11/07/2017

Infecção pelo vírus da dengue não agrava quadro de zika, diz estudo

 

Uma pessoa infectada pelo vírus Zika depois de já ter tido dengue não apresenta necessariamente um quadro mais severo da doença do que alguém que não teve contato com o vírus da dengue. A conclusão é de estudo publicado na revista Clinical Infectious Diseases, no mês passado. A pesquisa foi realizada com 65 pessoas que moravam em São José do Rio Preto, no norte do estado de São Paulo, e teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Esse é o primeiro trabalho a indicar que, em seres humanos, uma infecção prévia por dengue não leva necessariamente a um quadro mais grave de zika. Em estudos anteriores, realizados somente com células e com roedores, houve a indicação que o fato de uma infecção anterior por dengue potencializaria os efeitos do vírus Zika. Segundo a Fapesp, o estudo sugere que o que ocorre com células in vitro e roedores pode não acontecer com seres humanos. “Nossos resultados indicam que esse agravamento não ocorre ou, se ocorrer, é muito raro e não pôde ser detectado em um estudo como esse”, disse o virologista e coordenador da pesquisa Maurício Lacerda Nogueira, segundo informações da Agência Fapesp.

Entre janeiro e julho do ano passado, a equipe de Nogueira coletou as amostras de sangue de pessoas com febre e sintomas de dengue ou zika atendidas em um pronto-socorro de São José do Rio Preto. A análise do material mostrou que 45 pacientes tinham infecção por zika e 20 por dengue, além de indicar que 78% daqueles com zika e 70% das pessoas com dengue já tinham sido infectadas pelo vírus da dengue em momento anterior.

Imunização parcial

De acordo com o estudo, quando surgiu a epidemia de zika, surgiram suspeitas de que a infecção prévia por dengue pudesse originar quadros mais graves, como ocorre na dengue hemorrágica. Segundo dados divulgados pela Fapesp, cerca de 90% dos casos de dengue hemorrágica atingem pessoas que já tiveram dengue antes e são infectadas por um subtipo diferente do vírus. O que ocorre é que os anticorpos produzidos pelo sistema imunológico contra um dos subtipos da dengue nem sempre consegue neutralizar o outro de maneira eficaz. “Segundo uma hipótese chamada incremento dependente de anticorpos [ADE], a imunização incompleta parece facilitar a entrada do vírus nas células do sistema de defesa em que ele consegue se reproduzir, aumentando o número de suas cópias no organismo e a gravidade da infecção. Como os vírus da dengue e da febre zika são muito semelhantes [integram a família dos flavivírus], imaginava-se que a imunização parcial observada após a infecção por dengue também pudesse ocorrer quando alguém que já teve dengue contrai zika”, de acordo com a pesquisa.

A equipe de Nogueira, com a ajuda do imunologista Jorge Kalil Filho, da Universidade de São Paulo, comparou a quantidade de cópias do vírus Zika no sangue de pessoas infectadas anteriormente com dengue com a quantidade encontrada no sangue de quem jamais foi exposto ao vírus da dengue. Se a infecção anterior por dengue facilitasse a multiplicação do Zika, a quantidade de vírus deveria ser bem mais alta no corpo do primeiro grupo de pacientes, mas não foi o que ocorreu. A concentração, segundo os pesquisadores, foi semelhante nos dois grupos. “Esses resultados não excluem totalmente a possibilidade de que a ADE [incremento dependente de anticorpos] ocorra, mas são uma evidência importante de que ter tido dengue não leva a uma infecção mais severa por Zika”, disse Kalil. “Na realidade, há relatos não publicados de que pessoas que já tiveram dengue apresentaram uma forma mais branda de infecção ao contrair zika.” Segundo Kalil, os resultados podem ajudar a diminuir o receio de algumas pessoas em relação à vacina contra a dengue. “Houve o temor de que vacinar a população contra a dengue pudesse levar a casos mais severos de zika. Os resultados que obtivemos agora indicam que esse problema não deve existir.”

Dores crônicas atingem 37% dos brasileiros, segundo pesquisa

A dor crônica é relatada por 37% dos brasileiros, aponta pesquisa da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor (SBED). Os dados desse estudo foram debatidos no 4º Congresso da Sociedade Brasileira de Médicos Intervencionistas em Dor (Sobramid), que terminou domingo (9) em Campinas, no interior paulista. Métodos inovadores como uso de estímulos elétricos com tecnologia sem fio também estiveram na pauta do encontro, que reuniu mais de 200 profissionais especializados no tratamento deste tipo de dor que persiste por, no mínimo, três meses. O anestesiologista Charles Amaral de Oliveira, presidente da Sobramid, aponta que a dor aguda, que ocorre de forma pontual, não deve ser negligenciada, pois é dela que se formam os casos crônicos. “A dor aguda acusa a pessoa de que algo de errado está no corpo e isso é um sinal de alerta. A dor crônica deixa de ser um sinal e passa a ser a própria doença. E ela vai levando a um desdobramento, que é estresse, ansiedade e depressão, que agravam a dor”, explica. “A dor, por sua vez, piora os quadros depressivos. Você entra nesse ciclo vicioso, que precisa ser interrompido.”

A pesquisa mostra que a faixa etária média de ocorrência da dor é 41 anos. Em relação ao sexo, as mulheres são maioria entre os relatos de dores crônicas na maior parte das regiões. Apenas na Região Nordeste este quadro se inverte: os homens representam 52% e as mulheres 42%. A intensidade da dor relatada foi maior de 6 (em uma escala 1 a 10) em todas as regiões do país. Esse nível é considerado moderado e suficiente para interferir nas atividades diárias. O estudo foi apresentado pela primeira vez no Brasil no Sobramid. Os dados foram divulgados em um congresso no Japão em formato de pôster ciêntífico (uma ilustração resumida da pesquisa mostrada em encontros e conferências). Foram entrevistadas 919 pessoas de todas as regiões do país, respeitando a densidade demográfica e a heterogeneidade da população apontadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além da SBED, estiveram envolvidos no trabalho as instituições Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina, Aliviar Medicina da Dor e Centro de Ensino e Treinamento Integrado de Medicina do ABC Paulista.

Inovação

Uma das técnicas de tratamento discutidas no congresso foi a neuromodulação com uso de tecnologia wireless. A estimulação elétrica para tratamento da dor já é conhecida, mas a possibilidade de não usar fios para acionar os eletrodos traz praticidade e qualidade de vida para os pacientes, segundo Oliveira. “A corrente elétrica trafega por vias de condução muito rápida e a dor vem por estradas muito lentas. Somente entende-se que é dor quando essa informação chega ao cérebro. Se a gente compete com uma corrente elétrica, colocando energia estimulando aquele nervo, ela satura a rodovia, e a dor, que vai a passos de tartaruga, não chega”, diz. O anestesiologista explica que esse método reduz o uso de medicamentos orais, que produzem efeitos colaterais e, depois de um tempo, pode não apresentar resultados. No método convencional, o eletrodo é inserido na coluna vertebral e a bateria é fixada superficialmente no final da coluna, similar a um marcapasso. Já os impulsos pela tecnologia sem fio são emitidos por um gerador acoplado a um cinto externo, que é posicionado sobre uma pequena antena implantada no corpo dos usuários. Outra vantagem, segundo Oliveira, é que exames de ressonância magnética, comumente requeridos para esses pacientes podem ser feitos sem contraindicação.

Prevenção

O uso de celulares e tablets pode ser um fator que contribua para o aumento de dores crônicas. “A cabeça na posição ereta e vamos falar que está a 0º, ela pesa 7 quilos no adulto. A cabeça na posição de 60º, cabeça passa a pesar 27 quilos. Estamos falando de maus hábitos que a tecnologia trouxe para a população”, alertou o médico. Práticas saudáveis, como boa alimentação e atividade física regular são medidas de prevenção para esse tipo de dor. Oliveira reforça a necessidade de procurar um profissional, quando a dor persiste. “A gente tem que não negligenciar a dor aguda. Automedicação todo mundo faz, mas não se pode fazer automedicação por um tempo prolongado. Se essa dor vai perpetuando por um tempo mais longo, é motivo de se procurar a ajuda”, apontou.

A resistência da gonorreia a antibióticos está em ascensão e são necessários novos medicamentos

Dados de 77 países mostram que a resistência aos antibióticos está tornando a gonorreia – uma infecção comum transmitida sexualmente – muito mais difícil e, às vezes, impossível de tratar. “As bactérias que causam gonorreia são particularmente inteligentes. Toda vez que usamos uma nova classe de antibióticos para tratar a infecção, as bactérias evoluem para resistir a eles”, disse Teodora Wi, médica, da área de reprodução humana, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A OMS registra resistência generalizada a antibióticos mais antigos e mais baratos. Alguns países – particularmente os de alta renda, onde a vigilância é melhor – estão encontrando casos de infecção que não podem ser tratados por nenhum antibiótico conhecido. “Esses casos podem ser apenas a ponta do iceberg, uma vez que faltam sistemas para diagnosticar e registrar infecções intratáveis em países de baixa renda, onde a gonorreia é mais comum”, acrescenta Wi. A cada ano, estima-se que 78 milhões de pessoas sejam infectadas com gonorreia. A gonorreia pode infectar genitais, reto e garganta. As complicações da gonorreia afetam desproporcionalmente as mulheres, incluindo doença inflamatória pélvica, gravidez ectópica e infertilidade, bem como um risco maior de HIV. Contribuem para esse aumento a diminuição do uso do preservativo, o crescimento da urbanização e das viagens, baixas taxas de detecção de infecção e tratamento inadequado ou falho.

Monitoramento de resistência a medicamentos

O programa mundial de vigilância antimicrobiana gonocócica da OMS (WHO GASP, em inglês) monitora as tendências da gonorreia resistente aos medicamentos. Os dados do WHO GASP de 2009 a 2014 encontram resistência generalizada à ciprofloxacina [97% dos países que relataram dados naquele período encontraram cepas resistentes a drogas]; aumento da resistência à azitromicina [81%]; e o surgimento de resistência ao atual tratamento de último recurso: cefalosporinas de espectro prolongado (ESC, na sigla) cefixima oral ou ceftriaxona injetável [66%].

Atualmente, na maioria dos países, as cefalosporinas de espectro prolongado são o único antibiótico que permanece efetivo no tratamento da gonorreia. Mas a resistência à cefixima – e mais raramente à ceftriaxona – já foi relatada em mais de 50 países. Como resultado, a OMS emitiu recomendações atualizadas de tratamento global em 2016, aconselhando os médicos a darem dois antibióticos: ceftriaxona e azitromicina.

Desenvolvimento de novos medicamentos

A pesquisa e desenvolvimento (P&D) para a gonorreia é relativamente baixa, com apenas três novos candidatos a drogas em vários estágios de desenvolvimento clínico: solitromicina, para a qual um estudo de fase III foi concluído recentemente; zoliflodacina, que completou um teste de fase II; e gepotidacin, que também completou um teste de fase II. O desenvolvimento de novos antibióticos não é muito atraente para empresas farmacêuticas comerciais. Os tratamentos são feitos por períodos curtos de tempo (ao contrário dos medicamentos para doenças crônicas) e se tornam menos efetivos à medida que a resistência se desenvolve, o que significa que o fornecimento de novos medicamentos precisa ser reabastecido constantemente.

A Iniciativa de Drogas para Doenças Negligenciadas (DNDi, na sigla em inglês) e a OMS lançaram uma Parceria Global de Pesquisa e Desenvolvimento de Antibióticos (GARDP, na sigla em inglês), uma organização de pesquisa e desenvolvimento sem fins lucrativos, hospedada pela DNDi, para dar resposta a esse problema. A missão da GARDP é desenvolver novos tratamentos antibióticos e promover o uso adequado, para que permaneçam eficazes durante o maior tempo possível, bem como garantir o acesso a todos os necessitados. Uma das principais prioridades da GARDP é o desenvolvimento de novos tratamentos antibióticos para a gonorreia.

“Para atender à necessidade urgente de novos tratamentos para a gonorreia, precisamos urgentemente aproveitar as oportunidades que temos com os medicamentos existentes e os candidatos. Em curto prazo, buscamos acelerar o desenvolvimento e a introdução de pelo menos um desses medicamentos, e avaliaremos o possível desenvolvimento de tratamentos combinados para uso em saúde pública”, afirmou Manica Balasegaram, diretora do GARDP. “Qualquer novo tratamento desenvolvido deve ser acessível a todas as pessoas que o necessitem, assegurando que seja usado adequadamente, de modo que a resistência aos medicamentos seja retardada tanto quanto possível”.

Prevenção da gonorreia

A gonorreia pode ser prevenida por meio de um comportamento sexual mais seguro, em particular o uso consistente e correto do preservativo. A informação, a educação e a comunicação podem promover e tonar possível práticas sexuais mais seguras, melhorar a capacidade das pessoas de reconhecer os sintomas da gonorreia e outras infecções sexualmente transmissíveis e aumentar a probabilidade de procurarem cuidados. Hoje, a falta de conscientização pública, falta de treinamento de profissionais de saúde e estigma em torno de infecções sexualmente transmissíveis permanecem como barreiras para um uso maior e mais efetivo dessas intervenções. Não há testes de diagnóstico economicamente acessíveis, rápidos e diagnósticos point-of-care para gonorreia. Muitas pessoas que são infectadas com gonorreia não apresentam sintomas, então não são diagnosticadas nem tratadas. Por outro lado, no entanto, quando os pacientes apresentam sintomas, como a descarga da uretra ou da vagina, os médicos geralmente presumem que é gonorreia e prescrevem antibióticos – mesmo que as pessoas talvez estejam sofrendo de outro tipo de infecção. O uso geral inapropriado de antibióticos aumenta o desenvolvimento da resistência da gonorreia aos antibióticos, bem como de outras doenças bacterianas. “Para controlar a gonorreia, precisamos de novas ferramentas e sistemas para melhor prevenção, tratamento, diagnóstico precoce, além de rastreamento e registro mais completos de novas infecções, uso de antibióticos, resistência e falhas no tratamento”, disse Marc Sprenger, diretor de Resistência Antimicrobiana da OMS. “Especificamente, precisamos de novos antibióticos, bem como testes de diagnóstico rápidos, precisos e de diagnósticos point-of-care – idealmente, aqueles que podem prever quais antibióticos irão funcionar naquela infecção particular – e um prazo mais longo, uma vacina para prevenir a gonorreia”.

 

Fonte: Agência Fapesp/Agencia Brasil/Ascom OMS/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!