06/06/2017

Sistemas de Saúde: a escolha entre o privado e o público

 

O jornal The New York Times publicou, em 18/03/2017 um texto tão extraordinário quanto surpreendente com o título “A liberdade (de escolha) enganosa do Sistema Americano de Saúde” – The Fake Freedom of American Health Care, que vale a pena trascrevermos. Escrito pela Sra. Anu Partanen tem a vantagem de discutir questões essenciais sobre a oferta de serviços de saúde sob o ponto de vista de um cliente, talvez se possa dizer de um paciente, ou de uma vítima dos sistemas de saúde. Embora tenha como foco o sistema de saúde dos Estados Unidos da América com base na atual proposição do governo republicano de Donald Trump de acabar com o Obamacare, o sistema implementado por seu antecessor, o texto é um libelo que se aplica a múltiplas realidades de muitos países ocidentais e de seus habitantes que desejam, em última análise, contar com serviços de saúde que os protejam principalmente quando estiverem doentes e sem forçosamente jogá-los na miséria.

Lançando mão de sua experiência pessoal em anos de residência na Finlândia, a autora compara os sistemas de saúde dos dois países: um essencialmente público que presta cuidados a todos os finlandeses, e outro radicalmente privado, onde é preciso pagar – e muito caro – para ser atendido. Questões que fazem parte do dia a dia de boa parte da população brasileira podem ser encontradas no texto (p.ex., as armadilhas colocadas em nosso caminho pelos Planos de Saúde, o acesso a serviços essenciais justamente quando a pessoa está fragilizada pela doença). Ao final ela apela aos republicanos para que considerem a hipótese de apoiar a construção de um sistema público de saúde nos Estados Unidos, o que se afigura como um desejo absolutamente inviável.

  • Mundo Século XXI resume a seguir alguns dos pontos mais significativos da matéria, em tradução livre a partir do original:

“A enganosa liberdade (de escolha) do Sistema Americano de Saúde” – Página de Opinião – The New York Times

Na última semana o apartidário Departamento de Orçamento do Congresso estimou que o novo plano de saúde dos Republicanos aumentará o número de americanos sem seguro de saúde em 24 milhões de pessoas na próxima década, principalmente devido a mudanças nas regras (de acesso), nos subsídios e na cobertura do Medicaid, o que tornaria o sistema demasiado dispendioso para elas.

Os líderes republicanos parecem não se perturbar por isso porque, em suas cabeças, a decisão de não ter um plano de saúde porque é muito caro é um exercício de liberdade individual de escolha. Como declarou Jason Chaffetz, representante republicano por Utah, “os americanos fazem escolhas. Ao invés de comprar um novo iPhone que eles amam e gastar centenas de dólares nisso, quem sabe eles decidem investir na atenção à própria saúde?”

Segundo essa lógica, comprar cuidados de saúde é a mesma coisa que comprar qualquer coisa. Os Estados Unidos possuem as melhores escolas de medicina do mundo; os melhores médicos, institutos de pesquisa, hospitais e se você tiver dinheiro para custear os procedimentos de que necessita, sem dúvida terá o melhor à sua disposição. No entanto, este enfoque gera extremas desigualdades, pois este é o custo da liberdade (no caso, sem controle).  Essa modalidade tão peculiar de ver o conceito de “liberdade”, típida dos republicanos, obriga muitos americanos a gastar não apenas dinheiro, mas também tempo e energia, angustiados com a atordoante logística de cobertura e tratamento – planos confusos, preços de mensalidades exorbitantes, redes exclusivas de prestadores, exames e testes complementares misteriosos (e por vezes desnecessários), medicamentos com preços abusivos. E mais frequentemente do que raramente, as escolhas individuais são severamente restringidas por decisões tomadas por empregadores, seguradores, médicos, companhias farmacêuticas e outros atores privados. Tais grupos de interesse, e não o consumidor, decidem quais os planos estão disponíveis, o que esses planos cobrem, quais médicos os pacientes podem consultar e quanto tudo isso custará. E eu sequer mencionei os milhões de americanos que não ganham o suficiente para pagar por um seguro ou um tratamento que lhes salve a vida (de emergência). Se você não pode pagar, não comprar é uma dura escolha.

Oito anos atrás mudei-me para a Finlândia, país que investiu em um sistema universal de saúde, financiado por impostos e manejado pelo Estado. Lá nunca me preocupei em saber de onde provinha minha assistência médica ou se eu poderia pagá-la. Eu pagava meus impostos – mais ou menos o mesmo que pago em impostos e taxas federais, estaduais e municipais morando na cidade de New York – e se precisasse consultar um médico contava com múltiplas opções. Se eu escolhesse uma clínica pública, isso me custaria um pequeno co-pagamento, usualmente em torno de 20 dólares, mas se estivesse grávida teria tudo gratuito. Poderia também optar por um clínico particular, contando para tal com subsídios públicos. Tudo funciona sem que se precise assinar algum contrato ou comprar um plano de saúde. Todos os finlandeses estão cobertos automaticamente por todos os cuidados médicos de que necessitem, independente do seu emprego ou de seu rendimento.

Trump chamou o sistema nacional de saúde canadense de “catastrófico”. De acordo com a ortodoxia republicana o governo sempre despreza a capacidade de escolha dos indivíduos e em seus serviços os tempos de espera são longos e a qualidade dos serviços é horrível. Mas, estão os republicanos certos a esse respeito? Praticamente cada uma das bem sucedidas democracias capitalistas ocidentais decidiu adotar alguma forma de atenção universal à saúde implementada pelo governo, considerando-a como a forma mais efetiva. Segundo a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) os Estados Unidos como um todo não superam os demais em qualidade da atenção à saúde. De fato, os EUA têm uma menor expectativa de vida, mais alta taxa de mortalidade infantil, menos médicos per capita que outros países desenvolvidos. Ocupa posições secundárias, p.ex., em sobrevivência por câncer de mama, câncer coloretal. Os americanos superam por larga margem os outros países da OCDE em termos de gastos com saúde, com resultados inferiores.

O problema com um enfoque de livre mercado é que a atenção à saúde é uma imensa, complexa e dispendiosa indústria, na qual os indivíduos raramente têm poder de mercado. Por seu lado, o ponto em que se baseia a cobertura universal em saúde é partilhar o risco para prover máximo benefício às pessoas quando precisarem de cuidados. Responsabilizar o governo por esse complexo sistema não significa impedir a escolha por parte do indivíduo; na verdade é o oposto: dar-lhes opções mais amplas. Organizar o setor saúde é uma tarefa assoberbante e ter uma entidade especializada para dirigir as negociações, regulamentar e por vezes prover serviços é muito mais eficiente do que forçar a cada um a assumi-la por si só.

O que acontece com o sistema de saúde americano hoje não faz com que me sinta mais livre e autônoma. Tendo que administrar os muitos aspectos envolvidos por mim mesma, lidando com a profusão de planos de saúde, preços e a dificuldade em conseguir consultas e marcar os exames acaso disponíveis com bons profissionais da minha rede credenciada, tem me deixado, assim como um grande número de outras pessoas, num estado de constante estresse. E isso que ainda não fiquei seriamente doente ou tive qualquer acidente grave. Gostaria de saber que o sistema automaticamente tomará cuidado de mim e de minha família, sem que eu tenha de enfrentar uma batalha para conseguir atendimento em meus momentos de maior necessidade e debilidade. Isto sim é liberdade, inclusive de saber que ninguém, por adoecer, irá à falência.

 

Fonte: Mundo Seculo XXI/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!