19/05/2017

JBS enterrou o resto do Governo Temer, diz senador

 

A notícia de que o presidente de facto, Michel Temer, teria sido filmado por Joesley Batista, um dos controladores do frigorífico JBS, dando aval à compra do silêncio do ex-deputado federal Eduardo Cunha explodiu no Senado, na noite desta quarta-feira, durante a votação do foro privilegiado. Segundo o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), “acabou o governo”. — Nesse momento tem que ser feito um pacto suprapartidária entendendo que acabou o governo. Precisamos de um processo de eleições gerais — afirmou

Segundo a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) “a Polícia Federal rastreou o caminho do dinheiro e chegou à empresa do senador José Perrella (PSDB-MG). O Aécio não pode continuar como senador”. A notícia, vazada do Supremo Tribunal Federal (STF) ou da Procuradoria Geral da República (PGR) ao jornalista Lauro Jardim, do diário conservador carioca O Globo, mostra a gravação feita por Joesley. O depoimento integra a declaração que os controladores da JBS deram à PGR, em abril.

Na cadeia

Segundo o texto, trata-se de “uma delação como jamais foi feita na Lava-Jato: Nela, o presidente Michel Temer foi gravado em um diálogo embaraçoso. Diante de Joesley, Temer indicou o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) para resolver um assunto da J&F (holding que controla a JBS). Posteriormente, Rocha Loures foi filmado recebendo uma mala com R$ 500 mil enviados por Joesley”.

Temer, de acordo com a notícia veiculada, também ouviu do empresário que estava dando a Eduardo Cunha e ao operador Lúcio Funaro “uma mesada na prisão para ficarem calados”. Diante da informação, Temer incentivou: — Tem que manter isso, viu? — disse Temer.

Presidente do PSDB e indiciado na Operação Lava Jato, o senador Aécio Neves (MG) foi flagrado quando pedia R$ 2 milhões, em dinheiro sujo, a Joesley. “O dinheiro foi entregue a um primo do presidente do PSDB, numa cena devidamente filmada pela Polícia Federal. A PF rastreou o caminho dos reais. Descobriu que eles foram depositados numa empresa do senador Zeze Perrella (PSDB-MG)”, afirma o jornalista.

MBL e Vem para Rua pedem renúncia e até prisão de Temer

Pela primeira vez, os principais movimentos que organizaram grandes protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff pedem a renúncia - e até a prisão - do presidente Michel Temer, após a eclosão da notícia de que o presidente teria dado aval para a compra do silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha. Esses movimentos, fundados com base na luta contra a corrupção, vinham concentrando suas críticas em integrantes dos governos do PT. Em certa medida, muitos poupavam Temer, que já tinha sido alvo de denúncias, porém menos graves, pelo papel desempenhado no impeachment de Dilma Rousseff e pelas reformas econômicas defendidas em seu mandato.

A adesão dos grupos à onda de reprovações vindas de movimentos ligados à esquerda ou ao PT pode significar mais um obstáculo à sobrevivência de Temer no Planalto, já que Vem Pra Rua e Movimento Brasil Livre têm forte aceitação entre setores que até hoje davam apoio ao peemedebista. Além de milhões de seguidores nas redes sociais e bom diálogo com empresários, os grupos têm forte interlocução no Congresso - onde seus representantes são vistos frequentemente discutindo apoio ou oposição a medidas legislativas com parlamentares de diferentes partidos.

Prisão e renúncia

Com o mote "Prendam Todos! Temer, Dilma, Lula e Aécio", o movimento Vem Pra Rua marcou uma série de protestos em grandes cidades do país para o próximo domingo. O grupo, liderado pelo publicitário Rogério Chequer, divulgou o protesto na madrugada desta quinta-feira, pedindo "com urgência" que seus seguidores confirmem presença e convidem amigos. "Não temos muito tempo para divulgação." "Obstrução à Justiça é crime gravíssimo", afirmam os organizadores do Vem Pra Rua, que sempre estiveram na linha de frente contra o PT e apoiavam medidas do atual governo.

Já o Movimento Brasil Livre (MBL), de Kim Kataguiri, publicou imagens pedindo a renúncia de Temer. "No momento, não há nada que possam fazer para se livrar da Justiça ou da opinião pública, que irá massacrá-los pelos próximos meses", publicaram os coordenadores do movimento nas redes sociais, em referência a Temer e ao presidente do PSDB, Aécio Neves - que também teria sido gravado pedindo R$ 2 milhões ao empresário da JBS. O valor teria sido entregue a um primo de Aécio, em momento também gravado pela Polícia Federal.

Em nota à imprensa, Aécio disse que tinha relação "estritamente pessoal, sem qualquer envolvimento com o setor público" com o empresário Joesley Batista. "O senador aguarda ter acesso ao conjunto das informações para prestar todos os esclarecimentos necessários", afirmou o comunicado.

"Vai cair"

"Agora eu quero saber cadê aquela petistada que dizia que a Lava Jato era uma conspiração para ter um acordão para salvar o Temer, salvar o Cunha?", perguntou Kim Kataguiri, em vídeo divulgado nas redes sociais. "Eu tenho liberdade para pedir a renúncia do Temer e para dizer que quero que Aécio seja preso. E vocês, podem dizer a mesma coisa sobre Lula e Dilma?"

Tanto o Vem Pra Rua quanto o Movimento Brasil Livre vinham elogiando, nos últimos meses, as reformas propostas pelo governo Temer e as propostas do presidente para melhorar a situação econômica do país. Nas redes sociais, o MBL foi criticado por apagar fotos do presidente Temer em publicações favoráveis ao governo após a divulgação das gravações nesta quarta-feira.

Ao jornal Folha de S.Paulo, em setembro do ano passado, um dos líderes do movimento afirmou que não achava "má ideia" que o grupo ajudasse o governo "se for no sentido de apoiar as reformas e desde que elas não sejam abrandadas pela pressão de alguns grupos".

Marcello Reis, cabeça do grupo Revoltados Online, uma das vozes mais estridentes contra os governos petistas, também comentou o caso na noite desta quarta-feira. "Michel Temer não presta! Outro corruPTo que está no poder do nosso Brasil."

Flagrantes

Em espectro político diametralmente oposto, as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo também convocaram protestos para o próximo domingo, pedindo o afastamento de Temer e a convocação de eleições diretas. Os dois grupos defenderam a ex-presidente Dilma Rousseff durante o processo de impeachment. "As provas divulgadas hoje de corrupção e suborno para calar o ex-deputado Eduardo Cunha comprovam o que há mais de um ano afirmamos, que o presidente ilegítimo Michel Temer não tem nenhuma condição de continuar na presidência da República", dizem os grupos. "Só o voto popular pode resolver essa imensa crise política, resgatar a democracia e credibilidade na principal instituição brasileira. Qualquer outra saída será golpe dentro do próprio golpe", completa a descrição dos convites para os protestos.

O jornal O Globo informou que os diálogos e as entregas de malas com dinheiro foram filmados pela polícia. Além disso, as malas estavam com chips para que o caminho do dinheiro pudesse ser rastreado. A delação da gigante dos alimentos teria sido fechada em tempo recorde, se comparada com a das empreiteiras Odebrecht e OAS. As conversas teriam começado em março e os depoimentos, realizados de abril a maio. As conversas com Temer e Aécio teriam sido gravadas pelo próprio Joesley. De acordo com O Globo, em dois momentos em março, o dono da JBS falou com o presidente e o senador do PSDB levando um gravador escondido. Para evitar vazamentos, segundo o jornal, Joesley entraria na garagem da sede da Procuradoria dirigindo o próprio carro e subiria para a sala de depoimentos sem ser identificado.

Oposição e aliados pedem renúncia de Temer

Após a revelação de áudio em que presidente dá aval a pagamento de suborno a Cunha, líderes da oposição e da base aliada veem fim do governo e defendem nova eleição. Manifestações e panelaços são registrados pelo país. Políticos da oposição e também da base aliada do governo pediram nesta quarta-feira (17/05) a renúncia do presidente Michel Temer do cargo e a convocação de eleição para a Presidência da República, depois da revelação, pelo jornal O Globo, de um áudio em que Temer dá o seu aval para subornar o ex-deputado Eduardo Cunha em troca de seu silêncio. A Polícia Federal confirmou a veracidade da gravação ao Jornal Nacional.

O líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado, que é aliado do governo, defendeu a renúncia do presidente e a realização de eleições antecipadas para a Presidência e o Congresso. "Diante da gravidade do quadro, só nos resta a renúncia e a mudança na Constituição", afirmou. O líder do PPS na Câmara, Arnaldo Jordy, também da base aliada, afirmou ao Globo que o governo acabou e defendeu a realização de eleição presidencial.

A ex-senadora e ex-candidata à Presidência Marina Silva (Rede) disse que o país está em estado de choque e que o presidente não está em condições de governar. "Três alternativas podem vir em nosso socorro: renúncia, mas isso é um ato unilateral e não podemos ficar esperando; cassação da chapa Dilma-Temer pelo TSE; e impeachment." No Congresso, a oposição foi unânime nos pedidos de renúncia. "Num momento em que surgem essas gravações, esse governo não tem legitimidade para continuar governando, chegou ao ponto final. O ponto final se não vier por renúncia, será dado por esta Câmara e por este Senado através de um impeachment", afirmou o líder do PT na Câmara, Carlos Zarattini. A líder do partido no Senado, Gleisi Hoffmann, também defendeu a renúncia e a convocação de eleições gerais. "O povo tem que escolher seu novo presidente", afirmou.

O deputado Alessandro Molon, da Rede, formalizou ainda nesta quarta-feira um pedido de destituição do presidente na Secretaria-Geral da Câmara dos Deputados.

"Já protocolei um pedido de impeachment de Michel Temer com base nessa denúncia, nessa delação que trata do pedido de manutenção do pagamento de suborno para Eduardo Cunha para ele manter o seu silêncio", disse o deputado. "Ter um comportamento incompatível com o decoro do cargo é causa para cassação do mandato." Antes da revelação do áudio, Cunha já havia dito a interlocutores que uma eventual delação da JBS seria "o fim da República", informou o jornal O Estado de S. Paulo.

Protesto em São Paulo

Após a revelação de gravação, centenas de pessoas se concentraram no centro de São Paulo na noite desta quarta-feira para exigir a saída do presidente. Os manifestantes empunharam cartazes e bandeiras pedindo a realização de eleições gerais e gritavam slogans como "fora, Temer". A polícia bloqueou o trânsito em parte da Avenida Paulista por causa da manifestação, convocada no início da noite pelo Facebook. Pouco antes da meia-noite, os manifestantes começaram a abandonar a avenida, que foi reaberta ao trânsito.

Karina Bernardino, de 25 anos, disse que decidiu ir à Avenida Paulista assim que soube das denúncias. "Cheguei em casa e logo soube da denúncia. Temer tem que cair e devemos convocar novas eleições. O povo tem o direito de votar de novo", afirmou à agência de notícias Lusa. Em Brasília, manifestantes protestaram nas proximidades do Palácio do Planalto. Em várias cidades brasileiras, como Rio e São Paulo, foram ouvidos panelaços depois da divulgação da gravação. Se Temer renunciar, a Presidência da República será ocupada interinamente pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que tem 30 dias para convocar uma eleição indireta para o cargo. A realização de uma eleição direta nos dois anos finais do mandato presidencial não é prevista pela Constituição. Por isso, seria necessária a aprovação de uma proposta de emenda constitucional (PEC) para que houvesse eleição direta. Já há iniciativas no Congresso para encaminhar uma PEC nesse sentido.

Apesar de escândalo com Temer, reformas têm futuro incerto no país

O primeiro efeito concreto e imediato da crise política que fulminou Brasília ontem deve ser a paralisação da tramitação das reformas previdenciária e trabalhista no Congresso. O governo tentou, contudo, dar um ar de normalidade ao processo. “As reformas serão votadas porque é uma prioridade do país. A questão é focar na recuperação do Brasil”, afirmou o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR). O peemedebista citou, por exemplo, que a reforma trabalhista está caminhando bem no Senado, com a formação das comissões gerais de debate na casa. “A reforma da Previdência está evoluindo nas suas explicações e no convencimento na Câmara dos Deputados. Portanto, o cronograma das reformas continua e essa questão política vamos discutir”, acrescentou o líder do governo.

No Congresso, como um todo, a percepção é outra. “Não tem a menor condição de um governo como esse, avariado, conduzir as reformas que prejudicam os trabalhadores”, acentuou o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (SD-SP). As centrais sindicais estão convocando um grande ato para o próximo dia 24, batizado de Ocupa Brasília, para reclamar contra as reformas trabalhista e da Previdência. Questionado se o Solidariedade poderia abandonar a base do governo depois dessa crise, Paulinho foi irônico. “A gente já estava jogando ali, na ponta esquerda.”

O Planalto já contava nos dedos os votos necessários para aprovar as reformas. Em entrevista ao Correio na segunda-feira, o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, afirmou que a Previdência seria colocada para votação apenas quando o governo tivesse segurança para ter os 308 votos necessários à aprovação. De preferência, com uma margem de segurança de 320 ou 330.

Julgamento no TSE

”Isso significa apenas 12 votos a mais que o mínimo necessário. Com todo esse terremoto, é improvável que esses votos não tenham se esvaído”, acredita o professor de ciência política do Insper Carlos Melo. “Amanhã (hoje), o Congresso ainda estará um caos. O fim de semana trará a imprensa fazendo o rescaldo. Se até segunda esse áudio vazar, o Congresso não vota mais nada neste semestre. Só no segundo”, completou. O tempo, inclusive, corre contra Temer. Criminalistas acreditam que, para o país não sangrar ainda mais em uma longa agonia de impeachment, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) poderá antecipar e cassar a chapa no julgamento que começará em 6 de junho. “Até para não prejudicar a economia. Se antes a manutenção do presidente era garantia de estabilidade dos indicadores e de aprovação das reformas, isso muda a partir de agora”, acrescentou Melo.

 

Fonte: Correio do Brasil/BBC Brasil/Deutsche Welle/Correio Braziliense/Municipios Baianos

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