11/07/2017

Salvador: Evangélicas são as que menos denunciam violência doméstica

 

Se os membros da Igreja Assembleia de Deus em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), fossem descrever a aposentada Vanúcia dos Santos, 48 anos, é provável que, entre as palavras, estivesse a expressão ‘mulher de oração’. Evangélica há quase nove anos, as preces eram tão presentes em sua vida que, no dia 23 de junho, chegou a pedir à nora que fizesse uma ‘campanha de oração’ pelo companheiro, de quem tinha se separado há poucas semanas.

Vanúcia acreditava que o marido, o marceneiro José Cosme Alves de Brito, 51, estava ‘doente espiritualmente’. A bebedeira, as traições e o comportamento violento não passavam de uma fase daquele homem que, até então, aparentava compartilhar da mesma fé que ela. Mas a campanha nunca teve a chance de ser iniciada. No dia seguinte, 24 de junho, a aposentada foi vítima de um feminicídio: foi morta a facadas por José Cosme, segundo parentes e vizinhos.

Como ela, outras mulheres evangélicas têm sofrido caladas. As evangélicas são as que mais buscaram ajuda no Centro de Referência de Atenção à Mulher Loreta Valadares, este ano, mas também são as que menos vão às delegacias registrar denúncia.  A própria Vanúcia nunca tinha buscado a polícia. Sequer dava mostras do que acontecia na intimidade do casal – a família só conheceu mais dos problemas nos dias seguintes à tragédia.

Diante de toda sua fé, Vanúcia acreditava que seu casamento voltaria às boas. José Cosme voltaria a ser amoroso e atencioso. “Ela acreditava que, se foi Deus que deu o casamento, ele (Deus) também restauraria aquela união”, conta a nora da aposentada, sem se identificar.

Se os membros da Igreja Assembleia de Deus em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), fossem descrever a aposentada Vanúcia dos Santos, 48 anos, é provável que, entre as palavras, estivesse a expressão ‘mulher de oração’. Evangélica há quase nove anos, as preces eram tão presentes em sua vida que, no dia 23 de junho, chegou a pedir à nora que fizesse uma ‘campanha de oração’ pelo companheiro, de quem tinha se separado há poucas semanas.

Vanúcia acreditava que o marido, o marceneiro José Cosme Alves de Brito, 51, estava ‘doente espiritualmente’. A bebedeira, as traições e o comportamento violento não passavam de uma fase daquele homem que, até então, aparentava compartilhar da mesma fé que ela. Mas a campanha nunca teve a chance de ser iniciada. No dia seguinte, 24 de junho, a aposentada foi vítima de um feminicídio: foi morta a facadas por José Cosme, segundo parentes e vizinhos.

Como ela, outras mulheres evangélicas têm sofrido caladas. As evangélicas são as que mais buscaram ajuda no Centro de Referência de Atenção à Mulher Loreta Valadares, este ano, mas também são as que menos vão às delegacias registrar denúncia.  A própria Vanúcia nunca tinha buscado a polícia. Sequer dava mostras do que acontecia na intimidade do casal – a família só conheceu mais dos problemas nos dias seguintes à tragédia.

Diante de toda sua fé, Vanúcia acreditava que seu casamento voltaria às boas. José Cosme voltaria a ser amoroso e atencioso. “Ela acreditava que, se foi Deus que deu o casamento, ele (Deus) também restauraria aquela união”, conta a nora da aposentada, sem se identificar.

  • O QUE DIZEM OS PASTORES?

No Centro Loreta Valadares, as evangélicas são mais de 30% das mulheres que estão sendo acompanhadas. Esse número surpreende ou já é uma realidade conhecida?

Lorena Brandão: "O crescimento do Evangelho é notório em toda a sociedade. Hoje, somos quase metade do país. Mesmo que isso não indique muita coisa, é difícil falar se isso surpreende ou se é uma realidade. Temos que tratar todos os casos de forma igual. A violência contra a mulher vai além da religião. É um crime e tem que ser investigado. Sendo surpresa ou realidade, a Igreja sempre apoiará a vida e a felicidade de acordo com padrões bíblicos".

Isaías Lins: "Esse número para mim não é, digamos assim, novidade, mas os esposos dessas mulheres não são evangélicos. Quando são homens evangélicos, esses acontecimentos raramente acontecem. Esses acontecimentos raramente são efetivados porque, na verdade, quem tem o princípio moral e espiritual não agride as mulheres. Mas a mulher, quando agredida, deve imediatamente procurar a Deam e a Vara da Mulher".

Em sua trajetória como bispa/como pastor, já se deparou com casos de violência contra a mulher dentro do ambiente da igreja? Se sim, é algo comum ou mais raro? Como procedeu diante da situação?  Deu alguma orientação para a vítima?

Lorena Brandão: "Posso dizer que é difícil o conhecimento da nossa parte. Essas vítimas, e os estudos podem confirmar isto, às vezes têm vergonha, medo de contar a alguém o que vem sofrendo. Muitas apenas se calam e até deixam de ir para a Igreja. Nós fazemos acompanhamento sentimental, psicológico, visitamos as suas residências e auxiliamos no que é necessário para que essas pessoas sigam a vida delas com excelência".

Isaías Lins: "Nesse aspecto de agressão, de marido bater em mulher, não. Violência psicológica, se aparecer, eu chamo o cara na mesma hora. Não admito, não. A minha ideia é que em mulher não se bate nem com uma flor".

Nas igrejas, como o tema da violência doméstica é tratado?

Lorena Brandão: "É tratado como também é tratado fora da Igreja. As mulheres que se encontram nesta situação devem sim tomar as suas providencias. Muitas podem até ter medo da exposição ou de uma represália do agressor, mas Deus nos deu vida para sermos felizes e não para sofrermos. Na Igreja existe apoio psicológico, assistência social e demais ajudas. Com certeza, desassistida a mulher não será".

Isaías Lins: "O tema é tratado com muita abertura. Se ninguém quer falar, eu falo. Qualquer assunto contextualizado no momento, eu trago para igreja, inclusive sobre diversidade. Porque sou terminantemente contra qualquer discriminação de qualquer aspecto, sexual, religiosa, seja o que for".

Um dos feminicídios recentes foi de uma mulher evangélica: Vanúcia dos Santos. A nora dela diz que Vanúcia acreditava Deus restauraria o casamento. Como vê a situação? Acredita que é comum entre evangélicas que estão em uma relação abusiva?

Lorena Brandão: "Comum nunca será, mas muitas mulheres podem pensar desta forma. Deus não quer que a gente sofra. A Bíblia diz que o Senhor odeia a violência, e jamais faria alguém passar tanta dor. Infelizmente, esse caso pode até ser um exemplo no que falei acima, no caso do acompanhamento. Os pastores não estão na Igreja apenas para pregar o evangelho, mas sim para orientar as suas ovelhas quando necessário. A Bíblia também diz que o povo padece por falta de conhecimento não só da palavra (de Deus), mas também da de conhecimento comum".

Isaías Lins: "No dia que ela foi ameaçada, imediatamente deveria ter procurado a polícia e ter requerido medidas de proteção. Não tem isso de doença espiritual, não. Isso não é de Deus, é coisa do diabo. Não é coisa de Deus bater na mulher. Comigo não tem conversa mole. Vai na polícia, faz o Boletim de Ocorrência, pede medida protetiva e o cara fica proibido de chegar perto dela. Deus não possibilita que haja agressões não porque isso não é Deus. Não tem cabimento".

  • Quem respondeu:

Bispa Lorena Brandão, do Ministério Batista Internacional do Caminho das Árvores (IBCA),  vereadora de Salvador (PSC) e professora de Direito; e pastor Isaías Lins, da Igreja Batista dos Mares, doutor em Teologia e em Filosofia

 

Igreja Renascer em Cristo tem equipe de MMA e técnico pastor

Os 70 fiéis que acompanham o culto das oito na igreja Renascer em Cristo de São Mateus não estranham a pancadaria que rola no andar de cima do prédio. O pastor Jefferson Paiva não interrompe sequer as orações. Às segundas e às quartas-feiras, virou rotina a boa convivência entre os cultos no térreo e as aulas de MMA, oferecidas pela própria igreja, no primeiro andar. A Renascer tem até uma equipe de artes marciais mistas, chamada Reborn Team.

Luta e oração se misturam em alguns momentos. O pastor e treinador Roberto Pedroso interrompe a sequência de chutes e socos para pregar. Isso acontece no início, no meio e no fim dos treinos. Mesmo esbaforido e pingando suor, Walker Araújo Mendes, aluno há quatro meses, fecha os olhos e ouve o pastor falar que todos enfrentam diversas lutas, mas uma delas é a mais importante: ter uma vida espiritual bem treinada. Que é preciso exercício para ficar longe da maldade e que cada um precisa vencer também dentro do seu octógono espiritual. Todos respondem "Glória a Deus" e a porrada volta. "Pastor, eu tenho de chutar quantas vezes?", questiona Angel Hayashida, de 17 anos apenas, apontando para o protetor que a companheira segura com dentes cerrados.

"Todo esporte combina com a igreja. Alguns gostam de futebol. Nós gostamos de luta. Quando tem luva nas mãos, é esporte. Quando não tem luva, é violência", defende Pedroso, mais conhecido como pastor Giraia. "Unimos a disciplina da arte marcial e a verdade da palavra de Deus".

Quem tem mais de 30 anos sabe de onde vem o apelido Giraia. Para os mais jovens, Jiraiya - essa é a grafia oriental - foi o um seriado japonês de TV dos anos 1990. É da família do Jaspion. Como Roberto tinha cabelos longos e seus olhos são meio puxados, o apelido não demorou para pegar.

Foi ele que ampliou a prática da luta na Renascer a partir de 2009, quando surgiu uma equipe para disputar torneios dentro e fora da igreja. O grupo fez crescer a ideia inicial de oferecer uma atividade esportiva para atrair mais jovens e hoje conta com atletas de todas as idades. Em oito anos, mais de seis mil pessoas já passaram por ali. O MMA começou na Vila Industrial, zona leste de São Paulo, chegou a São Mateus e hoje está em dezenas de unidades da terceira maior igreja neopentecostal do Brasil.

Fundada em 1986 por Estevam Hernandes e Sônia Hernandes, a Renascer possui cerca de 600 templos espalhados pelo País, mas não divulga o número dos fiéis seguidores. Tirando as orações e a proibição de palavrões, o treino é idêntico ao de uma academia tradicional. Puxado. Tem condicionamento físico, trabalho técnico e muscular. Na primeira aula, quase todos perguntam se é preciso frequentar a igreja. Não é. O espaço recebe amadores, gente que quer aprender a lutar, emagrecer ou melhorar o condicionamento, e também oito profissionais, aqueles que vivem do esporte. Ou deveriam viver.

Zé Reborn é o principal lutador do ‘time de Deus’. Ele já atuou no Jungle Fight, grande competição brasileira de MMA, mas precisa de um patrocínio para se dedicar só aos treinos. Juntando vários torneios, soma 31 lutas com dez derrotas e hoje atua na categoria até 57kg. "Eu queria me dedicar só aos treinos. Mas tenho de sustentar meus filhos. Sem patrocínio, não dá", diz o alagoano de 29 anos, que se chama, na verdade, José Alexandre e trabalha na área de limpeza de condomínios. "Chamar só Zé não tem graça para um lutador, né? Zé Reborn traz o nome da igreja e é mais chamativo".

 

Fonte: Correio/Agencia Estado/Municipios Baianos

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