04/07/2017

Embate religioso: quilombolas perdem identidade cultural

 

Encontrar a comunidade quilombola de Tabacaria não é tarefa das mais fáceis. Para chegar ao povoado, encrustado entre as serras de Palmeira dos Índios, é preciso perseverança e uma coluna em dia: são pelo menos dez quilômetros de estrada de barro adentro, em meio a buracos, ladeiras, mato e precipícios. A sinalização indicando a presença dos remanescentes de quilombo é também inexistente.

A situação é a mesma em diversas outras populações do tipo espalhadas por Alagoas, escondidas em meio à caatinga, morros e ao descaso. Nada disso, porém, parece impedir grupos religiosos, em especial evangélicos, de descobrir esses lugares. E de se instalar neles, coibindo, na opinião de estudiosos como o professor Clébio Araújo, manifestações até então enraizadas desde o tempo dos escravos.

“Em geral, esse aumento da presença evangélica tem tido impactos diretos na identidade coletiva dessas comunidades, pois ela apresenta um alto grau de intolerância em relação às culturas de matriz africana em suas várias expressões, principalmente aquelas que rementem mais diretamente a elementos estéticos das religiões afro-brasileiras, como a música, a dança e o vestuário”, afirma.

E a chegada desses religiosos, aponta ele, tem sido algo cada vez mais constante. Em Tabacaria, por exemplo, é possível já avistar de longe, logo na chegada, a Assembleia de Deus fundada há cinco anos, o maior prédio da localidade. Dentre os cerca de 400 moradores, uma média de 70 a 80 participa das atividades, que incluem cultos, grupos de oração, ensaios musicais.

Presidente da comunidade, Amaro Félix Filho diz que a igreja – construída dentro da propriedade dele – não interfere negativamente no dia a dia dos quilombolas. Pelo contrário: para ele, a chegada dos evangélicos foi uma salvação. “As pessoas ficavam se destruindo em portas de bares e bodegas, fazendo o que não deviam. E hoje temos jovens louvando a Deus, glorificando, e a igreja crescendo por intermédio disso”.

Foi a esposa dele, aliás, que pediu para que o templo se instalasse ali. Até então, era preciso ir para o centro de Palmeira dos Índios para escutar a pregação. Com a dificuldade do acesso, conta ele, era necessário sair no sábado e voltar apenas na segunda pela manhã – aos domingos, dia mais importante no calendário da denominação assembleiana, não há transporte no povoado.

“Ela pediu lá na Assembleia para fazer uma congregação aqui, que não tinha nada a não ser bodega de cachaça. Eles disseram que não poderia ser logo, que iriam ver, e uns quatro anos atrás veio um irmão fazer uma vistoria no terreno para a construção. Os irmãos participaram com mão de obra; outros compraram material. Hoje, graças a Deus, ela está funcionando para o nosso bem”, lembra Amaro.

Ao todo, a construção levou cerca de um ano e meio para ser levantada e, agora, o pastor vai ao local às quintas e aos domingos. Segundo o presidente, a convivência entre o pensamento evangélico e as tradições quilombolas tem sido tranquila. Ele cita o livre-arbítrio como princípio ali dentro: na visão do líder, cada um é livre para fazer – e praticar – o que quiser.

“Na época de São João, fundaram uma quadrilha, brincaram o São João todo. Temos um reisado também, que brinca sempre aí. Eu não participo porque não gosto, cada um frequenta o que quer. É o livre-arbítrio. Quem quer vir para a igreja, vem para a igreja; quem quer participar do reisado, participa do reisado; quem quer ser da banda de pífano, é da banda de pífano, e assim está funcionando”, acrescenta.

Responsável pela manutenção dos agora já escassos folguedos de Tabacaria, dona Dominícia Paulino dos Santos, 63 anos, relata que a relação tem sido tranquila. “Pra mim, tanto faz, está tudo bem. Não tenho o que dizer da igreja. Não sou crente, mas toda a vida gostei deles. Não sou porque eu curo, desde pequena gosto de curar criança, adulto, então não posso, porque eles não permitem isso”.

O reisado tocado por ela em parceria com o marido, seu Gerson, já chega aos 350 anos e começou ainda com os antepassados da família. São 16 participantes e uma nova geração também vem se interessando – 12 crianças ensaiam para ingressar no grupo. Mesmo dizendo não sentir um preconceito escancarado, a matriarca revela que é preciso lutar para continuar levando a brincadeira adiante.

Africanos mantiveram cultos religiosos através do sincretismo

Quando os primeiros africanos chegaram o Brasil, tiveram o seu culto religioso proibido pelos portugueses. Para se adaptarem, eles fundamentaram a relação entre os santos católicos e as entidades do candomblé, o que é chamado de sincretismo religioso. O professor de filosofia Fábio Medeiros falou sobre assunto.

A comunidade Portão de Gelo, em Olinda, é um quilombo urbano: o primeiro a ter a área demarcada dentro de uma cidade no Brasil. O centro social e cultural do quilombo é o Terreiro de Xambá. “O que mais vemos é justamente a perspectiva de como a religião é um elemento significativo, principalmente de matriz africana. A tradição está sendo mantida nesse terreiro. O que é interessante para o estudo sociológico é a vivência desse terreiro inserido na comunidade e a expressão da vida da comunidade em si. E isso faz com o terreiro faça parte dos trabalhos, afazeres, do comprometimento da vida. Nesse sentido, se une a esses eventos que compõem as diferenças, necessidades da vida coletiva e responsabilidades”, comentou o professor.

Para os seguidores da religião de matriz africana,  São Jorge é Ogum; Santa Bárbara, Iansã. Essa relação entre os santos católicos e as entidades do candomblé foi uma forma que os escravos africanos que vieram ao Brasil encontraram para driblar os senhores de engenho e continuar realizando seus rituais sem perseguições.

O preconceito ainda existe, mas aos poucos vai sendo vencido. “As pessoas respeitam mais, como cidadãos. Agora, queremos ser respeitados mais como religião. Os artistas, como Clara Nunes, que particularmente se abriu para canais de TV dizendo que era de religião de matriz africana, deu sensibilidade maior, de a gente se sentir mais acolhido dentro da sociedade. Quando viemos da África, trouxemos também nossa religião e queremos poder dizer que Xangô é Xangô, Iemanjá é Iemanjá”, comentou o babalorixá Ivo de Xambá.

O sincretismo religioso, então, aparece como uma forma de continuar cultuando as suas divindades. “Nesse sentido, aqui presenciamos a resistência através do sincretismo. Ou seja, os orixás, elementos da natureza, se apresentam em especial por trás dos santos católicos”, destacou Fábio Medeiros.

O Brasil é um estado laico, o que significa que os brasileiros podem escolher a religião que pretendem praticar sem retaliações, perseguições ou preconceito. Para que crenças completamente diferentes convivam em um mesmo país, cidade ou bairro em paz, o melhor caminho é o conhecimento. “Como fé é diferente, mas também busca ideias que todo ser humano busca em especial na construção de vida, que é a felicidade, o bem comum”, finalizou o professor.

Quilombolas de Paratibe, na PB, lutam para preservar tradições

Existem 23 quilombos na Paraíba, formados por negros remanescentes de escravos, sendo dois urbanos e 21 rurais. Apesar de não titulados, eles estão reconhecidos pela Fundação Cultural Palmares, do Ministério da Cultura. Outros 12 estão em processo de reconhecimento no Estado.

Uma comunidade quilombola rural localizada em Paratibe, no bairro de Valentina, em João Pessoa, possui aproximadamente 120 famílias remanescentes dessa população originária do período escravocrata. Ela se formou há aproximadamente 130 anos, segundo estudos de pesquisadores de História, mas a atual invasão do local por loteamentos, condomínios e forasteiros está descaracterizando o quilombo, bem como a própria auto-estima da comunidade como descendente de africanos.

Esta comunidade de Paratibe, reconhecida como quilombo em 11 de julho de 2006, e a de Talhado, reconhecida em 12 de julho de 2005, situada no município de Santa Luzia, são os dois únicos quilombos urbanos da Paraíba. Outro quilombo localizado em João Pessoa é Mussumago, que sequer teve ainda o auto-reconhecimento pelo Ministério da Cultura. No Brasil, já se tem notícia de mais de 2.790 quilombos, sendo que, desses, 1.178 já receberam certificado da Fundação Cultural Palmares.

O auto-reconhecimento possibilita aos quilombos acesso a uma série de benefícios na área das políticas públicas. Desde 2003, o governo federal vem priorizando nesse setor as comunidades tradicionais – população indígena, quilombolas e ciganas, o que se configurou numa grande conquista das populações, uma vez que, na maioria das vezes, na Paraíba, as comunidades tradicionais não possuem acesso à terra, com exceção das duas urbanas, de Paratibe e Talhado (em Santa Luzia).

A líder comunitária do quilombo de Paratibe, Joseane Pereira da Silva Santos, disse que as pessoas têm cedido ao preconceito e falou da dificuldade para reafirmar a comunidade como quilombo. Embora o reconhecimento como quilombo tenha trazido benefícios na área de políticas públicas, como habitação, infra-estrutura, saneamento, saúde, educação, ela disse que os moradores parecem ter vergonha da própria origem, renegando inclusive as raízes negras.

“Tínhamos nossos costumes na comunidade, mas as pessoas foram deixando de lado por causa do preconceito, a comunidade não estava se aceitando, queria esquecer o passado. Os loteamentos foram chegando e nossa origem ficou para trás”, revelou Joseane. Ela e o grupo comunitário estão tentando resgatar, através da conscientização, a auto-estima do quilombo.

Quando os primeiros habitantes do quilombo se estabeleceram em Paratibe, eles sobreviviam da coleta de frutos, do caranguejo, plantio de roças, extração de lenha, da carvoaria, caça e pesca, mas atualmente quase tudo está esgotado naquela região, bem como os costumes e cultura local também não sobreviveram.

O pesquisador Acácio Gouveia disse que a comunidade não conseguiu preservar costumes tradicionais como a ciranda, o coco de roda, folguedos, o banho de rio, as festas religiosas, o “fazimento de quartos” (culto aos doentes e defuntos), os funerais com as excelências, o curandeirismo, os cultos religiosos de matriz africana, como umbanda e candomblé. “Há uma senhora que ainda pratica o candomblé, em Paratibe, mas por causa do preconceito, ela não diz”, informou o pesquisador.

Um dos integrantes da Associação de Apoio às Comunidades Afrodescendentes da Paraíba (AACADE), Francimar Fernandes de Sousa, disse que o problema se estende a todo o Estado, não apenas a Paratibe.“Não identificamos a religião de matriz africana nas comunidades afrodescendentes auto-reconhecidas da Paraíba, acredito que por causa do preconceito e da influência do catolicismo”, relatou.

Para ele, “preservar a memória da comunidade é tornar visível a trajetória do quilombo”. Ele contou que a criação do conjunto do Valentina de Figueiredo, há mais de 20 anos, é um dos motivos por que ocorreu a descaracterização do quilombo, com a vinda de pessoas dos mais diversos lugares da Paraíba, das mais diversas raças.

“Hoje, tem crianças aqui que não se consideram negras, porque passaram para elas que negro não tem valor”, contou a líder comunitária de Paratibe, Joseane Pereira. Ela denunciou o preconceito vivenciado nas duas escolas do local, Antônia do Socorro Silva Machado e Jubileu de Ouro, que não são preparadas para a realidade do quilombo.

A dificuldade de resgatar as origens do quilombo também se deve ao fato de haver divisão entre pessoas tradicionalistas, que querem resgatar a sua história ligada ao povo africano, escravizado, e aqueles que preferem esquecer o passado. Grande parte dos descendentes daqueles negros venderam suas terras para a construção de loteamentos. Muitos se casaram com pessoas que chegaram de fora, e a maioria das pessoas mais velhas do quilombo já faleceu. Ainda existem idosos na média dos 70 anos, no quilombo de Paratibe, mas não há mais vestígios nem cultural nem do patrimônio material ligado àquele povo, como pilões, cerâmicas, correntes, algum tipo de relíquia ou mesmo fotografias da época dos descendentes mais antigos dos negros que se instalaram na região. A história do quilombo desapareceu com o tempo. ‘Tem muita gente que não quer ser negro’

Antônio Albino Pereira da Silva, de 76 anos, é um dos remanescentes mais antigos de Paratibe. Ele tem 12 filhos, 28 netos e 7 bisnetos, e tem orgulho de ser negro e de pertencer ao quilombo. “Tem muita gente que não quer ser negro, mas eu sou e com orgulho”, disse. Sua esposa, a artesã Maria de Nazaré Pereira da Silva, tem 72 anos, também nasceu e cresceu em Paratibe, e está feliz com os avanços conseguidos pela comunidade, que inclusive teve as casas de taipa substituídas por casas de tijolos, entregues pela Prefeitura de João Pessoa, construída através do programa “Minha Casa, Nossa Cidade”.

A pesquisadora Solange Rocha, da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), que estudou a existência, já no século XVIII, de vestígios dos remanescentes de negros do tempo da escravidão, no Estado da Paraíba, disse que “é natural que as pessoas queiram esquecer o passado dolorido da escravidão, pois a questão do racismo no Brasil é muito forte”, frisou.

O morador de Paratibe Eraldo Miguel da Silva, de 63 anos, disse que, segundo lhe contaram seus pais, a comunidade se originou da instalação de sete pessoas na região. “Hoje em dia está uma cidade”, frisou. Ele não admite ser remanescente de escravos, mas também não conhece a própria descendência, pois seus pais e avós não lhe passaram essas informações. “Eu me preocupo em buscar a história da gente para não morrer junto com os mais velhos”, ressaltou a líder comunitária Joseane Pereira da Silva.

 

Fonte: Por Larissa Bastos e Thiago Gomes, na Gazetaweb/G1/Observatório Quilombola/Municipios Baianos

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