09/05/2017

Agroecologia, caminho para modelo saudável de produção

 

O fortalecimento e ampliação da agroecologia como única alternativa para a produção de alimentos saudáveis – sem o uso de sementes transgênicas e de agrotóxicos – para toda a população brasileira está ganhando mais espaço na agenda do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Reunidos desde a última quinta-feira (4) em São Paulo, lideranças e militantes do movimento têm debatido o tema com representantes de comunidades tradicionais de todo o país, como indígenas e quilombolas, e de entidades de agroecologia, saúde pública e defesa do consumidor. Essas atividades são paralelas à feira que oferece grãos, frutas, verduras, legumes, doces, geleias, queijos, sementes e plantas produzidos em assentamentos de várias regiões do país. O evento se encerrou neste domingo (7).

"Pressionados por multinacionais e pelo capital, estamos contaminando todo o planeta. Produzir carros e extrair petróleo se tornou mais importante do que preservá-lo. A terra é o alicerce da vida, e a comida seu fruto. Por isso não pode ser propriedade particular, para obtenção de mais lucro por companhias que produzem transgênicos e mais venenos, ou por aqueles que estão de olho em tudo que está debaixo dela. Mas para o usufruto e libertação da humanidade", disse o ex-presidente e agora senador uruguaio Pepe Mujica a um grupo de jornalistas, na manhã de domingo (7).

Mujica foi o último a discursar na conferência Alimentação Saudável: um Direito de Todos e Todas. Ele voltou a reforçar a importância da cultura da terra, camponesa, e das coisas simples, como o hábito de cozinhar. "Não se trata de nostalgia, mas o costume faz parte da cultura da terra, da comida. A civilização baseada na ganância produz um consumidor que trabalha permanentemente, sem ter tempo para os afetos e para o amor", disse, numa "reverência à terra própria de um agricultor", conforme destacaria mais tarde o coordenador geral do MST, João Pedro Stédile.

Resumindo a mensagem da conferência, Stédile destacou que o agronegócio destroi a figura do agricultor, que sabe cultivar a terra. "A função da terra e nossa sonhada reforma agrária é a produção de alimentos saudáveis para todos – e sem veneno –, respeitando a terra", disse. "O alimento da diversidade, que não pode ser mercadoria, mas um direito. Espero que os governos aprendam essa lição."

Insegurança alimentar

A conferência contou ainda com a participação do ex-ministro da Saúde no governo Dilma Rousseff, Alexandre Padilha, e da apresentadora Bela Gil, que enfatizaram a insegurança alimentar no país sobretudo para as populações mais pobres, com o uso de sementes transgênicas e agrotóxicos, e a produção de alimentos ultra-processados, à base de substâncias químicas, que em vez de alimentar, adoecem as pessoas, causando obesidade e uma infinidade de outras doenças.

"A boca é a porta da nossa alma. Não basta matar a fome. Temos de alimentar a alma e não a indústria de alimentos e de venenos", disse Padilha, lembrando frase do escritor uruguaio Eduardo Galeano, morto em 2015. Ele destacou ainda que, na perspectiva de que "a gente quer comida, diversão e arte", comida é o alimento de qualidade, nutritivo, de base variada, sem venenos e aditivos, produzido pela agricultura familiar. E não alimentos industrializados, com aditivos químicos para "enganar o cérebro com falsa saciedade", produzidos com a partir de uma única base, como o milho ou a soja, geralmente transgênica e carregada de agrotóxicos.

Apoiadora da reforma agrária e da agroecologia, a apresentadora Bela Gil contestou o discurso da indústria de que somente com o uso de transgênicos e agrotóxicos é possível produzir em larga escala para alimentar a população mundial. Para ela, a fome no mundo é causada por problemas na distribuição dos alimentos, e não na produção.

"A população precisa entender a importância da reforma agrária como lógica que permite outro modelo mais saudável de produção, sem venenos que matam os ecossistemas e adoecem a gente". Bela convidou a plateia a assinar a plataforma #ChegaDeAgrotóxicos e defendeu o engajamento social para driblar o oligopólio de empresas fabricantes de sementes transgênicas e de agrotóxicos, em apoio a políticas que fortaleçam a agroecologia e para taxar os venenos, que hoje são isentos de impostos.

Participaram ainda a atriz Letícia Sabatela, que mesmo sem se aprofundar defendeu a soberania alimentar. O economista Paul Singer e o ator Sergio Mamberti compuseram a mesa, mas não se pronunciaram.

Pacote do veneno

À tarde, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida fez o lançamento oficial da plataforma #ChegaDeAgrotóxicos, já lançada virtualmente em 16 de março. O objetivo, com a ferramenta, é envolver a população em pressões pela aprovação do Projeto de Lei 6670/2016, que institui a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNaRA). E também barrar o avanço do Pacote do Veneno, composto por projetos que revogam atual legislação do setor.

Ao mesmo tempo em que acelera a tramitação de projetos de leis desfavoráveis (Pacote do Veneno), o Congresso atrasa a tramitação daqueles de interesse da sociedade, como o da PNaRA. Segundo o deputado federal Nilto Tatto (PT-SP), até agora o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) não instalou comissão especial para analisar o PL.

"É fundamental uma campanha para pressionar os partidos a indicar os nomes", disse Tatto. Conforme explicou, mesmo assim o PL vem sendo discutido. E já há audiências públicas para discutir o tema sendo agendadas. Em 8 de junho, será debatida na Faculdade de Direito de Ribeirão Preto, interior paulista.

Na mesa que reuniu representantes do MST, Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Greenpeace e Central Única dos Trabalhadores (CUT), o destaque foi dona Alda Silva, 70 anos, liderança kaiowá moradora de Dourados, no Mato Grosso.

Em sua fala traduzida pela sobrinha Flávia, dona Alda contou os dramas de quem vê o aumento do adoecimento e morte de crianças em sua aldeia devido aos agrotóxicos, muito usados na região, e os percalços em busca de ajuda e justiça.

"A luta não é fácil. Já morreu muita criança. Não é fácil ficar vendo tanta criança morrendo por causa de venenos. A gente conta para as autoridades o que se passa na nossa aldeia, mas ninguém se preocupa. É um genocídio. Quando você é um índio, ninguém quer saber. É uma dor que a gente está sentindo. Adotei uma criança, que morreu depois de beber água envenenada. Contei no Ministério Público. Temos que lutar, acabar com esse agrotóxico."

Feira do MST atrai 170 mil pessoas em São Paulo

Nos últimos quatro dias, 170 mil pessoas passaram pela 2ª Feira Nacional da Reforma Agrária, em São Paulo (SP), que se encerrou neste domingo (7). De acordo com a estimativa do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), organizador do evento, a feira este ano superou o sucesso de 2015, quando 150 mil visitantes passaram pela primeira edição da atividade.

Antonia Ivoneide Melo Silva, dirigente nacional e integrante do setor de produção do MST, considera que o movimento conseguiu visibilidade mesmo com a pouca divulgação em grandes veículos de imprensa. "Na feira passada teve muita gente e teve informação da imprensa. Este ano, houve mais gente do que o outro e a grande imprensa não falou da gente — quando falou, foi para criticar. E o povo mesmo assim está aqui", comentou.

Segundo ela, além de desconstruir a imagem que a imprensa faz do movimento, a Feira conseguiu comunicar para sociedade que a luta pela reforma agrária está intrinsecamente ligada à produção da alimentação saudável. "O movimento que está aqui é o mesmo que luta pela terra porque as coisas não se separam, sem a posse da terra, nós não teremos produção saudável. A luta pela terra tem que casar com a luta pela produção e mudança do modelo agrícola", afirmou a dirigente. Segundo Ivoneide, o evento é a materialização da ideia da reforma agrária popular e do diálogo que as pautas do movimento fazem com a população.

Apoio do público

A artista plástica Caroline Harari, 58 anos, teve o primeiro contato direto com o MST neste domingo (7). Para ela, a feira desmistificou a ideia de que os militantes do movimento são "arruaceiros que entra nas propriedades quebrando tudo".

"Muitas vezes eu via, através da imprensa, o MST como uma entidade muito distante. Mas hoje, quando cheguei aqui, eu vi que são pessoas normais, gente simples que está lutando por um pedaço de terra e pelo direito de viver", disse Caroline.

Caroline contou que, na feira, encontrou "tudo o que o ser humano pode produzir", desde os produtos in natura aos mais elaborados, como geleias e artesanatos. Entre o público, produtos inusitados, como a cerveja artesanal "Fora, Temer" chamaram a atenção. Ainda segundo o MST, foram comercializadas 280 toneladas de alimentos.

Mesmo trabalhando há 30 anos com tratamentos de saúde por meio da aplicação de produtos e técnicas naturais, Suzane Barreto não conhecia o trabalho exercido pelo o MST na área. "Os sem-terra eu até gostaria de conhecer mais, se você quiser enviar algo para mim por e-mail, eu tenho interesse porque eu vejo falarem duas coisas, bem e mal… Mas não tenho nenhuma opinião formada", disse Suzane. Só de castanha ela levou dois quilos. Além disso, a naturopata comprou baru, sucupira e jenipapo.

Satisfação

Após três dias de viagem para chegar até São Paulo (SP), a feirante Josefa Cristina da Silva, do município de Mirante da Serra (RO), localizado a 2,7 mil quilômetros da capital paulista, mostrou satisfação com o último dia de vendas.

Na barraca de Rondônia os nove tipos diferentes de produtos feitos de cacau, principal produtos das lavouras do Assentamento Padre Ezequiel, fizeram  sucesso com o público da feira. Além deles, pimenta e banana também tiveram uma boa saída, garante a sem-terra. "Entre os produtos todos, o chocolate foi o que mais bombou aqui na feira", disse a agricultora que pretende voltar nas próximas edições da feira.

O coletivo de produção do assentamento Roseli Nunes, no município de Piraí, região sul do estado do Rio de Janeiro, comercializou banana, inhame, broa de milho, pimenta em conversa, pokã e doces.

O feirante Mário Bestetti pontuou a boa integração com os visitantes do evento. "Não tem explicação. Para você ver como é que estou aqui, sem voz. Você já pode ver que foi bom demais", disse ele com a voz rouca e falhada. Ele afirmou que, mesmo com a chuva em um dos dias do evento, o grande número de visitantes no final de semana superou a expectativa. "É muito importante por nós trazemos produtos de qualidade para a mesa das famílias brasileiras".

Diversidade

O químico Jorge Dreyer já havia participado da 1ª Feira Nacional da Reforma Agrária em 2015. Neste ano, ele e sua esposa voltaram duas vezes: no primeiro dia, para comprar os produtos, como queijo e salame, e neste domingo, para almoçar nas tendas da Culinária da Terra — o prato escolhido foi o carreteiro, na barraca do Rio Grande do Sul. Para ele, a representação das diversidades regionais de todo o país foi o que mais chamou a atenção. "Eu acho que é importante para divulgar a cultura dos outros estados do Brasil, trazer os produtos que eles cultivam e produzem nos outros estados para o conhecimento das outras regiões", disse ele.

Já Caroline destacou, além da diversidade, os preços dos alimentos. "Infelizmente, aqui em São Paulo, a alimentação saudável, com produtos orgânicos, é muito caro. Já está muito caro comer com veneno. E aqui não. Temos acesso a produtos de primeira qualidade, acessíveis ao bolso de qualquer um. Poderia ter uma feira semanal que eu iria", finalizou a artista plástica.

O MST se prepara para uma nova Feira Nacional em 2018, também na capital paulista. O movimento mostrou o desejo de utilizar novamente o espaço do Parque da Água Branca para a terceira edição do evento, no próximo ano.

 

Fonte: RBA/Brasil de Fato/Municipios Baianos

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