18/06/2017

Donald Trump e a era da política americana sem ideia alguma

 

Nos círculos familiares e de amigos pelos quais me movo, não acredito que haja alguém que votou em Donald Trump. Isso provavelmente também ocorre com a maior parte dos profissionais de classe média nos Estados Unidos. Além disso, um enorme percentual, entre estes grupos, está obcecado com Trump e muito ansioso para que ele deixe de ser seu presidente.

Pedem-me com frequência que preveja por quanto tempo ele pode sobreviver no posto. Minha resposta padrão é: de dois dias a oito anos. Isso nunca satisfaz os interlocutores. Não podem acreditar que seja uma sentença séria. Os que fazem a pergunta veem Trump como uma pessoa “má” e acham difícil acreditar que esta visão não seja compartilhada, larga e crescentemente, pela maioria da população, incluindo os que votaram em Trump.

Para os que me questionam, parece ser uma questão de ideologia e ou moralidade. Se os outros não veem a realidade assim (pelo menos ainda), deve ser porque são mal ou insuficientemente informados sobre aquilo em que Trump acredita e como ele age. Pode-se tirar disso duas possíveis conclusões. A otimista é que a luz, ao final, iluminará os ignorantes e Trump será derrubado. A pessimista é que nada mais pode mudar as atitudes da maioria, e portanto não há esperanças.

Acredito que esta forma de enxergar o tema está muito errada. Trump não é um ideólogo. Sim, ele tem uma agenda que perseguirá com o máximo de sua habilidade. Mas a agenda é absolutamente secundária em relação a sua maior prioridade, que é permanecer presidente dos Estados Unidos – uma posição que, para ele, equivale a ser o indivíduo mais poderoso do mundo. Ele fará qualquer coisa para permanecer neste lugar – inclusive sacrificar qualquer parte de sua agenda, temporária ou permanentemente.

Ele tem extremo orgulho de ser presidente dos EUA. Como disse a um repórter, ele deve estar fazendo algo correto, já que é o presidente e o repórter, não. Ele considera-se validado por estar no posto. Busca aplausos nos outros e esbanja aplausos em si mesmo. Diz que é o melhor presidente que os Estados Unidos tiveram e provavelmente terão.

Mas por que digo que Trump permanecerá no posto de dois dias a oito anos? Porque ele não é o único cuja prioridade é manter-se no posto. Esta opção é partilhada por quase todos os membros do Congresso dos EUA. Há ao menos duas maneiras de remover um presidente: promover o impeachment ou invocar a 25ª emenda à Constituição, que trata da incapacidade de responder às tarefas da presidência.

O que levaria os membros do Congresso, e especialmente os do Partido Republicano, a buscar a remoção de Trump? Eles precisariam acreditar que manter-se no posto depende, em larga medida, de manter o mandato de Trump ou derrubá-lo. A escolha é clara. O que não lhes parece claro até o momento é que opção os favorece mais. Por isso, oscilam e continuarão a fazê-lo por algum tempo. No momento, não veem vantagem em apoiar as pessoas (quase todas ligadas ao Partido Democrata) que exigem um processo para remover Trump.

Calcular a vantagem relativa das duas opções não é tarefa fácil. É, em grande medida, fazer uma leitura da opinião pública cambiante, algo de dificuldade notória. Os parlamentares leem as pesquisas (mas quais?). Encontram-se, em suas bases, com eleitores (mas quais?). Falam com seus financiadores (mas quais?).

Como em todas as situações relativamente bloqueadas, o bloqueio pode cair com um pequeno acontecimento, inteiramente inesperado, capaz de desencadear outros fatos e provocar, subitamente, uma corrida momentânea a surfar em nova maré. Isso pode ocorrer em dois dias ou nunca, até que Trump termine dois mandatos. É imprevisível. Não tem a ver com ideologia ou agenda. Tem a ver com permanecer no posto, em nome de permanecer no posto.

De Cuba a Paris: Seis políticas de Obama que Trump reverteu

O anúncio do presidente Donald Trump, nesta sexta-feira, de que vai revisar partes do acordo de aproximação entre Estados Unidos e Cuba é a mais recente de uma série de medidas tomadas para reverter políticas implementadas por seu antecessor, Barack Obama.

Desde que assumiu o poder, em janeiro, Trump já alterou políticas relacionadas a comércio, meio ambiente, saúde, segurança e outros setores.

  • Entenda, a seguir, as principais delas:

Cuba

A nova política dos Estados Unidos em relação a Cuba, anunciada pelo presidente em um discurso no bairro de Little Havana, que reúne a comunidade cubana exilada em Miami, volta a impor restrições para viagens de americanos à ilha. Viajantes americanos só poderão visitar Cuba como parte de grupos organizados e desde que comprovem que o objetivo da viagem não é turismo e se enquadra em uma das categorias permitidas, como atividades educacionais ou de pesquisa. Essas restrições haviam sido relaxadas por Obama, e não havia fiscalização rígida sobre o motivo da viagem. Também ficam proibidas transações comerciais com empresas controladas por entidades militares ou serviços de segurança cubanos, o que, na prática, impede investimentos americanos em boa parte de setores como o de turismo. Em seu discurso, Trump disse que os lucros de investimento e turismo vão parar nas mãos dos militares do regime cubano, "que explora e abusa dos cidadãos".

Apesar das mudanças, porém, algumas das ações iniciadas por Obama em 2014 para normalizar as relações entre os dois países permanecem em vigor. Ainda que Trump tenha declarado "o cancelamento do acordo completamente unilateral do governo passado", a revisão do acordo Washington-Havana foi limitada e os laços diplomáticos bilaterais não foram rompidos. Americanos-cubanos poderão continuar viajando e enviando dinheiro para moradores da ilha, voos diretos e cruzeiros marítimos entre os dois países continuarão em operação e as embaixadas em Washington e Havana permanecerão abertas. As medidas foram criticadas por grupos de defesa de direitos humanos e por líderes empresariais como um retrocesso. O governo cubano afirmou que "as novas medidas estão destinadas ao fracasso, como foi mostrado repetidamente no passado, e não conseguirão enfraquecer a revolução ou o povo cubano".

Do outro lado, alguns congressistas como o senador Marco Rubio, de origem cubana, queriam políticas ainda mais duras e a reversão completa do acordo de Obama. E alguns ativistas cubanos elogiaram as restrições a transações comerciais com entidades militares, chamando-as de "mafiosas". Segundo a Casa Branca, as mudanças anunciadas pro Trump deverão entrar em vigor nos próximos meses.

Acordo climático

No início do mês, Trump anunciou a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris sobre o clima, que tem como meta manter o aumento das temperaturas médias globais abaixo de 2°C em relação à era pré-industrial. A justificativa de Trump é de que o acordo prejudica as indústrias americanas, comprometendo a geração de empregos em setores como o carvoeiro. A assinatura do acordo global, em dezembro de 2015, foi considerada histórica por unir quase todos os países do mundo com o objetivo de frear as mudanças climáticas. Com a saída, os Estados Unidos, segundo maior emissor de gás carbônico do mundo, se juntam aos únicos dois países que ficaram de fora do acordo: Síria e Nicarágua. Ao anunciar a saída, Trump disse que o acordo é desvantajoso para a economia americana e que seus termos levam ao fechamento de fábricas. Disse ainda que tentaria negociar uma nova entrada do país no pacto ou um novo acordo, mas a ideia é rejeitada por outros países.

O anúncio foi recebido com críticas em todo o mundo. Dentro dos Estados Unidos, governos estaduais e lideranças empresariais já avisaram que seguirão cumprindo os compromissos estabelecidos em Paris.

Imigração

O novo governo anunciou o fim de um programa implementado por Obama em 2014 com o objetivo de permitir que imigrantes em situação irregular cujos filhos fossem cidadãos americanos permanecessem no país sem ameaça de deportação. Diversos Estados haviam processado o governo Obama por causa desse programa, chamado DAPA, impedindo sua implementação. Mas Trump anunciou que não vai acabar, por enquanto, com outro programa, o chamado DACA, destinado a imigrantes ilegais que foram trazidos ao país quando crianças. Calcula-se que quase 800 mil imigrantes sejam beneficiados por esse projeto.

Parceria Transpacífico

Em janeiro, logo após tomar posse, Trump retirou os Estados Unidos do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP, na sigla em inglês), uma de suas promessas de campanha. O acordo assinado em 2015 com Austrália, Brunei, Canadá, Cingapura, Chile, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru e Vietnã previa redução de barreiras comerciais e unificação de legislação em diversos temas. O pacto sofria resistência por parte de sindicatos americanos, que temiam a transferência de empregos para regiões com mão-de-obra mais barata.

Guerra às drogas

O Departamento de Justiça reverteu no mês passado uma orientação em vigor durante o governo Obama de evitar impor penas mínimas obrigatórias para crimes não violentos relacionados a drogas, reservando a punição para traficantes violentos. A nova orientação é de que promotores federais busquem sempre condenações pelo crime mais grave que possam provar e com a maior pena possível. Na regra de penas mínimas obrigatórias, o juiz é obrigado a condenar o réu a longas sentenças de prisão de acordo com a quantidade de droga envolvida.

Críticos consideraram a decisão um retrocesso e lembraram que a Guerra às Drogas dos anos 1980 e 1990 não funcionou e provocou superlotação que persiste até hoje nas prisões americanas, mas o secretário de Justiça, Jeff Sessions, defendeu a medida como parte crucial da promessa de Trump de manter o país seguro.

Transgêneros

Trump revogou uma medida que instruía escolas a permitirem que estudantes transgênero usassem os banheiros de acordo com o gênero com o qual se identificam. Opositores da medida de Obama a consideravam um abuso de autoridade, e vários Estados entraram com ações contra o governo federal.

Mas defensores de direitos civis ressaltam que a mudança pode deixar esses alunos suscetíveis a discriminação. Com a reversão, cada Estado poderá decidir como proceder.

Administração de Trump pensou em declarar ultimato a Cuba

A administração do presidente dos EUA Donald Trump considerou a possibilidade de romper as relações diplomáticas com Cuba, informa o jornal Hill, citando documentos disponíveis. O presidente norte-americano Donald Trump anunciou o abandono da política "errada" de seu antecessor Barack Obama de normalização das relações com Cuba, sendo mais um passo de Trump rumo à suspensão dos acordos antes firmados e dos compromissos assumidos pela anterior administração. A Casa Branca sublinhou que os EUA manterão o embargo introduzido contra Cuba e que são "contra os apelos da ONU e outras organizações internacionais a favor de seu levantamento". De acordo com os dados do Hill, no mês passado, na reunião do Conselho de Segurança Nacional foi discutida a possibilidade de declarar um ultimato ao governo cubano para que este melhorasse a situação dos direitos humanos. Se Havana não tivesse tomado certas medidas, os EUA teriam rompido as relações diplomáticas com o país, fechado a embaixada em Havana e "teriam abandonado todos os compromissos bilaterais", conta o jornal. Além disso, os EUA teriam reintroduzido restrições na área de circulação de pessoas e de comércio, além de "iniciar o processo para reclassificar a ilha como país patrocinador do terrorismo", diz o Hill. Segundo o jornal, os representantes das forças de segurança dos EUA se manifestavam contra tais mudanças, porque poderiam levar a uma onda migratória cubana.

Washington é responsável pela tensão crescente com Moscou

A responsabilidade pelo agravamento das relações entre os EUA e a Rússia é de Washington, pois estimula o aumento da presença da OTAN perto das fronteiras russas, considera Phil Wilayto, coordenador da conferência da coalizão anti-guerra, UNAC, na sigla em inglês. "Somos contra os EUA incentivarem a ampliação da OTAN ao longo das fronteiras da Rússia. Consideramos os EUA agressores no conflito crescente entre Rússia e EUA", declarou Wilayto à Sputnik.

Ele destacou também que a organização UNAC, cuja conferência está decorrendo no estado da Virginia, é contra as operações militares dos EUA em outros países: Síria, Venezuela, Ucrânia, Filipinas e continente africano. Outro participante da conferência, Joe Lombardo, sublinhou também que as ações da OTAN, apoiadas pelos EUA, no continente europeu representam um perigo real. A Rússia, por sua parte, vem reiteradamente considerando a expansão militar da OTAN perto de suas fronteiras como um reforço perigoso da corrida armamentista.

Terrorismo – inimigo dos EUA ou seu melhor aliado na confrontação com Moscou?

O presidente russo, Vladimir Putin, acusou os EUA de terem prestado apoio aos extremistas durante as guerras na Chechênia (1994-2009).  Os EUA falam da sua disponibilidade para cooperar na luta contra o terrorismo, mas de fato usam os terroristas para desestabilizar a situação na Rússia, afirmou o presidente russo em uma conversa com o cineasta americano Oliver Stone. O apoio de Washington aos insurgentes chechenos naquela época era aberto, tanto na mídia como nos círculos diplomáticos dos EUA. "Os jornalistas ocidentais se referiam a estes bandidos infames como 'rebeldes', 'independentistas', 'heróis' e até 'dissidentes'. Entretanto, os políticos ocidentais qualificavam a luta da Rússia por sua segurança e integridade territorial como ‘ambições imperiais', sendo que naquele momento eles estavam reduzindo a cinzas simultaneamente Belgrado, Kabul e Bagdá", assinala o autor.

Particularmente, a emissora americana CNN chamou os terroristas chechenos que tomaram reféns no teatro de Dubrovka de Moscou no ano de 2002 de "dissidentes chechenos", recordou o especialista. Entretanto, há casos de ajuda direta — armas, dinheiro e dados de inteligência — dos EUA aos grupos terroristas chechenos que na sua maioria passaram despercebidos. O colunista sublinha que a dita ajuda ficou no esquecimento, embora tenha sido considerável. Segundo os dados do Ministério do Interior russo, ao longo de ambos os conflitos armados na Chechênia, mais de 60 organizações terroristas internacionais, mais de 100 empresas estrangeiras e uma dezena de grupos bancários prestaram apoio material e financeiro aos terroristas.

O volume deste apoio é difícil de avaliar, já que somente poucas provas saíram à imprensa. Particularmente, no início dos anos 2000 os serviços secretos russos descobriram o esconderijo de Shamil Basaev, um dos mais perigosos terroristas chechenos, onde foram encontrados arquivos com diferentes documentos. Entre eles havia um recibo que confirmava uma transação de 700 mil dólares de uma organização registrada nos EUA. De acordo com Kots, é difícil comprovar que Washington verdadeiramente esteve envolvido no apoio aos terroristas chechenos. Mas, de qualquer maneira, os militares encontravam constantemente armas de origem americana nas mãos dos radicais.

Em novembro de 1999, por exemplo, várias mídias russas informaram que 70 sistemas de defesa aérea portátil norte-americanos Stinger tinham chegado à Chechênia. Mais tarde, esta informação foi confirmada pelo então ministro da Defesa russo, Igor Sergeev. Até houve fotos tiradas na Chechênia nos princípios dos anos 2000 que provam estas afirmações. Durante a guerra no Afeganistão (1978-1992), a CIA fornecia estes sistemas aos mujahedin e é possível que Washington tenha decidido seguir com a mesma tática na Chechênia. Provavelmente, os Stinger chegaram à Chechênia através da Turquia, onde desde 1992 há uma fábrica licenciada que produz estas armas. Ademais, no início da década de 90, os grupos armados chechenos recebiam uniformes, binoculares noturnos, rações de combate e celulares americanos.

O jornalista destacou que a inteligência americana não tentava ocultar a prestação de apoio material aos insurgentes chechenos. O então vice-chefe do Conselho Nacional de Inteligência dos EUA, Graham Fuller, revelou em um dos seus artigos:

"A política de controle da evolução do Islã e [o nosso] apoio na luta contra nosso rival funcionou perfeitamente no Afeganistão contra o exército soviético. A mesma doutrina pode resultar vantajosa para desestabilizar o que resta das autoridades russas."

 

Fonte: Por Immanuel Wallerstein, em Outras Palavras/ BBC Brasil/Sputinik News/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!