19/05/2017

"Brasil mergulhado em novo caos político"

 

Depois da revelação de um áudio em que Michel Temer dá seu aval à compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, jornais da Europa destacam nesta quinta-feira (18/05) mais um período de turbulências na política brasileira. Correspondentes usam o mesmo tom ao afirmar que, caso o teor das gravações seja comprovado, o presidente acabará deixando o poder.

Le Monde, França - Presidente Temer é machado com novas revelações

Neste novo episódio de uma saga iniciada em 2014 com a deflagração da Lava Jato, o Brasil corre o risco de mergulhar em um novo caos político e econômico. O país, que mal começou sua recuperação de uma recessão histórica, poderá voltar a sofrer a ira dos mercados financeiros, preocupados com o bloqueio das reformas prometidas por Michel Temer.

La Repubblica, Itália - Tempestade política no Brasil

Desta vez não se trata de uma das revelações habituais, que anunciam outros escândalos e novas prisões. Desta vez é diferente. O impacto político é reforçado pela presença de uma prova em áudio que registrou um claro ato corruptor. No nível institucional mais alto. O PT, juntamente com outros partidos de oposição, anunciou que entrou com um pedido oficial de impeachment contra o presidente do Brasil. Um bumerangue. Foi o mesmo Temer, à época vice-presidente, que liderou com Cunha a batalha pela destituição de Dilma Rousseff. O destino, zombando, agora prepara o caminho para sua renúncia. Voluntária ou forçada. Negar ou minimizar aquelas frases tomadas por uma caneta-gravador será difícil. Talvez impossível.

The Guardian, Reino Unido - Gravações explosivas implicam Temer em suborno

A política provavelmente vai ficar ainda mais paralisada – mesmo antes das últimas acusações, o governo Temer já estava em crise. Três de seus ministros foram forçados a se demitir, e outros oito estão envolvidos nas investigações de corrupção da Lava Jato. Os índices de aprovação do presidente caíram para apenas um dígito, a economia permanece atolada em recessão, e os opositores organizaram recentemente uma greve geral em protesto contra suas políticas de austeridade e propostas de mudanças nas leis de aposentadorias, trabalhistas e ambientais. A possibilidade de o Brasil derrubar outro presidente ficou mais próxima, embora a coalizão governista tenha uma grande maioria no Congresso.

El País, Espanha - Gravação em que Temer obstrui a Justiça estremece o Brasil

Se o que o Globo noticia for confirmado, isso arrastaria o governo de Michel Temer para a beira do abismo. Temer só chegou ao poder porque ele concordou com o trâmite do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, da qual foi vice-presidente. Exatamente ele assumiu as funções da presidência um ano atrás, completado nestes dias. Desde então, não foi capaz de despertar no eleitorado praticamente nenhuma simpatia que lhe garantisse estabilidade no cargo. Sua aposta na austeridade, com a qual pretende tirar o país da pior recessão em décadas, ganhou como resposta duas greves gerais e muitas manifestações. Seu governo se viu implicado em uma série de escândalos de corrupção, que foram minando sua já fraca popularidade.

Handelszeitung, Alemanha – Presidente brasileiro Temer extremamente comprometido

A mídia fala em uma "bomba que explode sobre o país". O presidente Michel Temer teria ajudado a silenciar com dinheiro um cúmplice em um escândalo de corrupção.

Segundo O Globo, durante uma reunião com empresários investigados por corrupção,Temer teria dado luz verde para silenciar com pagamento de dinheiro o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que se encontra preso. Em comunicado, o governo afirmou que Temer nunca propôs pagamentos para comprar o silêncio de Cunha. A reunião em si foi confirmada, tendo ocorrido no início de março.

DENÚNCIAS ACUAM MICHEL TEMER E DESENCADEIAM PEDIDOS DE DIRETAS JÁ

Menos de uma semana depois de comemorar o aniversário de um ano na Presidência da República, Michel Temer testemunha a ruína de sua gestão. A revelação do jornal O Globo na noite desta quarta-feira (17) de que ele teria encorajado a compra do silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha disparou uma corrida de deputados da oposição para protocolar pedidos de impeachment, e foi instalada uma pressão no Congresso para que Temer renuncie ao mandato. Evitando se expor publicamente, a base do governo apenas demonstra perplexidade. Nos bastidores, porém, partidos aliados do Planalto, como PSB na Câmara, falam em romper com o governo em definitivo.

Nas últimas semanas, Temer tentava de tudo para fortalecer sua base de apoio e aprovar as reformas trabalhista e previdenciária. Se as medidas, sem o apoio popular, já tinham um custo amargo para os congressistas, com as denúncias caindo diretamente sobre o Planalto, agora, mais do que nunca, elas estão ameaçadas. Além do Congresso, manifestações já foram convocadas em diversas cidades do país, e a renúncia começa a se formar no horizonte como a saída mais provável. O clima de caos tem motivo e endereço certo: Esplanada dos Ministérios, Praça dos Três Poderes, terceiro andar do Palácio do Planalto, gabinete presidencial.

Assim que o conteúdo das gravações feitas por Joesley Batista, um dos donos do grupo JBS, foi divulgado, panelaços e buzinaços contra o governo voltaram a incomodar os ocupantes temporários do poder. Uma análise feita pelo professor da Universidade Federal do Espírito Santo Fábio Malini sobre os processos de interações nas redes sociais mensurou que o termo #DiretasJá entrou no discurso da população brasileira.

Ainda na noite de quarta, deputados da oposição subiram à tribuna e exigiram que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM/RJ), instalasse imediatamente uma comissão para analisar o impeachment de Temer. Todas as sessões da Câmara e do Senado foram canceladas. Maia, que é o primeiro na linha sucessória presidencial em caso de vacância, evitou a imprensa e saiu às pressas para o Palácio do Planalto. 

O primeiro a protocolar na Câmara um pedido de impeachment contra Temer foi o deputado Alessandro Molon (Rede/RJ). Outros partidos de oposição também articulam novos pedidos nesta quinta-feira (18) contra o presidente.

Delações enfraquecem PSDB

As gravações de Joesley também atingiram o coração do tucanato mineiro ao apontarem que o senador Aécio Neves (PSDB/MG) teria pedido ao empresário R$ 2 milhões para custear a sua defesa na Operação Lava Jato. Na manhã desta quinta, o Supremo Tribunal Federal determinou que ele seja afastado do mandato. A irmã de Aécio, Andrea Neves, foi presa, e foram cumpridos mandados de busca e apreensão em propriedades dos dois.

Por ser senador, o pedido de prisão de Aécio deveria ser aprovado pelo STF, e não foi. O ministro Edson Fachin negou a solicitação da Procuradoria-Geral da República e afirmou que não levará pedido a plenário, a não ser que Rodrigo Janot recorra da decisão. O Brasil vive neste dias sua primavera pós-golpe.

No PSDB a percepção majoritária é de que “o governo acabou” e que Aécio será retirado da presidência do partido ainda hoje. O tucano Carlos Sampaio (SP) será o novo presidente da legenda. Políticos do partido avaliam a situação do senador como insustentável e que arranha a imagem do partido.

Eleição direta ou indireta?

Segundo a Constituição Federal, em casos de afastamento ou renúncia de Temer, O Congresso teria 30 dias para convocar uma eleição indireta para a Presidência. Enquanto isso, quem ocuparia o cargo seria o próximo na linha sucessória: o presidente da Câmara. No entanto, Rodrigo Maia é investigado na  Lava-Jato e, caso venha a se tornar réu, não poderia assumir o poder, segundo entendimento do STF. A mesma implicação cai sobre o presidente do Senado, Eunício Oliveira, que seria o segundo na linha de sucessão.

Desenha-se em Brasília que a presidente do Supremo, Cármen Lúcia, a terceira na linha sucessória da Presidência da República, seria a pessoa com autoridade moral e política para conduzir os rumos do país.

Ciente da gravidade da situação e das dúvidas jurídicas sobre o caso, o deputado Chico Alencar (PSOL/RJ) pediu que a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprecie uma Proposta de Emenda à Constituição do deputado Miro Teixeira (Rede/RJ) que propõe eleições diretas, mesmo em caso de afastamento do presidente nos dois últimos anos de mandato.

Temer quer tempo pois tem medo de sair do Planalto para a prisão', afirma Boulos

“O pronunciamento do Temer foi lamentável, patético. O medo dele é sair do Palácio do Planalto e ir direto para a prisão. Ele quer tempo para negociar com o Judiciário. Diante disso, teremos uma crise prolongada e não podemos sair das ruas”, afirmou Guilherme Boulos, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), sobre discurso proferido hoje (18) pelo presidente Michel Temer (PMDB), no qual afirmou que não vai renunciar.

Temer fez seu pronunciamento na tarde desta quinta-feira após denúncia veiculada ontem. Joesley Batista, dono da JBS, teria gravado o presidente dando aval para a compra do silêncio do deputado cassado e ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha. “Temer comprou o silêncio do capitão do golpe. Não são convicções, são provas. O grito de 'Fora Temer' tem que tomar o país de norte a sul”, disse Boulos.

Movimentos organizados da sociedade civil criaram uma agenda de atos para pressionar pela queda de Temer. “Precisamos dar o empurrão que falta para ele cair e deixar esse lugar onde ele nunca deveria estar. O que aconteceu não foi surpresa para ninguém. O golpe foi baseado em corrupção e compra de silêncio. Esse discurso jogou combustível nas ruas do país. Todos sabem que vai cair, a questão é o tempo que ele quer para costurar um acordo e se livrar da prisão”, completou.

Para Boulos, a situação de Temer, apesar de insustentável, merece ser vista com cuidado por segmentos progressistas da sociedade. “Precisamos saber o que levou a Globo a publicar isso neste momento. Temos que derrubar o Temer mas não podemos ser feitos de patos pela Globo, como muitos foram feitos ano passado na Avenida Paulista”, disse, em referência às mobilizações que pediam o impeachment de Dilma Rousseff (PT), apoiadas pelo setor empresarial e midiático, em especial a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que inflou um pato de borracha na avenida Paulista.

“Se a Globo soltou isso é porque já tem uma carta na manga. Estão com alguém para botar no lugar dele. E quem eles querem colocar, seguramente, é alguém para continuar com a agenda de retirada de direitos de Temer, com as reformas trabalhista e da Previdência. Sabendo o que está em jogo, devemos ter clareza do nosso lado”, disse Boulos. A saída, de acordo com o líder do MTST, é a reivindicação popular por eleições diretas. “Temos que restituir ao povo brasileiro o direito de votar”, disse.

Boulos também lembrou de movimentos de direita que participaram da articulação pela queda de Dilma e apoiaram Temer. “Hoje, 99% do país defende o 'Fora Temer'. Mesmo quem estava sustentando ele. Agora, com muita hipocrisia e oportunismo, o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem Pra Rua exigem sua renúncia. Mas a questão é qual será a solução após a saída de Temer. Não podemos aceitar Rodrigo Maia (presidente da Câmara, do DEM-RJ), nem que esse Congresso, que não representa o povo brasileiro, escolha o próximo presidente. Precisamos de uma saída ampla e democrática com 'Diretas Já'”, completou.

Psol: prioridade agora é impedir eleição indireta

O Psol defende que, tão ou mais importante do que a queda do presidente Michel Temer agora, é impedir que a base governista manobre para realizar a eleição indireta do sucessor. A afirmação é do presidente nacional do partido, Luis Araújo, que falou com a Sputnik Brasil no momento em que assinava o pedido de impeachment, em Brasília.

"Todos os partidos de oposição ao governo ilegítimo do Temer acordaram com um pedido de impeachment, assinado por partidos e também por personalidades. Esse pedido se baseia em quatro elementos de crimes punidos com impeachment. Vamos dar entrada pedindo agilidade para resolver essa crise. O país está paralisado, o presidente ilegítimo fazendo reformas impopulares. Está tudo parado. O problema é que está tendo nos bastidores para fazer uma eleição indireta que destrave as reformas", diz o presidente do Psol.

Para Luis Araújo, a queda da Bolsa — que chegou a tombar mais de 10%, acionando o sistema de circuit breaker, que interrompe as negociações para evitar quedas ainda maiores —, é um elemento de pressão para mostrar que, se não se fizer as reformas, o país vai quebrar, o que é mentiroso, pura especulação.

"As reformas estão paradas e esse governo não tem legitimidade nenhuma de promover reformas, como esse Congresso Nacional, com um terço de seus integrantes, também não tem. A gente espera que o povo seja chamado a decidir. Da última vez que o Brasil fez uma eleição indireta, dormirmos com Tancredo e acordamos com o Sarney. Foi uma coisa traumática com vários planos impopulares, e não queremos passar por isso. Queremos que o Congresso devolva ao povo brasileiro o direito de decidir como vai ser a política econômica, as reformas necessárias para sair da crise. As reformas retiram direitos e que beneficiam o grande capital prejudicando a mão de obra com terceirização, perdas de direitos históricos e a reforma da Previdência que é um acinte", conclui Araújo.

 

 

Fonte: Deutsche Welle/The intercept/RBA/Sputinik News/Municipios Baianos

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