21/04/2017

A conexão entre os dólares de Serra e o caso Miriam Dutra, ex de FHC

 

A notícia de que a Odebrecht depositou o equivalente em dólares a 4 milhões de reais em uma conta no exterior para satisfazer um compromisso com José Serra traz de volta o nome de Miriam Dutra à corte tucana.

Segundo o executivo Luiz Eduardo Soares, a conta era de Jonas Barcellos, dono do grupo Brasif, que administra as lojas duty free em aeroportos do Brasil.

Miriam, que tem um filho que dizia ser do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, teve contrato de prestação de serviços assinado com a empresa de Jonas Barcellos no final do governo FHC.

Em entrevista gravada, concedida a mim em Barcelona, no ano passado, Miriam contou que esse contrato era de fachada, um artifício para que recebesse mesada de 3 mil dólares de Fernando Henrique Cardoso.

Assim como Jonas, da Brasif, Serra também se movimentou para ajudar Fernando Henrique no caso Miriam Dutra.

O apartamento que ela comprou em Barcelona foi reformado com a supervisão de Serra, que esteve lá pessoalmente e, segundo Miriam, orientava a liberação de dinheiro, juntamente com o primo, Gregorio Preciado.

A delação do executivo da Odebrecht indica que a relação entre Serra e Jonas vai além de Miriam Dutra.

Em 2010, Miriam Dutra continuava funcionária da TV Globo, mas não recebia o complemento da Brasif.

Em reportagem publicada pelo DCM em abril do ano passado, escrevi:

A tragédia da família Dutra se mistura a situações em que é difícil separar o assunto público do privado. Nos anos em que considera seu exílio na Europa, com salário da Globo e o dinheiro de um contrato fictício da Brasif, ela teria questionado Fernando Henrique quando a Brasif, empresa concessionária do governo federal, parou de transferir dinheiro – eram 3 mil dólares por mês.

— O Fernando Henrique disse: é claro, eu coloquei 100 mil dólares lá, e esse dinheiro já acabou.

A família não deixou de receber recursos, mas a Brasif, segundo Miriam, deixou de ser o canal.

A relação de Serra com Jonas da Brasif, no entanto, se mantinha.

A irmã de Miriam Dutra, a socióloga Margrit, trabalhava até o ano passado no gabinete de Serra no Senado.

Margrit foi casada com o jornalista Fernando Lemos, já falecido, de quem era sócio em uma empresa de lobby, a Polimídia, e ambos, assim como Miriam Dutra, eram muito próximos de Jorge Bornhousen, que foi vice-presidente da Brasif.

Eram todos de Santa Catarina.

Miriam contou que o cunhado é quem operacionalizou o contrato com a Brasif, para resolver dois problemas: o dela, Miriam, e o de Fenando Henrique.

“É assim que as coisas funcionam no lobby. Alguém sempre se movimenta para resolver os problemas”, disse-me, à época, Miriam.

Se o inquérito para apurar o propinoduto que liga a Odebrecht a José Serra for adiante, a Polícia Federal tem outras pistas além de Miriam Dutra.

Em 2010, na sua campanha a presidente, Serra foi confrontado com uma história nebulosa.

Naquele ano, teriam desaparecido 4 milhões de reais do caixa de campanha administrado pelo engenheiro Paulo Vieira Souza, conhecido como Paulo Preto, diretor de engenharia da Dersa, responsável pelas obras do Rodoanel.

Seriam os mesmos 4 milhões que agora, na delação da Odebrecht, aparecem como devolvidos à empresa, para que, convertidos em dólar, fossem depositados na conta de Jonas Barcellos no exterior?

É uma pista.

Paulo Vieira Souza e a irmã de Miriam, Margrit, muito ligada a Serra, talvez possam esclarecer alguns pontos.

PS: Margrit foi demitida no gabinete de Serra no Senado depois que Miriam Dutra disse que ela tinha um patrimônio incompatível com a renda de funcionária pública e era lobista.

Como Doria moldou seu estilo vingativo na “cota política ” de Roseana Sarney na Embratur

A humilhação a que João Doria submeteu a vereadora Soninha Francine é um problema dela e dos eleitores dela, já que lhe entregaram um mandato que, em tese, deve ser exercido com independência.

A atitude revela um pouco a forma como Soninha enxerga as prerrogativas de um parlamentar. Nas redes sociais, é chamada de “vagabunda”, “preguiçosa”, “maconheira”, quase uma inimputável.

Nas oportunidades que teve para se defender, inclusive usando a tribuna da Câmara Municipal, foi titubeante e, de certa forma, até elogiou aquele que a humilhou.

Quem não se defende quando injustiçado merece rastejar como um verme, ensinou o jurista alemão Rudolf von Ihering, como já lembrou aqui o jornalista Paulo Nogueira.

Se Soninha podia se defender e não o fez, o episódio passa a ter importância apenas por um aspecto: nele, se veem as características da personalidade de João Doria.

O prefeito de São Paulo é, certamente, o único político em ascensão no Brasil, mas dele se sabe tão pouco ou quase nada.

Muitos veem no comportamento agressivo de Doria uma jogada de marketing, um jeito de se parecer com Donald Trump, por quem ele nunca escondeu a admiração.

Mas quem conhece o prefeito há mais tempo diz que Doria sempre foi belicoso.

“Em 1985, eu o vi na porta do colégio Dante Alighieri, fazendo campanha de Fernando Henrique a prefeito, e brigando com cabos eleitorais da Juventude Janista. Ele parece sentir prazer em insultar”, afirma uma pessoa que o conheceu na época.

Com a eleição de Doria a prefeito e a candidatura dele à presidente da República já colocada na praça – não foi à toa que, ao plantar uma árvore, chamou Lula para a briga –, está difícil encontrar alguém com coragem para dar entrevistas abertas.

Muitos antigos críticos de Doria, como o ex-governador Alberto Goldman ou o jornalista Luiz Carlos Franco, que se mostraram corajosos durante a campanha no ano passado, se recusam agora a dar entrevista.

“O Doria é vingativo”, disse uma pessoa que o conheceu na campanha de Fernando Henrique, em 1985.

“As pessoas têm medo, mas o Doria, quando incisivamente confrontado, recua. Talvez não por medo, mas por estratégia. Ele não é suicida”, diz.

Foi assim na Embratur, quando presidiu a estatal entre 1986 e 1988. Donos de hotéis de alto padrão no Rio discordavam de sua gestão, que promovia o Brasil para turistas de baixa renda, com programas de descontos e peças publicitárias que tinham Pelé na figura de “embaixador” e mulheres sensuais.

“Isso atrai turista que tem pouco dinheiro e vem em busca de aventura, diversão barata e de sexo. Não contribuía para melhorar a imagem do País e torná-lo referência para turismo seguro e permanente”, diz um empresário do setor.

Uma das pessoas que se opuseram a ele foi José Eduardo Guinle, então dono do Copacabana Palace, muito influente na época. A ele, que escreveu artigo no jornal O Globo criticando Doria, se atribui em grande parte a queda de Doria da Embratur.

Procurei Guinle, ele negou, mas admitiu que tinha divergências de ideias com Doria.

Na Embratur, Doria mostrou que é duro na queda. O ministro da Indústria e Comércio, José Hugo Castelo Branco, na época responsável pela Embratur, tinha uma indicação para a estatal, mas o presidente José Sarney não aceitou.

“Muitos falam que Montoro era o padrinho de Doria. Mas, pelo que o ministro José Hugo Castelo Branco contou na época, a indicação era do escritor Jorge Amado, amigo de Sarney e do pai de Doria (que tinha sido deputado federal pelo Estado da Bahia)”, conta Guinle.

Sarney atendeu Jorge Amado, mas Doria ficou sem sustentação política até que se aproximou de Roseana Sarney, que havia se separado de Jorge Murad e estava morando no Rio de Janeiro.

Doria era solteiro e morava (de graça) numa suíte do Caesar Park, em Ipanema.

“Ele se tornou amigo de Roseana, saía com ela, apresentou a amigos e começaram a dizer que Doria estava na cota política de Roseana”, conta o empresário.

Na cota de Roseana, Doria durou até agosto de 1988, quando denúncias de má gestão e desvio de recursos provocaram a demissão dele na Embratur.

Vinte anos depois, quando Guinle já tinha vendido o Copacabana Palace e era ex-rico, Doria o contratou para representar o Lide – a rede de empresários que ele criou, com apoio do dono da Amil –, no Rio de Janeiro.

Dois anos depois, Doria demitiu Guinle.

“Foi vingança. Ele quis humilhar o Guinle”, conta um executivo que trabalhou na Embratur.

Na demissão humilhante de Soninha, Doria pode também ter se vingado de José Serra, a quem a vereadora já foi ligada. 

Mas, na avaliação de quem já trabalhou com Doria, o que pesou mais foi o cálculo político.

Soninha ajudou Doria quando ele não tinha nem 5% nas pesquisas, com a organização de um encontro com a comunidade LGBT.

Mas agora, com os políticos tradicionais derretendo como picolé exposto ao sol, ela se tornou dispensável. E Doria mostra que viu na direita a oportunidade de continuar subindo.

“Doria puxou o pai: ele pode ser de direita ou de esquerda, depende de quanto vai ganhar com isso”, diz o empresário que o conheceu no início da carreira.

Filipe Sabará, o substituto de Soninha, era o segundo da Secretaria de Assistência Social, mas já tinha poderes de primeiro.

Sabará tem o estilo de Doria: sabe buscar dinheiro para causas que parecem nobres.

Há pouco tempo, quando ainda não era secretário-adjunto e dirigia uma ONG que trabalha com morador de rua, conseguiu fazer a modelo Gisele Bündchen segurar uma camiseta da campanha dele.

Filipe Sabará também reuniu empresários e amigos ricos ou famosos, inclusive uma diretora do programa Luciano Huck, para um jantar de arrecadação no Fasano.

Há algumas semanas, Sabará se filiou ao Partido Novo, criado no ano passado por líderes do Movimento Vem Pra Rua, irmão siamês – e ao mesmo tempo rival — do MBL.

O Partido Novo tem uma vereadora em São Paulo, que poderia, em tese, ocupar o lugar de Soninha caso ele fosse para a oposição – o que hoje é descartado.

Doria já mostrou sua opção pela direita mais extrema ao afagar o MBL e desautorizar o secretário de Educação, Alexandre Schneider, que havia criticado o vereador Fernando Holliday, do MBL, por realizar patrulha ideológica nas escolas municipais.

Nos bastidores da Câmara, já se aposta que o próximo a ser fritado é André Sturm, secretário da Cultura, que tem serviços prestados a causas progressistas no passado – ele lutou para evitar que o antigo Cine Belas Artes fosse entregue à especulação imobiliária e tem um jeito de frequentador da Vila Madalena.

Um empresário do Rio, que conhecia o patrono de Doria, Edson de Godoy Bueno, dono da Amil, falecido em fevereiro de 2016, diz que Doria não se preocupa com oposição na Câmara. Ouviu de Édson de Godoy Bueno uma avaliação que o afilhado fazia.

“Quando perguntavam sobre a falta de experiência de Doria no exercício de mandato, Doria dizia que não teria problema com o Legislativo. Ele teria maioria fácil, porque, na Câmara Municipal em São Paulo, não há necessidade de aliança política. É um Poder onde apoio não se conquista, se compra.”

Entre os patrocinadores do Lide e prestadores de serviço da prefeitura, como as empresas do Lixo implicadas na Lava Jato, dinheiro não falta.

 

Fonte: Por Joaquim Carvalho, no DCM/Municipios Baianos

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