20/05/2017

'Ou se separa a política da economia, ou o Brasil para'

 

O pior cenário para o agravamento da crise política, com ou sem a renúncia do presidente Michel Temer, é o país não conseguir separar agora política da economia. Para o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Ricardo Teixeira, ou essa divisão é feita, ou o país para e pode enfrentar terríveis consequências sociais e econômicas.

Antes da eclosão da série de denúncias envolvendo o frigorífico JBS com os principais escalões do governo, economistas previam uma alta de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano, revertendo dois anos consecutivos de encolhimento da economia. Para muitos desses economistas, há dois cenários: a solução no menor prazo possível para o impasse constitucional, o que permitiria o país fechar o ano com crescimento zero, ou o risco de a crise continuar pelo segundo semestre, levando o Brasil ao terceiro ano seguido de recessão.

Para o professor da FGV, a crise hoje é mais política do que econômica, apesar de alguns números preocupantes, como o o do desemprego. Para ele, é preciso trabalhar para preservar as instituições e projetar um cenário otimista com os avanços obtidos na economia nos últimos 12 meses, como a queda da taxa de juros básicos e da inflação.

"Estamos com um número de desempregados altíssimo (14,2 milhões) e não podemos correr o risco que esse número ainda cresça, aumentado a criminalidade nas cidades e fora delas. É importante que os brasileiros coloquem na cabeça que qualquer que seja o sacrifício nós estejamos dispostos a fazer", diz Teixeira, para quem a quinta-feira, 18, é um dia que vai entrar para a história pelo que aconteceu em um curto espaço de tempo.

Teixeira elogia a atuação do Banco Central no tocante ao câmbio, avisando que vai realizar tantos swaps cambiais (venda de dólar no mercado futuro) quanto forem necessários até a próxima terça-feira, para conter a disparada da moeda americana. Na quinta-feira, o dólar subiu 8,15%, fechando a R$ 3,3890, enquanto a Bolsa caiu 8,8%, na maior queda em quase nove anos. Um impacto que não atingiu apenas a maioria da população, mas também as maiores fortunas do país, que perderam US$ 6,1 bilhões em um só dia, segundo levantamento do Índice Bloomberg Billionaires.

Em relação à paralisação das discussões da reforma da Previdência na Câmara e a trabalhista no Senado, o professor da FGV diz que é importante que elas não parem.

"Essas duas reformas, embora possam mexer em alguns direitos que algumas pessoas não gostariam que fossem mexidos, colocam o país numa situação de competitividade e modernizam nossas relações. Para isso a gente precisa de um governo que tenha coragem — do ponto de vista eleitoral não são reformas que deem voto — e uma base que entenda a necessidade dessas mudanças. Seja qual for o desfecho na parte política, uma parte consciente do Congresso Nacional deve continuar liderando no sentido de fazer essas reformas e modernizar nossas relações dentro do país para que a gente possa gerar mais empregos e avançar", afirma Teixeira.

O professor da FGV diz que também é importante, para a eventualidade de um impeachment ou renúncia de Temer, procurar um nome que se comprometa em levar essas reformas adiante, "alguém que esteja mais preocupado com sua biografia no futuro do que com sua popularidade hoje".

Capitalismo de mercado X capitalismo de compadrio. Por Fenando Nogueira da Costa

Neoliberais publicam panfletos criticando, obsessivamente, o que denominam “Nova Matriz Macroeconômica” (NMM) e louvando o retorno da “Velha Matriz Neoliberal” (VMN). Obsessão é uma perturbação mental causada por uma ideia fixa involuntária que leva o doente à execução repetitiva de determinado ato. A NMM é tratada como fosse uma perseguição diabólica, sugestão atribuída à influência do demônio desenvolvimentista.

Sofrem também o viés da auto atribuição: todos os economistas que pensam como eles estão corretos; todos os que deles discordam estão errados. Em consequência, sofrem com o viés da auto validação ilusória: por lerem apenas colegas da mesma ideologia, pressupõem que o que dizem está correto, pois “todos” dizem a mesma coisa.

Em cérebro binário não há espaço para a compreensão da complexidade do mundo real. Qualquer concepção dualista do mundo em princípios opostos e incompatíveis é maniqueísta e reducionista. Este dualismo segue um dualismo religioso sincretista, segundo o qual existe um conflito cósmico de forças antagônicas do bem absoluto (a luz do livre-mercado) e do mal absoluto (as sombras do intervencionismo estatal), sendo que é dever de “gente de bem”, naturalmente, só neoliberal, lutar pela vitória do bem, ou seja, do livre-mercado idealizado em manuais norte-americanos.

A louvação da hora é a substituição da TJLP pela TLP vinculada à rentabilidade das NTN-B. Isto vem provocando a revolta de parte da casta dos mercadores brasileiros. Curiosamente, a subcasta de sábios neoliberais defende o capitalismo idealizado como contraponto ao capitalismo real, em uma economia com atraso histórico, implantado por capitalistas de “carne e osso”!

Então, deitam falação sobre a tosca Teoria Neoclássica dos Fundos de Empréstimos. Mas não falam nada a respeito de instituições financeiras brasileiras e estrutura produtiva nacional. Com essa abstração do mundo real, abandonado como sendo apenas “um parâmetro fora-do-modelo”, simplesmente, defendem transformar a realidade de maneira a enquadrar em seu modelo de equilíbrio geral. Pasmem…

Desta mescla da virtude religiosa da parcimônia (“adiamento do consumo presente em troca de consumir mais no futuro”) com a da ambição (“elevar a capacidade produtiva futura devido à ganância por lucro”) nasceria, neste pensamento econômico inspirado no mecanicismo da Física newtoniana, um equilíbrio geral perfeito. A variável taxa de juro a ele se ajustaria.

Neste mundo abstrato, não há espaço para a fixação de uma taxa de juros básica de referência (SELIC) pelo Banco Central para instituições oligopolistas, que atuam no mercado interbancário via CDI, estabelecerem um “mark-down” (% de CDI) na captação de recursos dos “milhões de poupadores e milhares de investidores” e um “mark-up” (spread creditício) de modo a cobrir custos administrativos e fiscais, risco de inadimplência e margem de lucro.

Agora, novamente, os neoliberais abandonaram o estudo crítico das premissas, das conclusões e dos métodos dos diferentes ramos do conhecimento científico, tanto das teorias quanto das práticas, afastando a Teoria do Conhecimento, para dar outro salto epistemológico. Deixaram de lado a SELIC, para adotar a NTN-B, que a ela se reporta na MtM (marcação-a-mercado) de sua taxa de juros prefixada — além de sua correção pós-fixada pelo IPCA –, como referência para o custo de oportunidade. Os juros variáveis da NTN-B passaram a ser vistos como a referência básica para a fixação de todas as demais taxas de juro.

Na realidade, os investidores, sejam pessoas físicas, sejam pessoas jurídicas (investidores institucionais, tesourarias, estrangeiros etc.), tomam como referência, para suas decisões, a taxa de juros de curto prazo — SELIC. A “taxa longa” é composta por uma sucessão de “taxas curtas”. O longo prazo é resultante de seguidas conjunturas…

Diferentemente, o critério de decisões imaginado por neoliberais seria a comparação entre a taxa interna de retorno de um projeto estratégico de longo prazo e a taxa de juros da dívida pública marcada a mercado em cada mudança de conjuntura!

Assim, um investimento em longo prazo, tipo Ponzi, quando as entradas de caixa só ocorrerão após o longo período de maturação — p.ex., uma hidrelétrica é no mínimo de oito anos — e até lá só ocorrerão saídas de caixa, mesmo sendo imprescindível para a construção da infraestrutura necessária ao País, será descartado. Será considerado pela casta dos sábios-tecnocratas neoliberais como um investimento cujo retorno previsto, sendo inferior à taxa básica, “a sociedade brasileira” não está espontaneamente disposta a financiar!

Com este argumento defendem a privatização desnacionalizante. Os neocolonizados somam a este apelo ao capital estrangeiro uma cutucada crítica aos empresários subdesenvolvidos que não se resignam ao futuro inelutável de “submissão ao Império”.

Apelam até para um populismo demagógico com a finalidade de defenderem seu credo ideológico canhestro de “igualdade de oportunidades”. Dizem que o Estado brasileiro deveria se restringir a financiar as áreas de Saúde e Educação. Deveriam ter acrescentado a Segurança Pública, pois na ausência de iniciativas particulares não haveria ocupações suficientes para empregar a quinta maior população economicamente ativa do mundo e seria de se esperar certa rebeldia social…

Em síntese, para eles, ou se financia em condições de mercado produzidas pela maior taxa de juros real do mundo ou não se financia nada! Depois de defenderem essa barbaridade, ainda criticam o corporativismo em defesa de aposentadorias especiais com salário integral. Criticam porque essa postura, supostamente, não incentiva o adiamento do consumo para providenciar a Previdência Complementar.

Esquecem-se de outro detalhe: apenas 8,4% da população ocupada – total de 89,5 milhões de pessoas, sendo a formal com carteira de trabalho apenas 34 milhões – recebem mensalmente mais do que cinco salários mínimos (R$ 4.650,00). Logo, cerca de 7,5 milhões têm as condições mínimas, isto é, eventual sobra de renda acima do nível de sobrevivência familiar, para investir em o que denominam de “poupança”.

Com esforço, há pouco mais de dez milhões de investidores em Fundos e Títulos e Valores Mobiliários (6,5 milhões de varejo tradicional com riqueza per capita de R$ 50 mil, 3,5 milhões de varejo de alta renda com R$ 175 mil, e 112 mil clientes Private Banking com R$ 7,5 milhões). Isto, desconsiderando os 59,4 milhões de depositantes de poupança com saldo médio per capita de R$ 10.275,25 no final do ano de 2016.

Estes sábios-neoliberais se arvoram de entender mais do que os próprios capitalistas sobre o que é melhor para o capitalismo! Contrapõem o capitalismo de livre-mercado, idealizado com concorrência perfeita, ao capitalismo de compadrio. O que é ideal para os neoliberais não propicia condições realistas para haver empreendimentos geradores de emprego.

Temer perdeu condições de aprovar reforma, mas eventual queda não a enterraria, diz consultoria international

A consultoria internacional de risco político Eurasia Group afirmou que o presidente Michel Temer "perdeu as condições de continuar a negociação pela reforma da Previdência" por conta de acusações de que ele atuou para obstruir a Justiça.

Em nota divulgada na noite desta quarta-feira, o grupo ponderou, no entanto, que "ainda é prematuro concluir que a reforma está morta".

Segundo a consultoria, coordenada pelo especialista em risco político Ian Bremmer, a negociação da reforma dependerá de se encontrar um caminho para sair da crise política.

O grupo internacional comenta que se forem confirmadas as alegações de que Temer deu aval para compra do silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha, preso em Curitiba (PR), "é improvável que (Temer) termine seu mandato".

Mas conclui dizendo que "a queda de Temer não precisa ser equivalente à queda das reformas".

O grupo acredita que o calendário de votações, previsto para daqui a duas semanas, será "inevitavelmente atrasado". No entanto, afirma que "qualquer presidente eleito pelo Congresso terá fortes incentivos para colocar a reforma da Previdência de volta aos trilhos".

Uma possível renúncia ou impeachment de Temer abre precedente para uma eleição indireta na qual parlamentares escolheriam o novo presidente. A oposição e movimentos nas redes sociais, enquanto isso, pedem eleições diretas.

Neste contexto, o grupo internacional acredita que o andamento da votação da reforma "dependerá de como as ruas vão reagir". E ressalta que o Congresso reagirá à opção de eleições diretas por várias razões, entre elas as chances de fortalecimento político do presidente Lula em meio à crise econômica.

 

Fonte: Sputinik News/Brasil Debate/BBC  Brasil/Municipios Baianos

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