18/04/2017

Transposição 'não facilitou nada', diz agricultora

 

As águas da transposição do Rio São Francisco chegaram há um mês na cidade de Monteiro, no Cariri da Paraíba, levando esperança de dias melhores aos paraibanos, que há cinco anos enfrentam a seca no estado. Com a promessa de tirar as cidades da crise no abastecimento, a realidade de quem mora na zona rural é bem diferente de quem está na área urbana.

A agricultora Inácia Maria da Silva, 50 anos, não está muito animada com a chegada das águas da transposição. Ela mora no sítio Serra Branca, na zona rural de Monteiro, a cerca de 18 quilômetros do centro da cidade. Para essa região não há água encanada.

Durante toda a vida ela se acostumou a ter o lar abastecido por água de poços artesianos e por carros-pipa. Segundo ela, a água da transposição está beneficiando mais os moradores da zona urbana. “Pra quem mora aqui na cidade ou nas proximidades vai mudar muita coisa. Vai facilitar muito a vida do pessoal. Pra gente (que mora na zona rural) não vai facilitar nada”, disse ela.

Em tempos em que a região ainda não era tão castigada pela seca, Inácia Maria da Silva conta que fazia plantio nas terras. “A gente vive da roça. Quando tinha água, na época que tinha inverno e o açude estava cheio, a gente sempre plantava alguma coisa. Já tem uns cinco anos sem plantar. São cinco anos de seca. Hoje a gente vive de aposentadoria”, afirmou a agricultora.

Sistema de abastecimento

A Companhia de Água e Esgoto da Paraíba (Cagepa), responsável pelo abastecimento de água e tratamento de esgoto no estado na Paraíba, confirmou que a água que chega através da transposição do Rio São Francisco vai para açudes, mas estes só levam água encanada para a área urbana.

“A Cagepa só atua na área urbanizada, por isso não há encanamento para algumas comunidades rurais. Nestes locais, o abastecimento é feito geralmente por poços. O que a Cagepa às vezes faz, é criar um chafariz para uso da comunidade. De fato a água que chega da transposição não vai para algumas áreas rurais, pois não há canos. Não há sistema adutor”, explica o gerente regional da Cagepa, Ronaldo Meneses.

A transposição

A água da transposição do Rio São Francisco chega à cidade de Monteiro, na Paraíba, através do eixo leste. Neste trecho, a água é captada na cidade de Petrolândia, no Sertão de Pernambuco e viaja por 208 quilômetros até chegar à cidade paraibana. As águas chegaram a Monteiro, no dia 8 de março deste ano e, em menos de um mês após receber a transposição, o primeiro açude a receber as águas já começou a sangrar.

A água captada do Rio São Francisco passa por seis estações elevatórias de água, cinco aquedutos, 23 segmentos de canais e ainda 12 reservatórios. A intenção da criação dos reservatórios é beneficiar as comunidades onde foram construídos e também garantir que a água não pare de correr pelos canais, caso seja necessário fazer algum reparo no trecho.

Os 12 reservatórios são: Areais, Baraúnas (o maior deles, com capacidade para mais de 14 milhões de metros cúbicos de água), Mandantes, Salgueiro (5,2 milhões de m³), Muquem, Cacimba Nova, Bagres, Copití, Moxotó, Barreiro, Campos (o segundo maior com 8 milhões de m³) e Barro Branco.

Passagem da água na Paraíba

Depois de chegar a Monteiro, as águas do “Velho Chico” vão para o Rio Paraíba e através dele segue pelos açudes de São José I e Poções, ainda na cidade de Monteiro; pelo açude de Camalaú; pelo açude de Boqueirão; pelo açude de Acauã, em Itatuba; pelo açude de Araçagi e depois segue para um perímetro irrigado no município de Sapé.

O açude São José I já está sangrando com a chegada das águas da transposição do Rio São Francisco. Já o açude Poções está com um volume de 6,6%, o açude de Camalaú está com 14,4%, o açude de Boqueirão está com 3%, o açude de Acauã está com 5,3% e o açude de Araçagi está com 71,3%.

População queima vegetação para tentar acelerar passagem da transposição na PB

Preocupados com a lentidão da passagem das águas da tranposição do Rio São Francisco pelo leito do Rio Paraíba, os moradores da zona rural do município de Barra de São Miguel, no Cariri paraibano, estão ateando fogo na vegetação existente no meio do rio. A intenção é diminuir os obstáculos para que a água consiga passar com maior velocidade e chegue mais rápido ao espelho d'água do açude Epitácio Pessoa, conhecido como açude de Boqueirão. O reservatório está com apenas 3% da capacidade total de água.

Desde a madrugada da última quarta-feira (12), as águas já entraram na bacia hidráulica do açude (área total do que abrange o reservatório), mas o volume do manancial está tão baixo que, ainda na tarde deste domingo (16), faltavam cerca de 4 km para que a água da tranposição encontrasse com a água do açude, que abastece Campina Grande e outras 18 cidades da região.

O pintor Romero Ferreira, de Campina Grande, aproveitou o domingo para viajar até o Cariri para acompanhar a chegada das águas. Ele disse que está preocupado com as barreiras que a água está precisando enfrentar para passar e apoiou a iniciativa dos moradores. “Eu vim de Campina Grande para ver a realidade da água. Tem muitos obstáculos para a água chegar ao açude Epitácio Pessoa. Essa queimada foi o que ajudou. O capim aqui é muito alto. Ele queimando fica melhor”, disse o pintor.

A Agência Executiva de Gestão das Águas da Paraíba (Aesa) garantiu que todas as obras e atividades necessárias para que o Rio Paraíba e os açudes recebessem as águas da tranposição foram feitas. Entretanto, na zona rural de Barra de São Miguel e de Cabaceiras, os moradores informam que não viram máquinas ou trabalhadores fazendo limpeza no leito do Rio Paraíba.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, o fogo sendo controlado não representa um risco, mas existe a preocupação de que as chamas se espalhem e atinjam outras águas, saindo do controle da população. O G1 tentou encontrar em contato com a Polícia Militar Ambiental, mas as ligações não foram atendidas.

'Não reclamo de nada, Deus é quem sabe a hora', diz agricultor após 5 anos de seca

Em 68 anos de vida, o agricultor Francisco Leonardo da Silva, 68 anos, conta que nunca viu uma seca tão prolongada, no Cariri paraibano. Casado com a também agricultora Maria das Graças Oliveira Silva, 59 anos, ele já viu três filhos deixarem a Paraíba depois de uma estiagem que já dura 5 anos. O casal mora no sítio Pata, na zona rural de Cabaceiras. Com a chegada das águas da transposição do Rio São Francisco, o “Velho Chico” traz nova esperança ao “Chico de Maria”, como é conhecido o agricultor na região.

Quando tem água, o casal planta feijão, capim e cria gado. Francisco e Maria têm cinco filhos, sendo três mulheres e dois homens. Marcone de 21 anos e Márcio de 36 se mudaram para o Rio de Janeiro depois que o Rio Paraíba secou e eles ficaram sem água para plantação irrigada. Uma das filhas foi morar em Caruaru, Pernambuco, outra se mudou para a zona urbana de Cabaceiras e apenas a filha mais nova, de 16 anos, continua morando com o casal na zona rural.

“Eu tenho dois filhos (homens) que já foram pro Rio [de Janeiro] porque não tinham do que viver quando o Rio [Paraíba] secou. Já são cinco anos. Não teve do que sobreviver e [eles] estão lá agora. Lá (no Rio de Janeiro) eles trabalham de porteiros”, conta a mãe.

Fé do homem do campo

Mesmo com as “perdas dos filhos” para a seca, o casal nunca abandonou a terra, sempre acreditando que um dia a situação iria melhorar. A fé de Francisco não se abala, apesar das dificuldades enfrentadas.

Bênção de Deus

No leito do Rio Paraíba ainda com o chão rachado pela seca, Maria usa uma pequena garrafa plástica para coletar um pouco da água que acabara de chegar ao sítio. “Eu vou levar para minha menina (a filha) ver. Isso aqui é uma benção de Deus. Mais de 5 anos [de seca], né Chico?”, diz Maria para o marido.

Retorno dos filhos

A chegada da água traz ao casal a esperança de reencontrar os filhos. Alguns já querem voltar para casa. “Eles ligam todas as semanas. O [meu filho] mais novo diz que a hora que o rio encher, vem embora para plantar. Ele me disse que estava pra vir logo agora pra ver a água do rio chegando, mas eu disse: 'tenha calma, deixe chegar e vamos ver como vai ficar'”, disse Maria.

Esperar um pouco mais

O casal sabe que, mesmo com a chegada das águas, não terá efeito imediato na produção agrícola. A prioridade será a recarga dos açudes que abastecem a população no estado. “Não vão deixar plantar agora não porque vai ter que deixar passar muito tempo para abastecer as cidades como Boqueirão e Campina Grande”, disse Maria.

Com a água de poços artesianos, o casal tem plantado para garantir o mínimo de sustento da filha de 16 anos. “A gente nunca parou de plantar não porque a gente tem poço [artesiano]. Mas a gora vai ficar mais fácil né?”, disse Francisco.

Obra de recuperação em barragem do MA está atrasada há dois anos

Dois anos após o desabamento da principal comporta da barragem do Bacanga, em São Luís, as obras de recuperação emergenciais ainda não foram concluídas. A barragem têm como função a regulagem da água do mar e evita o alagamento de bairros como Coroadinho, Sá Viana e Vila Embratel. A obra orçada em mais de R$ 7,5 milhões teve inicio logo após a ruptura da estrutura.

Os reparos incluem a urbanização da barragem que liga o centro de São Luís à área Itaqui-Bacanga, com o reforço das estruturas nos dois sentidos. Contudo, essa etapa ainda não começou. Por enquanto, um guindaste que suspende a comporta é que permite a troca de água.

O prazo pra entrega da obra já foi adiado, pelo menos, duas vezes. Em nota, a Secretaria de Estado de Infraestrutura (Sinfra) afirma que a recuperação da barragem só deve ser concluída no fim deste primeiro semestre, pois passa pelo processo de montagem das comportas. O prazo final de recuperação da barragem é até 25 de junho.

Relembre o caso

A Justiça determinou que o Estado do Maranhão efetue em um prazo máximo de um ano a despoluição e recuperação das águas da barragem do Bacanga. O estado também deverá elaborar um plano de manejo para a renovação constante das águas e plano de contingência que determine o funcionamento permanente das comportas.

O governo do Maranhão terá o prazo de 90 dias para a entrega do cronograma das atividades de realização do enquadramento.

A decisão é baseada em uma Ação Civil Pública (ACP) solicitada pelo o Ministério Público do Maranhão (MP-MA) que constatou através de provas coletadas que a barragem do Bacanga sofre com o contínuo despejo “in natura” de grande volume de esgoto doméstico e de lixo.

 

Fonte: G1/Municipios Baianos

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