06/06/2017

Depressão é uma doença grave e difícil de diagnosticar

 

Por dentro é só cansaço. Tédio, apatia, falta de qualquer vontade, exceto a de desaparecer como uma luz que se apaga. O ato mais corriqueiro, como sair da cama, requer um esforço inimaginável. Por fora, incompreensão. Aquilo que o outro não sente é nomeado preguiça, frescura, ou até ‘falta de Deus’. São os dois lados de uma doença insidiosa e debilitante, difícil de diagnosticar, de tratar, e de conquistar a compreensão de quem não a enfrenta: a depressão.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 11,5 milhões de brasileiros, o equivalente a 5,8% da população, sofrem de depressão. Os sintomas são parecidos com os de um dia ruim. Tristeza, angústia, insônia, sono em excesso, mudanças de humor, distúrbios de apetite, dificuldades de concentração e sentimentos de culpa, tédio e apatia. Quem nunca passou por isso? O problema é quando os sintomas se prolongam e se associam a sintomas mais graves, como isolamento, alucinações, tendências à automutilação e até impulso de tirar a própria vida.

O aparecimento da síndrome depende de fatores sociais, psicológicos e biológicos, incluindo a predisposição genética. Pessoas que passaram por traumas psicológicos, como o luto, têm maior probabilidade de desenvolver a doença.

É o caso da copeira Priscila Moreno, 44, que foi diagnosticada após perder a mãe. Os sintomas foram controlados com medicação e terapia, até que, seis anos depois, ela também perdeu o pai. "A tristeza me dominou. Fingia rir quando estava com outras pessoas. Já senti vontade de sair pela rua sem destino, de me matar. Sinto tristeza, saudade, um turbilhão de emoções", conta. Ela ainda enfrentou dificuldades para ser compreendida pela família. O marido só entendeu a situação quando os sintomas ficaram mais graves: "Um dia eu acordei e não sabia o nome da minha filha. Fui levada ao hospital e mal conseguia responder às perguntas, só dizia que queria morrer. Foi só então que deu para perceber a gravidade do problema".

De acordo com o psiquiatra e psicanalista Sérgio Almeida, da Sociedade Brasileira de Psicanálise e da Santa Casa de Misericórdia do Rio, é importante que as pessoas próximas ofereçam apoio e não evitem contato com quem sofre do mau. "Frequentemente, alguns tendem a ver a pessoa como inerte, preguiçosa, indolente", explica. O estigma é tão comum que, antes do diagnóstico, Priscila também pensava assim. "Nunca achei que aconteceria comigo. Na minha inocência, por não conhecer a doença, achava que seria fácil sair dela".

O mesmo aconteceu com o técnico em enfermagem Vagner Lima, 36 anos. Ele não compreendia a situação de um amigo depressivo, até que passou a sofrer do mesmo mal. "Eu o chamava de egoísta, achava que ele tinha tudo para ser feliz e vivia chorando e triste. Eu era o primeiro a criticá-lo. Uma ironia da vida". Há quatro anos, um amor não correspondido foi o gatilho para a sua depressão, que o aflige até hoje. "Tento vencer essa dor invisível. Ir para o trabalho é uma luta. Me tornei dependente de medicamentos para dormir e tento esconder a depressão dos amigos. Acho que os dias em que digo que estou bem, na verdade são os dias em que estou pior", avalia.

Grupos de apoio

Vagner foi adicionado pelo amigo ao grupo 'Depressão' no Facebook, onde quase 14 mil membros compartilham experiências. Fora do mundo virtual, o grupo de apoio mais conhecido é o 'Neuróticos Anônimos (N/A)', que segue uma adaptação do pioneiro programa do 'Alcoólicos Anônimos (A.A.)', com 12 tradições e 12 passos ('O primeiro passo é admitir'). No Rio de Janeiro, o N/A tem 55 salas espalhadas pelo Interior, Baixada, Região Metropolitana, Região dos Lagos e capital.

Qualquer pessoa pode frequentar os grupos: "Neurótica é a pessoa cujas emoções interferem em seu comportamento. Se sentimentos negativos roubam-lhe a alegria de viver, procure-nos", diz o site da organização. Nas reuniões, os membros estudam o programa e trocam experiências. O doutor Sérgio Almeida aprova o método, embora lembre que ele não substitui a terapia. "Qualquer possibilidade de socialização deve ser estimulada e respeitada, mas são tratamentos acessórios", explica. As reuniões do Neuróticos Anônimos são gratuitas.

Sem distinção de sexo ou idade

Outras doenças e uso prolongado de certos medicamentos também podem desencadear um quadro depressivo. A doença não faz distinção de sexo ou faixa etária. De acordo com a OMS, 8% das crianças entre 6 e 12 anos sofrem de depressão. O mais comum é ser decorrente de formas de autismo, distúrbios alimentares e reações a situações de estresse.

No caso da estudante Bianca Oliveira, 18, a depressão foi uma evolução de um quadro de claustrofobia (medo patológico de locais fechados e apertados). Ela sofre com o problema há 12 anos, ou seja, desde os 8 anos de idade. O diagnóstico em crianças pode ser mais complicado devido às dificuldades de verbalização. Bianca só conseguiu terapia adequada aos 15 anos. Por ser tão jovem, estudante enfrentou a falta de compreensão da família. "Minha família é muito religiosa, diziam que era coisa de criança, falta de Deus, que ia passar. Na escola, a mesma coisa, as professoras não entendiam. Não julgo, havia pouca informação disponível na época. Então, guardei para mim, passava por tudo sozinha", lembra. Hoje, ela está fora da terapia, mas planeja voltar. Os tratamentos psicoterápico e psiquiátrico são fundamentais para a recuperação. Universidades, hospitais públicos e clínicas sociais costumam oferecer as consultas a preços acessíveis.

Para Bianca, a falta de terapia teve consequências quase fatais. Por duas vezes, aos 13 e aos 15 anos, ela tentou tirar a própria vida. O delicado tema da depressão e do suicídio entre adolescentes ganhou exposição por causa da série ‘13 Reasons Why’ (‘Os 13 porquês’, em tradução livre), que relata a trajetória de uma jovem que tira a própria vida após uma série de eventos traumáticos. O sinistro jogo da ‘Baleia Azul’ acendeu o alerta vermelho por incentivar adolescentes tirarem a própria vida seguindo ordens de anônimos na Internet.

O suicídio pode ser provocado por um dos sintomas mais comuns da depressão, a anedonia, que é a incapacidade de sentir prazer e alegria. Aos poucos, o indivíduo pode perder o interesse e apego pelas coisas das quais gostava, as pessoas queridas e, eventualmente, pela própria vida. O mau do espírito pode ter consequências diretas no corpo. Durante o quadro depressivo são liberados os hormônios do estresse, como o cortisol, na corrente sanguínea, o que enfraquece o sistema imunológico. O depressivo pode apresentar sintomas físicos, como fadiga, dores de cabeça e no corpo, problemas digestivo e alterações de peso. Na esfera mental, pode levar até mesmo a alucinações.

Severa, insidiosa, devastadora. A depressão pode ser muitas, mas não é invencível. Conhecer os sintomas e estar atento é importante para se proteger e estar apto a estender a mão a quem precise de ajuda, mesmo que não saiba disso.

Brasil é o segundo país do mundo mais estressado, aponta ranking

Trabalho levado para casa. Falta de tempo para atividades relaxantes ou para a família. Má alimentação. Incapacidade de enxergar perspectivas. Tensão no trânsito. Pavor da violência urbana. Todas essas situações são vividas por quem sente estresse. E não são poucas as pessoas afetadas por essa doença. O Brasil ostenta o título de segundo mais estressado do mundo em um ranking com dez países, feito pela International Stress Management Association (Isma - Brasil). Na nossa frente apenas os japoneses.

O que mais estressa o brasileiro, segundo o estudo, é o trabalho, segundo 69% dos entrevistados.  Eles relataram sofrer com as longas jornadas, sobrecarga de tarefas e a tensão no ambiente corporativo. Foi por causa do desgaste do trabalho que a dona de casa Ana Lúcia Nascimento, 57 anos, se afastou da empresa em que trabalhou por três anos.  “Em tese, eu devia começar às 17h e sair às 23h45, mas como o trabalho era em uma distribuidora de medicamentos, que funcionava a partir dos pedidos, tinha vezes que chegava às 5h”, conta. “Havia muita pressão dos chefes. Chegava em casa e não dormia, ficava ansiosa e desenvolvi depressão”, completa.

O caso de Ana Lúcia exemplifica os dados da Previdência que apontam que, só no ano passado, foram feitos 3.565 pedidos de afastamento. Em 2015, este número foi de  2.899. Quando somados aos problemas de depressão e transtornos mentais, que podem vir de quadros de estresse elevado, o número de pedidos de afastamento do trabalho chega a mais de seis mil. O estresse perde somente para os traumas ósseos e para as lesões causadas por esforço repetitivo como razão para afastamento do trabalho.

De acordo com o psicólogo e conselheiro do Conselho Regional de Psicologia 3ª Região, Renan Rocha, boa parte do estresse no trabalho vem em função da centralidade dele na vida das pessoas. “Nós nos apresentamos a partir do trabalho e ele é parte de nossa identidade, mas é preciso entender o sentido dele na própria vida e perceber os sinais de conflito”, destaca. “Deve-se perceber que o trabalho tem um tempo de se iniciar, de se fazer e de ser concluído. E ele precisa ser vivido nesse espaço de tempo e não fora de seu ambiente próprio”, orienta.

Infarto

O estado de estresse prolongado pode levar a casos de infarto. É que nas situações de tensão, o corpo libera  substâncias no sangue capazes de alterar o ritmo do coração. “O estresse é um gatilho para as doenças cardiovasculares. Pacientes com aterosclerose (acúmulo de gordura no sangue) podem sofrer com a formação de coágulos e assim o estresse pode levar a um mal súbito ou infarto”, alerta o presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC-BA), Nivaldo Filgueiras.

Os médicos afirmam que não há causa única para o estresse. Ele está associado, normalmente, aos excessos e experiências negativas. De acordo com a psiquiatra e conselheira do Conselho Regional de Medicina da Bahia, Rosa Garcia, o estresse pode ser entendido em três tipos.

O primeiro é o de transtorno de adaptação: que é o caso das relações externas em que o contexto geral pesa, como o trabalho e família. Nesse caso, a adaptação à vida cotidiana fica comprometida. O segundo, o agudo, que é provocado por desordem, como uma notícia ruim. E o terceiro é o pós-traumático, cuja experiência e efeitos variam de um indivíduo a outro, que está relacionado aos acidentes ou experiências como assaltos.

Ainda segundo os especialistas, o acompanhamento médico sozinho não resolve a situação. Para eles, a saída está em diminuir o ritmo e reservar tempo para desenvolver atividades que proporcionam bem-estar e felicidade. “É preciso construir outros hábitos, tentar regularizar o sono, ter alimentação regular e adequada, reservar tempo para atividade física e se permitir a ter momentos de prazer, que podem ser qualquer coisa, desde um livro até sair para tomar um sorvete. Além de ter boas relações afetivas, estar perto de pessoas que contribuam para elas”, explica Renan Rocha.

  • Supere o estresse

Faça o que gosta

Mesmo com atividades profissionais no dia a dia, reserve  uma parte do seu tempo para se dedicar a algo que gosta. Vale qualquer coisa que te faça se sentir bem, de um filme a uma viagem.

Divida seu tempo

Otimize o seu tempo e divida entre trabalho, lazer e descanso. Tenha em mente que existe um tempo de início e de término das atividades

Durma bem

O sono é fundamental para manter as atividades vitais do corpo, logo, garanta as oito horas de sono.

Mova o corpo

Elimine as tensões com atividades físicas. Há várias opções que vão de caminhada à musculação. A atividade física deve ser feita com objetivo de proporcionar bem-estar a quem faz.

Coma bem

Além das atividades físicas, manter a alimentação saudável proporciona bem-estar e reforça a imunidade. 

Lazer é necessário

Reserve momentos para  diversão, encontrar amigos, ouvir música, ler um livro ou mesmo caminhar na praia.

Espiritualidade

Manter um lado espiritual ajuda a combater a ansiedade e o estresse, dedique seu tempo a atividades mais espiritualizadas que visem o autocuidado, como meditação e ioga. 

Trabalho

Os especialistas comumente afirmam que um bom trabalho é quando não se sente que está trabalhando. Por isso, dedique-se a atividades que realmente gosta e sinta prazer ao executá-las.

Desligue-se

Ao deixar o trabalho, desligue-se completamente da empresa. Ao se distanciar das atividades, é possível relaxar. Vale, inclusive, evitar ver e-mails ou mensagens de grupos de trabalho.

Relacionamentos

Esteja cercado de relações positivas. Evite relacionamentos abusivos e destine um tempo para passar na companhia de familiares e amigos.

 

Fonte: O Dia/Correio/Municipios Baianos

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