11/07/2017

Símbolo do Nordeste, jumentos sofrem abandono crescente

 

Avanços tecnológicos, modernização dos meios de produção e urbanização são alguns dos fatores apontados para tornar o jumento, símbolo da cultura nordestina, um animal anacrônico. Ambientalistas e defensores do animal afirmam que famílias rurais estão deixando de incluí-lo nas atividades domésticas e econômicas. Reflexo disso é o aumento do número de jumentos recolhidos nas estradas pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran) este ano. De janeiro a junho, 6.655 animais foram resgatados pelo órgão. Segundo o Detran, destes, cerca de 90% são jumentos. No mesmo período do ano passado, o número de jumentos deixados nas CEs foi 3.267, e, durante todo o ano de 2016, foram 6.537 abandonos.

O abandono se reflete muitas vezes em acidentes nas estradas. Nas vias federais que cruzam o Ceará, foram 140 acidentes com atropelamento de animais em 2016, ocasionando a morte de cinco pessoas, de acordo com a Polícia Rodoviária Federal. Neste ano, até 26 de junho, foram 84 acidentes com 36 feridos e duas mortes de pessoas. Historicamente, o animal faz parte da construção das cidades do sertão, utilizado como força de tração na construção de barragens, açudes e estradas, conta o jornalista e ambientalista Eduardo Aparício. Para ele, “a cultura nordestina tem uma dívida enorme com o jumento”.

'Jumento, nosso irmão'

O Detran dispõe de 14 caminhões para o resgate dos animais nas CEs. Após a captura, os jumentos são recolhidos para a fazenda Paula Rodrigues, em Santa Quitéria, a 222 km de Fortaleza. Atualmente, cerca de quatro mil jumentos vivem na área de 500 hectares, junto com cavalos, bovinos, caprinos e ovinos, estes doados ou resgatados de tempos em tempos, diferente dos jumentos, que permanecem no local até morrer. Os animais recebem cuidados do único veterinário da fazenda, com ajuda de quatro funcionários. Segundo o administrador do local, Raimundo Torquato, a vida média de um jumento é de 15 anos, mas muitos chegam em situação precária ou atropelados e não sobrevivem muito tempo. A base alimentar dos jumentos é o capim que cresce com a ajuda das chuvas. No início do ano, a ONG francesa One Voice suspendeu a suplementação alimentar de milho que ajudava o local, alegando falta de condições, afirma a presidente da União Internacional Protetora dos Animais (Uipa-CE), Geuza Leitão. De acordo com ela, há negociações com a ONG The Donkey Sanctuary, da Inglaterra.

Aparício elogia o trabalho realizado pelo Detran. “Enquanto em outros estados, como no Rio Grande do Norte, há discussões para resolver o problema vendendo o animal para a China, aqui nós temos o único órgão do país que recolhe e dá condições de sustento”. Outra proposta vinda do Rio Grande do Norte foi fornecer os animais para alimentação de presos. Mas também destaca melhorias necessárias na fazenda. “Precisa de manejo, mais tratadores, pessoas que trabalhem lá dentro, um reflorestamento, mais áreas de sombreamento para os jumentos brancos que não podem pegar sol, mais plantio de capim nas margens do açude”, enumera.

Santuário dos jumentos

O maior objetivo de Aparício e Geuza é transformar o lugar em uma espécie de santuário, com parque e museu do jumento, homenageando o cearense Padre Vieira (1919-2003). A ideia é antiga, mas falta investimento. Hoje esquecido nos currais para onde são recolhidos após o resgate, o jumento já foi considerado um bem ou até parte da família no interior, destinado a auxiliar serviços domésticos, como carregar água, e de transporte. Padre Vieira, jornalista, escritor e político, tornou-se um dos principais admiradores e defensores do animal, evidenciando a causa na obra “Jumento, Nosso Irmão”, imortalizada pela inspiração de Luiz Gonzaga nos versos da música “Apologia ao Jumento”.

Segundo Aparício, o museu pode ser um modelo para iniciativas privadas e favorecer o aparecimento de atividades econômicas com apelo turístico na região. “Recebo e-mails de paulistas, de gente do Rio Grande do Sul, da Alemanha. Para eles, é um animal exótico. Seria um espaço para aliar proteção, conhecimento sobre o animal, área de pesquisas, reprodução assistida. E também de passeio, interação com a caatinga, de educação ambiental, onde o Detran fizesse campanhas sobre cuidados com animais”, explica. Na fazenda, os jumentos ficam separados por sexo para controlar a reprodução. Geuza e Aparício são contra qualquer forma de comercialização do animal, inclusive a oferta de leite. Envolvido na causa há pelo menos cinco anos, Aparício lamenta a associação do jumento a adjetivo depreciativo, e o classifica como um animal “especialíssimo e inteligente”.

Jumento x Moto: Abandono em massa sem políticas de manejo leva ao abate

A seca dos últimos dois anos agravou a situação de abandono dos jumentos no Nordeste, o jumento ficou, na expressão dos próprios nordestinos, “sem serventia”. Descartado no transporte de cargas, idosos e crianças, centenas deles estão sendo expulsas das fazendas, colocadas do lado de fora das cercas, ao deus-dará. Com fome e sem ter onde ficar perambulam pelas estradas em busca de comida. Provocam acidentes graves. Morrem e causam mortes. O jumento estraga o pasto, compete com o boi pela comida. Os grandes (fazendeiros) não querem mais, e os pequenos não têm nem lugar onde pôr. A situação dos jumentos no Nordeste se arrasta desde que as motocicletas se popularizaram, vendidas a prestações de R$ 60 até em lojas de móveis da região. Segundo o IBGE, o Nordeste tem 877.288 jumentos, quase a totalidade (90%) dos representantes da espécie no país. Apenas Maranhão, Ceará e Piauí ainda têm mais de cem mil animais cada um.

Segundo a Polícia Rodoviária Federal, o Nordeste registrou 1.783 acidentes com atropelamento de animais nas estradas em 2012. O estado com maior número de casos foi a Bahia, com 429 acidentes que resultaram na morte de 18 pessoas no ano passado. A Bahia é também o dono do maior rebanho de asininos do país — 254.277 cabeças, segundo dados do IBGE de 2011. Em Pernambuco, o atropelamento de animais na pista causou 16 mortes em 2012. No Piauí, foram 260 acidentes, com cinco mortes. Na maioria das vezes, o animal em questão é o jumento. O problema é tão grave que a Polícia Rodoviária Federal e os Detrans estaduais passaram a criar estruturas para recolher os jumentos nas rodovias. No Ceará, o Detran apreendeu 11 mil jumentos no ano passado.

Os animais sadios, como cavalo e burro, são doados para associações. Bois, vacas e carneiros vão para entidades beneficentes, para alimentação. Mas, o jumento, ninguém quer, muitos jumentos recolhidos estão machucados, com as pernas quebradas, sem casco ou até mesmo com orelhas e rabo cortados. Para ajudar, a Uipa do Ceará conseguiu doação da ONG francesa One Voice e compra milho. Só no ano passado foram apreendidos 2.500 animais que vagavam pelas estradas federais que cortam o Piauí. A maioria jumentos. Não é raro que sejam novamente soltos dois ou três dias depois e voltem a vagar pelo asfalto.

De acordo com o estudo do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2012, uma em cada quatro residências dessas áreas contam com motos. No Sudeste, essa proporção é de um para quase sete domicílios. Em 2013, o número de motocicletas cresceu 12% tanto no Norte como no Nordeste. Esse boom é produto da equação entre baixo desemprego, políticas de transferências de renda, boa oferta de crédito e transporte público de baixa qualidade. Tornando o Norte e o Nordeste os principais mercados para a indústria de motos. Porém o incentivo do governo federal a essa alternativa de locomoção se deu de forma “irresponsável”, pois as pessoas não são alertadas sobre perigos e vulnerabilidade do motociclista. Acidentes envolvendo motos provocaram 4.041 mortes no Nordeste brasileiro (7 por 100 mil habitantes) em 2011, segundo Datasus.Não há políticas públicas de educação para o trânsito, de treinamento para a habilitação e de fiscalização.

Nos últimos dez anos, a quantidade de motos no Nordeste disparou. Em 2001, eram 766.886 motocicletas registradas pelo Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), o que significava 18% da frota regional. Em junho de 2011, a quantidade de motocicletas era de 3.662.463, um crescimento de 377% em dez anos e que hoje representa 36% da frota da região – no país, essa média é de 21%. O número de motos já é maior que o de automóveis em três dos nove Estados nordestinos – Ceará, Maranhão e Piauí.

A compra de motos causou uma desvalorização dos jegues ao longo dos anos. Hoje se vende jegue, a depender de seu estado de saúde e idade, por R$ 5. Tem muito animal no mercado. Muitos donos desistem de tentar vender e soltam esses animais na rua, nas pistas. Segundo o Detran do Ceará, no primeiro semestre deste ano foram apreendidos mais de 7.500 jegues soltos em ruas e rodovias –o que representa mais de 80% das apreensões de animais soltos. O avanço da frota preocupa o Ministério Público Estadual (MPE), não pelo número em si, mas em razão de os não habilitados serem maioria, principalmente no Interior. Cerca de 2,5 mil jumentos são retirados das rodovias da Paraíba, por ano, e encaminhados aos municípios onde existem depósito de animais de grande porte que são poucos.  No estado, são quatro cidades que recebem os animais recolhidos das estradas, tanto pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) como pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER). Esses números representam mais de 50% dos animais recolhidos nas estradas. Eles são levados para depósitos localizados nas cidades Cajazeiras e Patos (ambas no Sertão paraibano) e para Campina Grande (na região do Agreste). A cidade de Cabedelo, na Região Metropolitana de João Pessoa, recebe os animais recolhidos por todo o Litoral do estado. Nesses quatros depósitos os gestores reclamam que os locais vêm se transformando em criatórios de jumentos, porque ninguém aparece para resgatá-los. Fica caro para a Prefeitura manter os bichos sob o cuidado. Ele conta que a ração está muito cara e, além disso, há também despesas com mão de obra e transporte. Ainda há também a assistência veterinária

Projeto de pesquisadores da UFRN tenta impedir desertificação da caatinga

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) trabalham em um projeto que pretende frear o processo de desertificação na região da caatinga. Segundo eles, 15% do território total da caatinga no país está em processo de desertificação. O trabalho é desenvolvido em uma área de 3,5 hectares da Floresta Nacional de Assu, no interior do estado. O experimento faz parte de uma rede internacional envolvendo 16 países, que também procuram impedir a desertificação em seus principais biomas e é o único na América Latina. O objetivo é investigar como a diversidade de espécies afeta o funcionamento do ecossistema. “Todos esses projetos no mundo têm um objetivo comum que é avaliar como é que diferentes níveis de diversidades de plantas podem afetar o funcionamento do ecossistema”, explicou o pesquisador Rafael Oliveira.

A caatinga é um tipo de vegetação que só existe no Brasil e está presente em 9 estados do Nordeste e no Norte de Minas Gerais. “A degradação na caatinga já chegou a 50% do território todo dela e 15% do território total está em processo de desertificação. O que significa que é urgente métodos eficazes para conseguir frear um pouco isso, combater a desertificação, e conseguir restaurar de um modo que as plantas sobrevivam a longo prazo”, explicou a pesquisadora Marina Fagundes.

O projeto de restauração ecológica da caatinga começou em 2015. Na época, 600 mudas foram plantadas por meio de métodos de plantio diferentes. Dois anos depois, os pesquisadores concluíram que plantar mudas com raízes mais longas aumenta a eficácia de sobrevivência das plantas em 75%. Em algumas espécies, a taxa de sobrevivência foi ainda maior. “Nós utilizamos 16 espécies, algumas chegaram a 96% de sobrevivência. Isso é em torno de três vezes mais que o método convencional que era utilizado em projetos de restauração do semiárido”, diz Felipe Marinho, pesquisador. Pra observar as plantas, os pesquisadores dividiram as mudas em pequenos lotes, chamados de parcelas. Em cada parcela, o nível de diversidade muda variando entre 2 e 16 espécies. “São modelos. A partir desses modelos a gente vai poder perceber qual é o melhor pra se restaurar a caatinga”, explicou Rafael.

 

Fonte: G1/Municipios Baianos

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