18/07/2017

Usineiros alagoanos querem ICMS zero para operarem

 

Das 27 usinas que eram responsáveis pela segunda produção nacional de açúcar e álcool em Alagoas, só 15 devem operar na safra que começa em setembro, acredita a direção da Associação dos Plantadores de Cana (Asplana) e do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Alagoas (Sindaçúcar). Além das dificuldades financeiras, 12 usinas vão se manter fechadas por três motivos: três faliram, três estão em situação de recuperação judicial e as outras seis devem permanecer fechadas por falta de cana para moer.

Dos sete mil fornecedores de cana-de-açúcar, dois mil estão praticamente falidos. A maioria deve muito dinheiro aos bancos, não tem linha de crédito e, para piorar a situação, perdeu toda a plantação em três anos consecutivos de seca na Zona da Mata.

Alagoas costumava moer 32 milhões de toneladas de cana. Há dez anos, o governo federal deixou de bancar com subsídios usineiros e fornecedores para investir no pré-sal. O preço da gasolina ficou congelado e o setor sucroenergético foi ficando descapitalizado para fazer novos investimentos. Assim, a produção de cana começou a cair. Na última safra chegou a 16 milhões de toneladas. A previsão para a próxima safra é de pouco mais de 14 milhões de toneladas de cana.

Fornecedores como Everaldo Barros de Miranda, proprietário da Fazenda Costa Brava, na zona rural do município de Paripueira, distante 35km de Maceió, não suportou as secas consecutivas e a falta de créditos especiais. Ele fechou a fazenda. A última estiagem acabou com a cana plantada nos 180 hectares. A terra está limpa. Os tratores, a colheitadeira, o caminhão e as outras máquinas estão parados. Os 36 empregados foram demitidos.

Para pagar dívidas e tenta se capitalizar, Everaldo diz que vendeu casas, apartamentos, automóveis, 20 hectares da fazenda e hoje só deve R$ 20 mil aos bancos. “Para levantar novamente a minha produção de 10 mil toneladas de cana/safra, preciso de no mínimo R$ 1 milhão. Estou vendendo parte da fazenda e outros patrimônios para tentar conseguir R$ 300 mil e aplicar tudo no replantio. Mas está difícil”. Everaldo fornece cana para a Usina Santo Antônio. Segundo ele, apenas cinco usinas pagam em dia os fornecedores. As outras atravessam dificuldades financeiras. Para voltar a produzir, o fornecedor espera contar com a ajuda da Santo Antônio.

Crise econômica agrava situação da agroindústria

Ao ser questionado sobre o que tinha dado errado no setor que há 500 anos fomenta e sustenta a economia de Alagoas, e na era moderna foi responsável pela segunda maior produção de açúcar e álcool do País, o presidente da Associação dos Plantadores de Cana de Alagoas (Asplana), Edgar Antunes Filho, responsabilizou dois longos períodos de estiagem e as sucessivas crises políticas de Brasília.

“Há quatro anos, quando os fornecedores de cana e os usineiros se recuperavam de uma longa estiagem, começou a enorme crise política nacional que se arrasta e desfavorece todos os setores produtivos, principalmente os da zona rural. Tanto que os usineiros não conseguiram mais pagar os fornecedores de cana”, disse Edgar, ao lembrar o débito dos usineiros, que passou de R$ 1 bilhão e está sendo pago pelas indústrias.

Os fornecedores ficaram três safras sem receber nada. Isso gerou caos, agravado pelas condições climáticas. Descapitalizados, os fazendeiros não conseguiram manter o nível de emprego, não fizeram a renovação do plantio, reduziram drasticamente o fornecimento de matéria-prima. A produção de cana caiu de 32 milhões de toneladas para 27 milhões, depois 22 milhões, 18 milhões e, na última safra, chegou a 16 milhões de toneladas. “Esta é a pior safra dos tempos modernos no setor”.

Os fornecedores têm avaliação ainda mais pessimista. “Passamos por outra seca mais severa que aquela de 2012/13. A estiagem que acabou com as chuvas de maio foi a pior dos últimos 100 anos. Perdemos mais de 30% da ‘socagem’ de cana dos fornecedores e das usinas”.

A cana de socaria é aquela que o fornecedor corta e ela brota novamente para a próxima safra. Como não houve chuva e nem água suficiente de irrigação, o canavial ficou dizimado. “A expectativa é que deveremos ter nova redução na produção de matéria-prima. Deveremos chegar a 15 milhões de toneladas nesta safra”.

Edgar Filho observa que ainda é muito cedo para definir quantas usinas funcionarão na próxima safra. No entanto, acredita que a produção de cana será suficiente para 14 ou 15 indústrias. Entre as indústrias que devem operar na próxima safra, nove usinas são ligadas à Cooperativa dos Usineiros, e estas atravessam sérias dificuldades financeiras.

Acordo de Paris pode salvar Alagoas

O Brasil produz 27 bilhões de litros de álcool por ano. Ha dois anos, o País assinou um acordo em Paris se comprometendo a investir forte nas fontes de energia renováveis e aumentar a produção de álcool combustível para 50 bilhões de litros. Alagoas faz parte desse processo, e no momento em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se retira dessa meta mundial por energia limpa, o País poderia ter um papel protagonista importante.

A “salvação da lavoura” pode acontecer se o setor sucroenergético cumprir os tratados assinados na 21ª Conferência das Partes (COP21) da Conferência das Nações Unidas sobre as mudanças climáticas (UNFCCC), que ocorreu em Paris no período de 30 de novembro e 12 de dezembro de 2015, quando foi adotado um novo acordo com o objetivo central de fortalecer a resposta global à ameaça da mudança do clima e de reforçar a capacidade dos países para lidar com os impactos decorrentes dessas mudanças.

O Acordo de Paris, aprovado por 195 países, tenta reduzir emissões de gases de efeito estufa (GEE) no contexto do desenvolvimento sustentável. O compromisso ocorre no sentido de manter o aumento da temperatura média global em bem menos de 2° C acima dos níveis pré-industriais e de envidar esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-ndustriais. Para isso, é preciso investir mais em fontes energéticas não poluente. Ou seja, retomar, por exemplo o programa do álcool, torcem os usineiros alagoanos.

Usinas perderam espaço no PIB Nacional

O setor sucroenergético representava um terço do PIB (Produto Interno Bruto, que é a soma da riqueza do Estado). Perdeu essa importância, reconhece o presidente do Sindaçúcar, Pedro Robério, ao admitir que esse espaço está sendo ocupado pelos setores de serviços, telefonia, atacadista e varejista. No entanto, ele observa que “o setor não perdeu espaço na circulação de renda e nos empregos gerados”.

Pedro Robério lembra que mais de 60% dos 102 municípios do Estado dependem ou têm o setor como uma fonte de renda importante. Nos 38 mil quilômetros quadros do território alagoano, uma parte do Agreste e todo o Sertão estão fora da zona canavieira. As melhores áreas mantêm a monocultura.

A cana-de-açúcar e seus derivados – açúcar, etanol e energia elétrica (derivada da queima do bagaço de cana) – geram um fluxo intenso de circulação de renda sob a forma de salários e das pequenas e médias empresas da cadeia produtiva do setor. As federações das Indústrias e do Comércio também atestam que, por conta da crise no setor, milhares de empresas fecharam.

Ao ser questionado sobre o que tinha dado errado no setor que já foi o terceiro mais importante da economia alagoana, o presidente do Sindicato das Indústrias de Açúcar e Álcool de Alagoas responsabilizou a macropolítica econômica federal para o etanol.

O produto representa 60% do negócio da cana--de-açúcar no Brasil. “Nos últimos oito anos houve uma sucessão de políticas erradas e o favorecimento da concorrência predatória estabelecida quando o governo federal resolveu subsidiar a gasolina em detrimento do etanol. O produto passou oito ano sem reajuste e o preço da gasolina caindo de forma artificial”.

Usineiros dizem ser cedo para avaliação

Há oito anos, o parque industrial começou a encolher e, na safra passada, se resumiu a 18 das 27 usinas e destilarias que tinha. Hoje não há garantia de que na próxima safra tenha as mesmas usinas operando. Os fornecedores avaliam que menos de dezesseis usinas tenham condições de moer. Os usineiros consideram cedo para qualquer tipo de avaliação no parque industrial.

Os parques fabris estão prontos para operar. No entanto, poderá haver dificuldades em conseguir cana em quantidade suficiente para abastecer as unidades, avaliou o presidente do Sindicato das Indústrias de Açúcar e Álcool de Alagoas, Pedro Robério de Melo Nogueira. “Pode ser que haja um volume de cana muito pequeno, e dessa forma não compense movimentar determinadas fábricas”.

O problema do Nordeste é a perda do volume de cana. Ao exemplificar a queda do volume de matéria-prima, o líder dos usineiros alagoanos mostrou um quadro das últimas safras do Estado. As usinas que esmagavam 32 milhões de toneladas reduziram a moagem para a metade. Na última safra, moeram 16 milhões de toneladas de cana. Alagoas produzia segunda maior produção do País e hoje é o sexto nacional e o primeiro do Nordeste, mas sendo ameaçado por Pernambuco. O Estado foi superado pelos estados de Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e Paraná.

A queda na safra, segundo o presidente do Sindicato dos Usineiros, teve como fator principal a adversidade climática. Nos últimos cinco anos, a seca agravou a situação econômica do setor, que há mais de uma década enfrenta a falta de incentivos federais. Os usineiros, na verdade, sempre enfrentaram períodos de longa estiagem. Tanto que, há dez anos, o Estado instalou um grande programa de irrigação dos canaviais. Por falta de investimento do setor que esperava incentivos públicos, o programa de irrigação perdeu a velocidade de crescimento. Em contrapartida, os ciclos climáticos de estiagem passaram a ser menores, variando entre dois e três anos. As três últimas safras foram de seca. Assim, o setor justifica a queda de produção.

 

Fonte: Gazeta de Alagoas/Municipios Baianos

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