01/07/2017

Cachoeira: polo estratégico da guerra pela independência da BA

 

Para vencer a batalha do dia a dia, o vendedor de picolés Alder Peixoto Silva, 42 anos, lembra da guerra. Talvez o único a percorrer todos os dias os caminhos da independência da Bahia em Cachoeira, no Recôncavo, ele aponta um a um os locais que foram importantes na vitória dos baianos. Polo político e estratégico do 2 de Julho, Cachoeira mantém de pé prédios e sobrados onde a guerra foi pensada, mas também lugares nos quais foi derramado muito sangue.

“Saber que pessoas do povo, inclusive da minha raça, da minha cor, deram a vida para se livrar do julgo português, dá um orgulho danado. Diante do sangue derramado, é até fácil para a gente enfrentar a vida”, diz Alder, emocionado, na Praça da Aclamação, ao lado do marco onde teria tombado Tambor Soledade, único morto daquele primeiro confronto entre brasileiros e lusitanos. “É aqui que nasce tudo”, resume.

Com Alder e outros personagens da vida comum cachoeirana, além de dois historiadores, o Correio revisitou os lugares por onde passaram os heróis da época. Foram refeitos os sete passos da independência em Cachoeira: a Casa de Câmara e Cadeia, a Casa Número 23, a Santa Casa de Misericórdia, a Igreja Matriz, o Rio Paraguaçu, a Casa Número 3 (na vizinha São Félix) e a própria Praça da Aclamação.

Guerra

Debruçada na sacada da Câmara de Vereadores de Cachoeira, antiga Casa de Câmara e Cadeia, é como se a recepcionista Janete Magno fizesse parte daquela história. Foi ali que, em uma sessão extraordinária no dia 25 de junho de 1822, Dom Pedro I foi aclamado Defensor Perpétuo do Brasil, o que significou uma declaração de guerra contra Portugal.

Não à toa, 25 de junho é a data magna da cidade. “Eu faço uma viagem no tempo quase todos os dias. Trabalhar aqui é lembrar da importância de ser livre”, diz Janete. A mais ou menos um quilômetro dali, a Casa de Número 23, um sobrado aparentemente qualquer em Cachoeira, foi o primeiro lugar onde a guerra foi pensada. Segundo registros históricos, ali foram feitas as primeiras reuniões antilusitanas.

“No início de 1822, reuniões secretas articularam a guerra. Onde hoje mora uma família comum foi o início da movimentação toda”, afirma a historiadora Tamires Costa, mestranda na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) que pesquisa os lugares de memória que fazem parte do cotidiano de Cachoeira. As ideias discutidas pela elite açucareira e proprietários de terra foram ganhando adeptos e conquistaram o povo.

A essa altura, escravos, escravos libertos, pequenos comerciantes, representantes da igreja e até indígenas estavam revoltados com as condições econômicas impostas ao Brasil por Portugal. Com Salvador tomada pelas forças do general português Madeira de Melo, Cachoeira se torna o centro da formação do Exército. O número de combatentes aumenta com o êxodo de pessoas da capital rumo a Cachoeira.

Aclamação

Todos juntos participam do Te Deum (em latim: A Vós, ó Deus), na Igreja Matriz, outro local de memória que se mantém de pé. Missa em ação de graças, o Te Deum também aclama Dom Pedro. “Fala-se que se reuniram no local mais de mil pessoas”, diz a historiadora.

Nada disso teria ocorrido, porém, se não fosse o Rio Paraguaçu. É de lá, na manhã do dia 25 de junho, que a canhoneira lusitana começa a atingir Cachoeira. Portugueses locais, do alto dos seus sobrados, começam a atirar na população. Aí entra a importância da Casa Número 3, na Praça do Relógio, em São Félix. Na época, apenas uma vila se tornaria protagonista por formar o Batalhão dos Periquitos, onde serviu Maria Quitéria, mas também por ter sido ali, precisamente na Casa Número 3, que foi construída a cartucheira.

O armamento respondeu ao ataque lusitano. “Na Casa 3, morou o avô do poeta Castro Alves, conhecido como O Periquitão, que serviu no Batalhão dos Periquitos. Assim como todo armamento do Exército brasileiro na época, a cartucheira foi feita de forma improvisada”, explicou o historiador Fábio Abelha, de São Félix.

Fala-se que a vazão da maré tornou o rio pouco navegável e dificultou as coisas para a canhoneira. “Não há registros disso, mas a memória do povo local vai nessa direção”, diz Fábio. Atual barqueiro no Paraguaçu, Adimar Silva Costa, 55 anos, acredita na tese. “Tem muita armadilha aí, muito banco de areia, tem que fazer cálculo de maré para navegar. A maré toda baixa deixou a canhoneira envergada”, teoriza Adimar, mais um que mostra que, em Cachoeira, todo mundo é um pouco historiador.

Sangue

Onde se tem certeza de que houve derramamento de sangue é na Praça da Aclamação, onde Alder vende seus picolés. Foi na praça que a população festejou a aclamação de Dom Pedro e, em seguida, recebeu “chumbo grosso” do navio português. “O bombardeio veio depois que os portugueses ficaram sabendo do resultado da sessão”, diz Alder.

“O que se diz é que a canhoneira começou a atirar quando a tripulação ouviu os gritos de comemoração, após a sessão e o Te Deum”, confirma a historiadora Tamires Costa. Não se tem certeza se a embarcação foi atingida a ponto de naufragar, se os brasileiros tomaram a embarcação ou se ela foi embora. A memória dos cachoeiranos é de que ela veio a pique, e muita coisa foi encontrada no fundo do Paraguaçu.

No dia 28 de junho de 1822, após três dias de batalhas, os brasileiros comemoraram a vitória em Cachoeira. A guerra se desloca para a capital e, nesse momento, já é bastante sangrenta também em Itaparica. Mesmo encerrada a batalha em Cachoeira, a cidade continua fundamental na guerra. A começar pelo rio, bloqueado pelos brasileiros para a passagem de alimentos - essencialmente farinha e carne - que eram enviados às tropas portuguesas na capital.

O outro motivo está no Conjunto da Santa Casa da Misericórdia, um hospital transformado em sede do governo interino dias depois do 25 de junho - o último dos nossos sete passos da independência. Naquele momento, uma das salas do térreo da Santa Casa se tornou local de despacho da província da Bahia. Hoje, nesse espaço, Gilson Agrário, 68, trabalha como tesoureiro após 30 anos de voluntariado. “Dom Pedro I e II  passaram por aqui. Não é pouca coisa”, acredita Gilson.

2 de Julho: fogo simbólico sai de Cachoeira em direção a Salvador

O fogo simbólico, que faz parte das comemorações pela Independência da Bahia, saiu na manhã desta sexta-feira (30), do município de Cachoeira, no Recôncavo da Bahia. O fogo vai em direção ao município de Saubara.

Ele será conduzido por homens do Exército e atletas das cidades de Saubara, Santo Amaro, São Francisco do Conde e Simões Filho. O Batalhão de Polícia Rodoviária (BPRv) está escoltando o percurso do fogo simbólico.

De acordo com a Polícia Militar, depois de passar por Saubara e Santo Amaro, o fogo simbólico vai chegar em São Francisco do Conde, o último destino do trajeto de hoje, onde vai passar a noite.

Neste sábado (1º), vai percorrer as cidades de Candeias e Simões Filho, com previsão de chegada em Pirajá por volta das 17h. A Banda de Música Maestro Wanderley da PM recepcionará o fogo simbólico com execução de hinos e de dobrados.

A programação oficial segue com a celebração do Te Deum, que este ano vai homenagear a historiadora Consuelo Pondé de Sena, que morreu em maio de 2015 e que era uma das incentivadoras da festa. Às 16h, está prevista a chegada do fogo simbólico em Pirajá. Em seguida, será acendida a pira no Largo de Pirajá, com cerimônia de hasteamento de bandeiras e colocação de flores do túmulo do General Labatut.

Dia Festivo

Já no dia 2 de julho, no domingo, a celebração começa às 6h, com alvorada de fogos. O prefeito ACM Neto participa das comemorações, na Lapinha, a partir das 8h. A programação inclui o hasteamento das bandeiras, no Pavilhão Dois de Julho, às 9h, com a execução do Hino Nacional pela Banda de Música da Marinha do Brasil, nas presenças do governador Rui Costa, do presidente da Assembleia Legislativa da Bahia, Ângelo Coronel, e do presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Eduardo Morais.

Na sequência, o prefeito e as demais autoridades prestam as homenagens no monumento do General Labatut e assistem à apresentação dos carros emblemáticos do Caboclo e da Cabocla, além do hino ao Dois de Julho, executado pela Banda de Música da Marinha do Brasil. Às 9h30, tem início o cortejo cívico, com uma breve parada em frente ao Convento da Soledade, na Ordem Terceira do Carmo, e na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. No fim da manhã, às 11h30, serão recolhidos os carros emblemáticos, com a retomada da programação pela tarde. O prefeito participa de todo o cortejo.

Após o desfile, ACM Neto retorna à programação às 15h, com a cerimônia cívica no 2º Distrito Naval, parte às 15h30 para solenidade na Câmara de Vereadores e, às 17h, no Campo Grande, com a chegada dos carros emblemáticos. O ato contará ainda com hasteamento das bandeiras do Brasil, Bahia e Salvador, colocação de coroas de flores no monumento ao 2 de julho pelas autoridades presentes e acendimento da Pira do Fogo Simbólico pelo atleta cabo da Polícia Militar da Bahia, José Francisco Rodrigues. Para o dia do cortejo, foram mobilizados 555 alunos da rede municipal de ensino, que integram as fanfarras que animarão o evento.

O tema das festividades deste ano para o Dois de Julho será Salvador - Marco da Independência, exaltando o papel da primeira capital do país na luta pela libertação do domínio português. As comemorações se encerram no dia 5 de julho, com a volta dos carros do Caboclo e da Cabocla para o Largo da Lapinha.

Tambor Soledade: narrativas misturam história e memória

O espaço onde hoje é a Praça da Aclamação se tornou praça de guerra na manhã do dia 25 de junho de 1822. Um ano e poucos dias antes do 2 de julho, iniciava-se a guerra. É nesse momento que, durante bombardeio de uma embarcação portuguesa à população de Cachoeira a partir do Rio Paraguaçu, surge uma figura emblemática: o chamado Tambor Soledade.

Não há registros oficiais da sua existência, mas a memória cachoeirana tratou de preservar o seu legado. Tambor Soledade teria sido um negro responsável pelo toque do tambor das tropas brasileiras, formadas de maneira improvisada por todo tipo de gente local.

“A grande luta em Cachoeira acontece nesse espaço, entre o Rio Paraguaçu e a Casa de Câmara e Cadeia. Repare que não há impedimentos físicos entre esses dois locais. É justamente aí, especialmente na Praça da Aclamação, que se reúne a população. É aí que também estaria o Tambor Soledade”, aponta a historiadora Tamires Costa, da Universidade Federal do Recôncavo (UFRB).

A comemoração dos brasileiros pela aclamação de Dom Pedro I e pela vitória na primeira batalha pela independência do Brasil está retratada no quadro O Primeiro Passo para a Independência da Bahia, de Antônio Parreiras, de 1931. A figura negra de Tambor Soledade, apoiada no seu instrumento, aparece assistida por um oficial do Exército.

Hoje, alguns estudiosos colocam Tambor Soledade até mesmo como um dos comandantes das tropas brasileiras.  “Mas o fato é que por muito tempo ele foi esquecido. Não há registros do seu nascimento ou sequer da sua morte. Tambor Soledade provavelmente era um homem comum, do povo. Sendo negro, não haveria de ter registros sobre sua importância”, completa a historiadora.

A morte de Tambor Soledade, acredita-se, teria inflamado ainda mais a população contra a embarcação portuguesa, que sequer desembarcou seus homens às margens do Paraguaçu. Soledade foi morto pelo resultado de um dos tiros de canhões. “Figuras como o Tambor Soledade são originadas da memória passada de geração em geração. Isso porque o 2 de Julho ultrapassa os limites da história oficial. São narrativas que fazem um diálogo entre história e memória”, concorda o professor Fábio Abelha.

 

Fonte: Correio/Municipios Baianos

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