e religiosas, desrespeito aos direitos humanos, inclusive com admissão da tortura, temperadas por receitas singulares de desrespeito às mulheres, inclusive com admissão do estupro como ato trivial”, disse em nota.

Ainda segundo Kertzman, a ideologia de Bolsonaro se choca brutalmente com os valores judaicos cultivados há quase 3500 anos. “De respeito à Vida, da Justiça como forma de melhorar o mundo, e finalmente a Liberdade como culminância do Livre Arbítrio, legado intrínseco do Judaísmo. Pelas várias manifestações de repúdio de inúmeras personalidades e instituições judaicas brasileiras ao desastrado evento da Hebraica, não restam dúvidas que a Comunidade Judaica Brasileira, não está dividida e nem de longe será seduzida por valores estranhos à sua tradição, estando unida na afirmação da construção democrática”, completou.

Parlamentares acusam Bolsonaro de racismo

Parlamentares da oposição protocolaram uma representação contra o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) sob a acusação de ter praticado crime de racismo durante uma palestra realizada no Clube Hebraica, na zona sul do Rio, na última segunda-feira (3).

Na ocasião, o parlamentar fez afirmações preconceituosas e jocosas sobre negros, indígenas, mulheres, gays, refugiados e integrantes de ONGs. Na peça, os petistas afirmam que, durante a palestra, Bolsonaro disse que tinha ido a um quilombo e que o "afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas". "Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais."

O deputado teria dito ainda que o governo gastava mais de R$ 1 bilhão por ano com os quilombos, e que, se ele fosse eleito presidente da República, não iria "ter nenhum centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola".

Na representação, os deputados e senadores afirmam que Bolsonaro "ainda não percebeu que o País evoluiu, a sociedade acordou e não aceita, não compactua e não silenciará jamais diante de condutas desse jaez".

O documento também registra ser "importante destacar que o representado é reincidente nas violações de direitos humanos e em ataques da espécie, de modo que sua conduta social e os caminhos tortuosos por ele trilhado agravam as ofensas aqui delineadas e certamente deverão ser consideradas na persecução penal".

Para a deputada Benedita da Silva (PT-RJ), que participou da entrega da representação ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o parlamentar precisa sofrer uma "punição severa", já que Constituição torna o crime de racismo um crime inafiançável.

"Ele é racista, preconceituoso, machista, ele é tudo isso. Como a gente vai aceitar que um parlamentar, que está investido de autoridade, de imunidade, que tem que representar o interesse da população, possa dizer uma coisa dessa impunemente", afirmou.

Se entender que houve crime, a Procuradoria-Geral da República poderá entrar com um pedido de abertura de inquérito contra o deputado no Supremo Tribunal Federal (STF). Bolsonaro já é réu no Supremo sob a acusação de incitação pública ao crime de estupro, por ter declarado que "não estupraria a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) porque ela não mereceria".

Existe algum membro do Ministério Público com coragem e caráter para processar Bolsonaro? Por Pedro Pulzatto

Todos os dias que entro numa sala de aula, afirmo que a liberdade de expressão e de pensamento é direito constitucional e, também, que liberdade de expressão não se confunde com liberdade de opressão. Ao mesmo tempo em que o art. 5º, inciso IV, da CF, consagra a liberdade de pensamento e o inciso IX consagra a liberdade de expressão, o art. 3º, inciso IV, diz ser objetivo da República promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Apesar de ser cada vez mais comum a aplicação da Constituição pela metade, com a validação de um Judiciário majoritariamente genocida, especialmente no que diz respeito aos direitos de minorias e a concessão de liminares para reintegração de posse em terras indígenas, quilombolas ou em qualquer outra ocupação por luta por moradia, qualquer um que tem compromisso com a legalidade precisa ser responsável e compreender a ordem constitucional como um todo.

A concessão de liminares para reintegração de posse, despejo ou qualquer outra medida judicial que retira, antes do trânsito em julgado, crianças de suas moradias para colocá-las na beira de estradas, na rua ou qualquer outro local de risco, é genocida pois viola frontalmente e irresponsavelmente o princípio da proteção integral consagrado em outro artigo da mesma Constituição que protege a liberdade de pensamento, de expressão e a propriedade privada. Esse artigo é o 227, que diz:

É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Sei bem que o fetiche pela violência é marca registrada de parcela considerável da nossa sociedade. O desejo quase que sexual pelo paletó ou pela farda violenta marca aqueles e aquelas que encontram na violência, na humilhação e na destruição, um objeto fálico que satisfaz os desejos mais profundos que consubstanciam o vazio da angústia de não terem tido a oportunidade de compreender as delícias do afeto, do respeito e da liberdade. Parafraseando Raduan Nassar em “Lavoura Arcaica”, é impossível exigir um abraço de afeto daqueles de quem amputamos os membros.

Quando o Bolsonaro se refere à fome dos quilombolas fazendo referência a arrobas, quando afirma que não servem nem para procriar, temos a configuração clara do crime previsto no art. 20 da Lei 7.716/98, que diz:

Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena: reclusão de um a três anos e multa.

A questão é saber se existe algum membro do Ministério Público com coragem e caráter suficiente para dar andamento a uma ação penal contra esse sujeito, considerando que manifestação de pensamento e imunidade parlamentar não autorizam a opressão.

Quando esse sujeito faz isso e outras pessoas riem ou se esforçam para justificar a legitimidade política dessa figura sórdida, o universo escancara para todos nós que prestigiamos a democracia o fato incontestável do nosso equívoco até aqui. Erramos, companheiros! Erramos feio! Todas as nossas lutas, todo o sangue que vimos escorrer, todo o nosso suor diário, não serviu para alterar as estruturas da violência.

As estruturas da violência e do ódio estão mais firmes do que nunca, apesar de termos cuidado daqueles que estavam mais dispostos a receber afeto e respeito para seguirem promovendo liberdade, não tivemos estômago para cuidar daqueles que, com os orifícios espirituais, psíquicos e físicos vazios de afeto, se apaixonaram loucamente pelo falo significante da violência, do desprezo e do descompromisso. Menos egocentrismo, menos falocentrismo! Por que não as flores (para não dizer que não falei das flores)?

Erramos, companheiros! E se quisermos mexer nas estruturas, teremos de preparar o nosso estômago e o nosso fígado, pois tem muita coisa podre que ainda não emergiu.

Sigamos firmes.

 

Fonte: Metro 1/Tribuna/Justificando/Municipios Baianos

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