20/05/2017

O fim do (des) governo Temer e da volta das diretas

 

A delação de Joesley Batista, da JBS – divulgada pelo Globo – é a maior bomba política da história.

Joesley entregou gravações com Michel Temer e Aécio Neves, que revelam por completo o que foi a aventura do impeachment e dos vazamentos da Lava Jato na véspera das eleições.

Não se trata mais de corrupção política, captando recursos de caixa 2 para financiamento de campanha. As gravações mostram claramente duas organizações criminosas no topo da política brasileira, uma liderada pelo presidente Michel Temer, outra pelo presidente do PSDB Aécio Neves

Peça 1 – o caso Temer

Não houve limites para a desfaçatez de Temer. Mal empossado, levou para dentro do governo seus principais operadores pessoais: José Yunes, Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR); mais Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima e Moreira Franco, conhecidos pela enorme capacidade de sobrevivência aos escândalos mais variados.

As gravações mostram ele avalizando a decisão dos Batista, de pagar pelo silêncio de Cunha. E, mais ainda, indicando Loures para uma mega-propina de 20 anos de prazo.

O país ficou literalmente à mercê de uma quadrilha. Sob o comando de Temer e Padilha, montou-se o maior leilão e o maior aparelhamento da história, com parlamentares negociando emendas, colocando apaniguados em órgãos técnicos, negociando projetos de alto interesse estratégico – como o pré-sal, o satélite brasileiro, a nova lei geral de telecomunicações.

Não há salvação para Temer: os crimes ocorreram em plena vigência de seu mandato de presidente. Vai se livrar da prisão devido à idade.

No Mutirão “O caso do primeiro amigo” juntamos as matérias levantadas a partir dos documentos enviados pelo Anonymous.

Peça 2 – o caso Aécio Neves

As denúncias contra Aécio Neves, definitivas, porque acompanhadas não apenas de gravações, mas de outras provas colhidas pela PF, como o rastreamento do dinheiro, jogam no centro da notícia o chamado helicoca, e pode abrir caminho para o levantamento das ligações do mundo político com os narcotraficantes.

O dinheiro entregue ao primo não era para o advogado de defesa, conforme alegou Aécio na conversa com Joesley. O dinheiro foi encaminhado para uma das empresas do senador Zezé Perrela (PMDB-MG), justamente o dono do helicóptero encontrado com os 500 quilos de cocaína.

Não foi o primeiro episódio relacionando Aécio com o submundo.

O aeroporto de Cláudio estava na rota do helicóptero.  E seu primo, Tancredo Tolentino (o único que herdou o nome do avô), e responsável pelas chaves do aeroporto de Cláudio, foi denunciado por esquemas armados com desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais visando libertar traficantes. Cada habeas corpus saia por R$ 120 mil.

Toda a blindagem montada ao longo dos últimos anos se esboroa com as denúncias dos irmãos Batista.

Peça 3 – o incêndio

Agora, se entra em um vazio complicado.

Os vazamentos da Lava Jato, às vésperas das eleições de 2014, quase entregam o país nas mãos do mais atrevido e inescrupuloso político brasileiro, Aécio Neves. O impeachment e a posse de Michel Temer tiveram como padrinhos a mídia, a Lava Jato, o juiz Sérgio Moro – autorizando a liberação das gravações de Dilma e Lula -, o Procurador Geral da República (PGR) Rodrigo Janot – avalizando o vazamento, provavelmente por fraqueza -, o Ministro Gilmar Mendes – impedindo a posse de Lula -, os demais Ministros do STF, endossando todas as arbitrariedades. Ou seja, todos são pais do bebê de Rosemary.

Ao mesmo tempo, Aécio era blindado de todas as formas por Rodrigo Janot e Gilmar Mendes, desafetos, mas aliados no trabalho de procrastinar as denúncias contra ele.

A delação dos irmãos Batista desmonta todo o castelo erigido em torno do golpe.

Haverá muita especulação sobre as razões de O Globo – e o Jornal Nacional – terem dado tanto destaque à denúncia. Não se pense em teorias conspiratórias. A notícia viria de qualquer maneira à tona. E, se divulgada por outro meio, deixaria em maus lençóis a própria Globo, principal madrinha de Temer e do golpe. Tiveram pouco tempo para decidir, conforme se viu nos improvisos do JN.

Provavelmente o fato das investigações terem sido tocadas a partir de Brasília, impediu a blindagem de Aécio pela PF de Minas e pela força tarefa de Curitiba. Recorde-se que o próprio juiz Sérgio Moro impediu Eduardo Cunha de encaminhar perguntas incômodas a Temer. Foi necessário um juiz de Brasília para encaminhar as perguntas.

Em todo caso, foram as ameaças de Cunha – e provavelmente o escândalo da Carne Fraca – que precipitaram a delação.

Nesse episódio, PF e PGR mostraram como deve ser a verdadeira delação premiada, tornando o delator agente direto no levantamento de provas, na chamada ação controlada. PF e PGR atuaram em conjunto, documentando cada passo, rastreando o dinheiro e, aparentemente, juntando provas definitivas para desmantelar as duas organizações, em vez do rosário de irrelevâncias das delações tatibitates de Curitiba.

O ponto central é que, pela bomba apresentada – gravações com Temer e Aécio – nem as muralhas de Itaipu poderiam conter a enchente.

Peça 4 – e agora?

Não há a menor possibilidade da permanência do governo Temer. Definitivamente acabou, assim como acabaram as tentativas de reformas articuladas no Congresso.

A grande incógnita é o que virá pela frente. A delação pegou a todos de surpresa, não dando tempo de articular uma saída. Até vazar a delação, o que se tinha era um julgamento de cartas marcadas no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) condenando Dilma e livrando Temer.

  • As alternativas pela frente são:

1.     A renúncia de Temer e o presidente da Câmara Rodrigo Maia assumindo interinamente a presidência. Mas haverá resistência do Congresso. E como fica? Aparentemente não haverá resistência no Congresso.

2.     Se Temer não renunciar rapidamente, o caminho mais razoável será a inelegibilidade de Temer pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

3.      Não há a menor possibilidade de prolongar o interinato de Rodrigo Maia. Maia é a síntese de Temer com seu sogro Moreira Franco e seu pai César Maia.

4.     Tentativa de emplacar uma eleição indireta. Nesse caso, o nome de maior aceitação poderia ser o ex-Ministro Nelson Jobim, aliado dos tucanos mas que, nos últimos tempos, buscou aproximação com setores ligados a Lula.

5.     Não existe possibilidade da presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) Carmen Lúcia assumir a presidência. Não tem estrutura emocional nem traquejo para administrar os terremotos que virão pela frente até a terra se acomodar novamente.

6.     A única maneira de recompor a legitimidade do sistema político seriam eleições diretas em todos os níveis. Hoje à noite já começaram as manifestações por eleições diretas. Mas como convencer o sistema a convocar eleições sem inabilitar Lula? Por outro lado, como conseguir um mínimo de pacificação sem se valer do potencial de negociação de Lula? Finalmente, o que é o sistema, depois da implosão política de hoje?

Fosse um país minimamente civilizado, a esta altura as principais lideranças estariam amarrando um pacto em torno de pontos mínimos de consenso, permitindo que os grupos políticos se comportassem como náufragos em um barco salva-vidas, cuidando de não brigarem para o barco não virar.

Às Madalenas arrependidas, a nudez do que fizeram

Os jornais, agora que Michel Temer foi exposto em toda a sua vileza, lotam-se de Madalenas arrependidas, que promoveram ou silenciaram diante do assassinato institucional praticado com o impeachment.

Arrepender-se, certo, é um direito humano e um passo bem adiante de persistir no erro.

Mas não com a desfaçatez com que abjuram  e maldizem seus deuses de ontem.

Sempre patética, até a Doutora Janaína Paschoal, a Medéia do Golpe, vai aos jornais dizer que fez, ao dez anos, uma promessa a Tancredo Neves, que morria, e agora se condói por ver seu neto vender o nome de “um verdadeiro herói nacional, um mito, por dinheiro”?

Espero que não corte os pulsos.

Não é demais, ao menos, exigir algum grau de reflexão, para deixar, quem sabe, um dia, de ser reincidente no que a história já cansou de nos ensinar?

Uma lição não aprendida, que Juremir Machado  da Silva resume muito bem, hoje, no Correio do Povo gaúcho:

(…) É todo um imaginário que estrebucha, o de Michel Temer e seu grupo, velhos conhecidos do fisiologismo brasileiro, como cavaleiros destemidos em combate contra a corrupção e em defesa das reformas modernizadoras sonhadas pelo mercado e por parte da mídia. Historiadores do futuro se perguntarão: como foi possível que a média brasileira se deixasse sem classe usar pela terceira vez – 1954, 1964 e 2016, sem contar as eleições de Jânio e Collor – no truque da luta contra a corrupção como cruzada nacional. Na primeira vez, levou Getúlio Vargas ao suicídio. Na segunda, derrubou João Goulart e instalou uma ditadura militar. Na terceira, depôs-se Dilma Rousseff para corar seu vice conspirador, o persistente Temer, como salvação. Na primeira, queria entregar o petróleo. Na segunda, levantou-se contra as reformas de base. Na terceira, entregou o pré-sal e opôs-se às políticas sociais.

Agora estão aí, ‘chocadas’ com o que já sabiam, como quem se envergonha da nudez apenas porque ela está exposta.

Tão rasos e rastaqueras que se preparam, agora, para engambelar a não com um neoCollor, tão limpinho e cheiroso que enriqueceu com a feira de vaidades, cobrando a outros vazios pelos troféus, púlpitos e ribaltas que vendia às inteligências cujo grande brilho vem dos holofotes.

Meirelles, ex-JBS, é um indecoroso

O senhor Henrique Meirelles mostra o quanto é um homem sem qualquer noção de decoro e moralidade. Ou melhor, um homem com uma única fidelidade: aos donos do dinheiro.

Não lhe passa na cabeça vaidosa que pôde ser bem sucedido como auxiliar no governo de Lula porque este governo tinha propósito e legitimidade populares. A mídia, sempre generosa com o “mercado”, deixa passar quieto que Meirelles, mais do que ninguém, está metido até o pescoço neste caso da JBS, porque foi nada menos que presidente de seu Conselho de Administração.

Ou será que os irmãos Batista, apresentados como os grandes mutreteiros da carne, que traficam influência e dão mesada a Eduardo Cunha ao tratar co

m Meirelles eram ascetas dignos de figurar num altar?

Henrique Meirelles faz Armínio Fraga parecer uma “reserva ideológica”. Ao menos assume que está a serviço de um projeto, enquanto aquele quer ser visto como uma espécie de “açougueiro profissional”, disposto a cortar, sem piedade, gastos sociais que são, em última análise, a própria vida de seres humanos.

Sua “obra” está erguida sobre um mar de infelicidades, angústias, sofrimentos, desesperos de quase 15 milhões de homens e mulheres sem trabalho, no sucateamento dos serviços públicos com que, miseravelmente, ainda podem contar e nas portas cerradas ao futuro pelos 20 anos de arrocho que, pelas mãos aduncas de Temer e do lixo parlamentar que o apoiava, com que manietou o orçamento público.

Se a economia é uma guerra, o Sr. Meirelles é apenas um mercenário do capital, a serviço de quem quer que seja que o mantenha como “coronel” da economia.

Gravação de Temer já custou US$ 6 bi no mercado cambial

O Valor resume, hoje, os custos da intervenção do Banco Central para conter a disparada do dólar.

Ontem, US$ 4 bilhões; hoje de manhã, mais US$ 2 bilhões.

Claro que não é este o volume de prejuízo para o BC, que só se vai saber quando estes contratos – são de compra futura de dólar – forem liquidados, mas é provável que se eleva à casa de centenas de milhões de reais.

Não foi só a JBS – como se especula – quem ganhou muito dinheiro nesta troca.

E o Banco Central, de olho no impacto inflacionário da subida do dólar – que estava num valor absolutamente irreal – forçado a fazer este esbanjamento.

Se os políticos que levam uns trocados destes grandes grupos soubessem que o saque dos recursos públicos que valem para esta gente, seja nos favores que recebem, seja, agora, quando são delatados, cobrariam mais caro.

O mercado de capitais no Brasil, mais que em qualquer parte do mundo, é um bordel.

 

Fonte: Jornal GGN/Tijolaço/Municipios Baianos

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