19/04/2017

Temer diz a deputados que é preciso 'resistir' à Lava-Jato

 

Atingido em cheio pelas delações da Odebrecht, que geraram aberturas de inquéritos contra oito de seus ministros e parlamentares aliados, o presidente Michel Temer disse nesta terça-feira, em café da manhã com deputados da base no Palácio da Alvorada, que a classe política precisa "resistir" ao "problema sério" que o país atravessa, uma referência indireta à Lava-Jato.

Temer afirmou que ele pessoalmente resiste "o quanto pode" e que as "questões mais variadas", como a crise gerada pela lista do ministro Edson Fachin, relator das investigações no Supremo Tribunal Federal (STF), têm o objetivo de "desprestigiar a classe política".

— Há um problema sério no país, vocês sabem disso, as questões as mais variadas, que muitas e muitas vezes visam, digamos assim, desprestigiar a classe política, e nós todos precisamos resistir. Eu tenho resistido o quanto posso, dou entrevistas, falo, para dizer aquilo que o Brasil precisa. Não se pode ter a ideia de que porque aconteceu isto ou aquilo o Brasil vai parar — disse Temer, em discurso para a base que sustenta o seu governo na Câmara:

— Acontece um fato qualquer e dizem: "como o governo vai continuar?" Ora bem, temos Três Poderes no país para que cada qual deles exerça sua função. Vamos deixar o Judiciário em paz, o Judiciário vai cumprir sua tarefa e vai cumprir adequadamente como sempre — acrescentou o presidente.

Temer admitiu que a classe política está "em situação delicada", mas disse que essa situação é algo que cabe ao Judiciário.

— Não podemos nos ajoelhar, achar que estamos em situação delicada. Delicada, deixaremos para o Judiciário. No mais, o Executivo e o Legislativo trabalham — declarou.

Para dar uma resposta ao momento de turbulência política, Temer sugeriu aos presentes que se "vitalizem" e mostrem que estão trabalhando. O peemedebista sugeriu ainda que os deputados usem mais a tribuna da Câmara para "mostrar o que estão fazendo pelo país".

— Nós temos que nos vitalizar e dar uma resposta muito adequada para o momento que vivemos — afirmou o presidente.

Oito ministros do governo foram citados na lista de Fachin. Entre eles, dois do Palácio do Planalto: Eliseu Padilha, da Casa Civil, e Moreira Franco, da Secretaria Geral, os mais próximos de Temer.

VISÃO AUTORITÁRIA

Michel Temer criticou também, em seu discurso, que há no Brasil uma "visão autoritária muito grande". Segundo ele, é cultural a visão de que, quando o presidente expede um ato, ele não pode mais ser contestado, ou a mudança é considerada um recuo.

— As pessoas acham que se o presidente da República expedir um ato qualquer, não pode ser contestado, sequer ser negociado, conversado, ajustado, equacionado, nem isso é possível. Porque daí vão dizer: "é recuo, recuo do Executivo, recuo do Legislativo, etc". Eu combato isso.

'FOGUETE PARA CIMA'

O presidente também usou o discurso para falar da reforma trabalhista, que disse ser prova da "reconstrução" do diálogo entre Palácio do Planalto e Congresso Nacional. Sem citar a ex-presidente Dilma Rousseff, Michel Temer disse que esse diálogo estava "paralisado". Ele afirmou ainda que, se a reforma da Previdência for aprovada, a economia fará "um foguete para cima".

— Como diz sempre o Meirelles, se a Previdência for aprovada, a economia... Ele (Meirelles) faz um foguete para cima. Aliás, o foguete já começou, não é, Meirelles? Nos últimos tempos, temos tido a revelação de que a economia está reagindo.

Temer aproveitou o encontro para dizer que sente saudades do "contato buliçoso" e "agitado" que tinha com parlamentares em seus tempos de deputado federal.

Estamos completando um primeiro ciclo de reformas do País, diz Temer a deputados

O presidente Michel Temer afirmou, durante café da manhã com deputados da base aliada e ministros no Alvorada nesta terça-feira, 18, para acertar os detalhes da reforma da Previdência, que o governo está “completando um primeiro ciclo de reformas” e que juntos, Executivo e Legislativo, “serão os produtores da reconstrução do País, da reformulação do País”.

Sem citar exatamente a Lava Jato e as delações da Odebrecht, Temer repetiu que é preciso deixar o Judiciário trabalhar e que o momento é de o Executivo e o Legislativo não pararem. “A resposta que podemos dar ao povo brasileiro é o povo olhar e dizer ‘vocês já fizeram tanta coisa e agora fizeram mais’. Digo isso porque temos duas reformas ainda fundamentais, outras fundamentais que nascerão certa e seguramente ao longo do tempo”, afirmou.

O presidente disse ainda que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tem feito um gesto simbolizando um foguete para explicar o que acontecerá com a economia com a aprovação da reforma da Previdência. “O Meirelles faz um gesto que se a reforma for aprovada, a economia…aí ele faz um foguete para cima. Aliás, o foguete já começou”, disse.

Temer fez questão de destacar os indicadores econômicos em sua fala, destacou o IBC-BR de 1,3% em fevereiro e afirmou que os juros e a inflação estão caindo. “Convenhamos que nos últimos tempos nós temos tido revelações de como a economia está reagindo”, disse, lembrando ainda que a agência de classificação de risco Moody’s tirou o País “do negativo e nos passou para o estável”. “A inflação que caiu; vou dizer uma obviedade: a Selic que caiu e está reproduzindo os juros”, completou.

O presidente, que classificou sua fala como um “monólogo produtivo”, disse ainda que o governo só resistiu porque “nós estamos trabalhando juntos no Executivo e Legislativo”. “Nós precisamos, eu enfatizo muito, acho que é um momento histórico do País, sem embargo das dificuldades, nós temos de dar prova de trabalho. E a prova de trabalho virá pela aprovação dessas reformas”, reforçou.

Sem recuo

O presidente rechaçou que as flexibilizações no texto da previdência tenham sido recuo e repetiu que “não se governa apenas com o Executivo” e que essa classificação é resultado de uma cultura autoritária. “Você governa com Executivo e Legislativo. Mas como você tem no País uma visão autoritária muito grande, a visão cultural do País é muito autoritária. As pessoas acham que se o presidente expedir um ato qualquer, não pode ser contestado. Não pode sequer ser negociado, ser ajustado, equacionado e nem isso é possível porque senão vão dizer que é recuo”, afirmou. “Eu combato isso”, disse.

Em sua fala, Temer disse ainda ter sentir “muita falta daquele contato buliçoso, agitado que tínhamos na Câmara onde lá eu estava por seis mandatos”, fez um agradecimento aos parlamentares e destacou que deve ao Congresso “o sucesso” de muitas medidas desses 11 meses de governo.

“Foram medidas complicadas, convenhamos. Não é fácil você reduzir e colocar teto nos gastos públicos. A tendência de todo e qualquer governante é gastar e gastar cada vez mais. Ou seja, vamos praticar atos populistas que são atos irresponsáveis porque eles têm digamos assim uma vantagem amanhã, mas tem um prejuízo depois de amanhã. Nós nos recusamos a este populismo”, afirmou. A fala de Temer foi disponibilizada pelas redes sociais do Planalto, após a reunião no Alvorada.

Alckmin pede distinção entre corrupção e caixa 2 de campanha

Citado em depoimentos de delatores da Odebrecht, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, pediu nesta terça-feira que haja distinção entre corrupção e o financiamento de campanhas.

"Uma coisa é a corrupção, que tem que ser punida, e outra é o financiamento das campanhas, que precisa ser aprimorado, que seja estabelecido um critério", disse Alckmin em entrevista à Agência Efe durante um fórum com executivos de empresas espanholas realizado hoje em São Paulo.

Ex-diretores do grupo Odebrecht afirmaram em depoimentos à Justiça que Alckmin recebeu quase R$ 10 milhões em caixa 2 para as campanhas eleitorais de 2010 e 2014.

"Não tenho nem aposentadoria, nem pensão do setor público. Vivo de meu salário, não tenho nenhum patrimônio, então, zero, zero, zero, nem um centavo foi ilícito", garantiu o governador.

As acusações apareceram nos depoimentos de pelo menos três dos 77 ex-diretores da Odebrecht que fizeram delações. Como Alckmin tem foto privilegiado, as denúncias que o citam foram transferidas ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo os ex-diretores Benedicto Barbosa da Silva Júnior, Carlos Armando Guedes Paschoal e Arnaldo Cumplido de Souza Couto, Alckmin recebeu R$ 2 milhões na campanha de 2010 e R$ 8,3 milhões quando foi reeleito em 2014, e os valores não teriam sido declarados ao TRE.

"Prestarei contas, espero que a investigação seja feita com profundidade e rapidez, mas acredito que precisamos verificar a origem desse problema. O problema da corrupção precisa ser punido. Outra coisa é o financiamento de campanhas eleitorais", reiterou.

Alckmin destacou que o sistema político brasileiro está desgastado e que "o País só tem até setembro deste ano para fazer uma reforma política que repense o modelo do financiamento das campanhas".

"Temos um dos piores sistemas políticos do mundo. Como pode funcionar com 35 partidos?", questionou.

Os relatos dos ex-executivos da Odebrecht apresentam denúncias de caixa 2, favores em dinheiro para retribuir a vitória em licitações de obras públicas e a aprovação de leis que favoreciam os negócios da empresa.

"Há diferença entre duas coisas importantes: primeiro a corrupção, o lugar do corrupto é a prisão; a segunda, é o modelo político existente", reiterou Alckmin.

O fórum desta terça-feira, realizado em São Paulo, contou com a presença de executivos de companhias espanholas com operações no Brasil e teve apoio de Banco Santander, Everis, Arteris, Acciona Infraestruturas e Elektro.

 

Fonte: O Globo/Agencia Estado/EFE/Municipios Baianos

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