09/07/2017

A educação não é mais a saída e o que sobra é a resistência

 

Cérebros ou nádegas. Quem não tem dinheiro não estuda. Se tudo der errado. As últimas pérolas dos mercadores e dos compradores da educação alienante no Brasil. Um professor da Unicamp, um deputado, alguns alunos do ensino médio. Quem são esses personagens de um cenário educacional mais amplo bastante preocupante? Apenas alguns dos muitos que atacam o sistema de cotas nas universidades públicas, que defendem que essa mesma universidade se destine a quem pode pagar por ela e que acreditam no sucesso material e na bobagem da meritocracia.

Instituições, como escolas e universidades, públicas ou privadas, não existem no vácuo, mas em contextos sociais muitas vezes graves e confusos, os quais ela vem, perigosamente, reproduzindo. Há sete anos, venho estudando os impactos desses contextos nessas instituições que, em princípio, deveriam ser o refúgio e a defesa da ética, da estética, do saber, do conhecimento desinteressado – como defendia Nietzsche –, das discussões produtivas, da descolonização do saber, do cultivo da visão e do fazer coletivos e, no caso brasileiro, da identidade da América Latina. Em princípio...

Nesta contemporaneidade, abrem-se escolas de princesas, contratam-se pedagogos como babás, configura-se o ensino superior como um ensino médio um pouco melhorado, diretores de escola apoiam o escola sem partido, o governo pós-impeachment estabelece um teto cruel à educação por 20 anos, pais terceirizam seus filhos para escolas que já têm até lavanderias, coachs e plataformas importadas tomam o lugar do professor com seus discursos vazios.

Em épocas de ultraneoliberalismo, pais viraram clientes, alunos são preparados para o vestibular desde o 1º. Ciclo do Ensino Fundamental, professores viraram produto e abaixaram suas cabeças rapidamente, muitas vezes, sem sequer perceberem a própria desvalorização. Os sindicatos se enfraquecem vertiginosamente, sob políticas trabalhistas desfavoráveis e em uma inação que aumenta as dificuldades dos professores em resistirem ao massacre. A visão crítica agoniza; a visão coletiva vira utopia; o questionamento foi substituído pelo simpático consentimento mudo, vazio e covarde.

O professor é hoje um profissional derrotado economicamente, politicamente, ideologicamente. Muitos tentam resistir, mas, como em tempos imemoriais, sequer são entendidos naquilo que defendem. Milton Santos já disse que o intelectual é o ator social mais oprimido no Brasil, e Darcy Ribeiro já revelou que a crise na educação do Brasil não é uma crise, é um projeto ideológico.

As peças do jogo educacional se encaixam, na prática e na teoria. Como chegamos até aqui? De vários modos. Um deles foi e é a falta de questionamento. Como disse Cornelius Castoriardis, o problema da condição contemporânea de nossa civilização moderna é que ela parou de se questionar. Não formular certas questões é extremamente perigoso, mas o sistema se estrutura de modo a mostrar que fazê-lo também o é. Está criado o jogo de tensões entre os silenciosos e os questionadores. Todos pagam um preço, o de perderem a dignidade ou de causarem estranhamento, o qual deveria ser desejável na educação, mas não é. Não é porque esse projeto ideológico de que fala Darcy Ribeiro garantiu gerações e gerações de professores, mesmo mestres ou doutores, acríticos, formatados em cursos superiores, públicos ou privados, voltados para a técnica e para o mercado.

No outro lado desse mundo como perversidade, a mídia oficial ajuda muito no processo de decadência ética, intelectual, crítica. Tira proveito e provoca, dialeticamente, a pocotização de muitos, como adjetivou Luciano Pires, desviando as atenções das questões realmente importantes: anestesia milhões de telespectadores, a cada dia, com a exposição da violência; transforma algumas das pessoas mais estúpidas em celebridades; dita rumos políticos; tira do debate o que convém ser tirado e decide qual será o assunto do dia, no café da manhã, no almoço e no jantar.

O desconhecimento histórico e social do que as cotas e outros auxílios já fizeram a estudantes universitários e suas famílias, a falta de ética secular da política brasileira e o pensamento elitista e falacioso da meritocracia da classe média rondam o cotidiano educacional no Brasil. Perpetuam Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor.” Entram nas engrenagens sociais, alcançando universidades, onde já há alunos de pós-graduação, mestrandos e doutorandos, querendo ser príncipes e princesa, no que parece ser um processo de disneilandização sem volta.

Darcy Ribeiro disse que tentou fazer uma universidade séria e fracassou. Sim. Neste momento, ninguém poderia consolá-lo. Em várias escolas e universidades, públicas e privadas, muita coisa deu errado. O modo como muitos adolescentes chegam e saem do ensino médio explica parte desse fracasso. A educação, ao que tudo indica, não é mais a luz no fim do túnel, sempre duramente atacada pelo próprio Estado. Ela segue reproduzindo e reforçando, dialeticamente, a violência e a exclusão social. A saída é nos lembramos de como Darcy Ribeiro completa o próprio pensamento, “Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”, e ficarmos sempre atentos a de que lado estamos.

Documento reúne orientações para efetivar educação inclusiva

Um documento que traz orientações para professores de como fazer a educação inclusiva de fato acontecer para estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação foi lançado, nesta sexta-feira, 7, pela Secretaria da Educação do Estado da Bahia no auditório da Biblioteca Pública do Estado da Bahia (Barris), em Salvador.

Durante o lançamento, o secretário estadual da Educação, Walter Pinheiro, informou que o primeiro passo a ser dado será o trabalho das diretrizes da educação inclusiva de forma integrada, aproveitando a estrutura consolidada que já existe nos centros de atendimento especializado, como o Pestalozzi, a partir do levantamento do que acontece em cada escola. “Com o envolvimento de todos os professores e profissionais que trabalham na área, vamos tratar o tema como uma política importante e não como algo periférico”, afirmou Pinheiro, que também anunciou um concurso público, previsto ainda para este ano, que contemplará professores e coordenadores pedagógicos especializados na área.

Além disso, o secretário acrescentou que o desafio consiste em tratar a educação inclusiva “com responsabilidade”, com o envolvimento dos municípios, para que as diretrizes possam fluir em todas as 1.282 escolas da rede estadual. “Nosso objetivo é tornar a educação inclusiva o centro das atenções da rede, não só em Salvador, mas em todos os Territórios de Identidade”, frisou Pinheiro.

A representante de pais de alunos com deficiência, Mirian Brito, 50, há 16 anos acompanha a sobrinha Narja Brito, de 26 anos, que estuda no Colégio Estadual Vitor Soares, na Ribeira. Mirian contou que, mesmo com todo o empenho da instituição em receber a jovem, sentia a necessidade de acompanhá-la nas aulas.

“É preciso uma atenção redobrada para esses alunos. Não adianta incluí-los com alunos ‘regulares’, sobre o domínio de apenas um professor na sala. Tem que haver uma forma de atender a cada necessidade, e eu espero que, com essa educação inclusiva, esse quesito seja cumprido”, disse ela.

Formação

Os primeiros passos, segundo o superintendente de políticas para a educação básica, Ney Campello, começam pelo campo da formação de professores, preparação física nas escolas para a acessibilidade e no campo de programas educacionais ofertados na rede. “Não podemos pensar em educação sem oferecer condições iguais para que todos os estudantes tenham acesso ao serviço educacional. A educação inclusiva tem enorme relevância. Hoje o preconceito perdeu força e a gente percebe o quanto é necessário que a secretária pense estratégias e políticas”, apontou Campello.

Coordenadora

Para a coordenadora de educação inclusiva do estado, Patrícia Braile, as diretrizes qualificarão ainda mais o atendimento a esses estudantes. “Este é um momento histórico porque há mais de 40 anos não se publicava um documento sobre a educação inclusiva no estado. Existia esta dívida com a sociedade. A partir de agora, vamos todos – Secretaria da Educação, escolas, centros – concentrar esforços para que as diretrizes se concretizem no cotidiano, com práticas pedagógicas inclusivas”, disse a gestora.

Grupo Temático de Gênero, Raça e Etnia da ONU discute situação das mulheres negras no Brasil

Recém-nomeada defensora dos Direitos das Mulheres Negras da ONU Mulheres Brasil, Taís Araújo foi apresentada pela representante da ONU Mulheres Brasil, Nadine Gasman, ao Grupo Temático de Gênero, Raça e Etnia do Sistema das Nações Unidas no Brasil, uma das instâncias de articulação e gestão da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável e da Década Internacional de Afrodescendentes. O encontro ocorreu na segunda-feira (3), na Casa da ONU, em Brasília. No encontro, o GT expôs o trabalho de articulação e monitoramento. Ana Carolina Querino, gerente de programas da ONU Mulheres Brasil, destacou as ações do Plano de Trabalho da ONU Brasil para a Década Internacional de Afrodescendentes, alinhado com o princípio de não deixar ninguém para trás, focando nos grupos em situação de maior vulnerabilidade, preconizado na Agenda 2030 e nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Na apresentação, a ONU Mulheres destacou os desafios brasileiros apontados pela Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, ocorrida em 2015, e a estratégia de comunicação e advocacy “Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50 em 2030″, desenvolvida desde março deste ano pela agência da ONU. Um dos marcos do lançamento da estratégia foi a nomeação de Kenia Maria, defensora dos Direitos das Mulheres Negras da ONU Mulheres Brasil, no Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, e a mobilização de youtubers negras. “Comunicar para muito mais gente. Comunicar para os meus iguais, para os meus diferentes. Tentar elucidar quem precisa ser elucidado e sensibilizar quem precisa ser sensibilizado. Trazer para a luta, porque, de fato, com esse abismo social entre homens brancos e mulheres negras, a gente não avança”, disse Taís Araújo, defensora dos Direitos das Mulheres Negras da ONU Mulheres Brasil. “Temos que elaborar e pensar outros artifícios para que a gente consiga sair desse lugar que a gente se colocou como sociedade, baseada em privilégios. Eu hoje me coloco à disposição da ONU Mulheres, na defesa dos direitos das mulheres negras e em favor do empoderamento das mulheres”, completou.

Direitos das mulheres negras

Na saudação à defensora da ONU Mulheres, o coordenador-residente da ONU Brasil, Niky Fabiancic, frisou o compromisso da Organização com a eliminação do racismo.

“Sabemos que são muitos os desafios, no Brasil, para os direitos humanos de afrodescendentes e, particularmente, os direitos das mulheres negras. As mulheres negras no Brasil estão em larga desvantagem no mercado de trabalho, vivenciando os impactos das desigualdades de gênero e raça. Ainda hoje, o trabalho doméstico é a principal porta de entrada das mulheres negras no mercado de trabalho e é onde a violação de direitos é mais evidente”, disse.

“Sabemos que a luta pela igualdade não pode esperar. A ONU trabalha, todos os dias, para que as mulheres negras tenham os seus direitos respeitados. E hoje, ganhamos um reforço enorme com o seu trabalho. Seja bem-vinda Taís, à nossa família, como defensora dos Direitos das Mulheres Negras”, disse Fabiancic.

Nadine Gasman salientou a persistência das desigualdades de gênero e raça, as quais demandam medidas focadas na interseccionalidade. “Comparando há 50 anos, estamos em outro patamar, mas não estamos onde queremos estar. A gente sempre fala que mesmo num patamar mais alto não é assim para todas as mulheres. Por isso, o tema da intersecção entre gênero e raça, gênero e etnia, idade, entre outros, é tão importante para identificar as mulheres no plural. Por isso, a ênfase. Tudo o que a gente fala é no plural”, afirmou a representante da ONU Mulheres.

No final da reunião, Fabiancic ressaltou o empoderamento político das mulheres como uma das áreas de concentração do trabalho da ONU. “O empoderamento econômico e o fim da violência são temas importantes. São mais de 100 milhões de mulheres no Brasil e somente um dos 27 estados é governado por uma mulher”, declarou. “Temos que trabalhar para ter mais mulheres em posição de poder no Congresso, governadoras, vereadoras. Isso requer uma campanha com ação afirmativa. As medidas tomadas até agora são insuficientes. Temos que trabalhar, a longo prazo, para reverter essa situação de desigualdade”, completou o coordenador-residente da ONU Brasil.

 

Fonte: Por Denise Silva Macedo, em CartaCapital/A Tarde/ONU Brasil/Municipios Baianos

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