16/05/2017

O dia em que a máscara de Trump enfim caiu

 

Durante anos, Donald Trump fez da demissão uma forma de vida. Ao longo de 14 temporadas, em horário de máxima audiência, o bilionário deu à nação lições sobre como fulminar os candidatos em seu programa de TV O Aprendiz. “Está demitido!”. Essa era a humilhante frase que multiplicou sua fama, catapultou-o à política e que às 17h40 de terça-feira passada, enviada em envelope lacrado e com suave linguagem oficial, abriu a maior crise de sua presidência. A demissão do diretor do FBI, James Comey, representou para Trump um regresso a si mesmo. Uma de suas máscaras caiu diante do mundo, e surgiu sua face mais feroz, a do presidente capaz de eliminar com suas próprias mãos o responsável por investigar se sua equipe de campanha se associou ao Kremlin para atacar a candidata democrata Hillary Clinton. É a trama russa. O escândalo que dia e noite o persegue e cujo núcleo está no relatório ICA 2017-01D do Departamento de Inteligência Nacional.

Esse dossiê, elaborado pela CIA, FBI e NSA, analisa meses de atividade do Kremlin e traz uma conclusão aterradora: “Vladimir Putin ordenou uma campanha em 2016 contra as eleições presidenciais dos EUA. O objetivo era minar a fé pública no processo democrático, macular a secretária Clinton e prejudicar sua elegibilidade e potencial presidência. Putin e o Governo russo desenvolveram uma clara preferência por Trump”. Leia com calma. Trump era o preferido pelos russos e Trump venceu as eleições. A conclusão é fácil. Só que não há provas, e o encarregado de procurá-las foi demitido pelo presidente. Poucas vezes a suspeita foi tão evidente. E o republicano só a aumenta. Em sua fuga, chamou de “inimigos do povo” os jornalistas que investigam o caso e criou o carimbo de fake news para suas entrevistas exclusivas. Nas palavras de Trump tudo se reduz a uma “enorme armação desses democratas que não sabem perder”. Mas os fatos não são tão simples.

Dezessete de seus colaboradores mais próximos tiveram elos com Moscou. Houve reuniões secretas com o Kremlin nas Ilhas Seicheles, e no curso de um mês o conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn, perdeu o cargo, e o procurador-geral, Jeff Sessions, ficou parcialmente impedido por ocultar o conteúdo de suas conversas com o embaixador russo em Washington. Duas baixas significativas, embora menos explosivas que a demissão de Comey. Os diretores do FBI, eleitos pelos presidentes e referendados pelo Senado, gozam de um mandato de 10 anos e de uma imensa autonomia. Apenas um, em 109 anos de história, havia sido destituído. Foi com Bill Clinton, e por motivos éticos. O caso de Comey é diferente. Por mais que agora se queira endeusá-lo, o diretor do FBI se movia desajeitadamente na arena política. Em sua época atraiu o ódio tanto dos democratas, por reabrir o caso dos e-mails de Clinton quanto o de Trump, por encerrá-lo pouco depois. Mas entre seus agentes era adorado. Consideravam-no um muro resistindo às pressões. Um exemplo de zelo puritano.

Com esses antecedentes, a saída de Comey abala profundamente a credibilidade da Casa Branca. As pesquisas-relâmpago revelam que a maioria desaprova a demissão e, o que é ainda mais importante, que a exigência de uma investigação independente se tornou avassaladora. “A decisão de Trump o enfraqueceu e tem como efeito que a maioria dos norte-americanos agora insista numa investigação plena dos vínculos com a Rússia”, afirma o professor Larry J. Sabato, diretor do Centro para a Política da Universidade de Virgínia. Os republicanos, conscientes do risco de autodestruição, fecharam questão contra a nomeação de um promotor especial. E muito menos estão dispostos a aceitar alguma responsabilização por obstrução que possa alimentar um remotíssimo impeachment. A única válvula de escape vem do próprio FBI, desde que o novo diretor não a asfixie, e dos comitês do Senado e da Câmara. “Mas os republicanos, por maior que seja a controvérsia, mantêm uma frente unida ao redor de Trump e podem desacelerar ou frear qualquer investigação”, destaca Andrew Lakoff, professor da Universidade da Califórnia.

O futuro dos inquéritos é incerto. E Trump não parece disposto a ficar calado. Sem se importar em deixar expostos seus porta-vozes e suas rebuscadas explicações sobre a demissão, rompendo com o formalismo, chamou Comey de “fanfarrão” e declarou que queria fulminá-lo havia muito tempo. Por múltiplos motivos, mas todos sabem que além da trama russa o diretor do FBI se atreveu a desmentir a acusação de Trump de que Barack Obama o havia espionado e que, depois de testemunhar em 3 de maio de forma asséptica sobre Clinton, o presidente não confiava mais nele. Após sua exoneração, o diretor do FBI permaneceu em silencio. Depois, diante do aumento da pressão, deu dois passos de segurança: deixou aberta a porta para uma declaração no Comitê de Inteligência do Senado e, por meio de pessoas próximas, vazou para o jornal The New York Times que no dia 27 de janeiro o republicano o convidou para um jantar a sós na Casa Branca. O objetivo era pressioná-lo para que lhe prometesse lealdade. “Serei honesto”, foi a resposta de Comey.

Publicada essa reconstituição, Trump se encolerizou e na manhã de sexta-feira sacou a faca. Pelo Twitter alertou o demitido para não falar mais. “Será melhor para Comey que não haja gravações de nossas conversas, antes que ele comece a vazar para a imprensa”. A ameaça foi clara, direta, letal. Um presidente dos Estados Unidos brandindo supostas escutas para calar um ex-diretor do FBI. A máscara caíra. Não estava falando aquele Trump suntuoso e paternal que gosta tanto de si mesmo. Falava o tigre criado no Queens, o valentão da escola militar de Cornwall, o admirador de Putin. A mensagem alcançou Comey. Na mesma tarde se soube que declinara de ir ao Comitê de Inteligência do Senado. Trump, mais uma vez, venceu.

Vermelho na Casa Branca. Por José Couto Nogueira

Quem acompanha a comunicação social norte-americana, escrita e televisionada, quase que sente dó pelo tom dos textos e pelo cariz dos comentadores. Os jornalistas, os americanos bem informados, a inteligência, a tal “elite liberal” de que Trump se queixa, está constrangida e descoroçoada com um presidente que se comporta mais como um coronel Tapioca das repúblicas das bananas que antigamente eles colonizavam e desprezavam. Como escreve David Remick no “The New Yorker”: “Donald Trump age como um déspota. (...) Coisas assim não é suposto acontecerem numa democracia liberal, especialmente nos Estados Unidos, que se orgulha das suas salvaguardas contra o exercício arbitrário do poder. A “coisa assim” de que Remick fala foi o despedimento sumário, na semana passada, do Diretor do FBI, James Comey – mais um episódio, desta vez gravíssimo, da série de demissões atamancadas que Trump tem feito, desde o General Flynn, Conselheiro de Segurança Nacional, até à Ministra da Justiça (Attorney General), Sally Yates.

Citando ainda Remick: “O FBI é para ser um órgão independente, acima e fora da política partidária e das questões pessoais. É por isso que os seus diretores são nomeados por períodos de dez anos. Espera-se que o Presidente respeite esta independência, especialmente quando se trata de assuntos em que tenha, ou possa ter, interesses pessoais.” Donald Trump acabou de fazer 100 dias no posto, portanto tudo isto tem acontecido a um ritmo difícil de acompanhar. Os seus apoiantes, na maioria gente simples que acreditou em promessas de esplendor nacional e oportunidades de trabalho, não percebem nem querem perceber os meandros de Washington. Reportagens recentes no interior dos Estados mais pró-Trump mostram cidadãos rosados de camisa de xadrez a dizer que o homem está a ir muito bem, não o deixam é trabalhar, e mulheres desdentadas a jurar amor pelo macho alfa em que votaram. Quanto às elites republicanas, senadores, parlamentares e governadores, fazem de conta que não percebem, pois sabem que esta é uma oportunidade única de legislar uma agenda ultra-conservadora – anti mudanças climáticas, anti segurança social e pró grandes interesses e sectores devastadores para o ambiente. Estão a acabar rapidamente com o financiamento de projetos artísticos e científicos, planejamento familiar, ajudas aos mais pobres e ensino público gratuito. Não gostam do Donald, que nem sequer era republicano, mas desde que lhes dê a possibilidade de deitarem abaixo décadas de supervisão estatal, preferem não investigar muito as incongruências do Presidente e – aqui está o mais grave – o presumível envolvimento de Putin na eleição de Trump.

E esse envolvimento, cada vez mais óbvio, é que está na origem das confusões e despedimentos sumários. Primeiro foi o caso Flynn. O General recebeu dinheiro dos russos e negociou secretamente com eles na altura em que Barack Obama lhes impôs sanções precisamente por se envolverem nas eleições presidenciais. Foram eles que revelaram emails do Comité Eleitoral Democrático prejudiciais a Hillary Clinton, numa tentativa de a queimarem perante a opinião pública. Soube-se agora que o FBI e a Ministra da Justiça, mesmo o próprio Obama, avisaram Trump que Flynn não era de confiança. Pior, os russos tinham material para o chantagear, o que o tornava vulnerável demais para ser Conselheiro de Segurança Nacional. Mesmo assim, Trump demorou 18 dias a demiti-lo, e fê-lo somente quando as provas já eram públicas. Seguiu-se o caso da Ministra da Justiça. Sally Yates foi demitida porque se recusou a cumprir a ordem de Trump para impedir a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos. Yates tinha o direito de não executar uma ordem que achava inconstitucional, assim como Trump tinha o direito de a demitir por desobediência; mas agora soube-se, pelo depoimento de Yates ao Comité Parlamentar que está a analisar as ligações entre russos e assessores da Casa Branca, que ela tinha-o avisado contra Flynn, o que coloca Trump na desconfortável situação de não ter demitido o general prontamente. O caso do Director do FBI é mais subtil e, ao mesmo tempo, mais óbvio e mais patético. Quando Comey veio a público dizer que estava a investigar os emails de Clinton, prejudicando a sua candidatura – e quebrando uma tradição do FBI não fazer declarações durante o período eleitoral – Trump elogiou-o publicamente como um “homem de coragem”.

Mas Comey também estava a investigar os tais envolvimentos de assessores de Trump com os russos. Até agora não se sabe nem quantos são nem até onde vão os compromissos, mas o embaixador russo, Sergey Kislyak, aparece repetidamente em telefonemas e contactos com muitos deles, desde Flynn a Jeff Sessions, o Ministro da Justiça de Trump, que pediu escusa do processo, o que já é em si suspeito. E ontem o mesmo Jeff Sessions aconselhou Trump a demitir Comey, o que é mais suspeito ainda. Acresce que a desculpa dada para o despedimento – a atitude de Comey em relação a Hillary – é patética, dado o tempo que passou e os elogios de Trump na altura. A impressão que tudo isto dá – e em política impressões são tiros no couraçado – é que Trump demitiu Comey porque a investigação do FBI se estava a aproximar perigosamente dele próprio.

O único precedente duma demissão destas foi em 1973, quando Richard Nixon despediu Archibald Cox, o Procurador Especial que investigava Watergate. Mas em 1973 o então Ministro da Justiça, Elliot Richardson, e o seu adjunto, William Ruckelshaus, recusaram-se a demitir Cox. Foi preciso Nixon recorrer ao Procurador Geral, Robert Bork, para efetuar o despedimento. Desta vez foram os próprios Ministro da Justiça, Jeff Sessions, e o seu adjunto, Rod Rosenstein, que aconselharam Trump a demitir Comey. A diferença para 1973 é tristemente notável, como todos os comentadores não deixam de salientar. O caso não vai ficar por aqui, evidentemente. O que democratas, republicanos e a comunicação social estão a pedir – a exigir mesmo – é que seja nomeado um Procurador Especial independente para investigar as relações entre os russos e a tropa de Trump. Por enquanto não se fala em impedimento do Presidente, mas é evidente que essa possibilidade está cada vez mais próxima. Entretanto, os americanos informados assistem incrédulos a uma situação que mostra como as garantias constitucionais de imparcialidade e justiça estão em perigo. Para não falar no envolvimento de um país estrangeiro, tradicionalmente inimigo, na escolha do Presidente.

A esquerda está, é claro, rejubilante. Finalmente os americanos têm Presidente que incorpora todo o mal que eles sempre atribuíram aos Estados Unidos. A ausência de liberdades internas na Confederação Russa ou a sua expansão sem olhar a meios ou princípios, parece que não os incomoda tanto. Ainda não perceberam que a Rússia já não se chama União Soviética e Putin é um ditador de direita. Também se recusam a admitir que os Estados Unidos não são monolíticos e muitos americanos estão dispostos a defender com unhas e dentes os valores expressos na Constituição. Convém lembrar que essa Constituição é a mais antiga do mundo, a única que se mantém desde a sua promulgação (quantas constituições já teve, por exemplo, a ferozmente democrática e republicana França?) e tem garantido uma notável liberdade de expressão e uma luta constante pelos direitos individuais. Tal como os ingleses e outros impérios antigos e recentes, os americanos podem não se incomodar com as liberdades doutros países, mas nas deles ninguém mexe.

Trump e Macron: a ascensão supersônica de dois ganhadores atípicos

Quando Emmanuel Macron assumiu neste domingo o cargo de presidente francês, culminou uma carreira improvável: a de um jovem de 39 anos, praticamente sem experiência política e sem partido, que chega à chefia de Estado de uma potência nuclear, a sexta maior economia mundial. Também refutou quem dizia que outra vitória improvável, a de Donald Trump nos Estados Unidos, em 8 de novembro de 2016, antecipava um efeito dominó na Europa. Demonstra que, no país europeu com a extrema direita mais consolidada, pode vencer com autoridade – com mais autoridade que Trump – um candidato que é ex-executivo de banco (quando supostamente os banqueiros são odiados), liberal (na França, onde o receio do capitalismo está disseminado) e europeísta (em tempos de recuperação identitária e de fechamento das fronteiras). Fecha-se no Palácio do Eliseu um capítulo que começou há seis meses. De Washington a Paris. Dois continentes, dois países, dois políticos de sinal oposto – no caráter, na biografia, na ideologia – que deixaram estupefatos seus rivais e aliados com uma ascensão supersônica ao poder, e que representam os polos em confronto nas sociedades ocidentais.

Populismo e elitismo, recolhimento e abertura, nacionalismo e europeísmo, soberanismo e liberalismo: as expressões são múltiplas e variam segundo quem as pronuncie, mas refletem uma idêntica polarização. “Isto aqui vai ser um Brexit multiplicado por cinco”, previa Trump em seus comícios. Referia-se ao referendo realizado alguns meses antes no Reino Unido, com vitória dos partidários da desfiliação britânica da União Europeia. Poucos acreditavam em Trump – talvez nem o próprio acreditasse –, mas ele acertou. A comoção do Brexit se repetiu. O populismo nacionalista se instalou no coração da maior potência mundial. E a França, meio ano depois, devia ser o Brexit multiplicado por dez. “O que está ocorrendo nos Estados Unidos hoje é bastante similar ao que vemos na Europa. Cada dia mais gente, milhões de pessoas não se sentem representadas pela elite política", disse ao EL PAÍS o populista holandês Geert Wilders em plena campanha do Trump.

De Washington a Paris

De longe, da Washington de Trump, as perspectivas pareciam ótimas para uma vitória do seu lado na França. Uma economia estancada. Um abismo entre as elites urbanas e a classe trabalhadora. Uma candidata populista e nacionalista, Marine Le Pen, com um discurso poderoso em defesa da soberania nacional perante a União Europeia e a globalização. E um rival que à primeira vista facilitava o trabalho para Le Pen: novato e cosmopolita, um produto das elites política e financeira de seu país. De perto, na Paris mergulhada em uma das campanhas eleitorais mais voláteis das últimas décadas, tudo mudava. A primeira coisa que chamava a atenção ao recém-chegado à França nos últimos meses eram as respostas quase unânimes quando perguntava se Le Pen ganharia. Variavam entre “muito difícil” e “impossível”. Se até o último momento uma vitória de Trump era considerada possível, mas inverossímil, depois de Trump a vitória de Le Pen era perfeitamente verossímil, mas improvável. “Não é o mesmo país. Não é o mesmo sistema. Não é o mesmo homem”, constata agora, com Macron já eleito presidente da República Francesa, François Heisbourg, chefe do laboratório de ideias Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.

No sistema norte-americano, um colégio eleitoral escolhe o presidente de maneira indireta, segundo uma ponderação de votos por Estados, e isso permitiu que o republicano Trump chegasse à Casa Branca com quase três milhões de votos a menos que sua rival democrata, Hillary Clinton. Alguns cálculos apontam que, com um sistema similar, Le Pen poderia ter se tornado presidenta da França. “Só há um ponto em comum entre Trump e Macron", prossegue Heisbourg numa entrevista por telefone. “É que os dois tiveram uma trajetória totalmente atípica. Chegaram ao poder rompendo todos os códigos de acesso ao poder supremo. Partiram de um ponto no qual não podiam pretender ganhar. E ganharam.” Exceto por esse ponto em comum, o impulsivo Trump e o reflexivo Macron eram opostos. Já Le Pen, candidata do velho partido ultradireitista Frente Nacional, aspirava a ser a Trump francesa. Não por acaso seu chefe de campanha, David Rachline, tinha uma foto do presidente norte-americano em seu gabinete de prefeito da cidade mediterrânea de Fréjus. “O patriotismo econômico e a realocação das empresas e do emprego nos parecem ser parte da modernidade política”, disse um dia Rachline, antes de citar o Brexit como mais uma prova desse movimento rumo a “um mundo novo”, a internacional trumpista, como se havia dito meses antes. Ou lepeniana.

Dois países, dois mundos

Mas a França não era os Estados Unidos. O sistema eleitoral em dois turnos propiciaria a união dos adversários de Le Pen – a maioria da sociedade francesa – e permitiria barrar o acesso dela às instituições. Na França, a direita tradicional, o equivalente ao Partido Republicano dos EUA, respaldou majoritariamente Macron no segundo turno, porque Le Pen e a FN, apesar dos esforços de aceitação pelo establishment, ainda são vistos como um partido na periferia dos valores democráticos e republicanos, indissociável das suas origens racistas e antissemitas. Nos EUA, por outro lado, a direita cerrou fileiras com seu Le Pen: Trump.

Outra diferença: Macron, ao contrário de Clinton, soube neutralizar as tentativas de desestabilizar a campanha com notícias falsas e se protegeu com maior habilidade dos ataques cibernéticos de provável origem russa. E a imprensa francesa evitou dar uma cobertura intensa aos vazamentos de e-mails roubados, muitos deles anódinos e irrelevantes, como fizeram os meios de comunicação norte-americanos num caso equivalente envolvendo Clinton, cujas mensagens foram divulgadas a dois dias da votação. Macron tampouco hesitou em se envolver em debates que pudessem ser mais incômodos – a defesa sem complexos do seu passado como executivo de banco é um exemplo – e em descer à arena para trocar opiniões com sindicalistas em greve numa fábrica que estava a ponto de fechar. Há uma diferença de cultura política. Nos EUA, o sistema não penalizou o despreparo e as mentiras flagrantes de um candidato. Trump podia insultar a torto e a direito e mentir compulsivamente: não pagou um preço nas urnas. “Na França você não pode ter sucesso politicamente se não tiver certo grau de cultura. Se não tiver certa consciência do que é a história e a civilização de seu país”, diz Heisbourg.

Foi o que se viu no debate entre Le Pen e Macron, quatro dias antes das eleições. Le Pen exibiu ali sua ignorância sobre propostas centrais do seu programa, como a saída do euro, e acabou lançando ataques descontrolados. Talvez ali ela tenha sido sentenciada. Em 7 de maio, Macron obteve 66,1% dos votos, e Le Pen, com 33,9%, ficou aquém das suas expectativas. “Tentou dar uma de Trump [no debate] e foi muito mal, foi uma catástrofe”, resume Heisbourg. Os franceses talvez não queriam uma Le Pen e a FN no Eliseu, mas muito menos um Trump. Na França, perdeu a candidata que gesticulou como Trump, e ganhou aquele que se pareceu com Trump em outro aspecto. No final, Le Pen, como Clinton, eram a velha pol&iac

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