19/04/2017

Odebrecht optou por crescer ancorada em políticos

 

O nome Odebrecht sempre representou “poder, riqueza e dignidade”, conforme dezenas de depoimentos e documentos exibidos no livro “Cartas de Família”, de 2006, um ensaio biográfico sobre os primeiros da família a chegar ao Brasil. Não é só papel, nem papo furado: seu significado está gravado em bronze no brasão da família, dona de 500 anos de história e origem na Pomerânia, hoje Alemanha.

Emílio Odebrecht foi o maior deles. Tinha ojeriza a políticos. Sempre lutou contra eles, queixando-se de represálias da  “militärdiktatur” brasileira. Trabalhou 36 anos no Ministério da Agricultura e nos Correios, sem manchas – no fim, quiseram lhe negar aposentadoria. Aposentou-se com regras piores do que as que o governo Temer desenha: levou seis anos para receber, sem os atrasados do período.

Ele escreveu um dia que “a situação do Brasil é extremamente triste, a falência do Estado é iminente. Estão demitindo funcionários, precisaremos vários anos para que esta máquina emperrada volte a funcionar”.

Embora o cenário pareça atual, estamos falando do pioneiro, o imigrante alemão que legou o nome à empresa hoje no olho do furacão. Na certidão de nascimento era Emil, mas adotou o abrasileirado Emílio. Morreu em 1912, aos 77 anos, 56 dos quais no Brasil, do final do Império até a ditadura militar de Floriano Peixoto. Proibiu os 15 filhos de entrarem no funcionalismo ou na política, lançando as bases da extraordinária carreira da família na iniciativa privada.

Um neto dele, Emílio 2º, faliu ao pegar um contrato para uma ponte em Santa Catarina. Enchente e inflação arrasaram com sua microempresa, aumentando o desprezo da turma por negócios com o governo.

Envergonhado com o fracasso, Emílio 2º se mudou com a família para a Bahia, onde recomeçou do zero – até falir de novo, nos anos 40, com a ida às alturas do preço dos materiais de construção importados da Europa, à época incendiada pela Segunda Guerra Mundial. Ao afundar de vez, passou tudo o que lhe restava para o filho Norberto, bisneto do patriarca.

Foi ele que criou a Norberto Odebrecht Construções, dando o grande salto. Só que, na sua vez, fez tudo nas costas justamente do governo, ignorando o conselho dos mais velhos.

O primeiro passo para reerguer a empresa foi obter apoio de banqueiros. Depois, obras públicas, inicialmente em Salvador e interior da Bahia, como cais e estaleiros. No fim, entregou um império em expansão para Emílio 3º, pai de Marcelo, hoje preso em Curitiba e mais sujo do que pau de galinheiro.

Emílio e Marcelo são as estrelas da hora na TV, na maior lavação de roupa suja empresarial e política do país: o enredo tem poder, riqueza e indignidade à beça.

“Uma mancha sobre a família”

Os pomeranos pronunciam “Ó-debr-‘ê’-cht”,  com a sílaba tônica no “o” e com o “e” fechado. Em Santa Catarina, berço brasileiro da família, se diz “odebréqueti”, por influência italiana.  Significa “aquele que herdou fortuna”. Odebréchti é criação do Jornal Nacional.

O primeiro Odebrecht pisou no Brasil em 1856 com a roupa do corpo, contratado pelo colonizador Herr Blumenau. Juntos, ergueram a cidade hoje muito conhecida pelas cervejadas da Oktoberfest, a 150 km de Florianópolis.

Ele tinha 21 anos e habilidades de um engenheiro. Fazia mapas com extraordinária precisão, até hoje usados no Sul. O historiador Moacyr Werneck de Castro detalhou em livro a contribuição dele ao Brasil: ajudou o Barão de Rio Branco a conquistar um naco de território na demarcação de limites com a Argentina.

Sua maior obra foi a família, hoje com mais de 1500 descendentes, 100 deles ainda vivem em Blumenau. O sobrinho-neto Rolf e sua mulher Renate Sybille montaram a árvore genealógica publicada no “Cartas de Família”, um belo livrão de 580 páginas, vendido a R$ 100 na Fundação Cultural da cidade.

O Grande Odebrecht escreveu centenas de cartas aos seus, na Alemanha. Não há relatos de maracutaias. Deixou um nome tão honrado que, nos anos 70, o pessoal do lado baiano foi à Justiça contra os parentes de Blumenau para que não o usassem como marca nos seus negócios catarinenses – os “baianos” queriam todas as honras.

A parentada pobre ficou indignada, porque dentro dela havia muitos engenheiros e pequenos construtores em atividade. No fim, eles ganharam o direito a usar o próprio sobrenome. Esta decisão hoje enche alguns de vergonha: “No fundo, fica uma mancha sobre toda família”, diz o empresário Marcos Odebrecht.

O crescimento do lado baiano foi tanto que o nome de qualquer um da família tem fama de milionário, mas a bonança sobre os Odebrecht ficou concentrada na linhagem Emílio-Edmund-Emílio 2º-Norberto-Emílio 3º-Marcelo. O resto se vira nos 30.

Ninguém fala muito de um tio-avô de Norberto que se embrenhou na mata, feriu o pé com um machado, foi salvo por uma ex-escrava e viveu com ela numa choupana por 50 anos. Pobre e doente, foi recolhido pela família – que deixou a mulher na mesma maloca.

Donos da Petrobras

A Odebrecht  atuava no nordeste há 46 anos  quando chegou ao Rio de Janeiro em 1969, durante outra militärdiktatur, construindo…adivinhem? O prédio da sede Petrobras na cidade – e isto talvez explique por que eles tratavam a empresa como coisa sua.

Ao contrário da suposição corrente, não foi Lula quem exportou a Odebrecht para a África e confins do globo. O crescimento internacional da empresa se deu na farra promovida depois da morte de Tancredo Neves, em 1985, com José Sarney de presidente. A festa durou até a Constituição de 1988 que, por sua vez, criou o Ministério Público Federal, instituição à época tão raquítica que nem de longe parecia ameaçadora.

Os marqueteiros da empresa logo reescreveram a história da família, dando pouco crédito ao Emílio pai e ao avô Edmund, pintando tudo como obra de Norberto. Não há registro familiar de que Norberto tenha visitado Blumenau depois do sucesso. Nem Emílio, nem Marcelo.

Os dois blocos da família se reencontraram em 2006 para comemorar os 150 anos de imigração do patriarca – coube ao lado pobre a cortesia de viajar à Bahia para a festa.

Ajudando a desenvolver o Brasil

As cartas que Emil deixou mostram como o pioneiro Odebrecht via o Brasil e achava que no país só existiam “indolentes e aproveitadores”. Nelas, descrevia seus subordinados como “gente que fica de pantufas nos hotéis esperando o salário”, enquanto ele ia a pé pelos grotões mapeando a região.

O chefe dele, Herr Blumenau, queixava-se ainda no Império de que só conseguia alguma coisa das autoridades em Florianópolis se pagasse suborno, prática que Odebrecht repudiava, conforme deixou nas cartas.

O homem parecia de fato um idealista. Não temia riscos. Mal assumiu a nacionalidade brasileira e foi lutar na Guerra do Paraguai como voluntário. Como recompensa, ganhou do Império vagas cativas para seus filhos no Colégio Militar do Rio de Janeiro, mas já conhecia tanto o Exército Brasileiro que não aceitou a oferta.

O berço dos Odebrecht em Blumenau ainda existe. A casa original era de tijolos secos ao sol e se esboroou. O terreno ficou nas mãos de Rolf, hoje com 97 anos. É um bosque atrás do terminal de bus do bairro Garcia, ao lado da Igreja Luterana.

Nele há uma casa dos anos 60, fechada, guardada por um pastor alemão. Já esteve alugada, mas o locatário abriu um bordel e acabou despejado por Rolf, que não queria tal desonra para o nome Odebrecht.

Apesar de manter correspondência com os pais na Pomerânia, o primeiro Odebrecht fez uma só viagem à terra natal, depois de aposentado. Logo voltou para Santa Catarina. Dizia gostar tanto daqui que não deu a nacionalidade de origem aos filhos, os queria “ajudando a desenvolver o Brasil”.

A falta de algo que não custa nada

Não se sabe o ponto exato em que os Odebrecht deixaram de ajudar no desenvolvimento para se tornarem saqueadores confessos dos cofres públicos, corrompendo quase 300 políticos.

Uma prima que vive em Blumenau conta da tarde de sarau na Bahia no reencontro familiar com Norberto (morto aos 93, em 2014): “Ele se queixou que os políticos o achacavam” – o que faz a prática da propina mais antiga do que se possa apurar.

A parentada em Blumenau, Apiúna e Indaial prefere ser lembrada pelas virtudes atribuídas durante séculos aos pomeranos, registradas no livro histórico da família. Frederico o Grande, rei da Prússia, dizia que seu povo “não tem o prazer de exagerar”. O poeta Bruggemann escreveu que ele “odeia lisonjas”. O chanceler Otto von Bismarck via num soldado pomerano “mais valor do que em todo exército inimigo”, em termos de lealdade.

Onde foi que as coisas deram errado, jogando o nome no lixo?

Emílio 3º tem sido reprisado na TV se dizendo chocado que “todos os poderes, a imprensa, (estejam) tratando como se (o pagamento de propinas para tanta gente) fosse surpresa. Me incomoda isso. Não exime nossa responsabilidade”. Foi o mais perto que ele chegou de um mea culpa, até bater no peito e dizer que sua propinolândia era velha de 30 anos.  Arrematou com “as coisas passaram a ser normais”.

Quem oferece uma resposta mais aproximada da realidade é o alemão Markus Blumenschein, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha, encontrado na última quinta, véspera do feriadão de Páscoa, pesquisando sobre o tema na biblioteca de Blumenau.

Ele analisou os dois lados da família e ajudou a construir esta reportagem.  Para ele, o que faltou na relação da gigante Odebrecht com os 300 políticos comprados  “foi uma coisa fácil de encontrar e que não custa nada”.Neste ponto fez um pequeno teatrinho de suspense, até completar: “O que faltou foi ética”.

Odebrecht é menos ética que uma boca de fumo

José Sarney sabia o que estava dizendo. Pilhado no autogrampo do ex-correligionário Sérgio Machado, o morubixaba do PMDB avisara com quase um ano de antecedência: a delação da turma da Odebrecht produzirá o estrago de uma “metralhadora calibre ponto cem.” A rajada de imoralidades, de potência inaudita, atingiu inclusive Sarney, citado em inquérito direcionado à Justiça Federal de Goiás.

A Odebrecht, multinacional da construção, era a vanguarda do capitalismo brasileiro. Por um descuido, a casa caiu. E Marcelo Odebrecht virou bandido. Mas se não tivesse esquecido de maneirar continuaria a ser um menino de ouro. Como poucos, ele sabia ser audaz. Sob seu comando, a empreiteira cresceu extraordinários 520% nos dez anos que antecederam a Lava Jato.

Gente assim, como Marcelo Odebrecht, sempre na fronteira da marginalidade, tanto poderia estar operando no mercado da construção pesada como numa boca de fumo. O comércio de drogas ilícitas e o tráfico de dinheiro comandado pela Odebrecht revelaram-se negócios muito parecidos. A diferença é que há mais ética num ponto de venda de maconha e cocaína do que num escritório da empreiteira.

Quem vai ao pé de um morro para comprar drogas sabe que coloca o seu vício a serviço de uma engrenagem criminosa. Quem comercializa o bagulho não ignora que corre o risco de ser preso. Na boca de grana da Odebrecht, nada era o que parecia. Sob o manto diáfano do sucesso empresarial, rolava grossa corrupção, praticada por gente que se imaginava acima da lei.

O criminoso do morro é protagonista de velhas e reacionárias teses sobre a influência do meio miserável na proliferação da bandidagem. A maior evidência de que a pobreza não produz bandidos é que a imensa maioria dos pobres não rouba, não mata e obedece às leis. Sucede coisa diferente com os executivos da Odebrecht e das empreteiras coirmãs. Essa gente, sim, é um produto do meio.

Marcelo Odebrecht e sua turma são filhos da cultura cleptocrata que vigora no Brasil desde a chegada das caravelas. Assistindo-se à performance dos delatores, nota-se a intenção de todos eles de culpar a sociedade, que praticamente os obrigou a ser o que são, com todas as facilidades que lhes proporcinou —a cegueira da Receita, a impunidade, a cumpilcidade de todo o sistema político…

Tudo conspirava a favor do sucesso da Odebrecht. Não fosse pela intromissão da força tarefa da Lava Jato, que arrombou o departamento de propinas, e pela audácia de Sergio Moro, que enjaulou o príncipe das grandes empreitadas no Moro’s Inn, tudo continuaria como antes. Era parte do modelo. Daí o desejo mal disfarçado de Emílio ‘Era Tudo Normal’ Odebrecht de que o Brasil sinta remorso pelo que fez com seu negócio e se apiede de sua família.

A turma da boca de fumo tem muito a desaprender com os Odebrecht. Não é à toa que tem traficante patrocinando campanhas eleitorais. O negócio é mais lucrativo e bem menos arriscado.

 

 

Fonte: The Intercept/BlogdoJosias/Municipios Baianos

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