13/05/2017

Risco de câncer de pele é maior em trabalhador exposto a agrotóxicos

 

A exposição excessiva aos raios solares, principalmente entre as 10 e 16 horas, é a maior causa do câncer de pele –  o tipo de maior incidência no Brasil. No entanto, uma pesquisa concluída recentemente no Instituto Nacional do Câncer José de Alencar (Inca), vinculado ao Ministério da Saúde, sugere que que os agrotóxicos podem estar muito mais envolvidos no surgimento da doença do que se pensava.

Ainda em fase de avaliação para publicação em revistas científicas especializadas no tema, o estudo acompanhou mais de 300 agricultores de Nova Palma (RS), localizado a 308 quilômetros a oeste de Porto Alegre. A agricultura, especialmente a produção de frutas, com utilização de agrotóxicos, é a base econômica do município.

"A pesquisa detectou que 17% dos agricultores estão expostos a agrotóxicos. Mas a descoberta mais interessante é que a presença de lesões precursoras do câncer de pele é sete vezes maior entre os agricultores expostos ao Paraquat", explica a epidemiologista da Unidade Técnica de Exposição Ocupacional, Ambiental e Câncer do Inca, Fernanda Nogueira. 

O herbicida Paraquat está entre os agrotóxicos mais perigosos. Trata-se de um composto altamente tóxico, que ao ser ingerido ou inalado ataca gravemente todos os tecidos do organismo.

Exposição solar

"O dado se confirmou mesmo com o controle do principal fator de risco, que a exposição solar. Ou seja, o risco era aumentado mesmo entre os trabalhadores menos expostos aos raios solares." Para obtenção dos resultados, foram utilizados modelos estatísticos que levaram em conta, entre as variáveis, o maior e o menor tempo de exposição.

Os pesquisadores ainda não sabem dimensionar o impacto sobre a saúde a partir da combinação desses fatores de risco, que se inter-relecionam entre si.

O câncer de pele é o de maior incidência no Brasil. Se for detectado precocemente, as chances de se espalhar e invadir outros órgãos (metástase) serão bem menores.

"A exposição solar já é um fator altamente importante. E se você acrescenta a exposição ao agrotóxico, há uma multi-exposição aos agentes causadores da doença", disse Fernanda, que esteve em São Paulo no última sexta-feira (5), em programação da 2ª Feira Nacional da Reforma Agrária, realizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

O Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos, utilizando mais de 1 milhão de toneladas por ano. É como se cada brasileiro recebesse um galão com mais de 5 quilos de veneno para ir tomando ao longo do ano. Além do câncer de pele de tantos outros tipos, esses produtos causam malformações congênitas, alterações endocrinológicas associadas a problemas reprodutivos e, como afetam vários órgãos, causam diversas outras doenças. Estudos recentes associam agrotóxicos a quadros de depressão e até ao autismo.

Sem contar as intoxicações agudas. Como dificilmente é feito o nexo causal entre a doença e o agroquímico, o número de mortes é subnotificado. O Ministério da Saúde estima que apenas um em cada 50 casos é registrado.

Agroecologia

Para a epidemiologista do Inca, a saída é o banimento dos agrotóxicos, o que parece praticamente impossível devido à hegemonia do agronegócio no atual Ministério da Agricultura. A pasta, comandada pelo latifundiário Blairo Maggi, acelera a tramitação de projetos de lei reunidos no chamado Pacote do Veneno, que facilitam o registro de novos produtos, estimulando o aumento do consumo, ao mesmo tempo que revogam a atual legislação e reduzem as informações aos consumidores. É o caso da retirada do selo que informa a presença de transgênicos na formulação.

O apoio à agroecologia – uma vertente agronômica que articula técnicas ecológicas de cultivo com sustentabilidade social – é a principal saída para o enfrentamento ao atual modelo de produção com utilização de agroquímicos.

"É nosso papel também subsidiar os municípios para que façam essa transição da agricultura convencional para a agroecológica. Mas tem de ter mais pressão, mais mobilização popular. A participação é fundamental, como já preconizam os fundamentos do SUS".

Fernanda deposita esperanças também em um grupo de trabalho (GT) dentro do Ministério da Saúde constituído para estudar os impactos da pulverização aérea de agrotóxicos. "A proposta é trabalhar em evidências cientificas para barrar. Para isso, vamos desenhar um estudo capaz de avaliar esse impacto, algo como criar uma 'atmosfera laboratorial'. É lógico que o estudo vai demorar ainda, mas ter o GT é uma perspectiva de avanço. Além disso, temos de pensar em estratégias de comunicação, fazer vídeos, pressionar a Anvisa a banir os agrotóxicos já banidos em outros países.

Em pleno século XXI, quilombolas ainda tem que lutar por direitos básicos

Passados 129 anos desde a abolição da escravatura, os quilombos continuam sendo locais necessários à resistência da população negra. A ancestralidade negra vira combustível para a luta atual contra o racismo e pelo direito à terra – ameaçado ainda mais pelo governo Michel Temer, que paralisou as demarcações das terras quilombolas. O reconhecimento das comunidades remanescentes de quilombos é uma forma de reparar os danos do período escravagista sentidos ainda hoje. O Brasil tem cerca de 3 mil comunidades quilombolas.

As consequências da escravidão ficam evidentes nos números que comprovam que a qualidade de vida da população negra tem uma década de atraso em relação à população branca do país, de acordo com o estudo “Desenvolvimento Humano para Além das Médias” divulgado nesta semana pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) – órgão da ONU – em parceria com a Fundação João Pinheiro e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). A pesquisa também aponta que a renda per capita dos brancos chega a ser maior que o dobro dos negros: R$1.097,00 ante R$ 508,90. 

Os dados são retrato de um país onde a escravidão é tratada como atração turística – como denunciado por The Intercept Brasil –, um restaurante tem o nome de senzala e um motel oferece grilhões, jaula e correntes, como os usados em torturas de escravos, como atrativo.

“As pessoas começaram a se incomodar de ver que um negro, um quilombola, tem o mesmo direito que um branco”

Nesse cenário de naturalização de abusos históricos, um político racista não causa tanto espanto. No último mês de abril, duas representações foram encaminhadas à Procuradoria Geral da União contra o deputado federal Jair Bolsonaro por prática de injúria racial em palestra no clube Hebraica, quando o deputado comparou quilombolas com animais e disse que, se eleito presidente em 2018 acabaria com as demarcações. Para a Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), o deputado corrobora o discurso racista de ódio que defende que  quilombolas não teriam lugar ou função na sociedade brasileira.

“Quando nós saímos e começamos a reivindicar nossos direitos, aí começou a sair o racismo de baixo do tapete. Porque aí as pessoas começaram a se incomodar de ver que um negro, um quilombola, tem o mesmo direito que um branco, que um rico”, afirma Ivone de Mattos Bernardo, moradora do Quilombo Maria Conga em Magé, na Baixada Fluminense.

Pelo balanço de 2016 do Disque 100 ( direitos humanos), mais pessoas estão dispostas a procurar por seus direitos. As denúncias envolvendo crimes de intolerância racial foram as que mais aumentaram entre 2015 e 2016.

Direito à terra

Hoje, 199 comunidades estão aguardando análise do Instituto Palmares para a receber a certificação de Comunidade Remanescente de Quilombos. Já as demarcações das terras ficam a cargo do INCRA.  No entanto, o  governo Michel Temer suspendeu as demarcações de terras quilombolas até que a Ação Direta Inconstituicional – ADI 3239 seja julgada no Supremo Tribunal Federal (STF) – o que não tem data para acontecer.

Essa revisão acontece em um período de forte pressão da bancada ruralista que comanda a CPI Funai-INCRA e questiona as titulações. A disputa por terras causa mortes no campo e perseguições como a da Marinha aos moradores do Quilombo Rio dos Macacos, mostrada pelo The Intercept Brasil em fevereiro deste ano.

De acordo com defensores da política de demarcação das terras, o governo estaria se antecipando à decisão do Judiciário. A paralisação é algo inédito desde o início das demarcações em 1995. Além de lidar com racismo estrutural da sociedade, a comunidade quilombola enfrenta  mais um retrocesso do governo Michel Temer. 

 

Fonte: RBA/The Intercept/Municipios Baianos

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