20/04/2017

Todos estamos surdos. Pelo menos de uma orelha

 

Nas peças de Shakespeare, o vilão costuma quebrar a quarta-parede e dirigir-se ao público, revelando seus reais planos e motivações por trás das mentiras. Por convenção, assumimos duas coisas: esses solilóquios são naturalmente sinceros e jamais são percebidos pelos personagens em cena. Ainda que tudo seja ouvido pela platéia, o que Macbeth fala em “aside” jamais é escutado pelos outros atores, o que sempre parece meio absurdo – e tem o efeito ambíguo de sublinhar a artificialidade da representação ao mesmo tempo em que nos faz mergulhar nela. 

Não é apenas no teatro elisabetano que encontramos apartes do tipo, mas também em seriados como “House of Cards”, óperas de Bellini, autos de Gil Vicente, filmes de Woody Allen, peças de Molière e, claro, quando Ferris Bueller fala com a câmera em “Curtindo a vida adoidado”. Sim, imagino que os leitores já estejam pensando no ilegítimo e suas confissões sobre o golpe registradas em câmera, mas antes de chegar na deplorável caricatura que é Michel Temer, preciso falar sobre… o Lobo Mau.

A cena é bastante comum aos que já se aventuraram no submundo pantanoso do teatro infantil: qualquer platéia de crianças, ignorando as convenções do aparte teatral, sempre grita alertando Chapeuzinho Vermelho em cena quando o Lobo em roupas de vovozinha revela seus planos para o público. A depender da encenação, ele fará o mesmo com os porquinhos, que também não escutam jamais. É claro: eles estão no mundo da representação e o único a quebrar a quarta parede é o Lobo. Mas as crianças não desistem. Parte da graça – e a justificativa para o extenso uso do recurso no teatro infantil – é essa.

Ultimamente, viver no Brasil é um pouco como ser essa criança que assiste à peça infantil e grita para os personagens. O problema é que metade do país parece surda para o que a outra metade está escutando. O fato de que as extensas delações da Odebretch sejam lidas e editadas ao bel prazer das simpatias e acordos dos grandes donos da notícia não ajuda. No perfil do facebook do MBL (ou mesmo na boca de algum opinionista da Globonews) a delação parece ser apenas sobre Lula. Em sites de esquerda, vai parecer que é sobre Temer ou Aécio. Nesse ambiente de verdades tão ostensivamente seletivas, talvez a melhor forma de esconder alguma coisa seja deixá-la a vista de todos.

Michel Temer, um canastrão de si mesmo, parece ser um especialista em apartes do gênero.

Ele já confessou duas vezes que o impedimento de Dilma nada teve a ver com pedaladas fiscais– a primeira numa fala em Nova Iorque, descoberta aqui no Intercept, pelo Inacio Vieira, e ignorada com solenidade pelos jornalões brasileiros, a segunda na entrevista para a Bandeirantes dada no último sábado, dia em que se malha o judas. Não é surpreendente que Temer minimize essas falas, e sim que o país e a imprensa o deixem sair ileso. 

O que une alguns desses vilões da ficção, como Iago, João Doria e Ricardo III, não é apenas o hábito de monologar com sinceridade para a platéia, mas o fato de que, ao longo da peça, eles não mudam. Terminam o espetáculo tão inescrupulosos e desgraçados quanto começaram.

***

Há uma entrada no “Diário do Hospício” de Lima Barreto em que ele escreve:

“Um maluco vendo-me passar com um livro debaixo do braço, quando ia para o refeitório, disse: – Isto aqui está virando colégio.”

Antes estivesse.

Delatores aguardam a recompensa

Uma pergunta permanece sem resposta: o que acontecerá com os 74 delatores funcionários e ex-funcionários da Odebrecht? Pelos depoimentos que deram, reconheceram seus crimes, iguais aos praticados por deputados, senadores, governadores e ministros. Estão todos no mesmo balaio. Com as delações, pretendem senão escapar, ao menos receber penas atenuadas, de preferência prisões domiciliares.

Uns bem humorados, outros apresentando-se como vítimas, os delatores acreditam poder livrar-se do pior. Até o patriarca da roubalheira e seu príncipe herdeiro, por sinal ainda preso mas esperando logo abrir a porta de uma de suas mansões. A quadrilha desincumbiu-se da missão dada por seus chefes e agora aguarda a recompensa.

No Congresso o clima é mais carregado. Mesmo sabendo que os processos levarão muito tempo para completar-se, a maioria dos implicados está de olho nas próximas delações, das outras empreiteiras. Tem gente que foi aquinhoada por todas. Apesar do foro especial, alguns receberão condenações à altura de seus crimes. O mesmo destino terão os que forem julgados sem a prerrogativa de mandatos.

Em suma, a tempestade continua armada, preocupando boa parte dos que temem ficar inelegíveis, tanto pela lei quanto pela falta de votos.

SOLIDARIEDADE

O PT prepara volumosa manifestação de solidariedade ao Lula, em Curitiba, quando o ex-presidente estiver frente a frente com o juiz Sérgio Moro. Os contrários também se mobilizarão, prevendo-se conflitos e confrontos.

Envolvidos na Lava Jato têm que dar explicações perante a opinião pública

Todos os investigados e acusados, nos termos da Constituição Federal e da legislação vigente, terão direito a exercer o contraditório e à ampla defesa, nos respectivos autos. O trâmite dos inquéritos e processos evidenciará a responsabilidade de cada qual. No âmbito jurídico, como já disse e repito, impera o princípio da presunção de inocência. No entanto, as muitas acusações recaem sobre pessoas que exercem o poder político e, nessa seara, eu entendo que vigora o princípio da preservação da coisa pública.

Essas pessoas não têm direito a simplesmente aguardar o moroso ritmo da Justiça penal para se manifestarem; elas precisam se antecipar e nos dar explicações. Preocupo-me, profundamente, com o discurso de nulidades por vazamento, ou outras supostas irregularidades. Preocupo-me mais ainda quando esse discurso vem de juristas que também são autoridades constituídas.

A VERDADE

Mais que ver poderosos presos, o povo tem direito a conhecer a verdade. O povo tem direito a acompanhar os procedimentos e a ver o mérito das imputações efetivamente analisado. Nada será mais deletério para todo esse processo de depuração do que um eventual encerramento de tão importante Operação, com fulcro em supostas impropriedades formais. Espero que a Lavajato não tenha o mesmo fim de outras operações estancadas, sem maiores considerações sobre os fatos.

Seria de todo conveniente que o STF e o STJ, como bem permite a Lei 8.038/90, montassem uma força-tarefa, com o fim de, o mais brevemente possível, esclarecer todas as acusações.

A ideia não é fazer julgamentos de exceção. Jamais! O objetivo é não permitir que o tempo apague a gravidade do lamaçal que não para de emergir.

INSTITUCIONALIZAÇÃO

As delações de Marcelo e Emílio Odebrecht mostram que a corrupção, que sempre ocorreu neste país, se institucionalizou no governo do PT, que passou a usar as empresas parceiras em verdadeiras operações de peculato (desvio de dinheiro público). As delações também confirmaram a estranha rede que vinha sendo montada com países sabidamente ditatoriais e pouco transparentes.

Os problemas não são poucos, as soluções não são fáceis. Mas só é possível buscar soluções para os problemas que são vistos. Tudo que está ai já estava ocorrendo, só não estava visível. Temos a oportunidade de depurar, ou enfiar a cabeça em um buraco e fingir que nada disso está acontecendo, como gostam de fazer os petistas.

Eu nunca fui de fugir dos problemas, prefiro enfrentá-los, ou eles ficam maiores. Pedir o impeachment de Dilma foi minha forma de encarar o monstro que estava se criando. Com o pedido, não nego, uma porta foi aberta e outros fantasmas começaram a aparecer. Que venham todos! Será sofrido enfrentá-los? Com certeza, mas eu tenho a convicção e a fé de que sairemos mais fortes dessa história!

 

Fonte: Por J. P. Cuenca, em The Intercept/Tribuna na Internet/Municipios Baianos

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