16/07/2017

O pensamento econômico de esquerda se renova

 

Qualquer pessoa que assista à TV ou leia jornais no Brasil se depara com um tema recorrente: a necessidade de cortar gastos públicos e fazer reformas para “recolocar o país nos trilhos” do crescimento. Esses e outros assuntos da economia são abordados não só com frequência, como de forma simplificada, a exemplo da famosa (e machista) metáfora da dona de casa em sua missão de “gastar só o que ganha”. O ambiente é de certezas pétreas, com comentaristas ditando “lições de casa” aos governos. Mas há um debate que corre submerso, envolve economistas de várias linhas de pensamento, no Brasil e no mundo, e é bem mais complexo que isso. Esse debate está relegado aos círculos acadêmicos e aos bastidores do poder (públicos e privados), ainda que a economia tenha relação profunda com decisões políticas que afetam o destino de todos.

Um ou outro sinal, aqui e acolá, deixa transparecer para o restante da sociedade a contenda acalorada que acontece nesses espaços restritos, como a proliferação dos cartazes “Menos Marx, mais Mises”, portados por uma juventude assumidamente neoliberal que tomou conta das manifestações pró-impeachment de Dilma Rousseff, em 2015-2016. As imagens dos manifestantes circularam nas redes sociais e as referências são ao economista e filósofo Ludwig von Mises (1881-1973), defensor do Estado mínimo e do liberalismo econômico e, claro, a Karl Marx (1818-1883), condenado por esse pessoal, ao lado de John Maynard Keynes (1883-1946) e outros pensadores que fazem a cabeça dos economistas chamados de heterodoxos – muitos dos quais alinhados à política desenvolvimentista dos governos petistas e sua defesa de uma participação mais ativa do Estado na economia.

As gestões de Lula e Dilma são alvo de pesadas críticas dos liberais ortodoxos, que compõem, não é de hoje, o mainstream da economia. Em um seminário promovido pela BM&FBovespa em 2013, por exemplo, segundo relatou o jornal O Estado de S.Paulo, o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros afirmou que a equipe econômica da ex-presidente seguia “uma tendência ultrapassada da economia, um ramo keynesiano socialista, que coloca o Estado como o polo da economia, com uma visão meio soviética da economia”.

Essa “tendência ultrapassada” seria característica de profissionais com formação ligada a determinadas instituições de ensino, em especial à Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Em outra demonstração das rusgas entre diferentes grupos, em 2014, o então porta-voz econômico da candidatura do PSB à Presidência da República, Eduardo Giannetti, ele próprio egresso da Universidade de São Paulo (USP), afirmou, segundo a Rede Brasil Atual, ser a Unicamp formada por “um grupo que se fecha religiosamente em torno de um pensamento desconectado do mundo”.

Giannetti se referia ao fato de, fundada no fim dos anos 1960, a universidade onde lecionou Maria da Conceição Tavares e outros grandes nomes ter funcionado como um bunker de economistas que faziam oposição ao regime militar. O efeito disso seria manter-se isolada até hoje. Os professores campineiros Luiz Gonzaga Belluzzo, Ricardo de Medeiros Carneiro, André Biancarelli e Pedro Rossi, de pronto, rebateram a fala do colega da USP: “a caricatura geralmente feita dos economistas da Unicamp revela uma vontade de reinar sozinho em um debate onde só há uma alternativa, a do liberalismo econômico. E que todos que pensem diferente sejam desqualificados.”

O fato é que a Escola de Campinas, como é conhecido o Instituto de Economia da universidade, lembram seus professores, apresenta tanto Marx e Keynes a seus alunos como “Hayek, Friedman e seus discípulos mais recentes” – os mestres das escolas austríaca e monetarista. “A existência de um eixo teórico que organiza o curso não significa bloqueio ou desconhecimento de outras abordagens”, enfatizam.

Em artigo publicado na revista Ensino Superior (nº 14), o também professor da Unicamp Fernando Nogueira da Costa resumiu o espírito da instituição: “Resgatar essa longa tradição ideológica que vem do socialismo utópico, passa pelo pensamento estruturalista nacional-desenvolvimentista e se supera com a ênfase socioeconômica e política é a característica principal da Escola de Campinas”. Segundo ele, a Unicamp, que concedeu título de Doutor Honoris Causa a Celso Furtado, cuja obra orientou e ainda orienta seus pesquisadores, se vê na função de fornecer quadros para o Brasil que ajudem a pensar o desenvolvimento voltado para a redução da desigualdade social.

Em tempos do “pensamento único” neoliberal, até mesmo mencionar a palavra desenvolvimento pode soar como um anacronismo. Não à toa outras instituições, melhor afinadas com o “mercado”, como Fundação Getúlio Vargas (FGV), Ibmec, Insper, além de alguns “think tanks” liberais financiados em geral por corporações e fundações privadas, são a origem da maior parte dos especialistas – fontes, no jargão jornalístico – entrevistados pela grande mídia.

Vale lembrar que não é de hoje que as disputas pelas melhores soluções econômicas para o enfrentamento dos graves problemas brasileiros (cujos diagnósticos, aliás, são os mais variados) mobilizam economistas de diferentes universidades brasileiras em embates nem sempre conhecidos pela opinião pública. Nos anos 1980, por exemplo, o Plano Cruzado, uma das várias tentativas para debelar a inflação alta antes do Real, uniu os monetaristas da PUC-Rio e os desenvolvimentistas da Unicamp, mas foi o primeiro grupo que dominou a condução da política econômica no período do Real e durante os governos Fernando Henrique Cardoso.

Dividindo espaço com representantes da corrente neoliberal, como Antonio Palocci e Henrique Meirelles, os desenvolvimentistas da FGV-SP, UFRJ e Unicamp, entre eles Guido Mantega e Luciano Coutinho, recuperaram o “poder”, nos anos seguintes, nas gestões Lula e Dilma, período marcado por redução da pobreza e da concentração de renda. Bem antes disso, no regime militar, época da famosa teoria do “fazer o bolo crescer para depois dividi-lo”, a escola em alta era a USP, com Delfim Netto, e seu desenvolvimentismo de direita, à frente. Pode-se dizer que o pessoal monetarista, neoliberal, recuperou o protagonismo após o impedimento de Dilma.

O que é velho, o que é novo

Foi na Escola de Campinas, que agora simboliza a resistência à ordem neoliberal, que aconteceu, no fim de maio e início de junho, o 22º Encontro Nacional de Economia Política (Enep), promovido pela Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP). Se desenvolvimento, na visão do mainstream, é palavra ultrapassada quando o que estão na ordem do dia são ajustes fiscais e reformas liberais, além de decisões “técnicas” e “não ideológicas”, o que dirá o conceito de “Economia Política”, que entende a economia a partir da política e das relações de poder e não se conforma à visão dominante de que tudo é passível de ser traduzido por modelos estatísticos/econométricos. Pois cerca de 600 estudantes de todo o país, principalmente alunos de economia, entre mais de 1000 pessoas inscritas, incluindo professores e pesquisadores da área, mostraram não pensar assim.

Havia um clima festivo, como em qualquer encontro, mas também de muita seriedade e indignação com os rumos do país – o que se refletiu nos temas escolhidos para vários dos trabalhos apresentados. Bem ao contrário do debate monotemático da grande imprensa, o que se via ali era o exercício do pensamento crítico – o único antídoto possível, segundo o presidente da SEP, Marcelo Carcanholo, em tempos de “forte restauração do pensamento conservador”, em que “a hegemonia da ortodoxia neoclássica voltou a se fortalecer”.

No campus da Unicamp, nesses dias, porém, a hegemonia parecia ser outra. Debatia-se resistência dos movimentos sociais, capitalismo dependente, projeto nacional, marxismo, socialismo. “As universidades não são um ambiente próprio para se desenvolver intelectualmente, por causa da ausência de debate. Esse espaço (o Enep) supre essa deficiência, estou extasiado”, disse Leonardo Regis, estudante do penúltimo ano da graduação de economia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Segundo ele, que se define como marxista-leninista, mas não se identifica com nenhum partido político, “as pessoas estão perdendo o medo de falar a palavra socialismo”. Ao mesmo tempo, os campi do Brasil afora registram a presença de estudantes simpatizantes do MBL, “que são fascistas”, denuncia.

Leonardo foi um dos alunos que lotaram o painel especial “150 anos de lançamento do Livro I de O Capital”, com a participação de Belluzzo, José Paulo Netto e Michael Heinrich, da Universidade de Berlim, um dos maiores especialistas em Marx da atualidade. Netto, professor da UFRJ, estudioso há 50 anos da obra do pensador alemão, virou-se para a plateia e falou: “Vocês são uma geração privilegiada”, referindo-se à boa oferta atual em português de bibliografia marxista e obras de Marx. A primeira edição na nossa língua do volume 1 de O Capital data de 1968, lembrou. Antes, havia resumos e fragmentos da obra, com traduções que deixavam muito a desejar.

Segundo Netto, que, assim como Heinrich, enfatizou a incompletude de O Capital, a obra é “inesgotável” e assim será enquanto o seu objeto – o capitalismo e a sociedade burguesa – dominar o mundo. Ele assinalou que o interesse pelo marxismo está em alta, na medida em que cresce a compreensão de que se mantém como uma ferramenta eficaz para se analisar a sociedade atual. “O desenvolvimento da economia política nos últimos anos, inclusive no Brasil, é a prova cabal de que, para incômodo de alguns, Marx não morreu em 1883. Ele é um companheiro nosso de jornada”, disse, muito aplaudido.

Da plateia vieram várias perguntas em que os estudantes demonstravam familiaridade com conceitos marxistas. Em outro painel, dedicado a analisar os governos progressistas na América Latina, os dois representantes da Sociedade Latino-americana de Economia Política e Pensamento Crítico (Sepla), fundada em 2005, Julio Gambina (Argentina) e Antonio Elias (Uruguai), encontraram ouvintes receptivos às suas críticas de que estes governos teriam abandonado os ideais de esquerda.

“Houve um ciclo progressista, mas a proposta socialista foi substituída, deixou de questionar o capitalismo, iniciando a conciliação de classes”, disse Elias. “O projeto da esquerda passou a ser melhorar a vida da população”. Gambina defendeu ser necessário “ir contra o capitalismo, contra a ofensiva atual do capital”, brutal em tempos de restauração neoliberal e com consequências particularmente graves sobre os direitos dos trabalhadores. “Temos que voltar a ler O Capital. Marx não é um ator velho, é atual, estamos desafiados a completá-lo”, afirmou, na mesma linha do professor Netto.

Os rumos da esquerda e a preocupação com questões sociais deram o tom desse encontro, num contraste com a tendência do ensino de economia no Brasil de valorizar modelos matemáticos abstratos, descolados da realidade, que têm forte apelo para as publicações internacionais. Na Unicamp, os gráficos estiveram presentes em excelentes análises de macroeconomia, como a da professora Vanessa Petrelli Correa, da UFU, e seus números diversos daqueles que a grande imprensa costuma usar para justificar as reformas trabalhista e da previdência. Mas o anseio geral parecia ser mesmo por falas como as do economista grego Costas Lapavitsas , deputado pelo Syriza eleito em 2015, e do líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, convidados do evento.

O pensamento econômico de esquerda volta a conquistar a nova geração que hoje está nas universidades? Talvez não só por estas bandas, e não só nos bancos escolares. Poucos dias depois do Enep, Jeremy Corbyn, o líder rebelde do Partido Trabalhista britânico surpreendeu a todos com a sua performance nas eleições parlamentares do Reino Unido, a partir da defesa de ideias mais à esquerda, com alternativas palpáveis ao neoliberalismo, mostrando que os ventos podem mudar de direção. Depois de anos em que o campo progressista, no Brasil, mal podia pronunciar o termo socialismo – e em que Keynes ganhou ares de revolucionário – parece que agora está surgindo uma geração sem medo de dizer essa e outras palavras e, principalmente, sem medo de se autoproclamar de esquerda.

Na economia, o todo é diferente da soma das partes. Por Laura Carvalho

Hoje em dia, para livrar-se do trânsito, basta seguir a rota sugerida por um aplicativo da moda. Mas o algoritmo de um bom aplicativo deve estar preparado para mudar a rota quando o trânsito piorar porque todo o mundo resolveu seguir a rota inicialmente indicada. De mesma forma, em um estádio de futebol, é só ficar de pé para enxergar melhor. Salvo quando todas resolvem levantar-se. Nesse caso, todos perdem visão e conforto. As chamadas falácias da composição consistem em afirmar que o todo possui a mesma propriedade que as partes que o integram.

Na economia, essas falácias impedem que raciocínios que valem para um agente econômico —uma família ou uma firma, por exemplo— possam ser transferidos para o sistema econômico como um todo. Daí a importância da distinção entre a macro e a microeconomia. Talvez a falácia da composição mais conhecida na macroeconomia seja o chamado paradoxo da poupança —um dos elementos centrais no desenvolvimento da economia keynesiana e do princípio da demanda efetiva. Em suma, se uma família resolve consumir menos, sua poupança será maior. Mas, se todas as famílias tomam a mesma decisão, cai a demanda agregada e a própria renda nacional, fazendo com que a poupança total não aumente.

Um outro paradoxo macroeconômico refere-se ao endividamento. Se uma família ou empresa decide gastar menos para pagar suas dívidas, o seu nível de endividamento cai em relação à sua renda. Mas, se todas as famílias, firmas e governo resolvem cortar seus gastos ao mesmo tempo para pagar suas dívidas, a renda nacional cai e o endividamento total aumenta em relação ao PIB. Da mesma forma, na teoria de deflação de dívidas de Irving Fisher, grandes depressões surgem quando muitos agentes ao mesmo tempo resolvem pagar suas dívidas por meio da venda de seus ativos: o resultado é que o preço dos ativos cai e o endividamento líquido sobe.

Outra falácia da composição está na essência das chamadas guerras fiscais: o Estado que consegue reduzir impostos pode até atrair mais empresas e acabar arrecadando mais, mas, se todos os Estados reduzem impostos, nenhum deles torna-se mais atrativo do que o outro e todos perdem arrecadação. Por fim, todo empresário sabe que reduzir o custo com a mão de obra é uma forma muito eficaz de ganhar competitividade em relação aos seus concorrentes e/ou aumentar seu lucro.

Mas, se uma mudança reduz o custo com a mão de obra de todos os empresários ao mesmo tempo, não é possível ganhar competitividade em relação aos concorrentes nacionais. E os exportadores, por sua vez, só ganham competitividade junto a concorrentes estrangeiros que não tenham seguido a mesma estratégia. Sabemos que não é esse o caso de boa parte do mundo globalizado nas últimas décadas. E o que é pior. Se vale o chamado paradoxo dos custos de Kalecki, uma redução generalizada de salários em uma economia diminui também o mercado consumidor, reduzindo vendas e lucros. Em outras palavras, de nada adianta ter uma fatia maior de um bolo menor. É por essas e outras que a reforma trabalhista aprovada na terça-feira (11) pelo Senado deve, no futuro, decepcionar até mesmo o empresários que a apoiaram. Na verdade, iludem-se os que hoje acham que só os trabalhadores pagarão o pato.

 

Fonte: Por Paula Quental, no Brasil Debate/Folha/Municipios Baianos

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